sexta-feira, 20 de junho de 2014

Santa Hildegarda de Bingen e a desigualdade social




Interrogada por que só admitia em seu convento damas de alta linhagem, quando o Senhor se rodeara de gente humilde, escreveu Santa Hildegarda:

“Deus vela junto de cada homem para que as classes baixas nunca se elevem sobre as altas, como fizeram outrora Satanás e o primeiro homem, que quiseram exaltar-se acima de seu próprio estado...”.

Assim continua: “Quem há que guarde num só estábulo todo o seu rebanho, bois e jumentos, ovelhas e carneiros? Por isso devemos velar para que o povo não se apresente todo misturado num só rebanho. De outro modo produzir-se-ia horrorosa depravação dos costumes, e todos se dilacerariam mutuamente, levados pelo ódio recíproco ao ver como as classes altas se rebaixariam ao nível das classes baixas, e estas se alçariam até a altura daquelas. Deus divide seu povo sobre a terra em diferentes classes, como no Céu classifica seus anjos em diferentes grupos. Porém Deus ama a todos igualmente”.

(Fonte: Migne, t. 197, col. 336)
Retirado de: Pale Ideas


Assim também ensinava Pio XII:


“As desigualdades sociais, inclusive as ligadas ao nascimento, säo inevitáveis. A natureza benigna e a bênção de Deus à humanidade iluminam e protegem os berços, osculam-nos, porém não os nivelam”. Logo adiante, continua: “Uma mente instruída e educada de modo cristão não pode considerar tais desigualdades senão como disposição desejada por Deus, pela mesma razão que Ele quis as desigualdades no interior da família, e, portanto, destinadas a unir mais os homens entre si na viagem da vida presente para a pátria celeste, uns ajudando os outros do mesmo modo que um pai ajuda a mãe e os filhos” (Nota (1) Alocuçäo ao Patriciado e à Nobreza romana em 5 de janeiro de 1942, Discorsi e Radiomessaggidi Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, pp. 345-349).

O COMUNISMO É INTRINSECAMENTE MAU, O LIBERALISMO ECONÔMICO, NÃO!







Raphael de la Trinité


Onde reside a distinção essencial entre os sistemas capitalista e comunista?

A principal diferença reside no regime de propriedade. O capitalismo admite a propriedade privada, a livre iniciativa e a liberdade de contrato, como expressões da Lei natural, enquanto o regime socialista nega esses direitos básicos. Por isso, o socialismo e o comunismo são intrinsecamente maus. Quanto ao capitalismo, só é condenável pelo fato de separar a economia da moral, assim como por seus abusos (por exemplo, o denominado supercapitalismo, justamente por seu caráter de moloch, já prenunciava certas formas de dirigismo totalitário, tais como presenciamos nos dias de hoje).

Pode-se afirmar que o direito de propriedade esteja consignado no Decálogo?

Sim, Deus assegurou o direito de propriedade particular em dois mandamentos de Sua Lei: "Não furtarás" (7) e "Não cobiçarás a casa de teu próximo; não desejarás a sua mulher, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença" (10) (Ex. XX, 15 e 17).

Ensina Nosso Senhor Jesus Cristo: "Em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe da lei um só jota ou um só ápice, sem que tudo seja cumprido. Aquele, pois, que violar um só desses mandamentos (ainda que os mais) pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o menor no reino de Deus" (Mt. V, 18-19).

A Sagrada Escritura faz-nos ver o castigo infringido por Deus ao Rei Acab e à sua mulher, Jesabel, por terem pecado gravemente, tomando a propriedade de Nabot — a vinha de Nabot (Cfr. I Reis XXI).

Que se pretende sustentar com a afirmação de que o direito de propriedade é um direito natural?

Equivale a dizer que, tendo sido estabelecido pelo próprio Deus, a nenhuma autoridade é facultado suprimi-lo, nem mesmo escamoteá-lo (quer mediante o uso da violência, quer mediante iniciativas espoliadoras ou confiscatórias). Noutras palavras, tanto o comunismo como o socialismo são inaceitáveis, seja em suas formas mais arraigadas e extremas, seja nas mais mitigadas.

O Direito Natural possui quatro propriedades, a saber: unidade, universalidade, imutabilidade e indelebilidade.

