sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Civilização e Tradição






AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES



As reações que os gatos despertam nos homens são muito diversas, pois vão do extremo da antipatia até o extremo do carinho, passando por toda a gama intermediária.

É que no gato, animal extraordinariamente rico em aspectos, há de tudo.

Tigre em miniatura, é ele uma minúscula fera, que às vezes se manifesta arranhando, mordendo, saltando inopinadamente, assustando, pondo tudo em rebuliço e quebrando o que encontra.

Mas, quando o elemento "fera" se aquieta, o gato se mostra de modo oposto: encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, expressivo em suas atitudes, carinhoso, mimoso, em suma um verdadeiro bibelô vivo.

Um bibelô, entretanto, que não tem certo ar de bagatela, inseparável em geral até dos bibelôs mais finos. Porque em seu olhar, que tem algo de magnético e insondável, de reservado e enigmático, o gato conserva a terrível e atraente superioridade do mistério.

Tal é a riqueza da obra do Criador, que nesse ser meramente animal há alguma coisa que apresenta uma analogia frisante com as qualidades e os defeitos do homem.

Nu, suarento, agressivo, todo entregue aos instintos e às impressões, com o espírito tão limitado que não parece ter a menor consciência do primitivismo de suas armas, nem do primarismo de seus enfeites, esse pobre chefe bárbaro se encontra imerso no mundo da rudeza, da grosseria e da ferocidade.

Muito mais do que no gato, há nele uma dualidade. O homem, concebido em pecado original, tem em si, por assim dizer, uma fera e um anjo. Nesse infeliz africano a fera está bem à mostra. Vendo-o, quem se lembraria do "anjo"?

Esses dois gatinhos tão mimosos, tão delicados, tão meigamente aconchegados um ao outro, são... civilizados. Se, em lugar de terem sido criados em um salão, tivessem vivido sempre na taba desse bárbaro, certamente não seriam assim.

Mas há mais. A educação de uma criança começa cem anos antes de nascer, dizia Napoleão. O mesmo pode dizer-se dos gatos. Há pelo menos um século de vida de salão, na delicadeza que desabrocha nesses macios bichanos. Eles não têm só civilização. Têm tradição.

Esse pobre bárbaro também tem tradição. Pesam sobre ele séculos de selvageria, sem os quais, em via de regra, ninguém chega a ser tão típica, tão inteira, tão escancaradamente assim.

Tradição de barbárie, que degrada o homem fazendo com que pareça um bicho. Tradição de civilização, que faz com que um bicho pareça quase ter um pouco de humano.

É a força modeladora da civilização. É a influência indiscutível e profunda da tradição.

Para terminar, uma pergunta. Numa cidade onde houvesse só play-boys e suas congêneres femininas, onde só se tocasse e dançasse rock-and-roll, onde se comesse, falasse, agisse e brigasse à rock-and-roll, ao cabo de cem anos como seriam os gatos? Ficariam igualmente mimosos? Ou tomariam jeito de gato de telhado? Imaginemos um gato que vivesse junto a esse bárbaro: seria muito diverso do gato play-boy?

Tal amo, tal criado, dizia-se. Tal gato, tal dono, poder-se-ia dizer. Os gatos nascidos no "play-boysmo" e na barbárie seriam semelhantes... porque "play-boysmo" não é senão barbárie no cimento e no asfalto.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

People’s Pope, uma reprimenda



“Quando as palavras do Papa equivalem às de um homem comum, todas as críticas se tornam lícitas... Um caminho que “leva à protestantização da Igreja. Eis o risco que vejo”, diz De Mattei.

“O machado cai sobre o pequeno, sobre os mais fracos, sobre os fiéis à tradição. Se Francisco quer inclinar-se para os mais fracos, não precisa ir muito longe, basta se voltar para as muitas comunidades de fiéis que permanecem tenazmente ligadas ao Magistério e à moral perene. Sim, para os que são ultrajados, isolados e perseguidos ​​pelos respectivos bispos, ou pelos dicastérios da Cúria. Procurar o mais distante esquecendo o mais próximo, eis um falso conceito de amor”. De Mattei explica que não está em discussão o fato de o Pontífice se dirigir à periferia, aos mais distantes. Acima de tudo, o que importa é que “o caminho para chegar aos mais distantes passa pelos mais próximos, e não há  atalhos possíveis. E esses próximos hoje são os católicos ligados à tradição. Se há alguém precisando de misericórdia e ternura (palavras usadas por Francisco no Rio), é o caso destes”.


