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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A perfeita alegria


I FIORETTI de São Francisco de Assis - Capítulo VIII


Como a caminhar expôs São Francisco a frei Leão as coisas que constituem a perfeita alegria




   "Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo de inverno, e o grandíssimo frio fortemente os atormentasse, chamou frei Leão, o qual ia mais à frente, e disse assim: Irmão Leão, ainda que o frade menor desse na terra inteira grande exemplo de santidade e de boa edificação, escreve todavia, e nota diligentemente que nisso não está a perfeita alegria. E andando um pouco mais, chama pela segunda vez: Ó irmão Leão, ainda que o frade menor desse vista aos cegos, curasse os paralíticos, expulsasse os demônios, fizesse surdos ouvirem e andarem coxos, falarem mudos, mais ainda, ressuscitasse mortos de quatro dias, escreve que nisso não está a perfeita alegria. E andando um pouco São Francisco gritou com força: Ó irmão Leão, se o frade menor soubesse todas as línguas e todas as ciências e todas as coisas futuras, mas até mesmo os segredos das consciências e dos espíritos, escreve que não está nisso a perfeita alegria. Andando um pouco além, São Francisco chama com força: Ó irmão Leão, ovelhinha de Deus, ainda que o frade menor falasse com língua de anjo, e soubesse o curso das estrelas e as virtudes das ervas; e lhe fossem revelados todos os tesouros da terra e conhecesse as virtudes dos pássaros e dos peixes e de todos os animais e dos homens e das árvores e das pedras e das raízes e das águas, escreve que não está nisso a perfeita alegria. E caminhando um pouco São Francisco chamou em alta voz: Ó irmão Leão, ainda que o frade menor soubesse pregar tão bem que convertesse todos os infiéis a fé cristã, escreve que não está nisso a perfeita alegria. E durando este modo de falar pelo espaço de duas milhas, frei Leão, com grande admiração, perguntou-lhe e disse: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui; e não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele e pensarmos humildemente e caritativamente que o porteiro verdadeiramente nos tinha reconhecido e que Deus o fêz falar contra nós: ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. E se perseverarmos a bater, e ele sair furioso e como a importunos malandros nos expulsar com vilanias e bofetadas dizendo: Fora daqui ladrõezinhos vis, vão para o hospital, porque aqui ninguém lhes dará comida nem cama; se suportarmos isso pacientemente e com alegria e de bom coração, ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite, batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem: e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó: e se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor; ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão. Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, será o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos, porque de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar por não serem nossos, mas de Deus, do que diz o Apóstolo: Que tens tu que te gloriares como se o tivesses de ti? Mas na cruz da tribulação de cada aflição nós nos podemos gloriar, porque "isso não é nosso" e assim diz o Apóstolo: "Não me quero gloriar, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo". Ao qual sejam dadas honra e glória in seculaseculorum. Amém.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Talleyrand - Gastronomia e política


DESTAQUE


À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestigio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na plateia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo.


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Talleyrand - Gastronomia e política

J. A. Dias Lopes




O príncipe de Talleyrand, gastrônomo traquejado, político e diplomata francês, serviu a diferentes regimes e só se manteve fiel ao queijo brie


Nunca houve um vira-casaca tão assombroso quanto o príncipe de Talleyrand-Périgord, político e diplomata francês. Serviu aos diferentes regimes que governaram seu país entre 1789 e 1838, período assinalado pela tomada da Bastilha, a ascensão e queda de Napoleão e a restauração monárquica. Tirou proveito de todos, até mesmo financeiro, sem se conservar leal a nenhum. Também poucas vezes se viu um gastrônomo tão pródigo.

O escritor Eugène Sue, seu contemporâneo, inspirou-se em uma das predileções habituais de Talleyrand, como ficou conhecido, para afirmar que em toda a vida ele só se manteve fiel ao queijo brie. Saboreava essa iguaria diariamente, acompanhada de velhos tintos de Bourdeaux. Protagonista brilhante do Congresso de Viena — a assembléia que reuniu os paises europeus após a queda de Napoleão, entre os anos de 1814-15, a fim de restabelecer o equilíbrio continental de poderes e definir novas fronteiras nacionais — colocou a Inglaterra e a Áustria contra a Prússia e a Rússia. Ao mesmo tempo, fez com que a França saísse da reunião com o território intacto e, sobretudo, reconhecida como grande potência.