Na Introdução à Suma Teológica, I-II, de SANTO TOMÁS DE AQUINO — por Santiago Ramirez e outros, q. 94, B.A.C., págs 112 y 113 —, encontra-se uma definição muito completa de lei natural. Entende-se: “proposições imperativas ou preceitos universais da razão prática, participada da lei eterna, acerca das coisas boas ou atos intrinsecamente bons ou maus, em ordem ao bem comum da bem-aventurança natural, promulgadas ou impressas naturalmente na razão humana por Deus, como legislador e supremo governante da comunidade natural dos homens”.

Enquanto o homem participa da razão eterna de maneira intelectual e racional, o mesmo não passa com a criatura irracional. Por esse motivo, essa participação eu ocorre no homem, chama-se com propriedade lei, enquanto que nas demais criaturas só por certa analogia poderá considerar-se lei.

Princípios: Se a lei natural é concebida enquanto algo essencialmente natural, com enunciados universais da razão prática, necessariamente deverá haver uma adaptação desta à natureza e ao modo como atua. Assim, a semelhança do que acontece com o conhecimento especulativo, encontramo-nos, no caso do conhecimento prático, em face de um processo que parte de princípios evidentes até os mais distantes. À testa de tudo encontramos a sindérese, que se define como sendo os princípios universalíssimos que nos inclinam a fazer o bem e evitar o mal. Desse princípio se deduzem os demais.


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RELAÇÃO ENTRE DIREITO DE PROPRIEDADE E LIBERDADE HUMANA


Deus nos criou, de um lado, com certas necessidades, e, de outro, com capacidade para satisfazer essas mesmas necessidades.

Figuremos o caso de um homem faminto, que vê um peixe que saltita no mar. Assiste-lhe o direito de apanhá-lo e comê-lo, visto que o peixe não é de ninguém. Com efeito, não se configura crime de furto assenhorear-se (apossar-se) de coisa que nunca pertenceu a ninguém (res nullius), ou de coisa abandonada (res derelicta).

Segunda imagem: suponhamos que essa mesma pessoa resolva fazer um anzol. Para isso, serve-se de uma vara que não é de ninguém. Feita essa vara de pescar — algo que criou mediante o recurso de suas mãos e inteligência —, essa vara é dele. Digamos que, fazendo uso dessa vara, consiga apanhar algumas dezenas de peixes. Igualmente os peixes lhe cabem por direito, porquanto os peixes, que, antes disso, a ninguém pertenciam, foram pescados por ele, que os conseguiu graças ao esforço empreendido, ao trabalho realizado, à vara que fabricou. E, na hipótese de que essa mesma pessoa tenha fabricado uma rede e, por esse meio, haja conseguido apanhar algumas centenas de peixes?É óbvio que dele serão também, e pelas razões supracitadas.

Terceira imagem: podemos conceber que o mesmo indivíduo, uma vez feita essa pesca, resolva trocar essas centenas de peixes por uma casa, por mais diminuta que seja. Essa habitação também será sua, pelos mesmos motivos já mencionados.

— Por quê? A casa é fruto dos peixes, de que ele já era dono, pois apanhara tais peixes graças à aplicação de seu trabalho, de seu engenho e do esforço de suas mãos.

Em presença dessa realidade corrente, qual a posição das variadas correntes que se afirmam comunistas ou socialistas?

Quando o comunismo diz que ninguém é dono de nada, está afirmando, “ipso facto”, que o pescador não é dono de sua casa; igualmente, por via de dedução, que não era dono dos peixes que havia pescado, bem como que não era dono de suas mãos e de sua inteligência. Ora, aquele que não é dono de suas mãos, nem de seu engenho ou capacidade mental, é escravo.

Portanto, inegavelmente, ao negarem o direito de propriedade particular, o comunismo e o socialismo afirmam que o homem é escravo.

Não surpreende, portanto, que os Papas sempre tenham formulado as mais explícitas e categóricas condenações do comunismo e do socialismo, em todos os seus matizes.

Nesse sentido, é de assinalar a peremptória afirmação de Pio XI: ninguém pode ser católico e socialista, ao mesmo tempo. Socialismo e catolicismo são inconciliáveis. (Cfr. Pio XI, encíclica Quadragésimo Anno).

O que pensa o comunismo sobre a família e a dignidade da mulher?



