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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Desmascarando o Dalai Lama e o budismo: A IDEOLOGIA DA REENCARNAÇÃO SUSTENTAVA A OPRESSÃO FÍSICA E O CATIVEIRO SEXUAL



DESTAQUE


“Nos anos 50 (...) no Tibete (...) sete em cada dez cidadãos eram servos presos à propriedade. Se fossem flagrados fugindo, ganhavam castigos que iam de açoites à amputação dos pés, mãos, nariz, orelhas e olhos. Garotos serviam como escravos sexuais dos monges, que governavam o país e a justiça local. À frente desse sistema estava ninguém menos que Tenzin Gyatso, o grande líder espiritual, o ganhador do Nobel da Paz, o homem que ainda hoje percorre o mundo espalhando mensagens de sabedoria e é conhecido como sua santidade, o Dalai Lama.

No livro The Struggle for Modern Tibet (‘A Luta pelo Tibete Moderno’), o tibetano Tashi Tsering relata sua vida como drombo, um escravo sexual de um monge influente. Os monges tibetanos eram celibatários, o que na sociedade tradicional tibetana significava essencialmente abster-se do sexo com mulheres. Por isso os homens mais poderosos arranjavam jovens amantes – os mais requisitados eram os que atuavam em papéis femininos na ópera tibetana. Ou aqueles que faziam parte de equipes de dança, como Tsering. Ele próprio, que se diz heterossexual, garante que a prática era considerada natural no Tibete".



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Leandro Narloch



INTRODUÇÃO

Nos anos 50 (...) no Tibete (...) sete em cada dez cidadãos eram servos presos à propriedade.  Se fossem flagrados fugindo, ganhavam castigos que iam de açoites à amputação dos pés, mãos, nariz, orelhas e olhos.  Garotos serviam como escravos sexuais dos monges, que governavam o país e a justiça local.  À frente desse sistema estava ninguém menos que Tenzin Gyatso, o grande líder espiritual, o ganhador do Nobel da Paz, o homem que ainda hoje percorre o mundo espalhando mensagens de sabedoria e é conhecido como sua santidade, o Dalai Lama.

(...)

O Dalai Lama tinha então 24 anos.  Na década de 1960, hippies se voltaram ao Oriente em busca de ensinamentos exóticos, e, assim, o líder vindo daquele país escondido e elevado começou a se transformar no que o Ocidente esperava dele: um mestre mundial da meditação e da paz interior.  Sua luta justa contra a opressão chinesa passou a estampar camisetas em todo o mundo, enquanto o passado negro do Tibete foi sendo esquecido.  Por isso é bom relembrá-lo, e uma boa forma de fazer isso é mostrando como o Tibete independente não vivia de acordo com os ensinamentos do Dalai Lama dos anos 2000.”

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A IDEOLOGIA DA REENCARNAÇÃO SUSTENTAVA A OPRESSÃO FÍSICA E O CATIVEIRO SEXUAL

Nos mosteiros, os servos faziam quase todo o serviço braçal, o que, muitas vezes, resultava em arrancar jovens de suas famílias para enviá-los a trabalhos insalubres em lugares distantes.  Em 1940, por exemplo, o mosteiro de Drepung, o principal do Tibete, com cerca de 7 mil internos, enfrentou problemas de abastecimento de lenha para o chá que os monges bebiam diariamente.  O problema foi resolvido, obrigando-se 12 rapazes das famílias de servos a morar em tendas numa montanha distante.  Lá, tiveram de cortar e transportar lenha durante dez anos, além de arranjar comida por conta própria.

Esse sistema se fundamentava na visão do mundo dos tibetanos.  Eles acreditavam em carma e reencarnação.  Qualquer penúria nesta vida seria uma punição pelas más ações cometidas em vidas passadas.  O sofrimento, portanto, não vinha da opressão dos aristocratas ou do governo, mas de um castigo divino por atos em vidas pregressas, dos quais o culpado não fazia a menor idéia.  Para se livrar do carma e ter mais sorte na vida seguinte, o melhor caminho era aceitar o destino e ser obediente.  Não havia razão para se revoltar contra os senhores ou batalhar para ter uma vida melhor.

Nem por isso o sistema era aprazível.  O pior da vida dos servos era o vínculo eterno e a subserviência permanente.  Os senhores aplicavam punições, eram juízes em disputas e controlavam cada movimento das pessoas sob seu domínio e proteção”.

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Por essas e outras, ver o Dalai Lama falando de igualdade e generosidade em palestras sustentáveis deveria soar tão estranho quanto um senhor de escravos brasileiro alcançar fama mundial pela luta contra a escravidão”.

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Outra característica que espantava os visitantes estrangeiros era a quantidade de monges no Tibete.  Em 1940, quando o país tinha cerca de 5 milhões de habitantes, entre 10% e 20% dos homens eram monges celibatários vivendo em 250 monastérios.  Os três maiores, ao redor de Lhasa, eram cidades que abrigavam, no total, 20 mil religiosos.  Na Tailândia, outro país em que o budismo é expressivo, os monges representavam apenas de 1 a 2% da população masculina.

Essa quantidade de sacerdotes existia por dois motivos.  O primeiro não era nada espiritual: ingressar nos mosteiros era a forma mais fácil de escapar da servidão.  Bastava pedir autorização para o senhor das terras, que costumava concedê-la, e pronto.  Enquanto o cidadão permanecesse na ordem monástica, estava livre de realizar trabalhos forçados e passava a ocupar uma atividade vista como uma grande honra.  Não é difícil imaginar a quantidade de tibetanos que escolhia a vida religiosa para fugir do trabalho nas lavouras e o número maior ainda de mães e pais que mandava seus filhos para um mosteiro buscando livrar pelo menos um familiar daquela sina”.

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O outro motivo é que, entre tibetanos, a superioridade espiritual não estava na virtude ou na capacidade intelectual dos monges, mas na quantidade de religiosos.  Por isso não era preciso ser aprovado em nenhum exame para entrar no monastério: provas de erudição eram necessárias apenas àqueles que pretendiam ocupar cargos administrativos.  Até mesmo os analfabetos tinham lugar garantido, e era preciso fazer algo bem grave para ser expulso, como matar alguém ou ter uma relação sexual com uma mulher (mas não com homens).

(...)

No livro The Struggle for ModernTibet (‘A Luta pelo Tibete Moderno’), o tibetano TashiTsering relata sua vida como drombo, um escravo sexual de um monge influente.  Os monges tibetanos eram celibatários, o que na sociedade tradicional tibetana significava essencialmente abster-se do sexo com mulheres.  Por isso os homens mais poderosos arranjavam jovens amantes – os mais requisitados eram os que atuavam em papéis femininos na ópera tibetana.  Ou aqueles que faziam parte de equipes de dança, como Tsering.  Ele próprio, que se diz heterossexual, garante que a prática era considerada natural no Tibete”.