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Tradução: Raphael de la Trinité

O historiador de Mattei põe os pingos nos is e acusa ‘a forma de atuar’ de Francisco





Sapatos vermelhos, maleta preta com barbeador e breviário, sem carro blindado... “Estamos agora reduzidos à condição de avaliar um Papa a partir desses elementos, ou seja, a partir de um discurso no avião, e não pelos atos de ensino” — diz o historiador Roberto de Mattei, preocupado com o fato de que o Papa se vai tornando uma estampa, um talk-show. “Hoje tudo é superficial, gestos, e é neste campo que se costuma procurar o sentido último das coisas, perdendo-se o conteúdo e a substância; discute-se a forma, que passa a ocupar o lugar da substância”, acrescenta. “Basta fazer uma comparação com a importância dada à Lumen Fidei, sua primeira encíclica: paradoxalmente, destaca-se mais o que é dito no avião do que o conteúdo desse texto. Isso como se, em entre os dois, não houvesse um abismo de distância [em matéria de grau de ensinamento]”.

De Mattei não se impressiona com a entrevista de Francisco com jornalistas a bordo do airbus que o trouxe a Roma, após a semana agitada no Rio com jovens, pobres e mais desvalidos. Mais do que uma conferência de imprensa em voo, “o que importa [no modo hodierno de ver as coisas] é discutir os atos de governo do Papa, ainda que em pequeno número, até o momento. Os Pontífices se exprimem com as encíclicas e com aquilo que se chama de motu proprio. As palavras no avião são espontâneas, opiniões improvisadas e pessoais, completamente desprovidas do atributo de magistério”. Acrescenta De Mattei: embora “úteis para montar o perfil da personagem”, “serão sempre aspectos colaterais”.

Se tomarmos, por exemplo, as declarações sobre os gays, ou as afirmações referentes a Nossa Senhora, retratada pelo Papa como “sendo mais importante do que os apóstolos, os bispos, os sacerdotes e os diáconos” —  observa De Mattei — “ [devemos considerar que se trata de] temas delicados e importantes, que só podem ser abordados num contexto de ensino, e jamais mediante um dito espirituoso. Os ditos espirituosos têm o seu papel, mas não gozam de valor intrínseco. As frases improvisadas, sendo de natureza espontânea, facilmente podem criar mal-entendidos, que mais facilmente seriam sanáveis quando pronunciadas uma pessoa qualquer. Quando, porém, saem da boca do Vigário de Cristo, tornam-se problemáticas”.

Prossegue: “Lendo, por exemplo, alguns comentários sobre o comentário de Bergoglio acerca dos gays (como, por exemplo, a análise do filósofo católico Giovanni Reale, publicada por Corriere della Sera nesta terça-feira), tem-se a impressão de que estaríamos diante de uma mudança doutrinária. Já em face do conjunto das afirmações de Bergoglio, cessa essa impressão desfavorável, qual seja, de estarem em desacordo com a doutrina católica”. Trata-se de perceber onde está colocada a ênfase. Ora, nesse jesuíta vindo quase do fim do mundo, o destaque se acha na ideia de mudança: “A mudança de estilo, uma revolução nos gestos e na fala”, que para De Mattei termina por “tornar-se mais profunda do que o plano doutrinário”.

A forma exprime um conteúdo, ou, pelo menos, é como presumimos que deva ser. Quando o conteúdo é esvaziado, subtraído ou deturpado, então é que surge o problema. Nesse caso, discute-se uma forma sem conteúdo. Prescindindo-se da dimensão sagrada do Papado — prossegue o historiador do Cristianismo —, o sapato vermelho, por exemplo, poderia ser visto como “uma extravagância”.

Também os meios de comunicação têm a sua parcela de culpa.

Palavras de De Mattei: “Sou indiferente ao fato de o Papa fazer uso de um Fiat 500 ou de um automóvel Mercedes. Se me encontrasse em presença de São Pio X, talvez preferisse vê-lo com uma vestimenta mais simples”. A questão é outra: “a redução da posição do Papa a puros gestos”, sem que se atribua verdadeiro valor à substância — esse o ponto central. Contudo, diz Roberto de Mattei, “Francisco não é nenhum espírito parvo ou ingênuo. Pensa naquilo que faz e deliberadamente escolheu valorizar mais os seus gestos do que os termos do discurso, fazendo a sua mensagem consistir mais no primeiro do que no segundo ponto, assim como mais nas palavras do que nos atos pessoais do Magistério”. Em face disso, De Mattei exprime o receio de que, no plano midiático, o Papa “esteja brincando com fogo, ao nutrir a ilusão de que seria capaz de exercer domínio sobre a esfera da mídia. Também para este efeito ninguém o terá em conta de ingênuo. Contudo, não é de excluir que o bispo de Roma supervalorize a sua habilidade política no manejo dos meios de comunicação”. Ora, no mundo de hoje, “impõe-se mais a necessidade de espírito sobrenatural do que de cálculos políticos ou de recurso aos meios de comunicação. Temo que — continua o nosso interlocutor —, à força de se apresentar como homem comum, realmente venha a tornar-se um. Não obstante, trata-se do Vigário de Cristo, questão central,  que jamais poderá ser posta em segunda plana. O uso dos sapatos vermelhos e da sedia gestatoria tinham o condão de exprimir — de uma forma que não destoava da realidade — o caráter sacral de que se acha aureolada a sua condição de Vigário de Cristo”, diz De Mattei.

