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sábado, 6 de setembro de 2014

Limpo como na Idade Média


DESTAQUE

O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.
A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.
Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!

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A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval.
No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc.
As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”.
O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.


Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval.
Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.
Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..


As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata. As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira.
A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas.
Na idade adulta os banhos eram quotidianos. Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana. Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa.
Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais.
Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luiz IX os regulamentou em 1268.
Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu. Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasbourgo, Chartres… grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade.
Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública. Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria.
Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.
Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.
Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais.
As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l’Archambault. Imperadores, príncipes, ricos-homens os freqüentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc.


A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.
Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!
(Fonte : Monique Closson, “Propre comme au Moyen-Age”, Historama N°40, junho 1987)

Retirado do blog Gloria da idade média



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Dès le onzième siècle, Philippe-Auguste fait paver les rues de la capitale en prenant soin d’aménager une rigole pour l’évacuation des eaux usées. Vers 1370, le prévôt de Paris, Hugues Aubriot, décide la construction du premier égout voûté et maçonné, rue Montmartre. Le réseauqui se développe trop lentement est insuffisant, cinq siècles plus tard, pour traiter les cent mille mètres cubes d’eauxusées et rejetées quotidiennement par les Parisiens. Cette lacune dans l’assainissement aura une grande part de responsabilité dans l’épidémie de choléra de 1832. Vingt ans plus tard, le baron Haussmann et l’ingénieur Eugène Belgrand entreprennent la construction du réseau que nous connaissons aujourd’hui.



Abaixo, a tradução, de nossa responsabilidade:

Desde o século onze, Filipe Augusto mandou pavimentar as ruas da capital tomando o cuidado de providenciar uma vala para a evacuação das águas utilizadas. Por volta de 1370, o preboste* de Paris, Hugo Aubriot, decide construir o primeiro esgoto em arco [abóbada] e alvenaria, na rua Montmartre. A rede que se desenvolve muito lentamente é insuficiente, cinco séculos mais tarde, para tratar os cem mil metros cúbicos de águas utilizadas e despejadas quotidianamente pelos parisienses. Esta lacuna no sistema de saneamento terá uma grande parte de responsabilidade na epidemia de cólera de 1832. Vinte anos depois, o barão Haussmann e o engenheiro Eugênio Belgrand empreendem a construção da rede que nós conhecemos hoje.

* magistrado militar



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A vida e a modernidade de Luiz IX, o último rei santo


DESTAQUE


São Luiz foi, em primeiro lugar, um rei cristão ideal.

São Luiz quer tornar o rei o responsável pela Justiça. Os súditos do Rei (salvo nos assuntos religiosos, aliás, estritamente controlados) podem com isso apelar, a partir de então, para a justiça do rei. Aí está o fundamento dos futuros tribunais de apelação. A partir de 1254, essa seção da corte que administra a Justiça em seu nome vai ser denominada Parlamento...


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(Bernard Lecomte, de L’Express, entrevista Jacques Le Goff)


Por que escolheu passar 10 anos de sua vida com São Luís?

Jacques Le Goff – Em primeiro lugar, tinha vontade de escrever uma biografia. Depois, escolhi um personagem que desse a possibilidade de, realmente, ir além de sua imagem mítica ou das suposições históricas. São Luís é um personagem fascinante: falar sobre ele é evocar todos os povos cristãos da época.

Luiz IX foi ao mesmo tempo rei e santo. É possível conciliar a esse ponto política e religião?

Le Goff – Houve outros reis santos antes dele: na Alta Idade Média, na época da instalação dos reinos bárbaros, como o rei da Burgúndia, Sigismundo. Depois, por volta do ano 1000, durante a conversão de povos inteiros ao Cristianismo, como o húngaro Etienne (Santo Estevão) ou o norueguês Olavo. Mas São Luiz é um rei santo de um novo tipo, pois é sua conduta pessoal, em primeiro lugar, que o faz ser santo. Aliás, ele será o último desse gênero.

O historiador William Jordan descreveu-o atormentado entre seu dever real e sua devoção...