OS CRIMES BÁRBAROS DO BUDISMO

A compaixão que o Dalai Lama defende hoje tampouco era o forte do Tibete.  Criminosos e servos que tentassem fugir dos seus senhores ganhavam castigos não exatamente condizentes com a idéia de direitos humanos.  Os tibetanos acreditavam que as punições deveriam ser breves, dolorosas e públicas.

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Uma das leis máximas do budismo tibetano é que não se devem matar seres vivos.  Os monges budistas evitam matar animais (até baratas) por acreditar que eles poderiam ter sido gente em vidas passadas.  Desse modo, não poderiam condenar os prisioneiros à morte.  Mas para tudo há um jeitinho.  Um deles era chicotear o condenado até que ficasse agonizante e então liberá-lo.  Uma inglesa que visitou a cidade de Gyantse em 1922 testemunhou um chicoteamento público de uma pessoa que depois foi forçada a passar a noite no topo de uma montanha, onde congelou até morrer.  A morte era apenas questão de tempo, mas seria considerada “um ato divino”.  Mesmo quem concorda com essas punições para criminosos graves há de convir que elas não combinam com mestres de tolerância e da compaixão.

Outras formas de punição incluíam decepar mãos na altura dos pulsos, arrancar os olhos usando tiras de couro de iaque e ferro quente, pendurar um prisioneiro pelos dedões.  Esses castigos parecem boatos criados pelos comunistas chineses para justificar a invasão.  Não são.  Em diversos relatos de oficiais ingleses e de outros estrangeiros que viveram no Tibete, há comentários sobre pessoas com olhos arrancados e sem uma das mãos ou uma das pernas por terem cometido crimes.  Uma reportagem da revista americana Life, publicada em 1950, durante a invasão chinesa, exibiu relatos e fotos de açoites públicos e de condenados presos pelo pescoço a tábuas de madeira, como se faz em bois para atá-los a uma carroça.  Os condenados dessa ocasião eram seis oficiais de fronteira que atacaram, por engano, uma comitiva americana.  Como um americano foi morto, o governo do Tibete decidiu condenar os oficiais, de modo que os americanos puderam acompanhar o método local de julgamento.  O antropólogo Frank Bessac, um dos membros daquela comitiva, contou à revista Life:

‘Fui informado que os seis oficiais haviam sido condenados e sentenciados pela corte militar.  O líder teria nariz e orelhas cortados.  O homem que deu o primeiro tiro também perderia as orelhas.  O terceiro perderia uma orelha e os outros levariam 50 açoites cada um.  [...] Achei que essa punição era severa demais, então perguntei se poderia ser aliviada.  Meu pedido foi aceito, e os homens que seriam mutilados foram condenados a 200 chibatadas.’

Apesar da freqüência de relatos como esse, a imagem que ficou dos monges tibetanos é a oposta.  Um exemplo é o filme Sete Anos no Tibete, em que Brad Pitt interpreta o austríaco Heinrich Harrer, um alpinista refugiado no Tibete durante a Segunda Guerra.  O Dalai Lama trava amizade com o estrangeiro e pede que ele o ajude na construção de um cinema no país.  Quando as obras começam, o lama vai visitar o local, mas decide interromper a construção.  As obras de fundação estariam machucando as minhocas do terreno.  Pelo visto, as minhocas não eram culpadas por nenhum crime”.

(Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, São Paulo, Leya, 2013, pp. 209-220)


Fonte: Catolicismo e Conservadorismo

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A reencarnação sob o olhar da filosofia





Na primeira parte, o confronto da teoria da reencarnação com a fé católica nos mostrou sua oposição radical. Resta-nos esclarecer o tema à luz da razão natural. A tese com que nos deparamos conforma-se com a realidade? É compatível com a natureza das coisas? A segunda parte de nosso estudo exige notas preliminares. Nosso primeiro ponto de vista fora o da fé, o principal argumento era a autoridade de Deus, que fala pela Tradição, pela Santa Escritura e pelo Magistério da Igreja. Por assim dizer, contribuímos passivamente ao julgamento da reencarnação pelos guardiões da fé.
Aqui, o itinerário é bem diferente. Nosso ponto de partida não é mais um argumento de autoridade, mas a observação do mundo sensível. Conforme o princípio realista, “nada há na inteligência que não seja antes nos sentidos”, o homem que deseja compreender o mundo físico e dele extrair as leis fundamentais deve começar a observar as coisas que o rodeiam. Assim, para analisar as complexas noções de vida, de alma, e as relações da alma e do corpo, convém que partamos do real concreto. Caso contrário, nos arriscaríamos construir um sistema ― coerente e sedutor, talvez ―, mas sem relação com a realidade. Não se trata de escrever um romance, mas de descobrir a verdade. Todavia, o mundo sensível é apenas um ponto de partida. A inteligência busca os princípios explicativos da natureza. Portanto, deve penetrar na intimidade mesma das coisas, ultrapassando a ordem sensível. Deve se elevar do visível ao invisível, a um grau de conhecimento que lhe é próprio e que deixa muito atrás de si a sensibilidade e a imaginação. É bom tocarmos nesse assunto logo no início do estudo, pois os temas abordados aqui são particularmente delicados. Muitos se equivocaram por não saberem desapegar-se de uma visão puramente sensível e materialista do mundo. É o que já constatava São Tomás de Aquino: “os antigos filósofos, não conseguindo ir para além de sua imaginação, diziam que o princípio do conhecimento e do movimento é um corpo”1. “E como os antigos naturalistas criam que nada existiria se não fosse corpo, diziam que a alma é corpo”2. Não surpreenderá, pois, se, nos desenvolvimentos que se seguem, algumas passagens difíceis forem encontradas. Não podemos fazer economia se queremos dar à teoria da reencarnação uma resposta fundamentada que vá para além do “bate-boca”. É sinal de atenção e respeito aos sectários de um erro levar a sério suas objeções e lhes responder com exatidão.
Expostos tais pontos, vamos à tese da transmigração das almas. Quais são seus pressupostos filosóficos e quais dificuldades suscitam?
Se a alma deve atravessar várias vidas terrestres antes de alcançar a felicidade, passando de corpo em corpo, está claro que não está ligada particularmente a nenhum deles. A alma só ocasionalmente está no corpo, pois a alma é estrangeira ao corpo. Isso pressupõe uma concepção especial da alma e de suas relações com o corpo. Ademais, a metempsicose — que admite a reencarnação em outros seres que não os humanos – parece dar às almas dos vegetais e dos animais as mesmas prerrogativas da alma humana.
Alguns partidários dessa tese afirmam ainda se lembrar de suas vidas passadas. Está posto o problema da memória. Ela reside na alma espiritual ou no corpo? Nesse último caso, uma mudança de corpo não deveria apagar qualquer lembrança do passado? Somos, portanto, levados a estudar sucessivamente a alma em si, e após, suas relações com o corpo e, finalmente, as potências da alma, em particular a memória3.
A alma se apresenta a nós sob os diversos aspectos, que aproveitamos para estudar separadamente com o fim de penetrar progressivamente na sua natureza, ainda que estes aspectos não sejam separados na realidade: a alma é o princípio da vida, a forma do corpo, o ato do corpo.

