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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Verdades de um vilarejo francês


DESTAQUE


Algumas coisas não mudam, sendo a obra de séculos.



*** * ***

Vilarejo de Saint-Céneri-le-Gérei, imagem ilustrativa.


Mais do que qualquer país ocidental, a França tem resistido à modernidade, pelo menos na forma como pensa a si mesma

Algumas semanas atrás, estava na França, onde era proprietário de uma casa num vilarejo já há quase 20 anos, que agora planejava vender. Uma corretora tinha dado uma olhada na propriedade e fizemos uma reunião para discutir como proceder. Ela entrou na cozinha, cheia de energia e convicção, e com um apelo passional:
— Monsieur Cohen, o que está fazendo?! Você não deve ter em conta vender esta casa!
Olhei admirado para ela, um pouco incrédulo.
— Você não pode vendê-la. Este é um lar de família. Você sabe disto no momento em que entra. Sente nas paredes. Respira isto em todos os cômodos. Sente nos ossos. Esta é uma casa que você deve manter para os filhos. Vou ajudá-lo a vender, se você insistir, mas meu conselho é para que não o faça. Você estaria cometendo um erro.
Isto foi, digamos assim, um momento cultural, um daqueles instantes em que uma porta se abre e você contempla, senão a alma de um país, ao menos um território que é distinto e profundo, e quase certamente tem um significado maior do que as manchetes e estatísticas que são supostamente para capturar o estado de uma nação, neste caso, uma chamada França, cujo mal-estar tornou-se objeto de fascinação. Tentei imaginar um corretor americano ou britânico, confrontado com uma oportunidade potencialmente lucrativa, decidindo começar a proposta com uma chamada sincera para não vender o imóvel, porque era um lugar de algo importante, ou insubstituível. Eu ficaria sem reação. Não poderia descrever isto. Não haveria circunstâncias em que o autointeresse, ou pelo menos a obrigação profissional, não iria prevalecer. O preço seria preeminente, juntamente com as condições de mercado e prazos. No entanto, neste vilarejo francês, ao longo de uma mesa de cozinha de madeira, posicionada em um chão de pedra, a definição de interesse econômico sobreposto à intuição emocional parecia um afloramento natural do solo e do espaço.
Eu pensei neste ocorrido outro dia, quando o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, um socialista modernizador, enfrentou um voto de confiança na Assembleia Nacional sobre mais um plano para cortar gastos públicos, tornar o mercado de trabalho mais flexível, e romper com o impasse francês de alto desemprego, um inchado setor estatal e auxílios que podem ter o efeito perverso de tornar o trabalho na economia oficial uma proposição não atraente. “O que importa, hoje, é a eficácia, e não ideologia”, disse Valls.
Ele prevaleceu, apesar de 32 membros do próprio partido se absterem em protesto contra um percebido ataque aos princípios socialistas. Mais do que qualquer outro partido de centro-esquerda na Europa, os socialistas franceses tiveram problemas para se libertar da bagagem ideológica mal-adaptada à competição global do século 21. Mais do que qualquer outro país ocidental, a França tem resistido à modernidade, pelo menos na forma como pensa a si mesma. Assim, a minha sensação ouvindo Valls falar sobre a “eficácia” poderia ser resumida em duas palavras: Boa sorte!
O primeiro-ministro é contra algo mais profundo do que a resistência dos sindicatos trabalhistas ou do próprio partido: uma cultura que vê a premiação de eficiência como algo quase vulgar. Eficácia não tinha lugar na minha conversa com a corretora. A eficácia não surge enquanto contemplo açougueiros franceses envolvendo frango com bacon ou preparando um corte de carne com talhos ágeis. Eficácia não é a regra nos hábitos de compras franceses. Encontra-se em um distante movimento tirado de longas conversas entre lojistas e clientes. Eficiência para os franceses é uma medida pobre da boa vida, assim como fazer um dinheirinho com a venda de uma casa empalidece diante da expressão do sentimento sobre o que ela pode representar. Se isso é bom ou ruim, pouco importa. Geralmente é ruim para a economia francesa. Também é um fato da vida.
Esses distintos componentes culturais das nações são provavelmente subestimados, como globalização e homogeneização criam a impressão de que os mesmos padrões ou sistemas podem ser perseguidos por toda parte. Eu costumava ser impaciente com tal pensamento. Os russos precisam de um czar! Os egípcios, de um faraó! Os franceses precisam entrar em greve! Não, eu iria pensar, os russos e os egípcios e os franceses são como todo mundo: eles querem ser livres. Eles querem governança com o consentimento dos governados. Eles não querem suas vidas submetidas a regras arbitrárias, ou viver menos bem do que poderiam sem czares, e faraós e greves. Agora eu sinto que eu estava errado sobre isso. A globalização iguala a adaptação às diferenças intransponíveis, tanto quanto ela iguala a mudança. Algumas coisas não mudam, sendo a obra de séculos.
Alguns dias depois da minha reunião, estava tomando uma cerveja com meus filhos em um café francês. A conta foi € 14. A garçonete estava indo passar um cartão de crédito, quando então viu que eu tinha um nota de € 10.
— Apenas me dê isso — disse ela. —Não se preocupe com o restante.