A tradição espalha que Talleyrand obteve do Congresso de Viena a proclamação do brie como “rei dos queijos”. No final de um dos banquetes que se sucederam, cada país inscreveu um ou mais candidatos. Eram 52 queijos, a maioria à base de leite de vaca. O príncipe de Metternich, representante da Áustria, renomado apóstolo da reação contra o liberalismo, apresentou um queijo da Boêmia; o conde Nesselrode, da Rússia, exibiu um em formato de salsicha; o duque de Wellington, futuro presidente do Conselho de Ministros da Inglaterra, ofereceu o ceshire, cujo sabor especial deriva do leite produzido por vacas que pastam nos capins ligeiramente salobros da fronteira com o País de Gales. O vencedor foi o brie levado pelo príncipe de Talleyrand, feito por certo Baulny, da região de Ile-de-France, perto de Paris, a mesma do Palácio de Versailles. Coincidentemente, era o queijo que proporcionara um dos últimos prazeres gustativos ao rei Luis XVI, antes de ser preso, conduzido à prisão e guilhotinado pela Revolução Francesa.

Talleyrand era gastrônomo traquejado. Onde estivesse, exigia cozinha e mesa impecáveis. Por 11 anos contou com os serviços de Antonin Carême, considerado o melhor chef de todos os tempos.

Talleyrand só fazia uma refeição por dia: a da noite. Seu desjejum era frugal. Ao meio dia, ele tomava apenas chá. Ainda de manhã, recebia o chef com as sugestões para a ceia. Discutia com ele as receitas e os pontos de cozimento, questionava molhos e acompanhamentos. O cardápio se compunha de diversas sopas, quatro entradas, dois pratos de mar, quatro intermediários, dois assados e vários doces, além do invariável queijo brie. À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestígio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na platéia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo. Por um defeito físico, não deixaram que seguisse a carreira militar. Um acidente na infância o deixou coxo.

Mesmo não demonstrando vocação religiosa, a família o lançou na carreira eclesiástica. Ajudado por um tio arcebispo, escalou rapidamente a hierarquia da Igreja Católica e, apesar da vida devassa, foi nomeado arcebispo de Autun, na Borgonha. Além de culto e fluente, era bom orador. Pronunciou sermões empolgantes. Elegeu-se deputado à Assembléia Nacional e apresentou projeto colocando os bens do clero sob o controle da nação.

O Papa o condenou durante a Revolução Francesa e ele abandonou a Igreja, dedicando-se à diplomacia. Chegou a ocupar o Ministério do Exterior da França. A certa altura de suas Memórias, publicadas em cinco volumes, Talleyrand revela ter sido educado por preceptores. Jamais permaneceu uma semana inteira com os pais. Isso o marcou profundamente. O talento verbal vinha da mãe, com quem jamais se deu bem. Mesmo assim, procurava-a na adolescência, para assimilar seu modo diferente de falar.

A mãe empregava a linguagem engenhosa das reuniões elegantes do século 18, a mesma que o filho usou no salão de madame de Genlis, impressionando a aristocracia parisiense.

Certa vez, Napoleão perguntou a Talleyrand como havia se transformado em brilhante conversador. Ele respondeu: “Bem, da mesma maneira que sua majestade escolhe o campo de batalha para combater, só aceito falar quando tenho alguma coisa a dizer. Nunca respondo perguntas inesperadas. Em geral, não me deixo questionar por ninguém, exceto por vós. E, caso me indaguem alguma coisa e eu respondo, é porque sugeri a pergunta”.

Não por acaso, Talleyrand foi um dos maiores diplomatas do passado. A gastronomia funcionou como seu instrumento político. Amigos e inimigos o descreveram como “uma pessoa irresistível à mesa”. É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.


O queijo aclamado


O brie se tornou conhecido mundialmente no Congresso de Viena, realizado no século 19, quando Talleyrand conseguiu aclamá-lo “rei dos queijos”. Mas os franceses, seu criadores, conhecem-no há muito mais tempo. Surgiu na pequena cidade de Melun, a 40 quilômetros de Paris, na região de Ile-de-France, quando ainda existia a Gália Transalpina, que abrangia a França e a Bélgica. Entre os anos 58 e 50 a.C., esse território foi conquistado pelo romano Julio César, após extensa campanha bélica. Carlos Magno, rei dos francos e imperador do Ocidente (742-814), provou o brie ao passar por ali e se encantou, introduzindo-o no seu palácio. Ao contrário do que alguns acreditam, o camembert descende do brie. É queijo muito mais novo: só apareceu no século 18, durante a Revolução Francesa. Um padre foragido, vindo da terra do brie, revelou seu segredo a uma fazendeira chamada Marie Harel – e ela o reproduziu na Normandia.

O queijo predileto de Talleyrand usa leite de vaca. São necessários 23 litros para fazer uma unidade. Apresenta-se redondo e achatado. Mede entre 20 e 35 centímetros de diâmetro e possui cerca de 3 centímetros de altura. A crosta é enrugada, ligeiramente avermelhada, com bolor branco. A pasta se mostra alva quando fresca, tornando-se amarelada após 6 a 8 semanas de cura. A textura é suave e cremosa. O sabor, leve e delicado. Com o tempo, a pasta amolece. O queijo vai adquirindo cor amarelo-palha e sabor a noz. Os tradicionalistas preferem o “fermier” ou colono, artesanal. O outro, industrial, é chamado de “laitier”. Mas ambos podem exibir qualidade.

