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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O VERDADEIRO CATÓLICO DEVE SER ALEGRE OU TRISTE? - SOBRE A TRISTEZA, POR SÃO FRANCISCO DE SALES


DESTAQUE
UMA PESSOA É DESCULPÁVEL DE NEM SEMPRE SER ALEGRE, POIS NÃO É DONO DA ALEGRIA PARA TÊ-LA QUANDO QUISER; MAS NÃO É DESCULPÁVEL DE NÃO SER SEMPRE BONDOSA, MANEJÁVEL E CONDESCENDENTE, POIS ISTO ESTÁ SEMPRE NO PODER DA NOSSA VONTADE, E PARA ISSO NÃO É PRECISO SENÃO RESOLVER-SE A SUPERAR O HUMOR E INCLINAÇÃO CONTRÁRIA.

*** * ***

Não se pode meter um enxerto de carvalho numa pereira, tanto essas duas árvores são de humor contrário uma à outra; tão pouco se poderia enxertar a ira, nem a cólera, nem o desespero, na caridade, ao menos seria muito difícil. Quanto à ira, vimo-la no discurso do zelo; quanto ao desespero, a não ser que o reduzamos à justa desconfiança de nós mesmos, ou então ao sentimento que devemos ter da vaidade, fraqueza e inconstância dos favores, assistência e promessas do mundo, não vejo que serviço pode o divino amor tirar dele.
E, QUANTO À TRISTEZA, COMO PODE ELA SER ÚTIL À SANTA CARIDADE, JÁ QUE ENTRE OS FRUTOS DO ESPÍRITO SANTO A ALEGRIA É COLOCADA JUNTO À CARIDADE? NÃO OBSTANTE, O GRANDE APÓSTOLO ASSIM DIZ: A TRISTEZA QUE É SEGUNDO DEUS OPERA A PENITÊNCIA ESTÁVEL EM SALVAÇÃO, MAS A TRISTEZA DO MUNDO OPERA A MORTE (GAL 3, 22; 2 COR 7, 10).
Há, pois, uma tristeza segundo Deus, a qual é exercida ou pelos pecadores na penitência, ou pelos bons na compaixão pelas misérias temporais do próximo, ou pelos perfeitos na deploração, queixa e condolência das calamidades espirituais das almas; pois David, São Pedro, a Madalena choraram pelos seus pecados, Agar chorou vendo seu filho quase morto de sede, Jeremias sobre a ruína de Jerusalém, Nosso Senhor sobre os Judeus e Seu grande Apóstolo gemendo diz estas palavras: Muitos andam, os quais, eu muitas vezes vos disse e de novo vos digo que são inimigos da cruz de Jesus Cristo (Filip 3, 18).
Há, pois, UMA TRISTEZA DESTE MUNDO QUE PROVÉM IGUALMENTE DE TRÊS CAUSAS:
PORQUANTO, 1º, PROVÉM ÀS VEZES DO INIMIGO INFERNAL, QUE, POR MIL SUGESTÕES TRISTES, MELANCÓLICAS E MOLESTAS OBSCURECE O ENTENDIMENTO, DEBILITA A VONTADE E CONTURBA TODA A ALMA. E, ASSIM COMO UM NEVOEIRO ESPESSO ENCHE DE CATARRO A CABEÇA E O PEITO, E POR ESSE MEIO TORNA A RESPIRAÇÃO DIFÍCIL, E PÕE EM PERPLEXIDADE O VIAJOR, ASSIM TAMBÉM O MALIGNO, ENCHENDO O ESPÍRITO HUMANO DE PENSAMENTOS TRISTES, TIRA-LHE A FACILIDADE DE ASPIRAR A DEUS, E DÁ-LHE UM ABORRECIMENTO E DESÂNIMO EXTREMO, A FIM QUE DESESPERÁ-LO E DE PERDÊ-LO. Dizem que há um peixe a que chamam diabo do mar1 o qual, revolvendo e empurrando para cá e para lá o lodo, turva a água à volta de si, para se manter nela como na emboscada, e dela, logo que avista os pobres peixinhos, atira-se sobre eles, assalta-os e os devora, donde talvez tenha vindo a expressão pescar em água turva, de que se usa comumente. Ora, dá-se com o diabo do inferno o que se dá com o diabo do mar; pois ele arma suas emboscadas na tristeza, quando, tendo tornado a alma perturbada por uma multidão de pensamentos aborrecidos, lançados aqui e acolá no entendimento, precipita-se depois sobre os afetos, afligindo-os com desconfianças, ciúmes, aversões, invejas, apreensões supérfluas dos pecados passados, e fornecendo uma quantidade de sutilezas vãs, acres e melancólicas, a fim de que rejeitemos toda sorte de razões e consolações.
2º A TRISTEZA PROCEDE TAMBÉM, OUTRAS VEZES, DA CONDIÇÃO NATURAL, QUANDO O TEMPERAMENTO MELANCÓLICO DOMINA EM NÓS, e este não é verdadeiramente vicioso em si mesmo, mas, no entanto, NOSSO INIMIGO SERVE-SE DELE GRANDEMENTE PARA URDIR E TRAMAR MIL TENTAÇÕES EM NOSSAS ALMAS; PORQUANTO, ASSIM COMO AS ARANHAS QUASE NUNCA FAZEM SUAS TEIAS SENÃO QUANDO O TEMPO ESTÁ ENCOBERTO E O CÉU NUBLADO, ASSIM TAMBÉM ESSE ESPÍRITO MALIGNO NUNCA TEM TANTA FACILIDADE PARA ARMAR AS CILADAS DAS SUAS SUGESTÕES NOS ESPÍRITOS DOCES, BENIGNOS E ALEGRES, COMO NOS ESPÍRITOS SOMBRIOS, TRISTES E MELANCÓLICOS; POIS OS AGITA FACILMENTE COM MÁGOAS, SUSPEITAS, ÓDIOS, MURMURAÇÕES, CENSURAS, INVEJAS, PREGUIÇA E ENTORPECIMENTO ESPIRITUAL.