Roger Cohen é colunista do “New York Times”

Fonte: O Globo

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Talleyrand - Gastronomia e política


DESTAQUE


À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestigio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na plateia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo.


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Talleyrand - Gastronomia e política

J. A. Dias Lopes




O príncipe de Talleyrand, gastrônomo traquejado, político e diplomata francês, serviu a diferentes regimes e só se manteve fiel ao queijo brie


Nunca houve um vira-casaca tão assombroso quanto o príncipe de Talleyrand-Périgord, político e diplomata francês. Serviu aos diferentes regimes que governaram seu país entre 1789 e 1838, período assinalado pela tomada da Bastilha, a ascensão e queda de Napoleão e a restauração monárquica. Tirou proveito de todos, até mesmo financeiro, sem se conservar leal a nenhum. Também poucas vezes se viu um gastrônomo tão pródigo.

O escritor Eugène Sue, seu contemporâneo, inspirou-se em uma das predileções habituais de Talleyrand, como ficou conhecido, para afirmar que em toda a vida ele só se manteve fiel ao queijo brie. Saboreava essa iguaria diariamente, acompanhada de velhos tintos de Bourdeaux. Protagonista brilhante do Congresso de Viena — a assembléia que reuniu os paises europeus após a queda de Napoleão, entre os anos de 1814-15, a fim de restabelecer o equilíbrio continental de poderes e definir novas fronteiras nacionais — colocou a Inglaterra e a Áustria contra a Prússia e a Rússia. Ao mesmo tempo, fez com que a França saísse da reunião com o território intacto e, sobretudo, reconhecida como grande potência.

A tradição espalha que Talleyrand obteve do Congresso de Viena a proclamação do brie como “rei dos queijos”. No final de um dos banquetes que se sucederam, cada país inscreveu um ou mais candidatos. Eram 52 queijos, a maioria à base de leite de vaca. O príncipe de Metternich, representante da Áustria, renomado apóstolo da reação contra o liberalismo, apresentou um queijo da Boêmia; o conde Nesselrode, da Rússia, exibiu um em formato de salsicha; o duque de Wellington, futuro presidente do Conselho de Ministros da Inglaterra, ofereceu o ceshire, cujo sabor especial deriva do leite produzido por vacas que pastam nos capins ligeiramente salobros da fronteira com o País de Gales. O vencedor foi o brie levado pelo príncipe de Talleyrand, feito por certo Baulny, da região de Ile-de-France, perto de Paris, a mesma do Palácio de Versailles. Coincidentemente, era o queijo que proporcionara um dos últimos prazeres gustativos ao rei Luis XVI, antes de ser preso, conduzido à prisão e guilhotinado pela Revolução Francesa.

Talleyrand era gastrônomo traquejado. Onde estivesse, exigia cozinha e mesa impecáveis. Por 11 anos contou com os serviços de Antonin Carême, considerado o melhor chef de todos os tempos.

Talleyrand só fazia uma refeição por dia: a da noite. Seu desjejum era frugal. Ao meio dia, ele tomava apenas chá. Ainda de manhã, recebia o chef com as sugestões para a ceia. Discutia com ele as receitas e os pontos de cozimento, questionava molhos e acompanhamentos. O cardápio se compunha de diversas sopas, quatro entradas, dois pratos de mar, quatro intermediários, dois assados e vários doces, além do invariável queijo brie. À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestígio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na platéia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo. Por um defeito físico, não deixaram que seguisse a carreira militar. Um acidente na infância o deixou coxo.