Le Goff – Eu enfatizaria mais a coerência entre sua aspiração à santidade e sua conduta na política, o que não oculta de maneira alguma dificuldades e contradições [SIC!]. Um exemplo: São Luiz, à mesa, tem um estatuto especial e um cerimonial a respeitar, mas, muito ligado à tradição monástica, ele pratica a abstinência muito jovem, não bebe vinho puro, convida pobres, etc. Isso é verdade também para seu comportamento político.

Evoquemos, inicialmente, o rei Luiz IX. Como situá-lo?

Le Goff – Na metade do caminho entre o reino de seu avô Felipe Augusto e o de seu neto Felipe, o Belo, São Luiz representa a passagem da monarquia feudal à monarquia moderna: esta não se baseia mais nas relações do rei com seus vassalos, mas naquelas do rei enquanto chefe de Estado (diga-se, então, do reinado ou da coroa) com seus “súditos”. Essa construção do Estado moderno se faz de acordo com formas transitórias, progressivamente, evitando qualquer traumatismo institucional...

Luis IX moderniza o Estado?

Le Goff – Ele consolida a monarquia: duplica principalmente os bailios e os senescais – os magistrados, na época -, “investigadores” designados para apurar os abusos da administração real, para fazer reinar a justiça e a paz. São Luiz quer tornar o rei o responsável pela Justiça. Os súditos do Rei (salvo nos assuntos religiosos, aliás, estritamente controlados) podem com isso apelar, a partir de então, para a justiça do rei. Aí está o fundamento dos futuros tribunais de apelação. A partir de 1254, essa seção da corte que administra a Justiça em seu nome vai ser denominada Parlamento...

Como um rei pode chegar à santidade, se começa lutando contra os cátaros, executando os preceitos da Inquisição e reprimindo os judeus?

Le Goff – Atenção para não cair no anacronismo! Façamos um esforço de compreensão da época, em retrospectiva. Sobre os cátaros: foi principalmente seu pai, Luiz VIII, que lutou contra os albigenses. Luiz IX continuou sua ação, mas não se interessou muito pelo sul da França, onde reinará seu irmão, Afonso de Poitiers. Sua responsabilidade não é nula, mas é preciso redimensioná-la. Sobre a Inquisição: em primeiro lugar, um rei tão piedoso não podia amar os hereges, culpados por colocarem em risco tanto a ortodoxia da fé quanto a coesão do reinado. Em segundo lugar, na tradição cristã do século 13, o rei é o braço secular da Igreja em seu reinado: se esta ordena ao soberano executar as sentenças de seus tribunais, ele deve obedecer.

E suas medidas anti-semitas?

Le Goff – Em primeiro lugar, tomemos cuidado com as palavras: não se trata de anti-semitismo (o que só aparecerá no século 19), mas de um anti-judaísmo, de natureza essencialmente religiosa. Luiz IX, profundamente cristão, não gosta dos judeus que se recusaram a reconhecer Jesus Cristo. Ele condena o Talmude porque este, do seu ponto de vista, diz horrores sobre Jesus e apresenta a Virgem como uma prostituta! Além disso, o rei não gosta das pessoas que constituem um corpo estranho dentro do reinado que ele tenta unificar. É verdade que São Luiz ficou desorientado [SIC!] com esse problema. Segundo disse: “Os cristãos têm um chefe, trata-se do prelado. Os judeus não têm ninguém. Devo, então, ser o prelado dos judeus: puni-los quando se comportam mal, mas também protegê-los quando são injustamente atacados”... A verdade é que São Luiz foi mesmo um perseguidor dos judeus [SIC!].

A ponto de lhes impor, em 1269, o uso de costeleta?

Le Goff – Foi a Igreja que tomou essa decisão no Concílio de Latrão, em 1215. São Luiz recusou aplicá-la durante muito tempo, especialmente devido à preocupação com a integração dos judeus à comunidade nacional. Mas cedeu, no fim de seu reinado, à pressão dos judeus convertidos de seu círculo, de quem o papel foi extremamente nefasto.

Ele foi, realmente, o incentivador das últimas Cruzadas!