O brie procede de quatro localidades, todas na região de Ile-de-France. Os mais famosos vêm de Melun e Meaux. O primeiro possui tamanho menor e produção idem: são 190 toneladas anuais contra 5650 do outro. A maturação, porém, é mais demorada e ocorre em caves mais frias. Também existe o brie de Melun sem cura, conhecido como bleu. O de Meaux já foi maior. Antigamente, ultrapassava os 50 centímetros de diâmetro. Constituía um problema para os fabricantes, porque é preciso virar o queijo diversas vezes durante a cura, numa operação delicada. Qualquer descuido pode rachá-lo.

Para homenagear o gosto de Talleyrand ou por compatibilidade natural, o queijo de Melun combina com os tintos de Bordeaux, enquanto os de Meaux vão bem com os da Borgonha. O ideal é saboreá-los puros, acompanhados ou não de pão. Come-se o brie com a casca, que esconde sabores deliciosos e faz bem à saúde. É queijo ainda usado em cozinha. As famosas bombinhas de massa folhada denominadas “bouchées à la reine”, criadas em homenagem à polonesa Maria Leszczynski, mulher de Luis XV, costumam ser recheadas com brie. Os italianos, que a exemplo dos brasileiros imitam com perfeição o produto original, usam-no nos crostini.


(Cf. O Estado de São Paulo, 17-5-2002 – Caderno 2 – pagina 18)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A vida e a modernidade de Luiz IX, o último rei santo


DESTAQUE


São Luiz foi, em primeiro lugar, um rei cristão ideal.

São Luiz quer tornar o rei o responsável pela Justiça. Os súditos do Rei (salvo nos assuntos religiosos, aliás, estritamente controlados) podem com isso apelar, a partir de então, para a justiça do rei. Aí está o fundamento dos futuros tribunais de apelação. A partir de 1254, essa seção da corte que administra a Justiça em seu nome vai ser denominada Parlamento...


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(Bernard Lecomte, de L’Express, entrevista Jacques Le Goff)


Por que escolheu passar 10 anos de sua vida com São Luís?

Jacques Le Goff – Em primeiro lugar, tinha vontade de escrever uma biografia. Depois, escolhi um personagem que desse a possibilidade de, realmente, ir além de sua imagem mítica ou das suposições históricas. São Luís é um personagem fascinante: falar sobre ele é evocar todos os povos cristãos da época.

Luiz IX foi ao mesmo tempo rei e santo. É possível conciliar a esse ponto política e religião?

Le Goff – Houve outros reis santos antes dele: na Alta Idade Média, na época da instalação dos reinos bárbaros, como o rei da Burgúndia, Sigismundo. Depois, por volta do ano 1000, durante a conversão de povos inteiros ao Cristianismo, como o húngaro Etienne (Santo Estevão) ou o norueguês Olavo. Mas São Luiz é um rei santo de um novo tipo, pois é sua conduta pessoal, em primeiro lugar, que o faz ser santo. Aliás, ele será o último desse gênero.

O historiador William Jordan descreveu-o atormentado entre seu dever real e sua devoção...

Le Goff – Eu enfatizaria mais a coerência entre sua aspiração à santidade e sua conduta na política, o que não oculta de maneira alguma dificuldades e contradições [SIC!]. Um exemplo: São Luiz, à mesa, tem um estatuto especial e um cerimonial a respeitar, mas, muito ligado à tradição monástica, ele pratica a abstinência muito jovem, não bebe vinho puro, convida pobres, etc. Isso é verdade também para seu comportamento político.

Evoquemos, inicialmente, o rei Luiz IX. Como situá-lo?

Le Goff – Na metade do caminho entre o reino de seu avô Felipe Augusto e o de seu neto Felipe, o Belo, São Luiz representa a passagem da monarquia feudal à monarquia moderna: esta não se baseia mais nas relações do rei com seus vassalos, mas naquelas do rei enquanto chefe de Estado (diga-se, então, do reinado ou da coroa) com seus “súditos”. Essa construção do Estado moderno se faz de acordo com formas transitórias, progressivamente, evitando qualquer traumatismo institucional...

Luis IX moderniza o Estado?

Le Goff – Ele consolida a monarquia: duplica principalmente os bailios e os senescais – os magistrados, na época -, “investigadores” designados para apurar os abusos da administração real, para fazer reinar a justiça e a paz. São Luiz quer tornar o rei o responsável pela Justiça. Os súditos do Rei (salvo nos assuntos religiosos, aliás, estritamente controlados) podem com isso apelar, a partir de então, para a justiça do rei. Aí está o fundamento dos futuros tribunais de apelação. A partir de 1254, essa seção da corte que administra a Justiça em seu nome vai ser denominada Parlamento...