Mesmo não demonstrando vocação religiosa, a família o lançou na carreira eclesiástica. Ajudado por um tio arcebispo, escalou rapidamente a hierarquia da Igreja Católica e, apesar da vida devassa, foi nomeado arcebispo de Autun, na Borgonha. Além de culto e fluente, era bom orador. Pronunciou sermões empolgantes. Elegeu-se deputado à Assembléia Nacional e apresentou projeto colocando os bens do clero sob o controle da nação.

O Papa o condenou durante a Revolução Francesa e ele abandonou a Igreja, dedicando-se à diplomacia. Chegou a ocupar o Ministério do Exterior da França. A certa altura de suas Memórias, publicadas em cinco volumes, Talleyrand revela ter sido educado por preceptores. Jamais permaneceu uma semana inteira com os pais. Isso o marcou profundamente. O talento verbal vinha da mãe, com quem jamais se deu bem. Mesmo assim, procurava-a na adolescência, para assimilar seu modo diferente de falar.

A mãe empregava a linguagem engenhosa das reuniões elegantes do século 18, a mesma que o filho usou no salão de madame de Genlis, impressionando a aristocracia parisiense.

Certa vez, Napoleão perguntou a Talleyrand como havia se transformado em brilhante conversador. Ele respondeu: “Bem, da mesma maneira que sua majestade escolhe o campo de batalha para combater, só aceito falar quando tenho alguma coisa a dizer. Nunca respondo perguntas inesperadas. Em geral, não me deixo questionar por ninguém, exceto por vós. E, caso me indaguem alguma coisa e eu respondo, é porque sugeri a pergunta”.

Não por acaso, Talleyrand foi um dos maiores diplomatas do passado. A gastronomia funcionou como seu instrumento político. Amigos e inimigos o descreveram como “uma pessoa irresistível à mesa”. É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.


O queijo aclamado


O brie se tornou conhecido mundialmente no Congresso de Viena, realizado no século 19, quando Talleyrand conseguiu aclamá-lo “rei dos queijos”. Mas os franceses, seu criadores, conhecem-no há muito mais tempo. Surgiu na pequena cidade de Melun, a 40 quilômetros de Paris, na região de Ile-de-France, quando ainda existia a Gália Transalpina, que abrangia a França e a Bélgica. Entre os anos 58 e 50 a.C., esse território foi conquistado pelo romano Julio César, após extensa campanha bélica. Carlos Magno, rei dos francos e imperador do Ocidente (742-814), provou o brie ao passar por ali e se encantou, introduzindo-o no seu palácio. Ao contrário do que alguns acreditam, o camembert descende do brie. É queijo muito mais novo: só apareceu no século 18, durante a Revolução Francesa. Um padre foragido, vindo da terra do brie, revelou seu segredo a uma fazendeira chamada Marie Harel – e ela o reproduziu na Normandia.

O queijo predileto de Talleyrand usa leite de vaca. São necessários 23 litros para fazer uma unidade. Apresenta-se redondo e achatado. Mede entre 20 e 35 centímetros de diâmetro e possui cerca de 3 centímetros de altura. A crosta é enrugada, ligeiramente avermelhada, com bolor branco. A pasta se mostra alva quando fresca, tornando-se amarelada após 6 a 8 semanas de cura. A textura é suave e cremosa. O sabor, leve e delicado. Com o tempo, a pasta amolece. O queijo vai adquirindo cor amarelo-palha e sabor a noz. Os tradicionalistas preferem o “fermier” ou colono, artesanal. O outro, industrial, é chamado de “laitier”. Mas ambos podem exibir qualidade.

O brie procede de quatro localidades, todas na região de Ile-de-France. Os mais famosos vêm de Melun e Meaux. O primeiro possui tamanho menor e produção idem: são 190 toneladas anuais contra 5650 do outro. A maturação, porém, é mais demorada e ocorre em caves mais frias. Também existe o brie de Melun sem cura, conhecido como bleu. O de Meaux já foi maior. Antigamente, ultrapassava os 50 centímetros de diâmetro. Constituía um problema para os fabricantes, porque é preciso virar o queijo diversas vezes durante a cura, numa operação delicada. Qualquer descuido pode rachá-lo.