3º Finalmente, há uma tristeza que a variedade dos acidentes humanos nos acarreta. Que alegria posso eu ter, dizia Tobias, não podendo ver a luz do céu? (Tob 5, 12). Assim Jacob ficou triste com a notícia da morte de seu José, e David com a do seu Absalão. Ora, essa tristeza é comum aos bons e aos maus, porém nos bons é moderada pela aquiescência e resignação à vontade de Deus; como se viu em Tobias, que, de todas as adversidades de que foi tocado, deu graças à divina majestade, e em Job, que por elas bendisse o nome do Senhor; e em Daniel, que converteu suas dores em cânticos. Pelo contrário, quanto aos mundanos, essa tristeza lhes é ordinária, e converte-se em pesares, desespero e atordoamentos de espíritos; pois eles são semelhantes às macacas e marmotas, que estão sempre sorumbáticas, tristes e zangadas por falta da lua, mas, ao contrário, à renovação desta, saltam, dançam e fazem as suas momices. O MUNDANO É RONHENTO, INTRATÁVEL, ACRE E MELANCÓLICO NA FALTA DAS PROSPERIDADES TERRENAS, E NA AFLUÊNCIA DESTAS É QUASE SEMPRE FANFARRÃO, DIVERTIDO E INSOLENTE.
De certo, A TRISTEZA DA VERDADEIRA PENITÊNCIA NÃO DEVE TANTO SER CHAMADA TRISTEZA COMO DESPRAZER, OU SENTIMENTO E DETESTAÇÃO DO MAL, TRISTEZA QUE NUNCA É NEM ABORRECIDA NEM MAL HUMORADA, TRISTEZA QUE NÃO ENTORPECE O ESPÍRITO, MAS QUE O TORNA ATIVO, PRONTO E DILIGENTE; TRISTEZA QUE NÃO ABATE O CORAÇÃO, MAS O ELEVA PELA ORAÇÃO E PELA ESPERANÇA, E O LEVA A FAZER OS RASGOS DO FERVOR DE DEVOÇÃO; TRISTEZA QUE NO FORTE DAS SUAS AMARGURAS PRODUZ SEMPRE A DOÇURA DE UMA CONSOLAÇÃO INCOMPARÁVEL, CONSOANTE O PRECEITO DO GRANDE SANTO AGOSTINHO:
Entristeça-se o penitente sempre, mas sempre se alegre com a sua tristeza. Diz Cassiano que a tristeza que opera a sólida penitência e o agradável arrependimento, da qual a gente nunca se arrepende, é obediente, afável, humilde, bondosa, suave, paciente, como sendo saída e descendente da caridade. De tal sorte que, estendendo-se a toda dor de corpo e contrição de espírito, de certo modo é alegre, animada e revigorada pela esperança do seu proveito, e retém toda a suavidade da afabilidade e longanimidade, tendo em si mesma os frutos do Espírito Santo que o santo Apóstolo narra. Ora, os frutos do Espírito Santo são: caridade, alegria, paz, longanimidade, bondade, benignidade, fé, mansidão, continência (Gal 4, 22). Tal é a verdadeira, e tal a boa tristeza, que por certo não é propriamente triste nem melancólica, mas somente atenta e afeiçoada a detestar, rejeitar e impedir o mal do pecado quanto ao passado e quanto ao futuro. NÓS VEMOS TAMBÉM MÚLTIPLAS VEZES PENITÊNCIAS MUITO APRESSADAS, PERTURBADAS, IMPACIENTES, CHOROSAS, AMARGAS, SUSPIRANTES, INQUIETAS, GRANDEMENTE ÁSPERAS E MELANCÓLICAS, AS QUAIS ENFIM SE MOSTRAM INFRUTÍFERAS E SEM CONSEQUÊNCIA DE QUALQUER VERDADEIRA EMENDA, PORQUE NÃO PROCEDEM DOS VERDADEIROS MOTIVOS DA VIRTUDE DE PENITÊNCIA, E SIM DO AMOR-PRÓPRIO E NATURAL.
A tristeza do mundo opera a morte (2 Cor 7, 10), diz Apóstolo. Teótimo, cumpre, pois, evitá-la e rejeitá-la segundo o nosso poder. Se ela é natural, devemos repeli-la, contravindo aos seus movimentos, afastando-a por exercícios próprios para isto, e usando dos remédios e modos de viver que os próprios médicos julgarem oportunos. Se, provém de tentação, devemos descobrir vosso coração ao pai espiritual, o qual nos prescrevera os meios de vencê-la, conforme o que sobre isso dissemos na quarta parte da Introdução à vida devota. Se é acidental, recorramos ao que está assinalado no livro oitavo, a fim de vermos o quanto as tribulações são amáveis aos filhos de Deus, e como a grandeza das nossas esperanças na vida eterna deve tornar quase inconsideráveis todos os acontecimentos passageiros da vida temporal.
De resto, por entre todas as melancolias que nos podem advir, devemos empregar a autoridade da vontade superior para fazermos tudo o que pudermos em favor do amor divino. Certamente há ações que dependem tanto da disposição e compleição corporal, que não está em nosso poder fazê-las a nosso gosto. Pois um melancólico não poderia manter nem os olhos, nem a palavra, nem o semblante na mesma graça e suavidade que teria se estivesse descarregado desse mau humor; bem pode, porém, embora sem graça, dizer palavras graciosas, bondosas e corteses, e, apesar da sua inclinação, fazer por força de razão as coisas convenientes em palavras e em obras de caridade, doçura e condescendência. UMA PESSOA É DESCULPÁVEL DE NEM SEMPRE SER ALEGRE, POIS NÃO É DONO DA ALEGRIA PARA TÊ-LA QUANDO QUISER; MAS NÃO É DESCULPÁVEL DE NÃO SER SEMPRE BONDOSA, MANEJÁVEL E CONDESCENDENTE, POIS ISTO ESTÁ SEMPRE NO PODER DA NOSSA VONTADE, E PARA ISSO NÃO É PRECISO SENÃO RESOLVER-SE A SUPERAR O HUMOR E INCLINAÇÃO CONTRÁRIA.
1) O nome de diabo do mal aplica-se a vários peixes do Oceano e do Mediterrâneo: à arraia, à escorpena e sobretudo ao diabo marinho.
(Tratado do amor de Deus por São Francisco de Sales, Livro décimo primeiro, capítulo XXI)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