Le Goff – Exato. É mesmo notável que São Luiz tenha entrado nas Cruzadas numa época em que isso se fazia cada vez menos. As Cruzadas estão ligadas ao feudalismo e o fracasso delas já anunciava o fim desse regime. Quando entra na Cruzada, São Luiz tenta mudar o espírito da Cruzada, misturando objetivos militares e interesse de conversão religiosa. São Francisco de Assis não o precedeu, em vão, na Terra Santa! Um exemplo: tendo partido com todos os preconceitos[SIC!]anti-muçulmanos da época, o rei da França ao perceber que aquelas pessoas são religiosas, fica impressionado com a piedade delas[SIC!], fica atônito com a biblioteca que o emir carrega consigo em sua tenda, mesmo na guerra. Enfim, o indivíduo São Luiz também ia procurar na Terra Santa, mais ou menos, o martírio.

Foi por isso que a Igreja canonizou Luis IX, em 1297, 27 anos após sua morte?

Le Goff – Há uma razão política [SIC!]: o novo Papa Bonifácio VIII deseja ter boas relações com o rei da França. Mas há uma razão mais profunda e inovadora: São Luiz foi, em primeiro lugar, um rei cristão ideal. Ora, em seu caso, os milagres ligados à sua pessoa contaram menos que as virtudes do indivíduo.

Justamente o indivíduo, o senhor diz, é uma invenção de sua época...

Le Goff – Na Idade Média, o que importa são os grupos, as comunidades: ordens religiosas, confrarias, linhagens, dinastias, comunidades de aldeia, etc. A partir do fim do século 12, o individuo aparece, principalmente, nas ordens religiosas. São Bernardo foi o primeiro a surgir em sua ordem, assim como São Francisco de Assis distingue-se no século 13. São Luiz teve importância como homem. Seu caráter, sua humildade deram motivos para isso.


Obra notável (biografia de São Luis)


Jacques Le Goff foi um de nossos historiadores mais reputados. E São Luiz, um de nossos maiores reis. O encontro entre ambos só poderia resultar em um livro memorável. De fato, essas mil páginas, eruditas, precisas e lúcidas, são de uma perfeição que encantará tanto estudiosos como o grande público. São Luiz é neto de Felipe Augusto, o vencedor de Bouvines (1214). Nasceu poucos meses antes dessa batalha histórica. A morte de seu irmão mais velho, Felipe – logo após a de seu pai, Luis VIII – vai torná-lo rei da França aos 12 anos. Ele reinou em duo com a mãe, Branca de Castela, notável pela inteligência política, e depois, sozinho, após voltar da Terra Santa, em 1254, até que a morte o surpreendesse em Túnis, durante a sua segunda Cruzada, em 1270. Rei profundamente piedoso, Luis IX promoverá a sétima Cruzada, que será um fracasso, e a oitava, da qual não volta. Fascinado pelas ordens mendicantes, pelas relíquias, São Luiz fará todos os esforços para ser um modelo político e espiritual para os cristãos de sua época.

O rei da França fortalecerá, assim, durante 44 anos de reinado, um Estado monárquico independente, unificado e centralizado, do qual Le Goff tem o prazer de ressaltar as inovações: administração territorial, justiça ao alcance de todos, instituição de um Parlamento em seu estado embrionário. Moderno, Luiz IX? De fato, quando reprime a primeira manifestação da história da universidade, em 1229, ou quando tenta moralizar sua alta função pública, em 1254, o santo rei suscita no leitor algumas repercussões muito atuais...

Traduções de Wanda Caldeira Brant

(Cf. O Estado de São Paulo, 2 de maio de 1999 – p. 18 – Caderno 2 – Cultura).

Jacques Le Goff (Toulon, 1 de janeiro de 1924 — Paris, 1 de abril de 2014)1 foi um historiador francês especialista em Idade Média. Autor de dezenas de livros e trabalhos, era membro da Escola dos Annales, empregou-se em antropologia histórica do ocidente medieval.