Para homenagear o gosto de Talleyrand ou por compatibilidade natural, o queijo de Melun combina com os tintos de Bordeaux, enquanto os de Meaux vão bem com os da Borgonha. O ideal é saboreá-los puros, acompanhados ou não de pão. Come-se o brie com a casca, que esconde sabores deliciosos e faz bem à saúde. É queijo ainda usado em cozinha. As famosas bombinhas de massa folhada denominadas “bouchées à la reine”, criadas em homenagem à polonesa Maria Leszczynski, mulher de Luis XV, costumam ser recheadas com brie. Os italianos, que a exemplo dos brasileiros imitam com perfeição o produto original, usam-no nos crostini.


(Cf. O Estado de São Paulo, 17-5-2002 – Caderno 2 – pagina 18)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

As Catacumbas de Roma – O culto dos santos


DESTAQUE

Sobre um cálice descoberto nas Catacumbas, se lê esta inscrição em letras douradas: “Vito, vive em nome de Lourenço”; em outro, no mesmo sentido, se lê: “Eliano, vive em Jesus Cristo e São Lourenço”, ou seja, vive na graça de Jesus Cristo, pela intercessão de São Lourenço.

O culto público dado aos santos está doravante provado pelo fato incontestável que davam aos mártires mais ilustres, por um tipo de canonização, títulos honoríficos em uso na Igreja, por exemplo: “Senhor, Poderoso intercessor diante do trono de Deus, DOMINVS, DOMNVS ou simplesmente D.”

*** * ***



Os monumentos que possibilitarão que façamos uma ideia exata da Igreja primitiva são os monumentos fúnebres.

Esta circunstância vai determinar a direção de nossas pesquisas. Estas pesquisas estarão naturalmente circunscritas pelo dogma que tem maior relação com a destinação das Catacumbas, a saber, a comunhão dos santos, ou seja, a Igreja triunfante, a Igreja padecente e a Igreja militante.

As almas dos mortos que morreram na graça divina estão, segundo o ensino da Igreja católica, juntas de Deus; sua morada foi estabelecida na paz do céu; elas gozam da glória e da felicidade eternas. Os túmulos das Catacumbas nos oferecem os mesmos ensinos? Iremos interrogá-los, restaurar as inscrições sepulcrais e a iconografia dos três primeiros séculos, que poderá vir em nosso socorro. Como o nosso espaço é curto, faremos apenas as citações que se justificam por sua importância dogmática.

Percorramos então os seguintes epitáfios:

“Prima, você vive na glória de Deus e na paz de N.S.J.C. VIVIS IN GLORIA DEI ET IN PACE”.
“Cheio de graça e de inocência, Severiano repousa aqui no sono da paz; sua alma foi recebida na luz do Senhor. IN LVCE DOMINI SVSCEPTVS”.

“À merecedora Saxonia: ela repousa em paz na casa eterna de Deus”.
“Lourenço nasceu para a eternidade com a idade de vinte anos; ele descansa em paz. NATVS EST IN ETERNVM”.
“Ursina – Agape – Alogia – Felicíssima – Fortunada, etc.., vivem na paz – em Deus – sempre – eternamente”.
“Hermaniscus, minha luz, vives em nosso Deus e Senhor J.C.”.
“Marciano, neófito, os céus estão abertos para ti, tu viverás na paz. CELI. TIBI. PATENT. BIBES. IN. PACE”.
Enfim:

“Alexandre não morreu; mas ele vive além dos astros; após uma brevíssima vida, ele brilha no céu. IN COELO CORVSCAT”.
Assim, aqueles que dormiram na paz de Deus, os justos repatriados, vivem eternamente. Eles foram admitidos na plenitude da luz de Deus, na casa do Senhor, na glória do Cristo. Eles nasceram para a eternidade; os céus se abriram diante deles; eles brilham aí com uma luminosidade parecida àquela dos astros. Eis a melodia ao mesmo tempo doce e forte que escapa, com um perfeito acordo, do meio dos túmulos subterrâneos, e que traz a consolação nos corações daqueles que esperam ainda o fim de seu exílio. Que protestação solene não há nesta alegre e triunfante harmonia, nesta santa confiança da Igreja apostólica, contra estas opiniões lamentáveis e pretensamente primitivas do século XVII, que não querem saber de nada da Igreja triunfante, que só admitem a entrada no céu para Jesus Cristo, e que declaram que é temerário examinar se as almas dos justos estão na felicidade; que condenam mesmo os mortos a uma espécie de dormição invencível da inteligência e da vontade, a um exílio de vários milhares de anos no vestíbulo do céu, onde eles esperam até o julgamento último a felicidade prometida!