O princípio da vida
A primeira experiência que nos propiciam os sentidos, após a da existência das coisas, é a do seu movimento. Vemos nuvens e pássaros se deslocar, as estações sucederem-se; brotar a erva, os seres aparecerem e desaparecerem. Contudo, a atenta observação desses vários momentos nos faz descobrir entre eles uma linha demarcatória que separa o mundo em duas partes bem distintas. Alguns seres, com efeito, só se movimentam sob a ação de um princípio exterior. Seu movimento não segue uma determinação interna. Não têm iniciativa. Outros, pelo contrário, têm em si mesmos o princípio de seu movimento. Os primeiros são movidos por outro. Os segundos se movem a si mesmos.
Ora, essa diferença é precisamente a que distingue os seres vivos dos seres não vivos. O movimento está de tal modo ligado à vida, que — quando algo não se move mais —, dizemos que está morto e — ao contrário, que vive — quando o movimento aparece. “O que distingue os vivos dos não vivos é aquilo porque a vida se manifesta em primeiro lugar e que se conserva até o fim. Ora, a primeira coisa que nos faz dizer que um animal vive é o fato de ele começar a se mexer, e dizemos que vive na proporção medida que esse movimento aparece nele”4. Mas o movimento que revela a vida é somente aquele que a coisa dá a si mesma. “Quando não há mais movimento por si mesmo, mas que é movido por outro, dizemos que o animal está morto, que a vida o deixou. Daí parece que são propriamente chamados de vivos os que se movem a si mesmos segundo certo tipo de movimento.”5
Observemos os principais movimentos que se apresentam a nós: quanto ao movimento local, constatamos que as dunas das bordas oceânicas se deslocam e mudam de forma, mas isso se deve à ação do vento. Por si mesmas, são inertes. Ao contrário, é por um dinamismo interior que a mosca voa e que o cão corre. Quanto ao aumento, as estalactites subterrâneas crescem, mas unicamente por influência da infiltração de água. Seu crescimento é apenas uma acumulação de matéria e não um processo de desenvolvimento interno, ao passo que o musgo no teto cresce por si mesmo. O jardineiro que poda a grama sabe que ela crescerá novamente devido a um fenômeno que não se explica somente por influências exteriores. Em contrapartida, o metal só se dilata se exposto a uma fonte de calor. Se os minerais se desenvolvessem por si sós, teríamos todos nós diamantes, prata e ouro em profusão!
A análise das outras espécies de movimento próprias aos seres vivos, tais como a nutrição e a geração, isso nos conduziria aos mesmos resultados. O ser vivo é o que se move por si mesmo, graças a um dinamismo interno que não se reduz a ações exteriores. Os filósofos resumiram isso numa definição concisa: a vida é o movimento próprio de si, motus sui.
Mas o que, na natureza do ser vivo, lhe permite o movimento por si próprio e, assim, distingue-o radicalmente dos não vivos? Qual o segredo da vida, o princípio desse movimento próprio de si? A linguagem corrente nos dá uma indicação: “dizemos que os vivos são animados, e que os não vivos são inanimados”6. É o fato de ser animado, de possuir uma alma, que permite a algo ser vivo.
Ser vivo é ter alma. Isso é confirmado por uma constatação: para cada alma distinta, uma atividade distinta. O animal, por exemplo, se desloca por um movimento próprio, diferentemente dos vegetais. “A percepção sensível é certa mudança; ora, só a encontramos nos que têm uma alma. Da mesma forma, o movimento de crescimento e decréscimo só se encontra naqueles que se alimentam. Ora, só os que têm uma alma se alimentam. É, pois, a alma o princípio de todos os movimentos”. Eis o primeiro aspecto, a primeira definição da alma que nos dá a experiência: a alma é o princípio da vida do vivente.
Esse primeiro resultado vai fornecer dois elementos para responder ao problema que nos ocupa. De fato, a alma nos foi mostrada sob seu aspecto dinâmico. Ela é a função vital de um corpo vivo. Não é somente a harmonia ou a boa organização das partes do corpo, mas fonte de vida e de movimento. ”A alma é causa e princípio do corpo vivo”7. A etimologia é esclarecedora: o latim anima traduz o grego yuchv, que vem do verbo “eu respiro”. A alma é como o sopro vital que sustenta o corpo. Isso quer dizer que a alma está em contato direto com o corpo; sua função é ser a fonte de vida de um corpo. Uma alma não se pode conceber sem seu correlativo ― o corpo que ela vivifica.
Ao contrário, os adeptos da reencarnação imaginam a alma como criada para si mesma, justificando-se por si só, sem possuir relação necessária com um corpo. A união da alma e do corpo seria o fruto de um erro, não um estado natural. Por outro lado, se a alma é por sua mesma natureza o princípio vital de um corpo, isso quer dizer que ela não é o próprio vivente, mas uma de suas partes. O que vive não é apenas a alma, mas o composto corpo e alma. Aristóteles faz uma comparação: “se o olho fosse um animal independente, a visão seria sua alma”8. Ora, o que vê não é somente o olho, nem é somente a visão, mas o olho dotado de visão. Uma visão sem órgão não vê absolutamente nada! Do mesmo modo, “não dizemos que a alma anda, vê ou escuta, pois é o homem que o faz, graças a ela”… “é o lutador que luta graças à aptidão de lutar adquirida por ele, e não a luta que luta por si mesma”… “Da mesma maneira, não é a alma que, por si mesma, desempenha qualquer uma das funções vitais, mas sim o ser animado que as exerce pela alma”9.
Não é isso o que se observa na experiência comum? Suponhamos um homem a passear por um jardim: ele cheira uma flor, recorda-se de um fato, reflete sobre o futuro e se põe a rezar. Quem é o sujeito de todas essas operações? Por acaso seria, sucessivamente e sem um laço entre elas, cada uma de suas potências: a faculdade motora, o odor, a memória e a inteligência? Seria ora seu corpo, ora sua alma? Não seria antes o mesmo personagem, que é composto alma e corpo? Cada um de nós possui o sentimento desta unidade de nossa vida e experimentamo-la cada vez que empregamos o pronome “eu”. É um só e mesmo “eu” que dorme, come, sonha ou lamenta suas faltas.
Para a reencarnação, ao contrário, o vivente é só a alma. O corpo é apenas uma morada fortuita e permutável.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A reencarnação sob o olhar da fé






Em 1982, uma sondagem do instituto Gallup revelava um fenômeno impressionante da mentalidade ocidental. Um em cada quatro europeus declarava ser adepto da teoria da reencarnação. O fenômeno tinha todas as oportunidades para se expandir, uma vez que, no mesmo ano, 28% dos britânicos apoiavam esta doutrina enquanto, dez anos antes, não eram mais de 18%.