Em contrapartida, se o Papa “andasse de clergyman, como o Cardeal Bergoglio costumava fazer em Buenos Aires, que mensagem seria transmissível aos fiéis?”. O ponto fundamental, que deve ser posto no realce devido, reside no fato de que o Papa “não é um homem como nós, sendo que essa humanização do papado conduz ao esquecimento da fundamentação divina e metafísica da dignidade pontifícia”.

Para o historiador do Cristianismo, a consequência desse processo de secularização é a eliminação da ótica que estabelece distinções entre ensinamento do magistério e ensinamento corrente: “Quando as palavras do Papa equivalem às de um homem comum, todas as críticas se tornam lícitas. Quando a verdade é reduzida a uma opinião, quando se esvai o sentido profundo, quando não se fala mais de valores não negociáveis​​, tudo se torna negociável, tudo se torna suscetível à discussão”. Um caminho que “leva à protestantização da Igreja. Eis o risco que vejo”, diz De Mattei.

No tocante à questão da Igreja pobre, próxima dos mais fracos, veículo de ação privilegiada junto aos elementos periféricos da sociedade, o nosso interlocutor demonstra algumas perplexidades: “Causou-me impacto muito desfavorável o seguinte: como se explica que um Papa que busca inspiração em São Francisco de Assis como modelo de vida, formulando ademais constantes censuras ao mundanismo, mediante gestos em favor da sobriedade, tenha podido aprovar a decisão da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, presidida pelo cardeal brasileiro João Braz de Aviz, de desferir um golpe nos Franciscanos da Imaculada?” Se há uma Congregação religiosa que vive do espírito do Evangelho é justamente essa, diz De Mattei.

“Há, por outro lado, visível descompasso (algo que desconcerta), quando consideramos que, enquanto se fazem referências contínuas à simplicidade do Evangelho, a Cúria se mantém inalterada com suas estruturas. O machado cai sobre o pequeno, sobre os mais fracos, sobre os fiéis à tradição. Se Francisco quer inclinar-se para os mais fracos, não precisa ir muito longe, basta se voltar para as muitas comunidades de fiéis que permanecem tenazmente ligadas ao Magistério e à moral perene. Sim, para os que são ultrajados, isolados e perseguidos ​​pelos respectivos bispos, ou pelos dicastérios da Cúria. Procurar o mais distante esquecendo o mais próximo, eis um falso conceito de amor”. De Mattei explica que não está em discussão o fato de o Pontífice se dirigir à periferia, aos mais distantes. Acima de tudo, o que importa é que “o caminho para chegar aos mais distantes passa pelos mais próximos, e não há atalhos possíveis. E esses próximos hoje são os católicos ligados à tradição. Se há alguém precisando de misericórdia e ternura (palavras usadas por Francisco no Rio), é o caso destes”.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

UM POUCO DE EÇA – ALGO QUE VALE À BEÇA...



A E. STURMM, ALFAIATE



Eça de Queiroz
Lisboa, Abril
Meu bom Sturmm. – A sua sobrecasaca é perfeitamente insensata. Ali a tenho, arejando à janela, nas costas duma cadeira; e assenta tão bem nessas costas de pau como assentaria nas do Comandante das Guardas Municipais, nas do Patriarca, nas dum piloto da barra ou nas dum filósofo, se o houvesse nestes reinos. Quero, pois, severamente dizer que ela não possui individualidade.

Se V., bom Sturmm, fosse apenas um algibebe (1) embrulhando a multidão em pano Sedan para lhe tapar a nudez – eu não faria à sua obra esta crítica tão alta e exigente. Mas V. é alemão, e de Koenigsberg, cidade metafísica. A sua tesoura tem parentesco com a pena de Emanuel Kant, e legitimamente me surpreende que V. não a use com a mesma sagacidade psicológica.   