REPARAÇÃO CONTRA INDIZÍVEL SACRILÉGIO FEITO AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO
























Raphael de la Trinité



Ensinamento invariável da Igreja



O Concílio de Trento definiu com precisão que Nosso Senhor Jesus Cristo está presente por inteiro e em cada uma das partes do Santíssimo Sacramento.

O mesmo Concílio ensinou infalivelmente: “Se alguém nega que, no venerável sacramento da Eucaristia, o Cristo todo está contido em cada espécie, e em cada parte de cada espécie, quando separados, seja anátema”.

Nosso Senhor está presente até na menor partícula da hóstia consagrada, assim como na menor gota do vinho consagrado.

Assim, a reverência que temos para com o Santíssimo Sacramento exige que tomemos todas as precauções para que nenhuma partícula da hóstia – por menor que seja – esteja exposta ao risco de profanação, sacrilégio, ou forma de adoração indevida.

Por esse motivo, Santo Tomás de Aquino ensinou que “por reverência a este Sacramento, ninguém o toque, sem que seja consagrado”. Deixa bem claro, desse modo, que não só os vasos sagrados do altar são consagrados para este propósito santo, mas que também as mãos do sacerdote são consagradas para tocar este Sacramento. Afirma, pois, o Doutro Angélico que não é lícito a mais ninguém tocá-lo, a não ser para salvá-lo da profanação. (E S. Thomas de Aquino, Summa, III, Q. 82. Art. 3)

Essa suma reverência ao Santíssimo Sacramento, e até mesmo em relação às menores partículas, está visivelmente presente na Missa tradicional, a qual continha rubricas rígidas e expressas sobre este ponto:

1) A partir do momento em que o sacerdote pronuncia as palavras da Consagração sobre a Sagrada Hóstia, o padre conserva o indicador e o polegar juntos em cada mão. Se ele eleva o cálice, ou vira as páginas do missal, ou abre o tabernáculo, o polegar e o dedo indicador de cada mão estão fechados. Nada toque o polegar e o indicador, exceto a Sagrada Hóstia;

2) Durante a Sagrada Comunhão, o acólito segura a patena sob o queixo daqueles que recebem a comunhão, de modo que não haja risco de que alguma partícula possa cair no chão. Esta patena, após a distribuição da Comunhão, é limpa (por assim dizer) no cálice, de modo que se fique acobertado do risco de que nela possa ter ficado qualquer fragmento;

3) Em seguida, o padre raspa o corporal (pequeno pano de linho usado no altar) com a patena, e passa-o no cálice, de modo que,na eventualidade de que alguma minúscula partícula ainda reste, seja a mesma recolhida e consumida pelo sacerdote;

4) Imediatamente após, o sacerdote lava o polegar e o indicador sobre o cálice com água e vinho, e esta água e vinho são consumidos com reverência, para assegurar que a menor partícula da Hóstia Sagrada não seja suscetível a profanação.


A tradição da Exposição do Santíssimo Sacramento



"Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná do deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, a fim de que quem o comer não morrera" (Gv6:48).

A Igreja lançou raízes profundas nos povos e é inegável que a civilização cristã deitou benfazeja influência na Terra inteira.

No momento mesmo em que seria traído, no ápice de sua aparente derrota, Nosso Senhor Jesus Cristo obtinha a vitória, pois ali o Homem-Deus nos cumulou com o Sacramento do divino amor: “Isto é o meu corpo”, “Este é o cálice do meu sangue”.

Para enriquecer o culto sagrado e preservar o Sacramento da Eucaristia de abusos, profanações e sacrilégios, surgiram costumes, leis e normas. O que transparece em torno de tais normas?