DESTAQUE

Ninguém deveria ser obrigado a permanecer num relacionamento no qual o amor não mais existisse. Os bolcheviques não determinaram quanto uma união livre desse tipo deveria durar. Eles reconheceram a possibilidade de durar a vida inteira, muitos anos, alguns dias, ou mesmo horas. Era impossível prever como as relações humanas se desenvolveriam no socialismo. Eles acreditavam que a duração de qualquer relacionamento deveria ser de livre escolha das duas partes envolvidas.

Em 1927, após intenso debate, a lei se tornou ainda mais radical. Um novo Código da Família reconheceu o casamento de facto ou a união estável como equivalentes jurídicos do casamento civil. O novo código também simplificou o procedimento de divórcio. Marido ou mulher poderia receber o divórcio simplesmente mediante o preenchimento de um formulário num cartório. O cônjuge seria informado do divórcio por meio de um cartão postal.

O Estado e a Igreja não tinham direito de interferir nas escolhas pessoais dos indivíduos.As lições do primeiro experimento soviético são claras. É impossível criar relações mais livres entre homens e mulheres sem o controle de natalidade, aborto legal, emprego em período integral, creches e outras instalações.

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Bravas 'babushkas'

WENDY GOLDMAN
7/6/2014


Cem anos após a revolução que as libertaria, mulheres russas ainda lutam por direitos


Em 2012, um pequeno grupo de moças pertencentes ao conjunto punk feminista conhecido como Pussy Riot entrou na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou. Usando máscaras e carregando guitarras, elas cantaram “Oração Punk - Mãe de Deus, Livrai-nos de Putin!”. O objetivo da performance era chamar a atenção para o elo entre o presidente russo, Vladimir Putin, e a Igreja Ortodoxa. Com o apoio da igreja, Putin deu vida nova à combinação entre poder estatal repressivo e ortodoxia religiosa que guiou a Rússia no século 19. Como resultado da performance do Pussy Riot, três do grupo foram detidas, acusadas de “vandalismo” e sentenciadas a 2 anos num campo de trabalhos forçados. De acordo com Putin, a banda “sabotou os alicerces morais do país”. Mas quem define a moralidade? O Pussy Riot foi formado para protestar contra restrições cada vez maiores ao aborto e à democracia. Seus membros - anarquistas, trotskistas e feministas - consideram o grupo parte de um movimento global contra a imoralidade do capitalismo global.

As jovens do Pussy Riot são parte de uma antiga tradição feminista revolucionária na Rússia. No início do século 20, as trabalhadoras têxteis russas criaram a primeira organização de massa para defender os próprios interesses. Trabalhadoras pobres já tinham se organizado na Revolução Francesa, mas principalmente em defesa de sua classe, não de seu gênero. A Revolução Russa foi a primeira a incluir as mulheres e seus interesses como parte integral de uma coalizão insurgente. As trabalhadoras ativistas encontraram um público entusiasmado nas fábricas e vilarejos. Convenceram a liderança masculina do Partido Bolchevique a organizar as mulheres, publicar um jornal voltado para elas e criar o Departamento da Mulher (Zhenotdel) dentro do partido. Sua visão da emancipação da mulher se tornou parte da legislação aprovada pelo novo Estado soviético quando esse chegou ao poder, em outubro de 1917.

Trata-se de grandes momentos da história nos quais tudo parece possível: repensar a maneira de estruturar o mundo, a distribuição da riqueza e dos recursos, padrões arraigados de exploração e injustiça e até as relações mais humanas. Esses momentos não ocorrem com frequência, mas, quando ocorrem, trazem um novo e intoxicante sentido de promessa e euforia diante da possibilidade de mudança. Os anos 1920 foram um período de grande fermentação e debate. Os revolucionários tinham ideias para mudar praticamente todos os aspectos da vida. Os camponeses redistribuíram a terra, os trabalhadores assumiram o controle das fábricas. As pessoas debatiam novas ideias sobre política, produção, educação, religião, cultura, arquitetura e direito. Um dos temas mais interessantes dos debates envolvia a recriação da família e a criação das condições para a igualdade das mulheres.

O novo Estado soviético e o Partido Bolchevique tinham uma visão da libertação das mulheres baseada em quatro princípios: liberdade de união, emancipação da mulher por meio da autonomia financeira em relação ao homem, socialização do trabalho doméstico e gradual e inevitável “fenecer” da família enquanto unidade econômica.