Não ignora V., decerto, que ao lado da Filosofia da História e de outras filosofias, há ainda mais uma, importante e vasta, que se chama a Filosofia do vestuário; e menos ignora, decerto, que aí se aprende, entre tanta coisa profunda, esta, de superior profundidade: que o casaco está para o homem como a palavra está para a ideia.
Ora, para que serve a palavra, Sturmm? Para tornar a ideia perceptível e transmissível nas relações humanas – como o casaco serve para tornar o homem apresentável e viável através das ocupações sociais. Mas é a palavra empregada sempre em rigorosa concordância de valor com a ideia? Não, meu Sturmm.
Quando a ideia é chata ou trivial, alteia-se, revestindo-a de palavras gordas e aparatosas – como todas as que se usam em política.
Quando a ideia é grosseira ou bestial, embeleza-se e poetiza-se, recobrindo-a de palavras macias, afagantes, canoras (2) – como todas as que se usam em amor.
Por outro lado, escolhem-se palavras duma retumbância especial para reforçar a veemência da ideia – como nos rasgos à Mirabeau (3) – ou rebuscam-se as que pela estranheza plástica ajuntam uma sensação física à emoção intelectual – como nos versos de Baudelaire.
Temos, pois, que a palavra opera sobre a ideia, ou disfarçando-a ou acentuando-a. Vai-me V. seguindo, perspicaz Sturmm?
Tudo isto se aplica exatamente às conexões do casaco com o homem.
Para que talham os alfaiates ingleses certas sobrecasacas longas, retas, rígidas, com um debrum (4) de austeridade e ressudando (5) virtude por todas as costuras? Para esconder a velhacaria de quem as veste. Você encontra em Londres essas sobrecasacas, nos meetings religiosos, nas Sociedades promotoras da moralização dos pequenos Patagônios e nos romances de Dickens. E para que talham eles esses fraques audazes, bem acolchoados de ombros e cavados de cinta, dando relevo aos quadris – sede da força amorosa? Para acentuar os corpos robustos e voluptuosos a que se colam. Você vê desses fraques aos Lovelaces, aos caçadores de dotes e a toda a legião dos entretenus (6).

Disfarçando-o ou acentuando-o, o casaco deve ser a expressão visível do caráter ou do tipo que, cada um, pretende representar entre os seus concidadãos.
Quem lhe encomenda, pois, um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade um prospecto. E nem precisa o alfaiate que aprofundou a sua Arte, de receber a confissão do freguês. As ligeiras recomendações que escapam, inquietas e tímidas, na hora atribulada da “prova”, bastam para que ele compreenda o uso social a que o cliente destina a sua farpela (7)… Assim, se um cavalheiro de luvas pretas, com uma luneta de ouro entalada entre dois botões do colete, que move os passos com lentidão e reflexão, e, ao entrar, pousou sobre a mesa um número do Jornal do Economista, lhe diz, num tom de mansa reprovação ao provar o casaco: “Está curto e justo de cinta” – V. deve logo deduzir que ele deseja aquelas abas bem fornidas, flutuantes, que demonstram abundância de princípios, circunspecção, amor sólido da Ordem e conhecimento miúdo das Pautas da Alfândega… Vai-me V. penetrando, bom Sturmm?

Ora, que lhe murmurei eu, em mau alemão, ao provar a sobrecasaca infausta? Esta fugidia indicação: “Que cinja bem!” Isto bastava para V. entender que eu desejava, através dessa veste, mostrar-me a Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou – reservado, cingido comigo mesmo, frio, cético e inacessível aos pedidos de meias libras… E, no entanto, que me manda V., Sturmm, num embrulho de papel pardo? V. manda-me a sobrecasaca que talha para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a sobrecasaca do Conselheiro!

Digo desgraçadamente – porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, V. leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar. Nada influencia mais profundamente o sentir do homem do que a fatiota que o cobre. O mais ríspido profeta, se enverga uma casaca e ata ao pescoço um laço branco, tende logo a sentir os encantos dos decotes e da valsa; e o mais extraviado mundano, dentro duma robe-de-chambre, sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão.
Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre o pensar. Não é possível conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins (8) de baile, e um jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a ideias conservadoras.
Você, pondo no dorso de toda a Sociedade essa casaca de Conselheiro, lisa, insípida, rotineira, pesabunda – está simplesmente criando um país de conselheiros!
Dentro dessa concepção banalizadora e achatante, o poeta perde a fantasia, o dandy perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a sagacidade, o padre perde a fé – e perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica tudo reduzido a esse cepo (9) moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim mesquinhamente aparando a originalidade do País! Você corta, em cada casaco, a mortalha dum temperamento. E se Camões ainda vivesse – e V. o vestisse – tínhamos em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto.