As cifras crescem sem parar nos últimos 12 anos. Mostram de modo evidente que essa crença não se limita às margens do Ganges, mas que exerce uma real força de sedução nas mentalidades ocidentais. A multiplicação dos livros, artigos, programas televisivos, filmes, que se prestam a gravá-la na inteligência, convida-nos a examiná-la atentamente.

Apresentação geral

A reencarnação, ou metempsicose, é uma doutrina filosófica que prega a transmigração da alma, ao considerá-la suficientemente independente do corpo para que não esteja ligada a ele de modo exclusivo. Depois da morte, ela une-se a outro corpo para começar nova vida. A alma é semelhante a um homem que tem de mudar-se regularmente. Em uma determinada data, deixa necessariamente uma morada para ir habitar em outra. A metempsicose distingue-se da reencarnação no que admite a migração das almas nos animais e nas plantas, enquanto esta última a restringe ao gênero humano.

Uma breve exposição nos ajudará a conhecer melhor tais doutrinas1. As tribos animistas da África conservaram a religião das hordas ancestrais. Na morte, a alma lamenta pelo seu corpo, desejando assim unir-se seja aos objetos a que era apegada, seja aos animais ou mesmo aos seres humanos. As coisas ou animais tornavam-se protetores da família dos descendentes. A metempsicose encontra-se aqui mais próxima da superstição que da religião. Ainda que de modo secundário, essa crença ressurge em uma forma mais elaborada no Egito das pirâmides. Para os egípcios, a alma, depois da morte, vai juntar-se às estrelas incontáveis (versão mais antiga), ou fundir-se na alma universal que habita o sol (versão panteísta mais tardia). Por vezes, todavia, a alma do pecador pode ser constrangida a entrar no corpo de um porco para que ali leve uma vida miserável sobre a terra.

Tal doutrina aparece na Grécia por volta do século VI a.C.. Desconhecida até então, logo adota um novo formato, elaborado através do mito de Orfeu. Composto de um elemento mal e outro divino, o homem deve se libertar do princípio maligno que quer governá-lo, para permitir o triunfo da força divina. Logra-o por purificações sucessivas, reiteradas ao longo de uma série de existências terrestres, até o ponto em que se escuta dizer esta sentença liberadora: Bem-aventurado e feliz, serás deus e não mais mortal2.

Pitágoras faz sua a teoria. Mais ainda, afirma lembrar-se de todas as vidas anteriores, que faz começar em Aitalides, filho de Hermes. Platão é mais prudente em seus escritos: Em tal matéria, é impossível, ou pelo menos dificílimo, chegar a uma evidência. (Fédon, 85) Contudo, sua concepção da metempsicose não é menos precisa. Na morte, a alma passa uma estada no inferno para um tempo de provações, depois do que se une por iniciativa própria aos seres que se lhe assemelham. Se a alma se encontra pura no momento da morte, isto é, isenta de todas as máculas do corpo, é-lhe imposta não obstante uma provação de três mil anos, em meio de que precisará sofrer três outras vidas terrestres, conservando a inocência. Só então será fundida para sempre em um espírito divino, imortal e cheio de sabedoria. Por outro lado, a alma dos tiranos e dos incorrigíveis viverá em uma eterna infelicidade, unida aos seres corrompidos que se lhe assemelham. Quanto àqueles cuja malícia não é invencível, podem reencarnar para se purificar e avançar até à sabedoria. A despeito disso, mil anos de provação separam duas encarnações sucessivas. Aristóteles considera com desdém o que chama de “fábulas pitagóricas”3 Recusa-as baseado em graves razões filosóficas, que iremos examinar. A alma não é estranha ao corpo. Constitui, com o corpo, um todo substancial, uma só realidade concreta. Uma alma determinada dá o ser e aperfeiçoa um determinado corpo: “Uma alma não pode entrar num corpo qualquer”4

No final do século II antes de nossa era, a metempsicose passou da Grécia para Roma por intermédio do poeta Ênio (239-169 a.C.). Aí parece ter sido admirada, já que descobrimos menções a seu respeito em Horácio, Ovídio e Virgílio.

Mas é na Índia e no Oriente Distante que a teoria da reencarnação encontrou sua terra de predileção, conhecendo sucesso prodigioso. Notemos, antes de tudo, que os livros védicos, levados pelos Arianos ao norte do país (2000 anos a.C.), não davam qualquer sinal da metempsicose. Essa só aparece com os Upanishads (700 anos a.C.). Tal moral está subtendida por um princípio primordial: a felicidade das almas consiste na fusão com a alma universal do tudo. A boa ação é a que favorece o aniquilamento da personalidade, dos apetites, da atividade própria. E, já que a fonte de todo mal é a sede de existência, o ato mal é o que a alimenta. Enquanto a soma dos atos maus não for compensada pela dos atos bons, a alma deverá renascer à vida terrestre. Ela será liberada dessa fatalidade quando tiver apagado todo desejo de existir, quando tiver atingido a inação absoluta, o vazio completo. É a absorção na alma universal (o brahma) ou nirvana.

O budismo na China retoma o mesmo pensamento, radicalizando-o. Como seu predecessor, segue a destruição da personalidade, mas parece ignorar a alma suprema, a ponto de só se interessar pelo nirvana em si mesmo. Acentua, destarte, o niilismo hindu. Métodos ascéticos mui austeros são estabelecidos, a fim de se realizar o nada, não mais obstando a reminiscência das vidas passadas.

No Oriente assim como no Ocidente, a metempsicose nos parece como um fenômeno em contínua expansão. Nada parece deter sua progressão. Nada, salvo o cristianismo. Com efeito, só o formidável esforço da Igreja nos dois primeiros séculos de nossa era pôde estancar tal doutrina. Em todo lugar onde o Evangelho foi pregado, ela caiu no esquecimento ou teve de se esconder. No Ocidente, vemo-la refugiar-se na cabala do século II. Qualquer alma, ensina, possui em si o princípio de seu próprio aperfeiçoamento, devendo conduzi-la até à substância divina, onde entrará depois de uma ou várias vidas terrestres.

Os gnósticos retomam a mesma concepção dinâmica da reencarnação. Esta não é tão-somente punição pelas faltas de vidas passadas, mas uma etapa da ascensão da alma à divindade pelo impulso de seu próprio dinamismo interior.

Veiculada pela cabala e pela gnose, tal pensamento é retomado, no século XVI, pelo matemático Jerome Cardan (1501-1576) e pelo filósofo Giordano Bruno (1548-1600). O século XIX fornece vários adeptos notórios desse pensamento, mas é contudo com a teosofia e a antroposofia, no século XX, que o movimento toma um formidável alcance.