Cada um desses elementos tinha uma longa história na tradição revolucionária. A ideia de liberdade de união ou amor livre, por exemplo, originava-se em antigas seitas cristãs [SIC!]. Os bolcheviques acreditavam que os relacionamentos entre parceiros deveriam ter como base o amor, a atração e o respeito mútuo, livres de todas as limitações e dependências econômicas. Ninguém deveria ser obrigado a permanecer num relacionamento no qual o amor não mais existisse. Os bolcheviques não determinaram quanto uma união livre desse tipo deveria durar. Eles reconheceram a possibilidade de durar a vida inteira, muitos anos, alguns dias, ou mesmo horas. Era impossível prever como as relações humanas se desenvolveriam no socialismo. Eles acreditavam que a duração de qualquer relacionamento deveria ser de livre escolha das duas partes envolvidas. O Estado e a Igreja não tinham direito de interferir nas escolhas pessoais dos indivíduos.

Mas, para que ambas as partes fossem livres, elas teriam de ser economicamente independentes. A participação na força de trabalho daria às mulheres independência econômica em relação aos homens, e também as apresentaria a um mundo mais amplo fora do lar. As mulheres não podiam mais se ocupar apenas com o estreito mundo da cozinha, faxina e cuidados com as crianças, tornando-se participantes ativas da esfera pública.

As mulheres, no entanto, se encarregavam de um trabalho essencial (aquilo que Marx chamou de “trabalho reprodutivo”) no lar. Elas cozinhavam, faziam as compras, lavavam as roupas, limpavam a casa e cuidavam das crianças, dos inválidos e dos idosos da família. Esse trabalho era necessário para a vida social, mas não era remunerado. Os bolcheviques acreditavam que, quando as mulheres entrassem para a força de trabalho assalariada, elas deveriam ser dispensadas de tais tarefas por meio da socialização do trabalho doméstico. Os trabalhos não remunerados desempenhados pelas mulheres no lar passariam a fazer parte da economia nacional, assumidos por trabalhadores assalariados. Os refeitórios, creches e lavanderias libertariam as mulheres das tarefas do lar.

Privada de todas as funções econômicas e sociais, a família “feneceria” gradualmente. As crianças seriam sustentadas independentemente de seus pais serem casados ou não. O próprio conceito de ilegitimidade deixaria de existir. As pessoas não precisariam mais se casar. Viveriam juntas ou em separado sem nenhuma consequência social negativa. Não haveria necessidade de regular as relações sexuais com leis religiosas ou do Estado.

Essa visão revolucionária da vida foi o resultado de condições específicas do capitalismo da virada do século. Antes da revolução, as autoridades religiosas controlavam o casamento e o divórcio. De acordo com a lei do país e da Igreja, uma mulher devia obediência completa ao marido. Ela era proibida de trabalhar, estudar, vender e comprar propriedades, não podendo nem mesmo escolher o local de sua residência sem o consentimento do marido. O divórcio era quase impossível de se obter e os filhos ilegítimos não tinham direitos pela lei. Ao mesmo tempo, um número cada vez maior de mulheres entrava na força de trabalho conforme os capitalistas substituíam os trabalhadores pela força de trabalho feminina, mais barata. As operárias trabalhavam seis dias por semana, dez ou mais horas por dia. A mulher de classe trabalhadora não poderia combinar o trabalho assalariado com os cuidados com a família. Dois terços dos filhos das trabalhadoras morriam antes de completarem 2 anos. Os bolcheviques esperavam resolver a contradição criada pelo capitalismo entre o trabalho assalariado das mulheres e as necessidades da família.

Em 1920, a União Soviética se tornou o primeiro país a legalizar o aborto. Ele ficou seguro, gratuito e legal, disponível para as mulheres nos hospitais. Os líderes masculinos em matéria de direito e saúde pública acreditavam que o aborto era um mal criado pelas dificuldades materiais. As mulheres não precisariam de abortos se pudessem contar com creches, emprego em período integral e licença-maternidade, mas, no curto prazo, o aborto seria necessário porque tais condições ainda não existiam. As mulheres, no entanto, tinham uma opinião diferente. Depois que o aborto se tornou legal, mulheres de todas as classes e posições sociais começaram a usá-lo como forma de tomar decisões pessoais em relação ao próprio destino. Para elas, o aborto legal e o controle de natalidade eram essenciais para a emancipação das mulheres. Elas entenderam o aborto não como uma medida de curto prazo e sim como um direito humano básico.