Antigo estudante da École Normale Supérieure, estudou na Universidade Carolina em 1947-48, professor de história em 1950 e membro da École Française de Rome, foi nomeado assistente da Faculté de Lille (1954-59) antes de ser nomeado pesquisador no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), em 1960. Em seguida, mestre-assistente da VI seção da École pratique dês hautes études (1962) - sucedeu Fernand Braudel no comando da École dês hautes études em sciences sociales, onde ele foi diretor dos estudos. Cedeu seu lugar a François Furet em 1967. Na qualidade de diretor de estudo na École dês Hautes Études em Sciences Sociales, Jacques Le Goff publicou estudos que renovaram a pesquisa histórica, sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. Seus seminários exploraram os caminhos então novos da antropologia histórica. Ele publicou os artigos sobre as universidades medievais, o trabalho, o tempo, as maneiras, as imagens, as lendas.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O tapeceiro do passado

DESTAQUE

Esses grandes intelectuais dotaram a pesquisa histórica de um novo suporte lógico. Em vez de se debruçarem apenas sobre as batalhas, as coroações ou as tragédias, dedicaram igual interesse à vida cotidiana, ao que chamavam de non-événementiel (não factual): a metamorfose das mentalidades, a transformação dos hábitos, as lentas evoluções da maneira de amar, de alimentar-se, de morrer; as descobertas das paisagens, os jogos da paixão, as relações dos homens com o próprio corpo, as festas, as flexões das palavras e da linguagem.

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O tapeceiro do passado

Na História de Jacques Le Goff, os contornos dos tempos perdidos ganham sutileza, cor, verdade


Gilles Lapouge - O Estado de S. Paulo


Jacques Le Goff morreu em Paris aos 90 anos. Era o maior historiador francês e um dos últimos representantes da escola dos Annales, que desde os anos 1930 vem subvertendo na França e no mundo a leitura do passado dos homens. A primeira geração dos Annales foi a de Marc Bloch e Lucien Febvre; foi seguida por aquela do grande Fernand Braudel, que em1936 lecionou na recém-fundada Universidade de São Paulo; depois da guerra, sucedeu-lhe a terceira geração, com Georges Duby, Leroy-Ladurie e, principalmente, Jacques Le Goff.
Jacques Le Goff -- Viajante. Ele via a Idade Média feita de sombras, mas também de luz sublime