A fé católica não se limita a esta doutrina consoladora que abre o céu às almas dos justos. Ela admite também entre o mundo terreno e o outro mundo, entre a Igreja militante e a Igreja triunfante, uma troca de relações. Todos os homens resgatados são membros de um único corpo em Jesus Cristo, formam uma sociedade, uma família imensa, unida pelo laço da caridade. Esta união espiritual ocorre por meio da oração. Os bem-aventurados nos prestam o socorro de sua intercessão e de sua assistência; do nosso lado, nós lhes pedimos este socorro na veneração e na afeição.




Tal é a doutrina da Comunhão dos santos. Examinemos se ela se revela nas Catacumbas. Aqui, o olhar encontra, sobretudo, acima dos arcosolia, um grande número de imagens de mártires ou de fiéis mortos. Elas estão frequentemente cercadas de símbolos do paraíso, flores, aves, palmas, e sempre na atitude da oração. Estes braços elevados, esta relação cheia de fervor diz em demasia que, lá no alto, os eleitos não são simples espectadores que se contentam em gozar, mas fiéis associados de seus irmãos ainda em luta sobre a terra.

E esta fé, que expressão poderosa não encontra nas inscrições!

“Sutius, reze por nós, afim que sejamos salvos. PETE PRO NOS (sic) VT SALVI SIMVS”.
“Augenda, vive no Senhor e intercede por nós. EPΩTA”.
“Anatolius, ore por nós. EYXOY”.
“Filho, que teu espírito descanse em Deus; interceda por tua irmã. PETAS”.
“Matronata Matrona, ore por teus pais Ela viveu um ano e cinquenta e dois dias. PETE”.
“Atticus, teu espírito vive no Bem: implore por teus pais”.
“Joviano, viva em Deus e seja nosso intercessor”.
“Sabatius, doce coração, ore e implore por teus irmãos e teus companheiros. PETE ET ROGA”.
“Aqui descansa Ancilladei. Ore pelo único filho que te sobreviveu, porque tua morada está na paz e na felicidade eternas”.
“À minha digníssima filha adotiva Felicidade, que viveu trinta e seis anos”. “Dignai-se em orar por teu esposo Celsiniano”.
“Gentiano, o fiel, em paz. Ele viveu 21 anos… em tuas orações interceda por nós, porque sabemos que está em J.C.”.
Enfim, para concluir a série dos exemplos que citamos:

“À nossa dulcíssima e trabalhadora mãe Catianilla: que ela reze por nós EYXOITO”.
É assim que os olhos e o coração dos sobreviventes atravessam o sepulcro e penetram até ao céu. É assim que o olhar e o amor procuram e encontram os eleitos, os assaltam com orações ferventes, lhes fazem participantes de suas penas com uma confiança infantil e lhes fazem piedosas recomendações. Não está aí a verdadeiro espírito católico na plenitude da caridade e na infalibilidade da certeza?

Mas, dirão alguns, estas invocações piedosas, estas orações dirigidas aos santos, não são, talvez, apenas homenagens privadas, que não supõem nem determinam um culto público, oficial, litúrgico?
A isto responderemos: A partir do momento em que se trata de uma prática litúrgica, relativa ao culto dos santos, trata-se de um princípio católico que não é legado ao arbítrio individual; não obstante, não faltam monumentos que testemunham as homenagens dadas pela Igreja aos bem-aventurados. Há nas Catacumbas dois tipos de inscrições que tem feição com o culto, ambas caracterizadas liturgicamente pela expressão ainda em uso: Em nome de… IN NOMINE.