As revolucionárias ideias dos bolcheviques a respeito da família estavam intimamente ligadas a suas ideias sobre o direito. Eles acreditavam que, dentro do socialismo, Estado e lei feneceriam. O Estado, braço armado de uma classe que controla outra, não precisaria exercer o poder coercitivo numa sociedade sem classes. O direito civil, ou a regulação das relações de propriedade burguesas, se tornaria obsoleto. As pessoas não precisariam mais roubar nem matar, e até o direito criminal “feneceria”. Os juristas revolucionários não quiseram criar um poderoso edifício estatal, estimulando em vez disso o fenecimento gradual da família, do Estado e do Direito.

Em 1918, o novo governo socialista apresentou o Código da Família, acabando com séculos de poder patriarcal e religioso. Era o direito da família mais progressista que o mundo já vira. O código estabeleceu o casamento civil em lugar do casamento religioso e criou a igualdade legal entre homens e mulheres. A ilegitimidade foi abolida, conferindo a todos os filhos o direito de receber sustento dos pais. Permitiu o divórcio a pedido de qualquer dos cônjuges; não seria necessário apresentar motivo. Foram estendidos direitos a pensão para homens e mulheres caso fossem inválidos ou pobres. Em 1927, após intenso debate, a lei se tornou ainda mais radical. Um novo Código da Família reconheceu o casamento de facto ou a união estável como equivalentes jurídicos do casamento civil. O novo código também simplificou o procedimento de divórcio. Marido ou mulher poderia receber o divórcio simplesmente mediante o preenchimento de um formulário num cartório. O cônjuge seria informado do divórcio por meio de um cartão postal.

Em pouco tempo a legislação começou a enfrentar graves problemas sociais. Muitos homens se aproveitaram da facilidade do divórcio para se casar e abandonar várias mulheres, deixando todas com filhos. O alto desemprego entre as mulheres nos anos 1920 tornou o divórcio particularmente doloroso. As mulheres enfrentavam dificuldades para obter pensão para si e para os filhos, e algumas foram obrigadas a recorrer à prostituição. Como resultado da 1ª Guerra Mundial, da guerra civil e de uma terrível fome em 1921, havia 7 milhões de crianças sem teto na União Soviética. Viviam nas ruas e sobreviviam roubando e apelando para o crime e a prostituição. O Estado não tinha recursos para cuidar delas. Os camponeses também tiveram problemas com o divórcio. O lar camponês incluía a terra, os animais, as ferramentas e a habitação, tornando quase impossível para as mulheres divorciadas viver com independência no vilarejo. As mulheres começaram a abortar em grande número.

Já em 1930 Josef Stalin conseguiu eliminar tanto a oposição de esquerda quanto de direita dentro do Partido Bolchevique, e o Estado começou a buscar novas soluções para os problemas sociais. O Estado rejeitou a primeira visão socialista para adotar uma nova abordagem repressiva. Na tentativa de tirar as crianças sem teto das ruas e reduzir a criminalidade, foram aprovados castigos mais rigorosos para os crimes cometidos por menores de idade. O divórcio se tornou mais difícil de obter. O famoso “divórcio por cartão postal” foi abolido. Os homens que deixavam de pagar pensão passaram a ser processados criminalmente. E, em 1936, o aborto se tornou ilegal. Líderes do Estado e do partido rejeitaram oficialmente a ideia anterior segundo a qual família, Estado e Direito “feneceriam”. Foi dada nova ênfase à unidade familiar enquanto chave para o controle social. Muitos dos primeiros juristas foram detidos, enviados a campos de trabalho ou executados.

O sonho soviético não fracassou completamente. Nos anos 1930, durante o grande impulso de industrialização, as mulheres ingressaram na força de trabalho. Foram beneficiadas pela educação em massa e pela mobilidade ascendente. O Estado criou centros para cuidar de crianças e refeitórios. Mas o trabalho do lar nunca foi de fato socializado. As mulheres trabalhavam fora de casa e se ocupavam da maior parte do trabalho do lar. Elas assumiram o “duplo fardo”.