Tal é, por exemplo, o vaticínio de Rudolf Steiner5, fundador da antroposofia: “Quando superamos a ilusão do EU terrestre habitual, escreve ele, quando logramos a visão espiritual, podemos reconhecer o EU tal como atravessou o mundo espiritual entre a morte e um novo nascimento, e como no seio desse mundo dotado de impulsos morais, ele se comporta em função de sua vida terrestre precedente, e como introduz na vida terrestre atual tudo o que vimos exprimir-se nas inclinações do ser humano (...). “Quando observo uma planta, me é possível perceber que ela tem em si um impulso vital durável, que reaparecerá em uma outra planta quando a primeira já estiver, muito tempo depois, reduzida a cinzas.”6

Nos anos 60, com a fascinação pela Índia, a expansão toma aspecto de um grande contágio. Assistimos a uma verdadeira campanha orquestrada por todos os meios de comunicação. Os livros se multiplicam, os testemunhos mais perturbadores são transmitidos pelas ondas e telas7. Logo, a “Nova Era” faz disso um de seus temas favoritos, dando a ele a eficaz sustentação de sua organização e finanças. A propaganda alcançou um formidável sucesso, o que constatamos até à hora presente.

Concluamos este sobrevôo de séculos e civilizações por um comentário geral. O cônego Vernette observa, com justeza, que a teoria da reencarnação não aparece nas diversas religiões, nem no seu nascimento nem à sua idade de ouro, mormente em seu declínio. Denuncia certo desgaste, marca o fim de uma era. “A crença na reencarnação parece surgir no momento das grandes crises de sentido: quando buscamos uma nova resposta religiosa às questões metafísicas a respeito da origem e do fim do homem, sobre o mal e o sofrimento”. A religião é sufocada e torna-se impotente para responder as inquietudes do homem. Este, pois, se refugia na metempsicose. Graças a ela, em primeiro lugar, nossos mortos não nos deixam mais, porém continuam a viver entre nós. Ela também nos vem consolar de nossos fracassos e de nossa impotência em fazer o bem, fazendo-nos crer que outra vida nos tornará melhores. Nada está definitivamente decidido. O sofrimento toma um novo sentido. Não é mais um escândalo revoltante para aqueles que  não são cristãos, mas a justa expiação de uma vida anterior. Enfim, essa doutrina nos dá serenidade para enfrentar os males do tempo presente. Os cataclismos e a morte são apenas passagens obrigatórias para uma nova existência mais feliz. O “paraíso terrestre” permanece sempre possível. Compreendemos melhor a força de sedução que essa doutrina exerce sobre os espíritos deste fim de século XX. Mas a metempsicose cumpre suas promessas? Tem alguma possibilidade de conduzir o homem à felicidade? É crível? É verdadeira?

Para responder, devemos examinar tal doutrina de um duplo ponto de vista: o da fé e o da razão natural.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Porque o Católico não pode ser Espírita

1. O Católico: admite a possibilidade de “mistério” e aceita as verdades sempre que tem certeza que foram reveladas por Deus. O Espírita: proclama que absolutamente não há “mistérios” e tudo o que a mente humana não pode compreender, é falso e deve ser rejeitado.

2. O Católico: instruído  crê  que  Deus pode  e  faz milagres. O Espírita:  rejeita  a  possibilidade  de milagres e ensina que Deus também deve obedecer às “leis” da natureza.
3.  O  Católico:  crê  que  os livros  da  Sagrada  Escritura  foram  inspirados  por  Deus, portanto,  não podem  ter erros em questão de fé  e  moral. O Espírita: declara que  a  Bíblia está cheia  de  erros e contradições e que nunca foi inspirada por Deus.
4.  O  Católico:  crê  que  Jesus  enviou  o  Espírito  Santo  aos  apóstolos  e  seus sucessores para  que pudessem  transmitir fielmente,  sem  erros, a  sua Doutrina.  O Espírita:  declara que  os apóstolos e seus sucessores não entenderam os ensinamentos de Cristo e que tudo o que eles nos transmitiram está errado, é falsificado.
5. O Católico: crê que Jesus instituiu a Igreja para continuar sua obra. O Espírita: declara que até a vinda de Allan Kardec a obra de Cristo estava perdida e inutilizada.
6. O Católico: crê que o Papa, sucessor de Pedro, é infalível em questões de fé e moral. O Espírita: proclama que os Papas só espalharam o erro e a incredulidade.
7. O Católico: crê  que  Jesus nos ensinou  toda  a  Revelação  e nada  mais há  para  ser  revelado.  O Espírita:  proclama  que  o  espiritismo  é  a  terceira  revelação,  destinada  a  retificar  e  substituir  o Evangelho de Cristo.
8. O Católico: crê no Mistério da Santíssima Trindade. O Espírita: nega esse augusto mistério.
9. O Católico: crê que Deus é o Criador de tudo, Ser Pessoal, distinto do mundo. O Espírita: afirma que os homens são partículas de Deus – verdadeiro panteísmo.
10.  O Católico:  crê  que  Deus  criou a  alma  humana  no  momento  de  sua  união  com  o corpo.  O Espírita: afirma que nossa alma é o resultado da lenta e longa evolução, tendo passado pelo reino mineral, vegetal e animal.
11. O Católico: crê que o homem é uma composição substancial de corpo e alma. O Espírita: afirma que  é  um  composto entre  “perispírito” e alma e que o  corpo  é  apenas invólucro  temporário, um “Alambique para purificar o espírito”.
12. O Católico: obedece a Deus que, sob penas severas, proibia a evocação dos mortos. O Espírita: faz dessa evocação uma nova religião.
13. O Católico:  crê  na existência  de anjos e  demônios.  O Espírita:  afirma que não há anjos, mas espíritos  mais  evoluídos  e  que  eram  homens, que  não existem demônios, mas  apenas espíritos imperfeitos que alcançarão a perfeição.
14. O Católico:  crê que Jesus é  verdadeiramente  o Filho Unigênito de  Deus, a  segunda pessoa da Santíssima Trindade. O Espírita: nega esta verdade fundamental da fé cristã e afirma que Cristo era apenas um grande “médium” e nada mais.
15.  O Católico:  crê  que  Jesus é  também  verdadeiro  homem,  com  corpo  real  e  alma  humana.  O Espírita: em grande parte, afirma que Cristo tinha apenas um corpo aparente ou fluídico.
16.  O  Católico:  crê  que  Maria  é  Mãe  de  Deus,  imaculada,  assunta  ao  céu.  O  Espírita:  nega  e ridiculariza todos os privilégios de Maria, Mãe de Deus.
17. O Católico: crê que Jesus veio para nos salvar por sua Paixão e Morte. O Espírita: afirma que Jesus não é nosso Redentor, mas apenas veio para ensinar algumas verdades e isso mesmo de um modo obscuro, e que cada pessoa precisa remir-se a si mesmo.
18. O Católico:  crê que Deus  pode perdoar  o pecador  contrito.  O Espírita:  afirma  que  Deus não pode  perdoar  pecados sem que preceda  rigorosa  expiação  e reparação feita pelo próprio pecador, sempre em novas reencarnações.
19. O Católico:  crê  nos sete sacramentos e  na  graça própria de  cada sacramento. O Espírita: não aceita nenhum sacramento, nem mesmo o poder da graça santificante.
20. O Católico:  crê  que o homem vive sobre a terra  e que  desta  única existência  depende a  vida eterna. O Espírita: afirma que a gente nasce, vive e morre e renasce ainda e progride continuamente.
21.  O  Católico:  crê  que  após  esta  vida,  há  céu  e  inferno.  O  Espírita:  nega  -  crê  em  novas reencarnações.