O respeito, a compostura, o espírito de piedade e devoção, certo modo de agir e de ser que atestam a nossa fé e o nosso amor na Presença Real de Nosso Senhor na Hóstia consagrada. Tudo feito com precisão, dignidade e elevação, pois se trata do culto ao verdadeiro Deus. Exemplos de culto eucarístico são as genuflexões, os ricos e adornados sacrários, os ostensórios, os cálices, as ambulas e as tecas para levar a comunhão aos enfermos. Até mesmo as patenas, utilizadas para evitar a queda de hóstias e de seus fragmentos no momento da distribuição da comunhão as fiéis, segundo mencionamos há pouco.


Aspecto mais belo e tocante do culto divino é a bênção solene do Santíssimo Sacramento. Doze velas são acesas no altar, seis de cada lado do sacrário. A sagrada Hóstia é colocada num rico ostensório. O sacerdote usa paramentos solenes, como a sobrepeliz, a estola, o pluvial e o véu umeral. Ele sustenta o ostensório e traça grande cruz sobre os fiéis ajoelhados, e depois reza e canta hinos de adoração. Enquanto isso, um acólito com o turíbulo incensa o Santíssimo Sacramento, enchendo o ambiente com um aroma perfumado que acaba por dominar suavemente todo o recinto. Aquela fumaça branca e odorífica se impregna na igreja inteira, podendo ser sentida até fora do edifício da Igreja.


*** * ***

“Hoje os leigos podem manusear os objetos sacros, inclusive o ostensório...” – sofisma grosseiro...

Quadro de desolação e de ruína


Infelizmente, com o clima que hoje reina na Igreja — em que sacrilégios, profanações e sem número de escândalos grassam impunes — sobreleva, não poucas vezes, à vista da comunhão na mão e da atuação dos chamados 'ministros' leigos da Eucaristia, uma como que paródia da Verdade Divina, relativamente a Jesus-Hóstia. Sim, quantos haverá que ainda creem, com firme certeza, de que Nosso Senhor está verdadeiramente presente na Santíssima Eucaristia, e até mesmo em cada minúsculo fragmento?

Destarte, em razão do descaso e 'simplificações' com que é tratado o Santíssimo Sacramento (o que avulta, numa infinidade de locais), é uma comédia burlesca, que tantas vezes vem à tona, mediante inaceitável menos cabo de todos os recursos usados pela Igreja, durante séculos, a fim de salvaguardar a Hóstia do menor risco de profanação, indignidade, irreverência ou inconveniência, mesmo por parte dos fieis.

Nenhuma autoridade da Igreja, nem mesmo a mais elevada, pode dispensar um católico do dever de preservar TODA a reverência devida a Jesus Sacramentado. Qualquer que seja a autoridade da Igreja, no momento em que utiliza o seu poder para diminuir, seja como for, o resguardo e cuidado extremos no culto devido ao Santíssimo Sacramento, age em sentido contrário ao ensinamento da Igreja, não devendo, portanto, ser obedecida.

Com efeito, 45 anos atrás, a Comunhão na mão constituía algo impensável em igrejas católicas, salvo em casos muito especiais.
Por ventura, Deus muda?

O dever de prestar o culto devido ao Divino Sacramento, revestido de toda a reverência e cuidado, é impostergável, imutável e imprescritível.

De fato, uma das facetas mais assombrosas da 'autodemolição' da Igreja (a que se referiu Paulo VI, já em 1968) assume uma clareza protuberante nesses clamorosos abusos.



O “Anjo da Eucaristia”

As aparições de Nossa Senhora em Fátima (1917) foram precedidas por três Aparições que Lúcia, Francisco e Jacinta tiveram do Anjo de Portugal, ou da Paz. Por meio dos colóquios com o Anjo, a Providência predispunha as crianças para o momento em que Nossa Senhora lhes falaria.

Uma dessas Aparições foi descrita pela Irmã Lúcia nos seguintes termos: “Depois de termos merendado, combinamos ir rezar na gruta, que ficava do outro lado do monte. […]. Logo que aí chegamos, de joelhos, com os rostos em terra, começamos a repetir a oração do Anjo: ‘Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos!’ Etc. Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós brilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo tendo na mão esquerda um cálice, sobre o qual está suspensa uma Hóstia, da qual caem algumas gotas de Sangue dentro do cálice.

Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, o Anjo prostrou-se em terra junto às crianças e fê-las repetir três vezes a oração: ‘Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos de seu Santíssimo Coração [de Jesus] e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores’. Depois, levantando-se, deu a Hóstia a Lúcia, e o cálice, deu-o a beber a Francisco e Jacinta, dizendo: ‘Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos! Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus’”.
As palavras do Anjo produziram profunda impressão nas três crianças, as quais, a partir de então, começaram a expiar pelos pecadores por meio de sacrifícios e de uma assídua vida de oração.

*** * ***

À vista disso, pergunta-se: será este o estado de espírito reinante na imensa maioria dos templos católicos de hoje, em todo o mundo?
Contraste aterrador!

Que restou da verdadeira piedade eucarística, na atmosfera empestada de um vírus pior do que o HIV, que é o vírus do modernismo, o qual, décadas a fio, corrói a vida das almas, na Igreja?