A primeira visão bolchevique ainda não foi concretizada: independência econômica para as mulheres, um salário digno que permita às trabalhadoras sustentar a família, emprego em período integral, benefícios de saúde e licença-maternidade e a socialização do trabalho no lar. Em muitos países, as mulheres carecem de acesso a um controle de natalidade seguro e barato e ao aborto legal. A violência contra as mulheres é endêmica, seja nas ruas ou na família. As lições do primeiro experimento soviético são claras. É impossível criar relações mais livres entre homens e mulheres sem o controle de natalidade, aborto legal, emprego em período integral, creches e outras instalações. Hoje, quase cem anos após a Revolução Russa, as mulheres do Pussy Riot e outros grupos ainda estão lutando pelos direitos das mulheres. Seus atos nos lembram de uma antiga canção das tecelãs:

“A liberdade não chega voando como um pássaro / A liberdade não desaba como a chuva de verão / A liberdade é algo conquistado a duras penas / É preciso trabalhar por ela, lutar por ela / Dia e noite, de novo e de novo / E cada geração precisa lutar por ela mais uma vez”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Wendy Goldman é professora da Universidade Carnegie Mellon e autora de 'A mulher, o Estado e a Revolução' (Boitempo). Escreveu este artigo especialmente para o Aliás

Fonte: Estadão

terça-feira, 17 de junho de 2014

Lições do passado e o eurasianismo esotérico de Aleksandr Dugin



Há setenta anos, o desembarque na Normandia‏



DESTAQUE


"A ouvi-los [porta-vozes do Ocidente, descristianizados ou não], a Rússia bolchevista seria o maior dos colossos, o fator decisivo da vitória. Pelo contrário, as potências “burguesas”, infectadas de liberalismo, de moleza, de desorganização, estariam prestando um concurso perfeitamente secundário para o êxito da guerra. E, de tudo isto, se deduziria que só o comunismo possui uma organização política e social perfeita. A prova dos noves fora, da superioridade bolchevista, se teria feito em Stalingrado. Esta afirmação audaciosa não pode passar sem alguns reparos."

Em 1944, isso era dito, até em círculos católicos, como propaganda a serviço de Stalin.

Será tão diferente do que se diz hoje, inclusive nalguns meios católicos, como propaganda a serviço de Putin, o ex-oficial da KGB?



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São Paulo, quinta-feira, 5 de junho de 2014

Lições do passado e o eurasianismo esotérico de Aleksandr Dugin

Autor: Edson Oliveira     



Livro de Aleksandr Dugin 
com o símbolo do 
movimento euroasiático.
Por ocasião dos 70 anos do desembarque das tropas aliadas na Normandia (6 de julho de 1944), publicamos o artigo abaixo, escrito pelo Professor Plinio Corrêa de Oliveira dias após esse importante evento que mudou os rumos da II Guerra Mundial.

Os alertas contidos no texto servem para nossos dias em que nos vemos novamente bombardeados pela propaganda bolchevista, agora caracterizada como Eurasianismo - cujo principal mentor é o esotérico satanista Aleksandr Dugin. 

Dugin tem viajado pelo mundo inteiro tentando aglutinar pessoas para sua "cruzada" sem cruz em favor do "perfeito cumprimento da maior revolução da história, enquanto continental e universal. Falamos do retorno dos anjos, a ressurreição dos heróis, da insurreição dos corações contra a ditadura da razão. Esta Última Revolução é tarefa do Acéfalo, do portador da Cruz, da Foice e do Martelo, coroado pelo Sol da Suástica Eterna." (Cfr: Aleksandr Dugin, em Le Prophète de l' Eurasisme, Edição Avatar, 2006, p. 147).

Aleksandr Dugin fala ao microfone, tendo ao seu lado esquerdo o satanista francês Christian Bouchet.


Dugin, que já esteve no Brasil e se prepara para voltar em breve, procura seduzir movimentos conservadores do ocidente numa suposta luta contra a imoralidade do liberalismo ocidental, mas cuja meta é destruir os EUA, país que ele vê como a personificação do mal, sendo que o povo americano é quem mais se destaca na luta pelos valores morais, familiares e pelo direito de propriedade, embora de momento não estejam representados na presidência do país.

Estrela do Caos
 A estrela de oito setas que se transformou em símbolo oficial do Eurasianismo é uma leve modificação da “Estrela do Caos” (Vide figura ao lado) ou também conhecida como “Estrela Mágica” da doutrina ocultista baseada nos escritos do satanista inglês Aleister Crowley - a quem Dugin admira pela sua luta contra o Regime Mundialista e procurou tornar popular os escritos de Crowley na Rússia (Cfr.: http://oto.ru/).