Por Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M. Bispo da Diocese de Novo Hamburgo (RS)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Reencarnação Espírita - Pura Fantasia









METAPSÍQUICA
E
ESPIRITISMO

F. M. Palmés, S.J.
Decano e Professor de Psicologia na Faculdade Filosófica da Companhia de Jesus em San Cugat del Vallés (Barcelona).

Diretor Geral de “Balmesiana”, Codiretor de “Pensamento”
Editora Vozes Limitada - 1957

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO É UMA PURA FANTASIA DESTITUÍDA DE TODA PROVA

Capítulo XXXVI


Apesar de não ser aceita de bom grado por todos os espíritas, contudo a doutrina da reencarnação é uma das mais frequentes entre eles, principalmente entre os franceses, e conseguintemente entre os espanhóis e os da América Latina, que mais ou menos se inspiraram sempre nos dogmas do Espiritismo francês e aprenderam as doutrinas deste nas obras de Allan Kardec. Este se declara partidário decidido da reencarnação, a qual é por ele proposta como um dogma revelado pelos espíritos. Como se fossem necessárias revelações para se vir ao conhecimento de uma doutrina que, antes de o Espiritismo aparecer no mundo, já fora professada por povos em massa, principalmente antes do aparecimento do Cristianismo! Mas, embora esta doutrina não seja original, nem exclusiva e característica do Espiritismo, nem seja professada por todos os espíritas, não parece tarefa inútil dedicarmos ao estudo dela o presente Capítulo e o seguinte, demonstrando ser ela uma doutrina não somente arbitrária, por carecer de toda espécie de provas, como também contrária à razão e, em si mesma, absurda.

A doutrina da reencarnação não se demonstra.

E, antes de tudo, quais são os argumentos em que se apóia a crença nessa peregrinação contínua, ou ao menos muito porlongada, das almas através de muitos corpos? Desse tornar a submergir-se em organismos materiais depois de os haver abandonado por força da morte? De qualquer maneira que seja proposta, esta asserção é tão estupenda e tão exorbitante, e toca-nos tão de perto, que temos direito a que nos digam quais as razões em que ela se apóia; razões que, aliás, deveriam ser não já meras conjecturas, porém argumentos apodícticos, aos quais nada pudesse racionalmente resistir.

Não obstante, quem folhear as revistas e os folhetos de propaganda da seita ou das seitas que expõem como certas semelhantes fantasias, encontrará, sim, muitas afirmações, lerá a asserção frequente de que tal espírito se reencarnou em tal lugar, que tal indivíduo em outra existência foi tal outro, e quejandas, as quais servem maravilhosamente para excitar as fantasias exaltadas e o interesse mórbido de mentalidade que ofereceriam magnífica ocasião para ser estudadas pelos psiquiatras e alienistas; porém argumentos de razão, fatos bem comprovados, nem sequer provavelmente comprovados, isto não é possível descobrir em nenhuma parte.

Faltam argumentos experimentais.

E a primeira coisa que falta é a demonstração experimental, que temos o direito de exigir, dados os alardes de ciência por parte do Espiritismo, e frequentes e contínuos como seriam os fatos se fossem verdadeiros. Porque, se fosse verdadeira a doutrina da reencarnação, todos os seres humanos que atualmente vivem na terra, todos os que nela viveram desde que no mundo existe a doutrina reencarnacionista, seriam espíritos reencarnados. E, entre tantos seres reencarnados, será possível não haja muitas mais provas da reencarnação do que os casos afirmados pelos espíritas? Mas, afinal de contas, se ao menos se tivesse podido demonstrar esses poucos casos aduzidos pelos espíritas, menos mal; mas, infelizmente para eles, não há sequer um só que tenha sido cientificamente comprovado. Porquanto esta comprovação ter-se-ia feito ou pelo testemunho dos pretendidos espíritos que se comunicam pela intervenção dos médiuns e por meio dos quais viríamos ao conhecimento do fato da reencarnação, como pretende tê-lo sabido Allan Kardec; ou pelo testemunho de homens deste mundo que nos assegurariam já ter vivido antes com outros corpos, como também nos diriam as circunstâncias de suas passadas existências. Não parece que haja outro caminho para vir ao conhecimento do fato da reencarnação, dado que ele seja real.

Não se prova pela experiência dos mortos.


Pois bem: pelo que se refere ao primeiro desse pontos, o leitor já sabe o caso que deve fazer das pretensas comunicações dos espíritos através dos médiuns. Porque, de um lado, estes testemunhos são entre si contraditórios com relação não só aos pormenores como também à realidade da reencarnação, como acabamos de expor no Capítulo anterior; e, de outro lado, para que eles tivessem algum valor seria mister soubéssemos de quem são, isto é, seria mister que a chamada “identificação espírita” fosse um fato cientificamente comprovado, coisa que, como demonstramos nos Capítulos XXV, XXVI e XXVII deste livro, ela não foi até o presente, nem leva caminho de o ser jamais.

Nem se prova pela existência dos vivos.