O apóstolo da Eucaristia e o dever de reparação


A esse respeito, leiamos os ensinamentos de São Pedro Julião Eymard, fundador da Congregação do Santíssimo Sacramento. Saibamos repetir, junto com ele: Salve, ó Maria, de quem nasceu Jesus-Hóstia!

Palavras do grande santo: “(...) Não foi Ela quem nos deu a Eucaristia? Foi o seu consentimento à Encarnação do Verbo no seu seio que iniciou o grande mistério de reparação para com Deus e de união conosco que Jesus realizou durante sua vida mortal e continua agora no Santíssimo Sacramento.

Sem Maria não poderíamos ir a Jesus, porque Ela O possui em seu coração: aí é que Ele encontra as suas delícias, e todos que quiserem conhecer as virtudes íntimas de Jesus, seu amor recôndito e privilegiado, devem procurá-los no Coração de Maria; os que amam esta boa Mãe encontram Jesus em seu coração tão puro(...).
“Mas, se pertencemos ao Filho, também pertencemos à Mãe; se adoramos o Filho, devemos honrar a Mãe, e somos obrigados, para entrar plenamente na graça de nossa vocação, e nela permanecer, a prestar um culto especial à Santíssima Virgem como Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento (...)”.

[Excertos do livro: Mês de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento Meditações extraídas dos escritos do Bem-Aventurado(*) Pedro Julião Eymard, o fundador da Congregação do Santíssimo Sacramento, 1946
(*) Sua canonização se deu em dezembro de 1962]

Em face dos escândalos perpetrados nos ambientes católicos, saibamos reagir, com horror e indignação sem medidas, começando porclamar ao Céu: Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós.

Fazei cessar, Senhor, a “abominação da desolação” (Mateus 24:15) que penetrou até no altar santo!

Usque quo, Domine? Até quando, Senhor?

Exsurge, Domine, quare obdormis?


Erguei-vos, Senhor: por que pareceis dormir?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

UM CATÓLICO PODE ABANDONAR, ‘SEGUNDO A SUA CONSCIÊNCIA’, A IGREJA CATÓLICA?



DESTAQUE


Certamente que o estado presente do mundo e as técnicas de escravidão às ideologias reinantes e corruptoras da fé não facilitam a vida cristã. Mas, precisamente, é para este mundo que os cristãos foram empurrados pela Hierarquia e segundo o espírito do Vaticano II. Eles ficaram desarmados, abandonados, privados do ensinamento da doutrina católica, desfigurada por numerosos catecismos e pregações, face ao desencadeamento da heresia que encontrou muita cumplicidade aberta e oficial no seio da Igreja.

O personalismo [de Emmanuel Mounier], que desde há muito envenenou o pensamento católico, é a filosofia dos direitos do homem, da abertura para o mundo, da liberdade religiosa e do ecumenismo, a filosofia que arrastou o povo cristão a pensar e argumentar à margem da luz da fé católica e que, em retorno, solapa esta.



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Rev. Pe. Hervé BELMONT


A realidade é que o povo cristão como um todo perdeu a fé. Claro que só Deus sonda os rins e os corações, mas é observável e certo que a maior parte dos cristãos não mais professam a fé da Igreja, nem no seu modo de viver, nem nas suas palavras quando interrogados sobre sua adesão a esta ou aquela verdade pertencente ao depósito revelado.

A realidade é que esta “apostasia imanente”, segundo a expressão de Maritain, foi querida por aqueles que deveriam tê-la impedido e que, pelo contrário, introduziram e em seguida — quando os efeitos ficaram visíveis — mantiveram suas causas. Certamente que o estado presente do mundo e as técnicas de escravidão às ideologias reinantes e corruptoras da fé não facilitam a vida cristã. Mas, precisamente, é para este mundo que os cristãos foram empurrados pela hierarquia e segundo o espírito do Vaticano II. Eles ficaram desarmados, abandonados, privados do ensinamento da doutrina católica, desfigurada por numerosos catecismos e pregações, face ao desencadeamento da heresia que encontrou muita cumplicidade aberta e oficial no seio da Igreja.

A realidade é uma reforma litúrgica infestada do espírito do protestantismo; reforma que não é nem fruto nem expressão da fé da Igreja; reforma que faz o povo cristão perder o sentido da infinita santidade de Deus ao esvaziar os testemunhos exteriores de adoração e desviar a liturgia para o “culto do homem”.

A realidade é que, de fato, os que querem conservar a fé católica, confessá-la integralmente e produzir as obras dela não podem fazê-lo senão contra a autoridade, ou ao menos à margem dela.

A realidade é que os autores ou fautores de heresia e de imoralidade vivem tranquilamente nas estruturas conciliares, e que o franzir as sobrancelhas, a que alguns espalhafatosos foram sujeitos, não constitui em nada uma defesa e promoção da fé católica.

A realidade é que a inteligência da fé é destruída pela invasão do personalismo, que é a filosofia subjacente, empregada pelos textos do Vaticano II. O personalismo, que desde há muito envenenou o pensamento católico, é a filosofia dos direitos do homem, da abertura para o mundo, da liberdade religiosa e do ecumenismo, a filosofia que arrastou o povo cristão a pensar e argumentar à margem da luz da fé católica e que, em retorno, solapa esta.