A ligação entre o 'Chaos Magick' de Crowley ('Magiya Khaosa') e o símbolo do movimento eurasiano é descrita pelo próprio Dugin em seu livro Os Cavaleiros Templário do Proletariado (ver Parte 6, nota 56).

Esse será o futuro dos movimentos conservadores do ocidente?


Segue abaixo o artigo do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira que nunca se deixou iludir por manobras revolucionárias que nos oferecem falsas opções, e sempre procurou alertar o público, especialmente o católico, contra essas investidas.


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Não exageremos!


Plínio Corrêa de Oliveira



Desembarque de tropas americanas em Dunquerque (França), na madrugada de 6 de junho de 1944


Os acontecimentos que se vem desenrolando na França confirmam vigorosamente as considerações que expendemos, ainda neste mês, sobre a política militar do Sr. Adolph Hitler.

Como dissemos, o Sr. Hitler já não é o senhor de vencer, mas até certo ponto de vista é senhor de dar a vitória a quem quiser. E essa vitória, conscientemente, deliberadamente, criminosamente, esse malfeitor público a está entregando nas mãos da Rússia. No ocaso de sua longa e sangrenta aventura política e militar, o Sr. Adolf Hitler, que procurara arrastar atrás de si em outros tempos toda a Europa na miragem de uma cruzada anticomunista, está dando a Stalin o cetro da dominação universal. Demonstra‑se, assim, que o anticomunismo do Sr. Hitler não é senão um mero "bluff" de propaganda política, e que, no fundo, os nazistas preferem a vitória do totalitarismo vermelho à das democracias ocidentais. A velha tese do LEGIONÁRIO se confirma: comunismo e nazismo são irmãos, e qualquer tentativa de nos apoiarmos sobre um para combater o outro é, no fundo, fazer o jogo de ambos. Hitler, que já não consegue guardar para si os louros, prefere que eles fiquem nas mãos de Stalin, que nas de Churchill ou Roosevelt. Stalin certamente preferiria que eles ficassem em mãos de Hitler, a vê-los adornando a fronte das potências "burguesas". Desejando para si a vitória, cada um dos dois ditadores, desde que não a possa obter, prefere vê-las nas mãos do seu sósia.



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É preciso que isso se afirme, se repita, se proclame
neste momento em que certos propagandistas soviéticos no Brasil começam a torpedear insidiosamente o prestígio dos combatentes anglo-americanos. A ouvi-los, a Rússia bolchevista seria o maior dos colossos, o fator decisivo da vitória. Pelo contrário, as potências “burguesas”, infectadas de liberalismo, de moleza, de desorganização, estariam prestando um concurso perfeitamente secundário para o êxito da guerra. E, de tudo isto, se deduziria que só o comunismo possui uma organização política e social perfeita. A prova dos noves fora, da superioridade bolchevista, se teria feito em Stalingrado.


Esta afirmação audaciosa não pode passar sem alguns reparos.

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Plínio Corrêa de Oliveira

Afirmemos, preliminarmente que fazemos uma distinção fundamental entre a Rússia e comunismo. Muitos russos poderão não compreender essa distinção, como certos italianos não compreenderiam que distinguíssemos entre Mussolini e a Itália, certos franceses não suportavam que atacássemos Pétain amando embora ardentemente a França, e muitos alemães jamais puderam compreender como, sendo nós furiosamente antinazistas, podíamos dizer-nos sinceramente desejosos do bem da nação germânica.Essa distinção entre um país e os aventureiros que se apoderam de sua direção, ou entre esse país e o regime político debaixo de cuja opressão geme, é entretanto elementar. Compreendam-nos ou não nos compreendam certos russos brancos, ainda ontem anticomunistas e hoje entusiasmados com o êxito das tropas soviéticas, a verdade é que o comunismo não é a Rússia, como não é o México, como não seria o Brasil se desgraçadamente ele se introduzisse aqui. O comunismo é um tipo de organização político-social diametralmente oposto à doutrina político-social da Igreja. Ele é, portanto, o contrário da civilização cristãÉ a civilização anticristã, ou seja a civilização do anti-cristoSer bom russo não é aplaudir o comunismo, mas combatê-lo para libertar dele quanto antes a Rússia. Se, portanto, queremos lutar inflexível e intransigentemente contra o comunismo, não o fazemos porque não estimemos o povo russo, mas muito pelo contrário: porque o amamos ardentemente em Nosso Senhor Jesus Cristo com aquela caridade universal ‑ católica ‑ que abraça todos os povos criados por Deus.