Como um rei pode chegar à santidade, se começa lutando contra os cátaros, executando os preceitos da Inquisição e reprimindo os judeus?

Le Goff – Atenção para não cair no anacronismo! Façamos um esforço de compreensão da época, em retrospectiva. Sobre os cátaros: foi principalmente seu pai, Luiz VIII, que lutou contra os albigenses. Luiz IX continuou sua ação, mas não se interessou muito pelo sul da França, onde reinará seu irmão, Afonso de Poitiers. Sua responsabilidade não é nula, mas é preciso redimensioná-la. Sobre a Inquisição: em primeiro lugar, um rei tão piedoso não podia amar os hereges, culpados por colocarem em risco tanto a ortodoxia da fé quanto a coesão do reinado. Em segundo lugar, na tradição cristã do século 13, o rei é o braço secular da Igreja em seu reinado: se esta ordena ao soberano executar as sentenças de seus tribunais, ele deve obedecer.

E suas medidas anti-semitas?

Le Goff – Em primeiro lugar, tomemos cuidado com as palavras: não se trata de anti-semitismo (o que só aparecerá no século 19), mas de um anti-judaísmo, de natureza essencialmente religiosa. Luiz IX, profundamente cristão, não gosta dos judeus que se recusaram a reconhecer Jesus Cristo. Ele condena o Talmude porque este, do seu ponto de vista, diz horrores sobre Jesus e apresenta a Virgem como uma prostituta! Além disso, o rei não gosta das pessoas que constituem um corpo estranho dentro do reinado que ele tenta unificar. É verdade que São Luiz ficou desorientado [SIC!] com esse problema. Segundo disse: “Os cristãos têm um chefe, trata-se do prelado. Os judeus não têm ninguém. Devo, então, ser o prelado dos judeus: puni-los quando se comportam mal, mas também protegê-los quando são injustamente atacados”... A verdade é que São Luiz foi mesmo um perseguidor dos judeus [SIC!].

A ponto de lhes impor, em 1269, o uso de costeleta?

Le Goff – Foi a Igreja que tomou essa decisão no Concílio de Latrão, em 1215. São Luiz recusou aplicá-la durante muito tempo, especialmente devido à preocupação com a integração dos judeus à comunidade nacional. Mas cedeu, no fim de seu reinado, à pressão dos judeus convertidos de seu círculo, de quem o papel foi extremamente nefasto.

Ele foi, realmente, o incentivador das últimas Cruzadas!

Le Goff – Exato. É mesmo notável que São Luiz tenha entrado nas Cruzadas numa época em que isso se fazia cada vez menos. As Cruzadas estão ligadas ao feudalismo e o fracasso delas já anunciava o fim desse regime. Quando entra na Cruzada, São Luiz tenta mudar o espírito da Cruzada, misturando objetivos militares e interesse de conversão religiosa. São Francisco de Assis não o precedeu, em vão, na Terra Santa! Um exemplo: tendo partido com todos os preconceitos[SIC!]anti-muçulmanos da época, o rei da França ao perceber que aquelas pessoas são religiosas, fica impressionado com a piedade delas[SIC!], fica atônito com a biblioteca que o emir carrega consigo em sua tenda, mesmo na guerra. Enfim, o indivíduo São Luiz também ia procurar na Terra Santa, mais ou menos, o martírio.

Foi por isso que a Igreja canonizou Luis IX, em 1297, 27 anos após sua morte?

Le Goff – Há uma razão política [SIC!]: o novo Papa Bonifácio VIII deseja ter boas relações com o rei da França. Mas há uma razão mais profunda e inovadora: São Luiz foi, em primeiro lugar, um rei cristão ideal. Ora, em seu caso, os milagres ligados à sua pessoa contaram menos que as virtudes do indivíduo.

Justamente o indivíduo, o senhor diz, é uma invenção de sua época...

Le Goff – Na Idade Média, o que importa são os grupos, as comunidades: ordens religiosas, confrarias, linhagens, dinastias, comunidades de aldeia, etc. A partir do fim do século 12, o individuo aparece, principalmente, nas ordens religiosas. São Bernardo foi o primeiro a surgir em sua ordem, assim como São Francisco de Assis distingue-se no século 13. São Luiz teve importância como homem. Seu caráter, sua humildade deram motivos para isso.