Esses grandes intelectuais dotaram a pesquisa histórica de um novo suporte lógico. Em vez de se debruçarem apenas sobre as batalhas, as coroações ou as tragédias, dedicaram igual interesse à vida cotidiana, ao que chamavam de non-événementiel (não factual): a metamorfose das mentalidades, a transformação dos hábitos, as lentas evoluções da maneira de amar, de alimentar-se, de morrer; as descobertas das paisagens, os jogos da paixão, as relações dos homens com o próprio corpo, as festas, as flexões das palavras e da linguagem.
Eles urdiram uma nova tapeçaria do passado. As imagens dos tempos perdidos ganharam em sutileza, verdade e cor. Além dos períodos convulsionados da história tradicional, estudaram os períodos pesados, lentos, quase viscosos que moldam o caráter das sociedades de maneira bem mais profunda que as guerras e o cerimonial da política.
Nessa ressurreição do passado, Jacques Le Goff ocupa uma posição eminente. Não apenas presta atenção a cores jamais percebidas como faz surgir do abismo da morte, do fundo do tempo, todo um continente, uma Idade Média desconhecida que a nossos olhos maravilhados se revela como os emergentes destroços de um navio magnífico, carcomido por moluscos e ferrugem e ainda resplandecente dos matizes das profundezas.
Ele busca e apreende essa Idade Média na consciência dos homens. Estuda seus sonhos e terrores, palavras e quimeras, corpos e alimentação. Ouve o gargalhar das bruxas, o sussurrar das monjas em oração no branco manto das igrejas e mosteiros que na Idade Média cobriam a cristandade.
A história de Le Goff nos seduz de outras maneiras. Seus escritos revelam o prazer, a fruição que ele experimenta ao devorar velhos manuscritos, antigos vestígios semiapagados, sacudindo a poeira que cobria, até sufocá-las, antigas representações que tínhamos daqueles tempos. "O pó se levanta ao poderoso vento do mar aberto", diz ele.
Em suas retortas de alquimista, Le Goff descobre paisagens jamais suspeitadas. A Idade Média não é mais a "noite negra" que separava, na história tradicional, o fim do Império Romano da Renascença. Uma nova Idade Média se descortina, feita de sombras, evidentemente, mas também de uma luz sublime. Essa Idade Média inédita é a verdadeira matriz de nossa modernidade.
"É na Idade Média’, afirma Le Goff, "que se constitui o elemento fundamental de nosso cristianismo. É nela que vemos a formação do Estado e da ideia de soberania. E também o surgimento da língua francesa, o desenvolvimento urbano e a fundação da cidade moderna. É sempre na Idade Média que vemos crescer as universidades, fenômeno novo e europeu. Porque a Europa também nasce na Idade Média".
Quais de seus livros podemos citar? O mais célebre é A Invenção do Purgatório, que se situa no século 12. Le Goff não só acompanha as etapas do surgimento como explica o motivo pelo qual, nessa época, os homens repudiam a terrível divisão entre bem-aventurados e amaldiçoados, inferno e paraíso, e acham mais compassivo acrescentar a um maniqueísmo atroz os estágios intermediários do purgatório para se ter em conta a infinita variedade do Mal e do Bem. [SIC! SIC! SIC!]
Jacques Le Goff tinha outra virtude. Homem da palavra, apresentava sua bela Idade Média no rádio. Seus programas fascinaram a França. Ele "representava" a história no rádio como a representava em seus cursos. Quando trabalhava numa grande biografia do rei São Luís, fascinou seus alunos descrevendo como o corpo (sagrado) do rei, que morreu de peste durante a oitava Cruzada, foi fervido pelos companheiros para que seus ossos pudessem ser levados de volta à França.
Era um apreciador dos bons vinhos e da boa cozinha, um brilhante interlocutor. Compartilhar um jantar com esse grande amante da vida era uma festa. Lembro-me de um deles. Ao ser servido um queijo de cabra na sobremesa, Le Goff começou a comparar a crosta do queijo, de cor cinzenta, bronze, azulada e ferrugem, recoberta de pequenas borbulhas, ao grão da pintura dos quadros de Giotto e Fra Angelico. Dali, divagou como num sonho e nos transportamos, como por um passe de mágica, da crosta do queijo de cabra para a cidadezinha de San Gimignano, depois para Florença e a dinastia dos Médicis, terminando com não sei que papa dos albores da Renascença. Tudo isso, todo esse teatro, estava como que escondido no humilde queijo de cabra. Le Goff terminou a representação dando uma dentada decisiva no queijo que, de repente, tornara-se algo sublime aos nossos olhos.

É emocionante e eloquente ver, neste momento em que o grande explorador e viajante do tempo já não está entre nós, o jornal Le Monde pedir ao grande escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, seu testemunho sobre esse que foi seu amigo. Como se o historiador rigoroso que foi Le Goff só pudesse ser celebrado por um dos maiores romancistas europeus. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


Fonte: ESP

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Jacques Heers, um mestre da Idade Média






No início deste ano, partiu um dos mais brilhantes medievalistas franceses e europeus. Autor de uma quantidade de obras verdadeiramente impressionante, investigador incansável e historiador livre, Jacques Heers (6/7/1924 – 10/1/2013) foi professor em várias universidades e director de Estudos Medievais na Sorbonne. Os seus principais trabalhos abalaram ideias preconcebidas e revelaram uma realidade muito diferente da que ainda hoje é comummente aceite. Regresso a um mestre.


Foi ainda na adolescência, quando devorava aquelas colecções de livros encadernados do Círculo de Leitores que sintetizavam a História da Europa e do mundo, que tive o meu primeiro encontro com Jacques Heers. Ao ler o segundo volume da “História Universal”, dedicado ao Mundo Medieval, publicado em Portugal em 1977, descobri uma Idade Média bastante diferente da que era ensinada na escola e daquela com que me maravilhava nos romances de cavalaria. Foi a chegada a um novo mundo, que me faria desconfiar para sempre da conhecida classificação “Idade das Trevas” e aguçar a minha curiosidade por um período fascinante. Ao longo do meu curso de História e da posterior pós-graduação em Estudos Medievais recorri a Heers por várias vezes. Foi um historiador que muito me marcou, não apenas pelo período apaixonante que tratou, mas também pelo seu estilo independente e pelas suas conclusões de grande mérito para a investigação séria.