* * *

Isto posto, notemos que a Inglaterra e os Estados Unidos desembarcaram agora imensos efetivos na França, e não obstante tudo isto, não obstante a pressão militar na Itália, na Rússia, os nazistas resistem tremendamente às forças de desembarque no território gaulês.

Por que? Evidentemente porque desde o início o Sr. Hitler tem concentradas na França tropas incontáveis, recursos sem número, de munições como de víveres, tudo para fazer face a uma invasão aliada, efetuada de improviso.

Haveremos de reconhecer nos generais anglo-americanos verdadeiros poltrões? Havemos de entender que os chefes das nações anglo-saxônicas, nossas aliadas, são cretinos e imbecis? Ou haveremos de convir em que o Sr. Adolf Hitler realmente deixou no Ocidente recursos imensos, e que portanto só combateu contra a Rússia, no Oriente, com meios que estavam longe de representar o efetivo total do exército germânico? Neste último caso,como não haveremos de reconhecer que os russos, ao contrário dos franceses, não tiveram de enfrentar a plenitude dos recursos militares teutos, e que portanto a resistência da Rússia não tem todo o significado que se lhe quer atribuir?

Não negamos que a Rússia haja resistido com valor ao ímpeto nazista. Negamos, porém, que daí se deva deduzir que a Rússia venceu inteiramente só, os nazistas, nossos adversários comuns; que as nações burguesas fracassaram inteiramente; e que os atuais acontecimentos militares possam de um ou de outro modo demonstrar a superioridade do regime bolchevista sobre o regime em que vivemos.

A Rússia lutou com êxito e valor, é certo, mas só contra uma parte das forças germânicas. Teria ela resistido ao ímpeto total dos nazistas, caso estes tivessem feito as pazes com a Inglaterra e pudessem ter desguarnecido o front ocidental?

Este problema é muito sério.

*  *  *

Notemos antes de tudo que a Rússia recuou muito diante do primeiro ímpeto nazista. Recuou mesmo tanto, que se ela não tivesse o território imenso que possui, se ela fosse uma nação menor, teria sido literalmente varada de lado a lado.

Calculada a extensão do recuo russo, pergunta-se: se as tropas soviéticas tivessem sido obrigadas a defender a Bélgica, tê-lo-iam conseguido? Evidentemente não.

A Rússia contou, pois, com um primeiro fator independente do regime, que é a extensão do território. Vivesse esse regime “magnífico”, “fantástico”, “maravilhoso”, em um país pequeno, e teria sido culbuté [derrubado] no primeiro tranco nazista
.

também não foi o comunismo que armou o outro grande fator de vitória: o general inverno, como tem dito espirituosamente a imprensa. Sem esse general, graças a cuja ação defensiva e protelatória foi possível aos russos preparar a resistência, o que lhe teria sucedido? O fracasso que tiveram no primeiro contato com as tropas finlandesas.

Auxiliadas pelo inverno, pela extensão territorial, imobilização de inúmeros efetivos nazistas, dada a iminência de uma invasão européia e a agitação dos povos conquistados da Europa, a Rússia conseguiu, depois de imensos desastres, reagir por fim. Reagiu com valor: aplaudamo-la. Reagiu com êxito: demos graças a Deus, porque tudo seria melhor ou menos mau que o triunfo nazista no mundo. Mas não exageremos as coisas: o êxito russo, que consideramos com tão sincera satisfação, está longe, longe, muito longe de servir de argumento para o regime comunista.

* * *

São ingratas essas discussões no momento em que nossa primeira tarefa deve consistir indubitavelmente em arrasar o inimigo no 1 da civilização cristã e do Brasil que é o Sr. Hitler. Por isto mesmo, é conveniente abafar de vez esses capciosos métodos de propaganda bolchevista.


O artigo de Plínio Corrêa de Oliveira foi publicado em O LEGIONÁRIO, N.º619, 18 de junho de 1944


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