Obra notável (biografia de São Luis)


Jacques Le Goff foi um de nossos historiadores mais reputados. E São Luiz, um de nossos maiores reis. O encontro entre ambos só poderia resultar em um livro memorável. De fato, essas mil páginas, eruditas, precisas e lúcidas, são de uma perfeição que encantará tanto estudiosos como o grande público. São Luiz é neto de Felipe Augusto, o vencedor de Bouvines (1214). Nasceu poucos meses antes dessa batalha histórica. A morte de seu irmão mais velho, Felipe – logo após a de seu pai, Luis VIII – vai torná-lo rei da França aos 12 anos. Ele reinou em duo com a mãe, Branca de Castela, notável pela inteligência política, e depois, sozinho, após voltar da Terra Santa, em 1254, até que a morte o surpreendesse em Túnis, durante a sua segunda Cruzada, em 1270. Rei profundamente piedoso, Luis IX promoverá a sétima Cruzada, que será um fracasso, e a oitava, da qual não volta. Fascinado pelas ordens mendicantes, pelas relíquias, São Luiz fará todos os esforços para ser um modelo político e espiritual para os cristãos de sua época.

O rei da França fortalecerá, assim, durante 44 anos de reinado, um Estado monárquico independente, unificado e centralizado, do qual Le Goff tem o prazer de ressaltar as inovações: administração territorial, justiça ao alcance de todos, instituição de um Parlamento em seu estado embrionário. Moderno, Luiz IX? De fato, quando reprime a primeira manifestação da história da universidade, em 1229, ou quando tenta moralizar sua alta função pública, em 1254, o santo rei suscita no leitor algumas repercussões muito atuais...

Traduções de Wanda Caldeira Brant

(Cf. O Estado de São Paulo, 2 de maio de 1999 – p. 18 – Caderno 2 – Cultura).

Jacques Le Goff (Toulon, 1 de janeiro de 1924 — Paris, 1 de abril de 2014)1 foi um historiador francês especialista em Idade Média. Autor de dezenas de livros e trabalhos, era membro da Escola dos Annales, empregou-se em antropologia histórica do ocidente medieval.

Antigo estudante da École Normale Supérieure, estudou na Universidade Carolina em 1947-48, professor de história em 1950 e membro da École Française de Rome, foi nomeado assistente da Faculté de Lille (1954-59) antes de ser nomeado pesquisador no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), em 1960. Em seguida, mestre-assistente da VI seção da École pratique dês hautes études (1962) - sucedeu Fernand Braudel no comando da École dês hautes études em sciences sociales, onde ele foi diretor dos estudos. Cedeu seu lugar a François Furet em 1967. Na qualidade de diretor de estudo na École dês Hautes Études em Sciences Sociales, Jacques Le Goff publicou estudos que renovaram a pesquisa histórica, sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. Seus seminários exploraram os caminhos então novos da antropologia histórica. Ele publicou os artigos sobre as universidades medievais, o trabalho, o tempo, as maneiras, as imagens, as lendas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

São João Bosco, entre a surra e um aviso de morte



DESTAQUE

“Se Nossa Senhora favorece tanto este mísero corpo, quantas graças não concederá para a alma de quem A invoca. Se todos fossem devotos de Nossa Senhora, que felicidade reinaria sobre a terra, embora esta ainda se chame vale de lágrimas”. (jovem Luiz Comollo).


*** * ***





Raphael de la Trinité


Entre os seus colegas de ginásio, achava-se Luiz Comollo.

Eis o que escreve São João Bosco a respeito:

No início do ano letivo de 1835 (quando frequentava as escolas da cidade de Chieri), da boca do dono da pensão onde estava hospedado, ouvi que ali chegaria um estudante santo. Eu me ri, incrédulo. Mas, o bom homem da hospedaria acrescentou: ‘É verdade, é um jovem de grandes virtudes, sobrinho do pároco de Cinzano’. Pois é, a fama de Comollo chegara a Chieri, primeiro do que ele. O rapaz, avesso a louvores e amante da humildade, vivia silencioso, com a atenção voltada unicamente para os estudos. Mas o seu comportamento impressionou logo ao estudante João Bosco, um futuro apóstolo da juventude e que tinha olhos perspicazes.

Desde os primeiros dias (escrevia João Bosco), eu vi o estudante, do qual sabia apenas o nome. Recatado na pessoa, modesto no andar pelas ruas, e muito afável, cortês com os que lhe falavam. Fiquei admirado. Crescei a minha surpresa quando notei a exatidão com que cumpria seus deveres e a pontualidade com que chegava à escola, onde procurava logo o seu lugar.
Se os companheiros o convidavam para tomar parte em folias, respondia que lhe faltava jeito e destreza. Certo dia recebeu ameaças e insultos (porque não quis entrar numa brincadeira de mau gosto...). Recebeu, então, uma bofetada.

Vendo isso, D. Bosco gritou: Ai de vós! Ai de quem ofender a este! Mas nem a mim respeitaram os grandalhões mal educados, e caíram sobre Comollo os bofetões. Naquele momento venceu em mim a força sobre a razão. Não tinha â mão nem porrete nem cadeira; agarrei um colega e fiz dele uma arma. Derrubei quatro. Os demais fugiram, gritando e pedido compaixão, misericórdia...(p. 33-36).