Uma carreira brilhante
Formado na Sorbonne, Jacques Heers torna-se professor e, em 1951, investigador do conceituado CNRS. Por indicação de Fernand Braudel, é enviado para Itália para desenvolver a sua tese de doutoramento sobre Génova no século XV, que defende na Sorbonne em 1958. Torna-se assistente de Georges Duby na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence e depois é professor em várias universidades, como Argel, Caen, Roeun, Nanterre e na Sorbonne, onde é director de Estudos Medievais.
Foi bastante influenciado por Braudel que o “marcou, apesar de nem sempre subscrever os seus trabalhos”, Yves Renouard, grande especialista na História de Itália, e Duby, que considerou ter tido “um influência inegável” nos seus trabalhos e que sempre o tratou bem, apesar de ambos não partilharem as mesmas opções políticas.



Uma impostura
Publicado em Portugal em 1994, “A Idade Média, um Impostura” é um livro provocador que desfaz os principais mitos normalmente associados a este período histórico. Na Introdução, afirma: “Não raras vezes, as nossas sociedades intelectuais revelam-se abertamente racistas. Não no sentido em que o entendemos habitualmente, quer dizer, condenações ou desprezo pelas civilizações, religiões ou costumes diferentes dos nossos, mas por espantosa propensão para ajuizar mal o seu passado”. É esse mau juízo da Idade Média que Heers rebate nesta obra. Para ele, a Idade Média propriamente dita nunca existiu, já que a divisão do tempo histórico em diferentes períodos cronológicos não passa de uma convenção que não corresponde à realidade. Afirma Heers que “cada sociedade inventa os seus bodes expiatórios, reflexo para justificar fracassos ou desenganos, e sobretudo para alimentar animosidades” e considera que “Idade Média” e “Renascimento” são “palavras inventadas”.
Nesta obra, é também refutado o mito do “Renascimento”, nomeadamente do progresso em relação ao tempo anterior, que foi uma criação de publicistas ao serviço de um príncipe que convinha glorificar.
Mas a lenda da Idade Média como período obscuro, que transformou palavras como “medieval” ou “feudal” em verdadeiros insultos, resulta de uma orquestração levada a cabo pelos revolucionários de 1789 e pelas escolas da História ‘engagée’.
Neste livro, o autor faz “uma contestação da noção de Idade Média em si própria, do seu carácter ambíguo e impreciso, e dos abusos que, com demasiada naturalidade, dela se fazem; e isto, em particular, face a outra entidade abstracta, igualmente vaga e arbitrária: o Renascimento”. Também procede ao “exame do afinco posto na condenação dos ‘tempos feudais’, e dessa literatura, cujos efeitos continuamos a sofrer, que se empenhou em apresentar o feudalismo a uma luz completamente falsa”. Por fim, faz “a análise de alguns aspectos de sociedade ou de civilização que essa lenda negra e os hábitos entretanto adquiridos ainda hoje apresentam sob uma aparência hedionda, mas a que muitos trabalhos recentes trazem interessantes e surpreendentes correcções”.



História e memória
Numa excelente entrevista concedida a “La Nouvelle Revue d’Histoire” em 2007, Jacques Heers explicou a oposição entre História e memória, a propósito do seu livro “L’Histoire assassinée”, afirmando que “a História e a memória não têm nada de comparável. São mesmo incompatíveis”. Para este historiador é uma questão que toca a situação actual, porque hoje se pensa que fazer memória é fazer História. Como ele explica, “a memória é a celebração ou a recordação do que se passou na vida de um indivíduo ou de uma comunidade. Mas, nesse exercício há apenas uma óptica onde não encontramos qualquer confrontação ou crítica. Ao passo que a História é uma reconstrução artificial e crítica que tem em conta diferentes ópticas”.



