As palavras do Pontífice que fizeram
a Cúria tremer
‘O embaraçoso silêncio da Cúria mostra que as
palavras do Papa são verdadeiras’
Gian
Franco Svidercoschi, antigo vice-diretor do [jornal da Santa Sé] L’Osservatore
Romano, sabe como ler nas entrelinhas do que foi deixado em silêncio pelo
Vaticano. Ele explica: “O embaraçoso silêncio da Cúria mostra que as palavras
do Papa são verdadeiras”.
*** * ***
Os
prelados admitem: é uma questão conhecida. Alguns inclusive revelam que houve
carreiras bloqueadas pelo “gossip”.7
Silêncio
na Cúria Romana após as palavras que o Papa teria pronunciado sobre um “lobby
gay”. Incômodo pela difusão do encontro privado que Francisco teve com
religiosos latino-americanos, mas até
agora não houve ninguém que desmentisse o publicado. A reação depois da
bomba de palavras sobre o “lobby gay” no Vaticano atribuída ao Papa Francisco é
de silêncio. A cúpula da CLAR, a Confederação Latino-Americana dos Religiosos,
que transcreveu o seu diálogo com Bergoglio e que acabou sendo publicado no
sítio chilene “Reflexion y Liberación”, deplora a publicação, sem explicar,
todavia, como chegou ela às mãos dos editores do sítio. Embora no Vaticano
digam que não é correto colocar entre aspas as afirmações que o Papa teria
feito, como se tratasse de verdadeiras citações, ninguém desmentiu a substância
do publicado.
«
Na Cúria há desconcerto pelo fato de que Francisco não esteja livre para falar
em privado sem que depois suas palavras sejam publicadas », sussurra
desconsolado um monsenhor, que depois acrescenta sobre o “lobby gay”: « fala-se
disse há tempos, não é nenhum mistério; a novidade é que agora quem falou disso
foi o Papa, embora não nestes termos específicos ».
Vendo
o Papa ontem, saudando e abençoando a mais de 50 mil fiéis durante a audiência
das quartas, não se podia dizer que ele estava preocupado com o que poderia ter
se tornado o primeiro incidente midiático de seu pontificado. Ademais, como não
recordar que justamente os grupos, as facções de poder dentro da Cúria Romana e
o escândalo dos “vatileaks” ocuparam muito espaço nas discussões entre os
cardeais, sobretudo os estrangeiros, antes do último conclave? Para não
falarmos do caso do purpurado escocês, Keith O’Brien, obrigado a renunciar e a
não participar do conclave após ter admitido abusos cometidos há trinta anos
contra alguns seminaristas (adultos).
Ou
seja, apesar de algumas reações indignadas, não é nenhum mistério que o
problema exista. Antes de partir da Argentina, o Cardeal Bergoglio — segundo a
sua biografia que acaba de ser publicada por Evangelina Himitian (“Francisco. O
Papa do povo”), respondeu a uma pergunta sobre o perfil do futuro Papa, citando
entre os seus deveres o de “limpar a Cúria”. Não esperava que ele mesmo devesse
fazê-lo, apesar de seus 76 anos.
É
complicar adentrar no labirinto de intrigas e acusações cruzadas que circulam
nos sagrados palácios, onde as cartas anônimas estão na ordem do dia e onde
justamente a acusação de homossexualidade é a que se usa com maior desenvoltura
para destruir os adversários. Não
devemos esquecer que há alguns anos, depois de uma investigação do programa
italiano “Exit”, no canal 7, um monsenhor da Congregação para o Clero foi
filmado, em segredo, com um jovem que havia conhecido pela internet. O prelado
perdeu o seu cargo na Cúria, apesar de ter afirmado que estava realizando um
estudo, como se fosse um infiltrado, embora seus superiores ignorassem o caso.
Noutros casos, por sua vez, não basta ser pego em flagrante para ter uma
carreira interrompida, como é o caso do brilhante diplomata vaticano que foi
pego na cama com um homem; tiraram-no da nunciatura, porém, de toda forma, foi
feito bispo poucos anos depois. Para alguns, evidentemente «protegidos», a
carreira não se interrompe. Uma acusação de homossexualismo feita por um
cardeal contra um importante bispo da cúria “congelou” qualquer nomeação do
acusado para postos importantes, embora depois das investigações dos “007 de
batina” as acusações tenham caído e se chegou à desejada nomeação. Para não
falarmos de jovens e empreendedores leigos que caíram nas graças das mais altas
esferas vaticanas por conta de inconfessáveis questões sexuais. Um exemplo
desse sórdido mundo foi o caso do “gentil-homem de Sua Santidade” Angelo
Balducci, para quem um dos coristas da Capela Giulia procurava amantes em troca
de dinheiro.
A existência de uma rede de monsenhores
“homossensíveis” foi confirmada no sítio da web “Venerabilis”, promovido pelos
membros da “Homosexual Roman Catholic Priests Fraternity”, grupo virtual que
coloca em contato sacerdotes gays, e alguns deles trabalham nos escritórios da
Cúria Romana.
As
mensagens que lança a este respeito, como as que repetiu sobre o “carreirismo”
eclesiástico e sobre a transparência das finanças vaticanas, indicam que o Papa
está ciente da situação que deve enfrentar e mudar.
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