Elas compreendem: 1º votos suplicativos em nome de Deus, do Cristo ou de Deus Cristo. Por exemplo:

“Zózimo, vive em nome do Cristo”.
“À SeliaVictorina, que descansa na paz em nome do Cristo”.
Nestes casos, a invocação se dirige diretamente a Deus, único adorável, único onipotente, único dispensador das graças. Mas há também em segundo outras invocações em nome de um santo; e então a oração se dirige indiretamente a Deus, diretamente ao poder de intercessão do santo. Um túmulo, entre outros, fala assim:
“Rufa, viverá na paz do Cristo, em nome de São Pedro”.
Ou seja, por meio de sua intercessão. Sobre um cálice descoberto nas Catacumbas, se lê esta inscrição em letras douradas: “Vito, vive em nome de Lourenço”; em outro, no mesmo sentido, se lê: “Eliano, vive em Jesus Cristo e São Lourenço”, ou seja, vive na graça de Jesus Cristo, pela intercessão de São Lourenço.

O culto público dado aos santos está doravante provado pelo fato incontestável que davam aos mártires mais ilustres, por um tipo de canonização, títulos honoríficos em uso na Igreja, por exemplo: “Senhor, Poderoso intercessor diante do trono de Deus, DOMINVS, DOMNVS ou simplesmente D.”

A partir do século III já se observa o título de Santo (dominus), Sanctus. É assim que encontramos saudações no gênero destas aqui: “Senhor Pedro, Paulo, Estevão, Sisto, etc.; Senhora, DominaBasila”, etc.. Mais tarde lemos: “Ao santo mártir Máximo”; “Ao Pai onipotente, ao seu Cristo e aos santos mártires Taurinus e Herculanus, eternas ações de graças da parte de Nevius, Diaristus e Constantino”.

Não pretendemos acumular as provas epigráficas, mas buscar a luz ainda em outras partes, nas pinturas e nas imagens.



Dom MaurusWolter. Les Catacombes de Rome et la doctrine catholique. Paris, G. Téqui, 1872.

Tradução: Robson Carvalho

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Virtudes e Tradições de uma Família Saudável


DESTAQUE


Hoje nós estamos testemunhando de maneira indiferente eventos que ultrajaram os povos mais bárbaros da antiguidade pagã. Nas escolas, onde as crianças costumavam ser ensinadas a conhecer, amar e glorificar a Deus, agora são formadas - por ação ou omissão - pessoas sem religião e sem moral.

Por que essa indiferença? Ela vem do fato de que as ideias claras e princípios bem estabelecidos já não existem nas mentes das pessoas. Eles foram substituídos por ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar corações (Mons. Delassus).


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Rapahel de la Trinité


Ensina o axioma latino: ‘nemo sumus fit repente’ = nada de extremo (sumo) se faz repentinamente.

Essa mesma verdade, Napoleão a reproduziu nos seguintes termos: A educação de uma criança começa cem anos antes desta nascer.

Essa obra pedagógica se perpetua e aprimora de geração em geração, isto é, pela transmissão de um legado, que passa de família a família, de um grupo social a outro, assim como de povo a povo, de nação a nação. Como se denomina esse vínculo que faz progredir a humanidade? É a tradição. 

Que é a tradição?

É a soma do passado com um presente que lhe seja afim. 

'Para tudo aquilo que não se encontra definido pelas Sagradas Escrituras, o costume do povo de Deus e as instituições dos antigos devem ser tidos como lei'  — Comentário de Santo Tomás de Aquino sobre a passagem I Cor XI, 16, retomando essa frase de Santo Agostinho (Ep. 36, al. 86).


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Virtudes e Tradições de uma Família Saudável

Por Mons. Henri Delassus
Traduzido por Andrea Patrícia


 Um pai exorta seu filho à virtude


Esse contrarrevolucionário autor do século XIX denunciou repetidamente as premissas da globalização e o início de um governo mundial. Ele insistiu que era o espírito da família no lar, na sociedade e no Estado, que poderia fornecer a maior resistência à conspiração anticristã.

Neste trecho de seu trabalho sobre a família, Mons. Delassus explica a importância das tradições da família em preservar os bons costumes da Civilização Católica. (TIA)
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A solução para evitar a introdução de leis contrárias à instituição da família, juntamente com uma ação pública vital, é imbuir as próprias crianças com tradições familiares. Então, desde que estas boas tradições perdurem, estes atos legislativos sempre encontrarão uma resistência saudável.