Retomemos o segundo parágrafo da Dignitatis Humanæ, no qual vem definida a liberdade religiosa tal como a entende o Vaticano II:

“O Concílio do Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Essa liberdade consiste nisto: todos os homens devem estar subtraídos à coação por parte tanto dos indivíduos quanto dos grupos sociais e de qualquer poder humano que seja, de tal maneira que em matéria religiosa ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência nem impedido de agir segundo a sua consciência, tanto em privado quanto em público, sozinho ou associado a outros, dentro de justos limites.”


Ora, segundo a teologia católica mais certa, é impossível para um católico abandonar “segundo a sua consciência” a Santa Igreja; assim ensina o Concílio Vaticano I:


“A condição daqueles que aderiram à verdade católica graças ao dom celeste da fé é completamente diferente da condição dos que, conduzidos por opiniões humanas, seguem uma falsa religião; aqueles que receberam a fé sob o Magistério da Igreja nunca podem ter motivo justo de mudar ou de pôr em dúvida esta fé”. (20 de abril de 1870, Denzinger n.º 1794)

Fonte: Acies Ordinata



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A perfeita alegria


I FIORETTI de São Francisco de Assis - Capítulo VIII


Como a caminhar expôs São Francisco a frei Leão as coisas que constituem a perfeita alegria




   "Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo de inverno, e o grandíssimo frio fortemente os atormentasse, chamou frei Leão, o qual ia mais à frente, e disse assim: Irmão Leão, ainda que o frade menor desse na terra inteira grande exemplo de santidade e de boa edificação, escreve todavia, e nota diligentemente que nisso não está a perfeita alegria. E andando um pouco mais, chama pela segunda vez: Ó irmão Leão, ainda que o frade menor desse vista aos cegos, curasse os paralíticos, expulsasse os demônios, fizesse surdos ouvirem e andarem coxos, falarem mudos, mais ainda, ressuscitasse mortos de quatro dias, escreve que nisso não está a perfeita alegria. E andando um pouco São Francisco gritou com força: Ó irmão Leão, se o frade menor soubesse todas as línguas e todas as ciências e todas as coisas futuras, mas até mesmo os segredos das consciências e dos espíritos, escreve que não está nisso a perfeita alegria. Andando um pouco além, São Francisco chama com força: Ó irmão Leão, ovelhinha de Deus, ainda que o frade menor falasse com língua de anjo, e soubesse o curso das estrelas e as virtudes das ervas; e lhe fossem revelados todos os tesouros da terra e conhecesse as virtudes dos pássaros e dos peixes e de todos os animais e dos homens e das árvores e das pedras e das raízes e das águas, escreve que não está nisso a perfeita alegria. E caminhando um pouco São Francisco chamou em alta voz: Ó irmão Leão, ainda que o frade menor soubesse pregar tão bem que convertesse todos os infiéis a fé cristã, escreve que não está nisso a perfeita alegria. E durando este modo de falar pelo espaço de duas milhas, frei Leão, com grande admiração, perguntou-lhe e disse: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui; e não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele e pensarmos humildemente e caritativamente que o porteiro verdadeiramente nos tinha reconhecido e que Deus o fêz falar contra nós: ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. E se perseverarmos a bater, e ele sair furioso e como a importunos malandros nos expulsar com vilanias e bofetadas dizendo: Fora daqui ladrõezinhos vis, vão para o hospital, porque aqui ninguém lhes dará comida nem cama; se suportarmos isso pacientemente e com alegria e de bom coração, ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite, batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem: e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó: e se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor; ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão. Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, será o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos, porque de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar por não serem nossos, mas de Deus, do que diz o Apóstolo: Que tens tu que te gloriares como se o tivesses de ti? Mas na cruz da tribulação de cada aflição nós nos podemos gloriar, porque "isso não é nosso" e assim diz o Apóstolo: "Não me quero gloriar, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo". Ao qual sejam dadas honra e glória in seculaseculorum. Amém.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Treze perguntas comuns a respeito da Consagração Total a Nossa Senhora


DESTAQUE

A quem se recomenda fazer a Consagração a Nossa Senhora como escravo de amor?
Efetivamente, a todos, sem exceção.


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Anunciação - Beato Fra Angelico


Nota do blogue: Texto reformulado e corrigido por Raphael de la Trinité



1. Em que a Consagração proposta por São Luiz Maria Montfort se diferencia das demais consagrações à Santíssima Virgem?

A Consagração proposta por São Luiz é uma Consagração total, que diz respeito à pessoa considerada por inteiro, isto é, como está explicado na própria fórmula da consagração: é uma entrega do “corpo, alma, bens exteriores, bens interiores, valor das obras boas passadas, presentes e futuras”.

Que se entende por “valor das boas obras”?

Segundo esclarece o próprio São Luiz, é o valor espiritual de todas as nossas obras de virtude. Isso pode ser considerado sob três aspectos:

- Valor meritório: aumenta o nosso grau de glória no céu;

- Valor satisfatório: diminui a nossa eventual pena no purgatório

- Valor impetratório: é o valor que podemos “aplicar” a terceiros, oferecendo uma obra de virtude por uma intenção em particular. Por meio dessa consagração, nós nos entregamos por completo à Virgem — inclusive, o valor das nossas boas obras, despojando-nos daquilo que seria um “direito” nosso, para que Ela possa dispor desse valor livremente, e usar da forma como melhor Lhe parecer.

Por exemplo: mediante essa consagração, a Virgem pode aplicar o valor de uma boa obra, feita por um de nós, para converter uma pessoa do outro lado do mundo, que nem mesmo conhecemos, e que – permita Deus! — só viremos a conhecer na eternidade! A explicação (relativa a esse ponto) encontra-se nos números 121 a 125 do Tratado.