Luiz Comollo repreendeu a D. Bosco pela intervenção que fizera a seu favor. A partir daí, tornaram-se ambos grandes amigos.

Mais tarde, estabeleceram um pacto: aquele que morresse, viria avisar ao outro se teria ou não sido salvo.

Na madrugada de 2 de abril de 1839, Luiz Comollo, ao entrar em agonia, pareceu surpreendido como diante de uma maravilhosa visão, enquanto a alma se separava do corpo, voando para a paz do Senhor.

Na noite de 3 para 4 de abril, dia seguinte ao do enterro, D. Bosco relata:

 “Não podia conciliar o sono. Pensava na promessa, como pressagiando o que devia acontecer. Encontrava-me presa de espantosa emoção. À noite, ouviu-se um como ruído ao fundo do corredor, ruído este que ia aumentando e aproximando-se ameaçador. Parecia um carro puxado por muitos cavalou ou um trem de ferro e quase o disparo de um canhão. Formava um complexo de fragores tão vibrantes, que incutia grandíssimo pavor, cortando a palavra de quantos o ouvissem. Enquanto se aproximava da porta do dormitório, deixava após si ecoar as portas, janelas e o pavimento do corredor, como se fossem lâminas de ferro vibrando fortemente. Notava-se claramente o avanço, mas deixava a incerteza de um vapor que sobe, sem se saber ao certo onde está o fogo. Com aquele espantoso rumor, todos os seminaristas do dormitório despertaram em sobressalto, mas ninguém disse palavra. Eu jazia petrificado de terror. O rumor avançava sempre, mais espantoso. Avizinhava-se do dormitório. De repente, a porta se escancara violentamente. O rumor prossegue sempre mais veemente, mas nada se enxerga, a não ser uma vaga luzinha de várias cores, que parece orientar aquele som. Súbito, faz-se silêncio. A luz brilha mais vívida e ouve-se distintamente a voz de Comollo, mais fraca do que quando era vivo. Fala três vezes: ‘Bosco, estou salvo”.

Naquele instante o dormitório se iluminou feericamente e ouviu-se um rumor ainda mais violento que o primeiro, semelhante a um raio-trovão que destruísse a casa. Depois cessou, desaparecendo todas as luzes. Enquanto isso, os companheiros saltaram da cama, fugindo aterrados. Meteram-se alguns nos ângulos do dormitório, procurando amimar-se mutuamente. Outros se refugiaram ao redor do assistente, padre Fiorito. Assim passou a noite e ansiadamente se aguardou o alívio da aurora. Todos ouviram o ruído e muitos, também a voz, embora sem entender o significado. Interrogaram-se, reciprocamente, sobre o rumor daquela misteriosa voz. Eu, João Bosco, deitado na cama, recomendava que se tranquilizassem, pois ouvira distintamente aquelas palavras, três vezes, ‘estou salvo’.

Sofri, porém, imensamente. O meu assombro foi tal, que eu teria preferido morrer. E me recordo: foi a primeira vez que tive medo. Daqui principiou uma doença que me levou à beira da sepultura. Como é terrível para o homem colocar em relação as coisas naturais com as coisas sobrenaturais. Não procuremos mais provas da existência da alma. Bastam aquelas que Cristo nos revelou.(p. 104-106).

*** * ***

Falando de Nossa Senhora, D. Bosco via Comollo comovido de filial ternura para com ela. Depois de haver ouvido algum favor concedido pela Virgem ao corpo, dizia, comovido: “Se Nossa Senhora favorece tanto este mísero corpo, quantas graças não concederá para a alma de quem a invoca. Se todos fossem devotos de Nossa Senhora, que felicidade reinaria sobre a terra, embora esta ainda se chame vale de lágrimas”.

Tratar e falar de tais assuntos comigo (escrevia D. Bosco), causava-lhe imensa consolação. Referia-se com euforia ao grande amor de Jesus em dar-Se a nós em alimento na comunhão. Aconselhava os seus amigos a empregar utilmente o tempo e a frequentar os sacramentos. Avisavam-se reciprocamente para se corrigirem dos defeitos. Assim fazendo, animavam-se a progredir na perfeição cristã e na constância e na prática de todas as virtudes.(p. 40-41).


(cf. O Anjo de Cinzano, Vida de Luiz Comollo, Fidelis Dalsin Barbosa — baseada na biografia de Eugenio Pilla —, Edições Paulinas, 1962, São Paulo, SP, 110 p.). 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A arte de escorchar a classe média. Destruindo-se a classe média, a nação definha...


Uma reflexão muito atual






Diálogo sugestivo, perdido na noite dos tempos (entre 1643 e 1715!)


Eis um diálogo, colhido da peça teatral "Le Diable Rouge", de Antoine Rault, que, teria transcorrido entre os personagens Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, em pleno século XVIII. Apesar dos séculos decorridos, parece bem atual.