A tarefa de reviver as tradições nas famílias pode e deve ser o trabalho de cada família em seu próprio meio social. Pode-se esperar pela abolição de leis revolucionárias através de um grande movimento de opinião pública. Mas o que cada um pode fazer é reviver o espírito de família ao seu redor. Fazendo isso, ele vai fazer o maior bem possível para a sua própria família e, ao mesmo tempo, preparar-se para a renovação da sociedade.

É necessário que haja tradições que sustentem as leis, de modo que esta última tem a força que o assentimento do coração lhes provê. Da mesma forma, a formação da família é necessária para sustentar e manter as tradições, bem como fazer as leis voltarem aos princípios que geraram os costumes. Pois, sem os costumes as boas leis não são nada, e contra os costumes as leis não podem fazer nada.


Transmitindo tradições familiares

Hoje nós estamos testemunhando de maneira indiferente eventos que ultrajaram os povos mais bárbaros da antiguidade pagã. Nas escolas, onde as crianças costumavam ser ensinadas a conhecer, amar e glorificar a Deus, agora são formadas - por ação ou omissão - pessoas sem religião e sem moral.

Por que essa indiferença? Ela vem do fato de que as ideias claras e princípios bem estabelecidos já não existem nas mentes das pessoas. Eles foram substituídos por ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar corações.


O avô deve incutir respeito pelos bons costumes e pela virtude em seus filhos e netos.


E por que as ideias em nossos dias oscilam? Porque ideias e princípios matriciais não foram impressos nas almas das crianças por seus pais, que receberam essas ideias de seus avós, que por sua vez foram imbuídos com estas verdades por seus antepassados. Em resumo, porque as famílias de hoje não têm mais tradição.

Já houve uma vez uma ideia generalizada, uma ideia quase religiosa, associada com a expressão tradições familiares, entendida no seu melhor sentido, que designou um patrimônio de verdades e virtudes, em cujo seio se formaram caracteres que forjaram a longa vida e a grandeza de uma casa.

Hoje, essa expressão não significa nada para as gerações mais jovens. Elas surgem num dia para desaparecer no outro, sem ter recebido ou deixado para trás aquele conjunto de memórias e afetos, princípios e costumes, que em tempos idos foram passados ​​de pais para filhos e que deram às famílias que eram fiéis a eles a possibilidade de ascensão na sociedade. Cada família que tem tradições geralmente lhes deve a um de seus antepassados, no qual o sentimento do bem era mais forte do que no homem comum e teve a sabedoria e a vontade de incutir isso na sua família.

Progresso Moral

"A verdade é um bem", diz Aristóteles. Uma família onde os homens virtuosos se sucedem é uma família de homens bons. Esta sucessão de virtudes ocorre quando a família volta a uma fonte boa e honesta, porque um bom princípio produz coisas semelhantes a si mesmo. Portanto, quando há um homem em uma família tão identificado com o bem que sua bondade se comunica a sua descendência por muitas gerações, a partir deste homem necessariamente deriva uma família virtuosa.

Qualquer homem que quer formar uma família virtuosa deve ser persuadido de que seu dever não se limita - como Rousseau pretende falsamente - a prover as necessidades físicas de seus filhos quando eles são jovens demais para proverem a si mesmos. Ele também deve dar-lhes uma formação intelectual, moral e religiosa.

Os animais têm forças e recursos para satisfazer as necessidades corporais de seus filhos, e isso é suficiente para eles. Mas a criança, um ser moral, tem muitas outras necessidades, e é por isso que Deus deu aos pais não apenas força, mas também a autoridade para educar a vontade de seus filhos e fazê-los entrar, permanecer e progredir no caminho do bem. Deus queria que a autoridade fosse permanente porque o progresso moral é o trabalho de uma vida inteira.

De acordo com os desígnios da Divina Providência, o progresso deve desenvolver e crescer com a idade, e, portanto, é necessário que a família humana não seja aniquilada em cada geração. Os laços familiares devem existir entre aqueles que já faleceram e aqueles que estão vivendo, tecendo juntos todos os descendentes de uma dinastia vigorosa.

(Henri Delassus, O espírito de família no lar, na sociedade e no Estado, Editora Civilização, Porto, 2000, p. 125-128.) 


Fonte: Rosa Mulher
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