2. Isso significa que a consagração proposta por São Luiz seria superior às outras formas de consagração à Virgem?

Não, necessariamente. Pode ocorrer que a pessoa também se consagre totalmente por outro meio, ainda que haja utilizado um texto que não mencione expressamente a cessão a Nossa Senhora dos bens espirituais juntamente com os materiais, como é feito aqui.

Na fórmula de São Luiz, tal desejo aparece claramente expresso, assim como os 30 dias de preparação. Portanto, o método de São Luiz Maria Grignion de Montfort tem como objetivo tornar explícito aquilo que em outras fórmulas pode não estar claramente indicado.


3. Haverá o risco de que, ao fazer a Consagração, alguém possa sair prejudicado, no sentido de sofrer mais no purgatório, por ter renunciado aos seus bens espirituais?

No Tratado, São Luís dá uma resposta clara a essa dificuldade (n. 133).

É certo que Nosso Senhor e Sua Santíssima Mãe serão mais generosos neste e no outro mundo em relação àqueles que mais generosos, em relação a Ela, souberam mostrar-senesta vida. Seria injuriar a misericórdia divina pensar no contrário — isto é, que Ela se deixaria vencer em generosidade...Certamente ignoramos como se faria isso.

Ensina o nosso Santíssimo Redentor: renunciar a si mesmo equivale a ganhar cem vezes mais (Mc 10, 28-31). Em face da bondade divina, nunca se perde, e sempre se ganha.

Mais do que uma renúncia, a Consagração constitui um ”investimento”: significa colocar nossos bens mais preciosos nas Mãos Daquela que sabe administrá-los melhor do que nós, porque é a Grande Tesoureira de Deus; é colocar nossos bens na Arca do Imaculado Coração de Maria.

Alguns sugerem que Deus e Sua Mãe possam usar os bens espirituais de um consagrado para beneficiar outros consagrados — algo que faria sentido.

Assim, os bens espirituais entregues nas Mãos Imaculadas da Virgem Maria multiplicariam o seu valor, e os bens de um consagrado podem beneficiar muitos outros consagrados, assim como a quaisquer outros que Deus queira favorecer.


4. Isso significa que, tendo feito a Consagração, a pessoa não mais poderá fazer pedidos concretos a Deus e à Virgem?

São Luiz desmente rotundamente essa objeção no Tratado (n. 132).

A qualquer momento, a pessoa poderá manifestar o desejo de oferecer o valor de suas obras por uma intenção particular, mesmo sabendo que o valor dessas boas obras, no ato de Consagração, já foi oferecido a Nossa Senhora, para que Ela livremente disponha a respeito. É indubitável que ela atenderá ao pedido, desde que a nossa intenção corresponda à glória de Deus.

Mais ainda. Uma vez consagrada a Nossa Senhora, a pessoa poderá formular os seus pedidos e súplicas com maior confiança. O motivo é este: serão os pedidos de um súdito que, por amor, ao entregar todos os seus bens àsua amada Rainha, recorre com toda confiança Àquela que sabemos contar sempre com toda a benevolência divina.De fato, Nossa Senhora é Medianeira Universal de todas as graças, co-redentora do gênero humano (por desígnio de Deus) e onipotência suplicante (isto é, Deus nunca deixa de atender àquilo que Ela pede).


5. Em que sentido se dá a “escravidão” à Virgem Maria? Parece algo tão estranho o uso desse termo…

Nada existe de “preocupante” ou “assustador” nisso. Entende-se a “escravidão” no mesmo sentido em que a Virgem disse ao Arcanjo São Gabriel, na Anunciação: “Eis aqui a Escrava do Senhor, faça-se em mim conforme a Tua Palavra.” (Lc 1,38). Dá-se também no mesmo sentido daquilo que São Paulo diz aos Filipenses (F2, 7), acerca de Nosso Senhor: “Aniquilou-Se a si mesmo, assumindo a condição de Escravo”.

São Luiz faz uma salutar distinção entre “servo” e “escravo”. A diferença reside nisto: ao contrário do escravo, o servo (que hoje equivaleria, grosso modo, ao termo “empregado”) não depende totalmente do seu senhor. Nessa acepção, Nossa Senhora foi mais do que serva: por vontade própria, quis ser Escrava deamor, entregando-Se completamente a Deus. Ora, mediante essa forma de Consagração, seguimos o exemplo de Maria Santíssima, ou seja, decidimos ficar sendo, por um ato livre de nossa vontade, “escravos de Jesus”, ou “escravos de Jesus por Maria”, ou ainda “escravos de Maria”. Todos esses termos correspondem ao mesmo sentido, conforme São Luiz explica largamente no Tratado.

Igualmente, assim fazendo, seguimos o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Se submeteu totalmente à Sua Santíssima Mãe, encarnando-Se em Seu seio puríssimo, e sendo gerado por Ela, graças à ação do Espírito Santo.

As referências concernentes a esse ponto podem ser lidas no Tratado (n.68 a 77, e 139 a 143).


6. Há alguma prática exterior obrigatória para que a Consagração seja válida?

Não há no Tratado nenhuma evidência que ateste isso.

São Luizressalta (n. 226) que a Consagração é essencialmente interior.