A importância das especiarias
Na sua investigação de doutoramento, Heers chegou à conclusão que o comercio de especiarias no Mediterrâneo nos séculos XIV e XV foi sobrevalorizado pelos historiadores. Na verdade, o trigo, o sal e outros produtos tinham muito mais importância que as especiarias, tanto em volume como valor nas trocas. Até Braudel, que sempre evocou a importância das especiarias nas trocas comerciais nesse período, reconheceu o valor científico das conclusões dos trabalhos de Heers.
Sobre a queda de Génova e de Veneza, Heers afirmou, na entrevista citada, que “teria sido provocada pelos portugueses quando estes descobriram a rota marítima das Índias pelo Cabo da Boa Esperança para trazer a melhor preço a pimenta e as especiarias. A pimenta e as especiarias estariam na origem da fortuna de Veneza e de Génova? Não. Génova deve a sua primeira riqueza à guerra e Veneza ao trigo e ao sal”.



O suposto contributo árabe
Outra das questões analisadas por Heers, que ainda hoje suscita polémica, é a da importância dos árabes na transmissão e na redescoberta do pensamento grego na Europa. Para ele, é algo que está sobrevalorizado, já que o ensino do pensamento grego no Ocidente “nunca cessou nas escolas catedrais e depois nas primeiras universidades. Servíamo-nos, então, de traduções latinas dos textos gregos originais que os clérigos e eruditos de Constantinopla haviam guardado e difundido em larga escala. As traduções do grego em língua árabe e do árabe para o latim apareceram relativamente tarde, quando o ensino já estava estabelecido no Ocidente, onde há mais de um século que a Lógica, directamente inspirada em Aristóteles, era reconhecida como uma das sete ‘artes liberais’ do curso universitário”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O grande sorriso medieval: o conto do senhor feudal criminoso, o ermitão piedoso e o misterioso barrilzinho