Porém muito menos pode provar-se experimentalmente por meio do testemunho dos homens atualmente viventes. Porque, se perguntardes a qualquer homem, mesmo espírita, que experiência ele tem daquilo que ele foi em existências anteriores, e quais foram essas existências e as vicissitudes por que ele passou, se for sincero, se não estiver louco, necessariamente ele vos dirá que o ignora por completo. Ninguém tem a menor experiência daquilo que foi em outra existência. Como há de, pois, ser possível formular um argumento experimental à base do testemunho de nenhum dos seres viventes neste mundo? Não se nos oculta não faltar que, mentindo descaradamente, ou alucinado pela sua imaginação impregnada das fantasias das doutrinas espíritas, pretenda recordar-se de alguma coisa do que foi nas suas existências passadas. Porém estes testemunhos sem provas quaisquer, sem fatos com que os controlar, que podem valer perante qualquer homem de bom-senso que não tenha perdido todo o senso crítico? Tanto assim é que até os próprios espíritas exigem, ao menos de palavra, algum gênero de prova; mas não se sabe que jamais a tenham conseguido. Porque, ou elas são em si mesmas completamente impossíveis, como acontece em não poucos casos; ou então, no caso de serem possíveis, não foram levadas a efeito com o menor senso crítico, ou então deram resultados inteiramente contraproducentes, e bastantes, por si mesmos, para desacreditar todo intento de demonstração. Consideradas em si mesmas, essas provas são inteiramente impossíveis quando aquele que afirma ter vivido em outra existência diz haver sido nela um personagem, vulgar ou importante, mas desconhecido pela história; porque neste caso, por hipótese, faltam documentos para a comprovação do testemunho. Tal seria, por exemplo, o caso de quem dissesse, como o dizia Hipólito Denizart-Rivail, que noutra existência fora um sacerdote drúida chamado Allan Kardec; ou o de quem pretendesse, por exemplo, ter sido ama de leite de um sultão de Túnis que viveu na Idade Média, ou palafreneiro de Alexandre Magno. E, nos casos em que essa comprovação resultasse, de algum modo, possível, por se tratar de personagens históricos, como são aqueles casos em que a pessoa afirma ter sido em outra existência Napoleão, Carlos Magno, Aristóteles, de fato já sabemos os resultados que deram semelhantes comprovações, que não têm mais garantias do que as pretendidas “identificações espíritas”. Porquanto, nestes casos, como ficou demonstrado nos Capítulos antes citados, aquele que afirma tamanha baboseira dá como provas somente os conhecimentos que pode adquirir, na existência atual, do personagem pretérito; conhecimentos  que quase sempre são aduzidos com tanta imprecisão e vagueza, e com tantos anacronismos e impropriedades, que não há ninguém  que possa tomar a sério semelhantes intentos de demonstração. O fracasso destes evidencia-se no fato de que, apesar de se haverem reencarnado tantos sábios pretéritos, tantos homens ilustres que intervieram ativamente em acontecimentos do seu tempo que são enigmas para a história, tantos artistas e tantos sábios que levaram  consigo para o túmulo o segredo dos seus inventos e processos para a obtenção de resultados que agora nos seria sumamente útil conhecer, apesar disso não tenha havido um só caso que esse personagens que se dizem reencarnados tenham revelado à humanidade presente o que tanto se deseja saber e que tão útil seria averiguar.

Dir-se-á que isso se explica perfeitamente pelo fato de, ao se reencarnarem perderem os espíritos absolutamente a lembrança dos conhecimentos que tiveram em suas existências passadas. Que eles não os têm é muito verdade; mas não o é que os hajam perdido, porque não se perde aquilo que se não teve; e é isto precisamente o que antes de tudo se trata de provar, e não se prova, a saber: que eles os tiveram em outra existência.

Mui significativa é esta falta de memória daquilo que lhes teria acontecido em anteriores existências. À base dela havemos de formular contra a reencarnação um argumento que não tem réplica. Mas antes vejamos se porventura, na ordem filosófica, a doutrina da reencarnação tem algumas razões em que se fundar, já que a sua argumentação experimental é tão pobre e insuficiente como acabamos de ver.

Intentos de demonstração filosófica da doutrina reencarnacionista.


Não há dúvida de que não só os espíritas, como também os reencarnacionistas em geral, pretendem aduzir razões em favor da sua doutrina, mas estas são em si mesmas tão fúteis que quase não valeria a pena mencioná-las. Há-as de ordem que poderíamos chamar moral, e há-as também de ordem física ou psicológica; e todas elas se reduzem à pretensão de que, para explicar certos fatos, seria preciso recorrer à hipótese da reencarnação. A insuficiência destas razões é claríssima para quem quer que discorra serenamente; porque nem comumente é verdade que na hipótese da reencarnação se encontre uma explicação dos fatos mencionados, a não ser dando de mão àquilo que sabemos com certeza pela ciência moral ou psicológica; e nem tampouco, mesmo que a hipótese reencarnacionista pudesse dar dos referidos fatos alguma explicação, seria este um título suficiente para impô-la logicamente, enquanto, além disso, não se demonstrar não existirem hipóteses melhores e mais coerentes com as doutrinas e fatos cientificamente demonstrados.

Argumentos filosóficos de ordem moral em favor da reencarnação.

Entre os argumentos que se aduzem de ordem moral, os principais são os que se fundam no fato evidentíssimo da desigual sorte que os homens têm neste mundo, pela desigual repartição de dotes e bens naturais; e no fato, não menos evidente, das diferenças que se observam na conduta moral deles, pois os há bons e perfeitos, e também os há criminosos, viciosos e perversos. O fato é certíssimo; mas que tem este fato a ver com a hipótese da reencarnação? Segundo os espíritas, muito teria a ver, porque, dada a hipótese da reencarnação, essas diferenças podem ser atribuídas aos méritos granjeados em existências anteriores, e assim cada um e em cada existência iria, com suas obras, construindo aquilo que ele haveria de ser depois da sua morte, numa nova vida corporal. De onde resultaria que o fato da desigual distribuição de bens de toda espécie, a qual de outra sorte deveria ser atribuída a Deus com menoscabo da sua justiça, explicar-se-ia perfeitamente pela ação da cada homem, que em cada existência lavraria a sua felicidade ou infelicidade para uma vida posterior. Eis aí, em substância e brevemente exposto, o argumento que os espíritas intentam formular, partindo do fato das diversidades existentes entre os homens quanto às suas qualidades tanto físicas como morais. A inconsistência deste argumento, e a sua falta de valor lógico, é evidente. Porquanto, dado que esta hipótese explique o fato das diversidades dos homens, acaso será esta a única hipótese capaz de explicá-los? Evidentemente que não, a não ser que se diga jamais ter existido outra filosofia que a dos que professam a doutrina da reencarnação, e que a Filosofia cristã é incapaz de explicar o fato mencionado. Porém a doutrina reencarnacionista não só não é a única hipótese, nem mesmo a melhor, como também é uma suposição absurda, e portanto incapaz de explicar o quer que seja. Com efeito, a primeira coisa que se necessita para a admissão de uma hipótese é não ser ela absurda. Que a hipótese em questão é absurda e impossível, demonstrá-lo-ermos depois; aqui, contentemo-nos com fazer ver que, mesmo prescindindo de ser ela absurda, ela não é a única, nem sequer a mais satisfatória, como deveria sê-lo para que logicamente se impusesse ao filósofo.

A reencarnação não é a única hipótese para explicar o fato das diversidades dos homens.