Colbert:- Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço…

Mazarino:- Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas e não consegue honrá-las, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!

Colbert:- Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?

Mazarino:- Criando outros.

Colbert:- Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino:- Sim, é impossível.

Colbert:- E sobre os ricos?

Mazarino: - E sobre os ricos, também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta, faz viver centenas de pobres.

Colbert: - Então, como faremos?

Mazarino: - Colbert! Tu pensas como um caipira, um quadrúpede peludo! Há uma massa enorme de gente que está entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais!
Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

quarta-feira, 19 de março de 2014

Concordância de La Salette com a comunicação mística ao Beato Padre Eustáquio




DESTAQUE



“O poder infernal que se desencadeia nestes tempos, não em violências, nem em martírios sangrentos, tal como nos tempos antigos, mas com as palavras de Deus e de Santos nos lábios, vem-se dar o beijo venenoso a todos quantos se apresentam na sua frente.

“Grita-se ‘Deus’, escreve-se ‘Deus’ e nada há de Deus no coração, senão peste e veneno que, sob a falsa máscara de fé e de religião, querem espalhar-se sobre a multidão cuja fé, embora fraca, não está totalmente apagada.

“É um horror como se revoltam contra Mim. E ainda falam como se fossem inspirados pelo Espírito Santo, enquanto sua inspiração não passa de uma sugestão do mau espírito que é o demônio em própria pessoa (...)”.


*** *** ***

Concordância de La Salette com a comunicação mística ao Beato Padre Eustáquio


Jesus Cristo disse ao Beato Padre Eustáquio van Lieshout SS.CC.: “Eu vejo a minha religião ameaçada, caluniada e perseguida mais do que nunca”.


Quando Nossa Senhora revelou seu Segredo em La Salette fez afirmações muito graves sobre o estado moral, espiritual, social e político do mundo, convidando a uma profunda conversão.

Algumas das afirmações de Nossa Senhora, porém, foram mal recebidas por aqueles que se sentiram concernidos.

Um dos casos foi protagonizado pelos setores da sociedade e do clero que tinham aderido às falsas máximas e aos costumes decadentes do mundo.

Dos mesmos arraiais que tinham aderido às ideias igualitárias da Revolução Francesa e aos costumes sensuais que se difundiam pela sociedade temporal, brotou implacável guerra contra o Segredo.

Alegavam eles ser impossível que Nossa Senhora tivesse predito horizontes tão carregados de ameaças, guerras, heresias, decomposição social e ação dos demônios.

Aduziam também que o mundo andava sempre melhor e que um diálogo sincero – mas cheio de concessões ao erro e ao pecado – acabaria trazendo a reconciliação da Igreja com o mundo.

Nossa Senhora tinha bem denunciado que se o mundo recusava a necessária conversão atrairia sobre si tremendas desgraças que a Providencia permitiria como derradeiro meio para salvar as almas que quisessem se submeter à vontade de Deus.

Panoramas análogos foram anunciados por santos religiosos e sacerdotes como São João Bosco, ou Papas como o Beato Pio IX e São Pio X..


Um exemplo mais próximo de nós é o do Beato Padre Eustáquio van Lieshout SS.CC., bem conhecido de muitos brasileiros.

Nascido na Holanda em 3 de novembro de 1890 chegou ao Brasil como missionário em 1925. Ele faleceu em Belo Horizonte a 30 de agosto de 1943.

Sua fama de santidade e os múltiplos milagres que lhe são atribuídos facilitaram sua elevação aos altares.

Ele foi beatificado em 15 de junho de 2006.



O Beato Padre Eustáquio não teve uma relação especial com La Salette, feita a exceção de estudos que não conhecemos ou que não foram ainda dados a conhecer.

Por isso, é especialmente benfazejo ouvir o anúncio dos castigos purificadores que ele fez como corretivo providencial da decadência do mundo.

Ele fez esse anúncio em consequência de uma inspiração mística que lhe apontou sua missão face a um mundo, sempre mais sensual, igualitário e entregue às potencias infernais e de seus sequazes humanos, leigos e clérigos.




O Beato Padre Eustáquio, missionário no Brasil



Reproduzimos,à continuação, carta do bem-aventurado missionário de 25 de Julho de 1941.

Nela, ele descreve uma comunicação sobrenatural por ele recebida a respeito do progresso de Satanás e de seus seguidores, e do abandono da Igreja por parte de indignos membros dEla, inclusive altos responsáveis.

As analogias com o Segredo de La Salette são tantas e saltam de tal maneira aos olhos que dispensam comentários.

O leitor saberá fazê-las, com facilidade e em abundância.


Eis a carta do Beato Padre Eustáquio:



V.C.J.S.                                                                         V.C.M.I



Dia do Apóstolo-Mártir São Tiago

25 de Julho de 1941


Mensagem


Jesus, na minha solidão, se fez ouvir mais do que nunca e são estas as palavras que me foram confiadas pela boca do Senhor:

“Eu vejo a minha religião ameaçada, caluniada e perseguida mais do que nunca.