Habitava nos confins da Normandia um destemido cavaleiro, cujo nome causava terror na região. De seu castelo fortificado junto ao mar, não receava nem mesmo o rei.
De grande estatura e belo porte, era no entanto vaidoso, desleal e cruel, não temendo a Deus nem aos homens.
Não fazia jejum nem abstinência, não assistia à Missa nem ouvia sermões. Não se conhecia homem tão mau.
Numa Sexta-feira Santa, bradou ele aos cozinheiros:
— Aprontai-me para o almoço a peça que cacei ontem.
Ouvindo isto, seus vassalos exclamaram:
— Senhor, hoje é Sexta-feira Santa. Todos jejuam, e vós quereis comer carne? Crede-nos: Deus acabará por vos punir.
— Até que tal aconteça, terei enforcado e roubado muita gente.
— Estais seguro de que Deus tolerará mais isso? Vós devíeis arrepender-vos sem demora. Em um bosque vizinho há um padre eremita, varão de grande santidade. Vamos até lá e confessemo-nos — insistiram os vassalos.
— Confessar-me? Aos diabos! — respondeu com desprezo o senhor.
— Vinde ao menos fazer-nos companhia.
— Para me divertir, concedo. Por Deus, nada farei.
E puseram-se a caminho. Na floresta solitária e quieta encontraram o santo varão na ermida.
Advertido pelos vassalos, que se confessaram, saiu o eremita ao encontro do orgulhoso senhor, que ficara montado. E disse-lhe:
— Sede bem-vindo, senhor. Visto que sois cavaleiro, deveis ser cortês. Desmontai e vinde falar comigo.
— Falar convosco? Por que diabos? Estou com pressa.
— Entrai e conhecei minha capela e minha morada.
Muito a contragosto e resmungando, o cavaleiro apeou. O eremita tomou-o pelo braço, conduziu-o diante do altar e disse-lhe:
— Senhor, matai-me, se quiserdes, mas daqui não saireis sem antes confessar-vos.
— Não contarei nada! E não sei o que me impede de matar-vos.
— Irmão, dizei-me um só pecado. Deus vos ajudará a confessar os demais.
— Diabos! Não me dareis sossego? Eu o farei, mas de nada me arrependerei.
E com grande arrogância contou de um só lance todos os pecados.
Depois de ouvi-lo, o eremita prop— Senhor, pelo menos sujeitai-vos a uma penitência.
— O quê!? Penitência!? Caçoais de mim! — vociferou furioso o cavaleiro.
— Jejuareis todas as Sextas-feiras durante três anos.
— Três anos! Estais louco! Jamais!
— Então, um mês.
— Também não.
— Ireis a uma igreja e direis aí um Padre-Nosso e uma Ave-Maria.
— Para mim seria enfadonho, e ademais, tempo perdido.
— Pelo amor de Deus todo poderoso, pegai pelo menos este barrilzinho, enchei-o no regato próximo e trazei-o de volta para mim.
— Bem, isto não me custa tanto. E sobretudo para ficar livre de vós, concedo.
Saiu o cavaleiro em direção à fonte, e de um só golpe afundou na água o barrilzinho. Neste não entrou uma gota sequer. Tentou novamente de um jeito, de outro... Nada!
Intrigado e rangendo os dentes de raiva, voltou à ermida e esbravejou:
— Barril enfeitiçado! Não consigo meter-lhe uma só gota de água!
— Senhor, que triste estado é o vosso! Uma criança o teria trazido transbordando. Isto é um sinal de Deus, por causa de vossos pecados.
— Pois eu vos juro que não lavarei minha cabeça, não farei a barba nem cortarei as unhas enquanto não encher este barril, ainda que tenha de dar a volta ao mundo. E nisto empenho minha palavra!
E assim partiu o cavaleiro com o barrilzinho, levando só a roupa do corpo. Em todos os poços e regatos, cascatas e rios, lagos e mares, experimentava encher o pequeno tonel, mas sempre em vão.
Caminhando sem cessar, passando frio e calor, por planícies e montanhas, percorreu ele muitos países.
Maltrapilho e sujo, curtido pelo sol, obrigado a mendigar, sofreu fome, insultos e chacotas, pois muitos desconfiavam dele. Seu corpo ia definhando, e o barrilzinho pesava-lhe enormemente, amarrado ao pescoço.
Ao cabo de um ano de fracassos, decidiu voltar à ermida, onde por fim chegou, exatamente na Sexta-feira Santa. O eremita, não o reconhecendo, perguntou:
— Caro irmão, quem vos deu esse barrilzinho? Há um ano entreguei-o a um belo cavaleiro, que não voltou mais aqui. Nem sei se ainda vive.
— Esse cavaleiro sou eu, e este é o estado em que me colocaste! — respondeu cheio de cólera o desgrenhado peregrino, contando a seguir suas desventuras.
O santo homem indignou-se ante tanta dureza de alma, bradando:
— Vós sois o pior dos homens! Um cão, um animal qualquer teria enchido o barril. Ah! bem vejo que Deus não aceitou vossa penitência, porque não vos arrependestes!
E pondo-se a chorar, rogou à Santíssima Virgem que intercedesse por aquele pecador empedernido.
Enquanto o eremita soluçava em sua longa oração, o cavaleiro, quieto, foi tocado pela graça. Seu coração tão duro comoveu-se. Os olhos se lhe turvaram.
Uma grossa lágrima rolou-lhe pela face ressequida, caindo diretamente dentro do barrilzinho, que trazia amarrado ao pescoço. E esta única lágrima encheu-o até os bordos.
Sinceramente arrependido, o cavaleiro pediu para confessar-se. O eremita, maravilhado, abraçou-o em prantos de alegria.

Após ministrar a absolvição sacramental ao penitente, o eremita perguntou-lhe se queria receber a comunhão.
— Sim, meu pai. Mas apressai-vos, porque sinto que vou morrer.
Tendo recebido o Santíssimo Sacramento, com a alma purificada, o cavaleiro agradeceu comovido ao eremita, e colocou-se em suas mãos. Pouco depois exalava o último suspiro.
A capela iluminou-se, e os anjos levaram sua alma ao Paraíso. Diante do altar, o eremita velou longamente aquele corpo coberto de andrajos, tendo junto de si o prodigioso barrilzinho.



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