Que, para explicar as diversidades que se notam entre os homens, não há necessidade nenhuma de recorrer à hipótese da reencarnação, ou, o que dá no mesmo, que esta explicação não é a única que de tais diversidades relativas às qualidades corporais e psicofisiológicas dos homens podem muito bem, e certamente com maior facilidade e de modo mais conforme com o que nos dizem as ciências biológicas modernas, explicar-se pela herança fisiológica; e as de ordem moral, consistentes na diversa conduta boa ou má, e nas virtudes ou vícios, explicam-se também de maneria mais natural e mais satisfatória pelo exercício do livre arbítrio de cada homem, que, por meio dele e unicamente por meio dele, é capaz de exercer domínio psicológico sobre as próprias atividades, e, portanto, de escolher entre o bem e o mal moral, de empreender uma vida virtuosa ou criminosa, contraindo a responsabilidade, o mérito ou o demérito, consequente às suas livres determinações. Nem se diga que desta doutrina, que é a da Filosofia cristã, se segue algo que seja, no mais mínimo, contrário à justiça e à bondade de Deus. Porque , sejam quais forem os seus bens e males físicos e as suas qualidades de ordem fisiológica ou psicológica, quer sejam excelentes, quer sejam minguadas, todo homem pode sempre e em qualquer caso chegar a alcançar a sua felicidade eterna para a qual foi por Deus criado. Deus quer seriamente levar todos os homens à suprema perfeição e felicidade; e, para esse fim, dá a todos e a cada um dos homens os meios e auxílios que eles necessitam para alcançá-la. E, conquanto, nos imperscrutáveis desígnios da sua providência santíssima, Ele não dê esses meios a todos em igual medida e abundância, ninguém pode com razão queixar-se d'Ele nem o ter por injusto; porque aquele que a todos dá suficientemente e, em qualquer caso, tudo quanto eles necessitam, e mais do que em justiça e pelos seus méritos podem eles exigir, nunca comete injustiça alguma dando mais a uns do que a outros. Se, pois, o homem incorre na maldade e se perde, só a si mesmo, e não a Deus, pode imputar a sua desgraça; e na sua mão está, com a graça de Deus e enquanto viver neste mundo, o pôr-se em bom caminho. Pois Deus respeita a liberdade do homem mesmo para o levar à suprema felicidade.

A hipótese da reencarnação não é, pois, a única a poder-se alegar para explicar a diversa maneira de ser dos homens sob o ponto de vista físico ou moral. Que essa também não é a melhor hipótese, isto se segue evidentemente dos argumentos com que, nos Capítulos XXXVIII e XXXIX, havemos de demonstrar a impossibilidade de o aperfeiçoamento da vida presente provir da conduta moral e segue-se também do que depois diremos diretamente contra a física que em favor dela propõem os reencarnacionistas. São, pois, ineficazes para provar a reencarnação os argumentos de ordem moral aduzidos.

Os argumentos filosóficos de ordem física em favor da reencarnação também são ineficazes.


Menos ineficazes, não são, porém, os argumentos que chamamos de ordem física ou psicológica. A estes podem reduzir-se os que os reencarncionistas formulam quando recorrem à pretensa existência de ideias inatas, e quando aduzem os casos de precocidade psicológica que de vez em quando se observam nos chamados meninos-prodígios. No tocante ao primeiro destes argumentos, o fato em que ele pretende fundar-se não se demonstrou até agora; antes, demonstra-se com certeza que no homem não ocorrem de fato ideias inatas, seja lá o que for da questão da sua possibilidade, que não temos empenho nenhum em negar. A experiência quotidiana credencia, sim que no homem, já desde os seus tenros anos, existe uma ideia de Deus causa suprema, e a ideia de moralidade consequentemente à ideia de Deus. Mas é absurdo confundir a facilidade para a aquisição de certas ideias, com as próprias ideias; as quais, se facilmente surgem na alma da criança e do homem, nela jamais brotam senão partindo dos conhecimentos experimentais dos sentidos. Agora, tal como em tempos de Aristóteles, é uma verdade claramente demonstrada que nada há no entendimento que de algum modo não tenha entrado pelos sentidos, isto é, que não seja devido a uma elaboração intelectual feita sobre elementos de conhecimentos subministrados pela experiência sensível. Não vamos entrar aqui na demonstração desta tese, que o leitor pode ver exposta e provada em qualquer manual de Filosofia cristã; nem seria conveniente alongarmo-nos aqui mais sobre este ponto, que já expusemos suficientemente em outras publicações. Porque, mesmo dado, mas não concedido, que se verificassem ideias inatas, daí ainda não se seguiria que essas ideias houvessem disso adquiridas em outra existência; já que, por uma parte, e como dissemos anteriormente e como nisso insistiremos depois, em nenhum caso ocorre qualquer lembrança de semelhante aquisição; e, por parte, se ocorressem, poderiam as ideias inatas brotar da própria natureza do ser que as tem, mesmo que ele não tenha tido mais do que a existência atual.

Até aqui o tocante ao argumento que se pretende fundar nas supostas ideias inatas. Pois para quem parte da existência de meninos precoces, como parece terem-no sido, por exemplo, Pascal, Mozart, Rembrandt e tantos outros, por mais maravilhosos que pareçam estes casos de precocidade nada se encontra neles que não possa explicar-se também pela herança fisiológica, juntamente com uma educação acertada. Aduzir estes casos como um argumento em favor da preexistência das almas é coisa que só pode ocorrer a homens que não sabem nada de Psicologia.

Muitos foram já os filósofos escolásticos que admitiram que ao serem criadas por Deus, as almas são todas de uma mesma perfeição; e consequentemente, atribuíam as grandes diversidades de qualidades, talentos e aptidões naturais dos homens à constituição e maneira de ser do organismo que a alma informa e do qual há de ele servir-se como instrumento para se aperfeiçoar na ordem intelectual. Pois, se isto já se admitia na Idade Média, que ignorância não supõe da Psicologia experimental e da Fisiologia modernas o intento de formular à base desses fatos um argumento em favor da preexistência e transmigração das almas?

Não é mister insistirmos mais sobre isto, pois a doutrina daqueles escolásticos sobre este ponto é coisa comumente admitida nos nossos dias por todos os homens de ciência, de vez que nenhum deles põe em dúvida que não só as diversas aptidões e a própria inteligência, mas também a maneira de ser de cada um, o seu caráter e fisionomia mental, dependem principalmente, senão totalmente, das propriedades do organismo, e principalmente dos seus sistemas nervosos e humoral, que todo homem recebe hereditariamente por via de geração.

Tais são as principais razões que se costuma aduzir em favor da doutrina da reencarnação em geral. Não cremos tenham elas por si sós a menor eficácia para convencer quem quer que seja de uma doutrina tão fantástica, mesmo que nada tivéssemos a alegar contra ela.

Mas, afortunadamente, são muitos, e muitos eficazes, os argumentos que contra esta doutrina podem ser formulados, mesmo prescindindo dos de ordem teológica, que, embora sejam de todo convincentes, nos propusemos não aduzir aqui, para circunscrever o nosso estudo à ciência positiva e filosófica puramente racional. Exporemos alguns desse argumentos filósoficos no Capítulo seguinte.
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