“Não sai mais, como no tempo medieval, a voz do erro de uma só boca, está saindo de milhares de bocas; de bocas que não sabem o que dizem, não sabem o que falam; apenas empurradas por uma força que eles não conhecem, nem procuram conhecer, gritam contra Mim, blasfemam contra Mim; uns fogem da minha companhia, outros como ramos secos ficam se agarrando ao tronco antigo que é a religião Católica, Apostólica, Romana.



“E o falso poder que invade os corações, invade as almas, invade os lares, aumenta-se cada vez mais, penetra cada vez mais na intimidade da vida, até no templo em que habito.

“O poder infernal que se desencadeia nestes tempos, não em violências, nem em martírios sangrentos, tal como nos tempos antigos, mas com as palavras de Deus e de Santos nos lábios, vem-se dar o beijo venenoso a todos quantos se apresentam na sua frente.

“Grita-se ‘Deus’, escreve-se ‘Deus’ e nada há de Deus no coração, senão peste e veneno que, sob a falsa máscara de fé e de religião, querem espalhar-se sobre a multidão cuja fé, embora fraca, não está totalmente apagada.

“É um horror como se revoltam contra Mim. E ainda falam como se fossem inspirados pelo Espírito Santo, enquanto sua inspiração não passa de uma sugestão do mau espírito que é o demônio em própria pessoa.

“E sob este fingimento de santidade invadem muitas almas, muitos corações e muitos lares.

“E depois de o mau espírito haver tomado posse destes corações, vê-se logo o estrago e o veneno que por aí derramaram”.







*** * ***


“Ó astúcia diabólica, que chegou a tal ponto que soube inclinar o ouvido do povo mais para o lado do mau espírito do que para o lado do próprio Deus!

“Vê como as guerras rebentam em toda parte, como cresce cada vez mais o ódio entre os povos, vê como aumenta a falsidade nos corações, diminuindo, a olhos vistos, a fé nas almas, e os estragos espirituais que em todas as classes do povo aumentam de dia para dia.

“E os mediuns que tomam o lugar dos santos, falam, escutam e enganam o próximo.

“E aí se vai a fé, se vai a religião, se vai a amizade com Cristo.

“E chegam as multidões a tomar confiança com quem não é de Cristo, e a perversidade torna-se o hábito natural destas pessoas.

“E aproveitando-se das misérias humanas, lançam-se sobre as criaturas doentes que, no desespero de suas moléstias e na falsa esperança de um pequeno alívio, entregam-se de corpo e alma ao cruel demônio que não somente lhes compromete a saúde do corpo, mas o que é pior, a salvação de suas almas.

“Ó mal, ó mal extremo que se arraigou nas almas de tantas e tantas pessoas!

Queda dos anjos rebeldes, detalhe.
Pieter Bruegel o Velho (1525-1569).
Royal Museumsof Fine Arts, Bruxelas

“Chegou a hora em que as guerras hão de se abrir contra tantas pragas, contra os maus espíritos que andam pelo mundo para perder as almas...

“Vá, meu filho, com franqueza e liberdade em combate a este grande mal. Sê o Moisés de hoje; que livres teu povo dessa péssima escravidão!

“Revoltar-se-ão contra ti, pois o dedo será posto na ferida.

“Mas, as curas que em meu nome operares, destruirão os fenômenos diabólicos com que obcecaram o meu bom povo.

“Ao teu lado andará o meu pai nutrício, cuja proteção escolhi sobre nossa casa de Nazaré e sobre a minha Igreja, que se fundou sobre a pedra sólida e inamovível da verdade e da santidade.

“Invoca a S. José com toda a confiança,  invocá-lo, junto com sua Santa Esposa, Maria SS., e o mal se extinguirá e a fé se tornará de novo florescente e crescente nas almas, nos lares, nas sociedades do mundo inteiro.”

Subscrito: São José, rogai por nós. – Saúde e Paz a todos – saúde ao vosso corpo, mas antes de tudo, paz a vossas almas.

Os meios que Nosso Senhor, de modo especial, me inspirou são: o ministério sacerdotal, a oração, a pregação e a visita aos doentes e a todos que sofrem.

E peço, humildemente, a todos os meus superiores eclesiásticos, religiosos e civis, para me auxiliares na minha santa missão, para que a graça de Deus venha para tantos que sofrem e tantos que se perdem.

O humilde servo em Cristo:

Pe. Eustáquio van Lieshout, SS.CC.”



(Fonte: livro “Padre Eustáquio van Lieshout SS.CC.”, de autoria do Pe. Venâncio Hulselmans SS.CC., apud Helio Viana “Padre Eustáquio” in CATOLICISMO)



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