Com efeito, faz notar que as práticas exteriores (oração do Rosário, do Magnificat, penitência, trazer junto de si um sinal externo da Consagração, ingresso em movimentos marianos, preparação de 30 dias de oração antes da Consagração, etc..) são exercícios recomendáveis, mas não estritamente necessários. A Consagração não equivale a um voto.

Não foi São Luiz de Montfort, aliás, quem excogitou propriamente essa Consagração. Muitos outros santos propagaram a mesma devoção anteriormente, embora possam não o ter manifestado com toda evidência e especial destaque, tal como ele o faz aqui, graças ao método que preconizou. 


7. A Consagração implica em voto de celibato?

Não. São Luiz deixa claro que a Consagração é um ato interior, e não menciona o celibato quando faz menção das práticas exteriores.

A consagração do corpo, que a Consagração refere, enquanto entrega total da pessoa, deve ser efetivada pela prática da castidade segundo o próprio estado. Pode tratar-se de um religioso ou de um leigo, de pessoa solteira ou casada.


8. Objeção: tratando-se de um pecador renitente e reincidente, ainda assim, haveria motivo suficiente para fazer a Consagração?

Sem dúvida. Não é pelos méritos, ou pela ausência destes, que se avalia a oportunidade ou conveniência de ser feita a Consagração a Nossa Senhora.

Precisamente é o contrário: a Consagração total cria condições favoráveis à nossa perseverança e santificação.

São Luiz,isto sim, acentua ser necessário (n.99) o seguinte: firme resolução de evitar o pecado mortal; esforço para evitar reincidir nos pecados passados e a busca de uma autêntica vida de oração, penitência e apostolado.

Ora, de si, nisso consiste a real obrigação de todo católico.


9. Existe alguma data específica para que a Consagração se realize?

Não há nada especificado no “Tratado”, mas o costume é que seja escolhida uma festividade de Nossa Senhora.


10. Como são os 30 dias de preparação?

Fazem-se orações simples, mas com especial atenção e piedade, durante esse período. São Luiz propõe que tais exercícios espirituais sejam realizados durante 30 dias, renovando-os, se possível, todos os anos, uma vez observado o que recomenda no Tratado (n. 227-233).

Para esse efeito, leia-se a relação das orações, bem como os textos respectivos, que aparecem no apêndice desse livro:

- 12 dias preliminares pedindo o desapego do mundo, rezando-se, a cada dia, “Veni, CreatorSpiritus” e “Ave Maris Stela”;

- 1ª semana (6 dias), pedindo o conhecimento de si mesmo, rezando-se a cada dia a “Ladainha do Espírito Santo” e a “Ladainha de Nossa Senhora”;

- 2ª semana (6 dias), pedindo o conhecimento da Virgem Maria, rezando-se a cada dia a “Ladainha do Espírito Santo”, a “Ave Maris Stela” e um Terço;
- 3ª semana (6 dias), pedindo o conhecimento de Nosso Senhor, rezando-se a cada dia a “Ladainha do Espírito Santo”, a “Ave Maris Stela”, a “Oração de Santo Agostinho”, a “Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus” e a “Ladainha do Sagrado Coração de Jesus”.


11. No dia da Consagração, o que se faz?

Comunga-se (desde que devidamente preparado; recomenda-se, inclusive, a confissão no próprio dia, se possível), escreve-se a fórmula da consagração (encontra-se no final do Tratado, chamada “Consagração de si mesmo a Jesus Cristo, Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”), que deve ser, ao final, assinada pela pessoa, comprovando-se, por esse meio, a determinação da consagração inteira.

Recomenda-se ainda, nesse dia, a prática de alguma penitência, por menor que seja (n. 231-232).


12. O que dizer à pessoa que ainda não leu o “Tratado”?Poderá, mesmo assim, fazer a Consagração, ou iniciar os 30 dias de preparação para a mesma?

Em linhas gerais, é mais recomendável não se Consagrar, e nem mesmo dar início aos 30 dias de preparação, sem a leitura completa do Tratado. Motivo: dificilmente alguém poderá preparar-se corretamente para a Consagração sem antes conhecer tudo quanto explica São Luiz, no Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora.Além do mais, a Consagração, de forma solene, é feita uma vez na vida, e, portanto, é importante que se faça com todo esse cuidado e essa preparação, aqui indicada.

Assim, aos que tiverem concluído a leitura do TRATADO, recomenda-se iniciar os 30 dias de preparação.


13. Caso a pessoa tenha sido omissa em algum exercício prático nos 30 dias ou no dia da própria Consagração, ou então tenha cometido algum pecado mortal durante a preparação, deverá desistir de se consagrar no dia que se propôs fazê-lo?

Como regra geral, recomenda-se que não desista, e faça a consagração, mesmo assim.

Sendo um ato interior, não depende necessariamente dos atos exteriores de preparação. Ora, o demônio odeia a Consagração, e poderá utilizar-se, como de um subterfúgio, de um despropositado escrúpulo de nossa parte (por exemplo, o de não haver cumprido cem por cento a preparação) para nos levar a desistir de algo tão benfazejo.

Por isso, não se deve desistir, caso a preparação tenha sido feita com falhas e irregularidades, de nossa parte.


No caso de uma queda em pecado mortal, que haja, evidentemente, arrependimento e se busque a Confissão. o mais rápido possível.


Fonte: Consagrate
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