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LÉXICO [Raphael de la Trinité]


algibebe (1) = aquele que fabrica ou vende roupas de fazenda ordinária;

canoras (2) = que canta harmoniosamente;

rasgos à Mirabeau (3) = refere-se aos ditirambos [composição lírica que exprime entusiasmo ou delírio] do verboso tribuno que, durante a Revolução Francesa, foi o grande expoente dos ditos demagógicos e altissonantes ;

debrum (4) = tira que se coze dobrada sobre a orla de um tecido para guarnecê-lo ou reforça-lo;

legião dos entretenus (6) = legião dos bem nutridos [hoje se diria “legião saúde”]

ressudando (5) = expelir, suando;

o uso social a que o cliente destina a sua farpela (7)… = gancho em que terminam, de um lado, as agulhas de meia e de crochê;

escarpins (8) = sapato de sola muito fina, com salto ou sem ele, e que deixa descoberto o peito do pé;


cepo (9) = pessoa pesada e indolente.

Eça de Queiroz. Cartas Inéditas de Fradique Mendes. Lello & Irmão-Editores. Porto, 1951, p. 43-47.

A liturgia entre reformistas radicais e intransigentes






Foi publicado na Itália o livro de Alcuin Reid Lo sviluppo organico della liturgia. I principi della riforma liturgica e il loro rapporto con il Movimento liturgico del XX secolo prima del Concilio Vaticano II [O desenvolvimento orgânico da liturgia. Os princípios da reforma litúrgica e a sua relação com o Movimento Litúrgico do século XX antes do Concílio Vaticano II] (Cantagalli, 432 páginas). O livro tem um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, que aqui publicamos.



O artigo foi publicado no sítio Vatican Insider, 26-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.



Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia tornou-se cada vez mais um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, ou seja, de como ele deve ser avaliado e acolhido na vida da Igreja.

Há os estrênuos defensores da reforma, para os quais é uma culpa intolerável que, sob certas condições, tenha sido readmitida a celebração da Santa Eucaristia segundo a última edição do Missal antes do Concílio, a de 1962. Ao mesmo tempo, porém, a liturgia é considerada como "semper reformanda", de modo que, no fim, é a "comunidade" individual que faz a sua "própria" liturgia, na qual ela mesma se expressa. Um Liturgisches Kompendium [compêndio litúrgico] protestante (editado por Christian Grethlein e Günter Ruddat, Göttingen, 2003) apresentou recentemente o culto como "projeto de reforma" (pp. 13-41), refletindo também o modo de pensar de muitos liturgistas católicos. Por outro lado, há também os críticos ferozes da reforma litúrgica, que não só criticam a sua aplicação prática, mas também as suas bases conciliares. Estes veem a salvação somente na rejeição total da reforma.

Entre esses dois grupos, os reformistas radicais e os seus adversários intransigentes, muitas vezes se perde a voz daqueles que consideram a liturgia como algo vivo, algo que cresce e se renova no seu ser recebida e no seu atuar-se [SIC! SIC! SIC!]. Estes últimos, no entanto, com base na mesma lógica, também insistem no fato de que o crescimento só é possível se for preservada a identidade da liturgia e ressaltam que um desenvolvimento adequado só é possível prestando atenção às leis que, do interior, sustentam esse "organismo". Como um jardineiro acompanha uma planta durante o seu crescimento com a devida atenção às suas energias vitais e às suas leis, assim também a Igreja deve acompanhar respeitosamente o caminho da liturgia através dos tempos, distinguindo o que ajuda e cura, daquilo que violenta e destrói.

Se é assim, então devemos tentar definir qual é a estrutura interna de um rito, bem como as suas leis vitais, de modo a encontrar os caminhos certos para preservar a sua energia vital na mudança dos tempos para incrementá-la e renová-la. O livro do padre Alcuin Reid se coloca nesta linha. Percorrendo a história do Rito Romano (missa e breviário), desde as origens até as vésperas do Concílio Vaticano II, ele tenta estabelecer quais são os princípios do seu desenvolvimento litúrgico, obtendo, assim, da história, com os seus altos e baixos, os critérios sobre os quais toda reforma deve se basear.

O livro está dividido em três partes. A primeira, muito breve, analisa a história da reforma do Rito Romano desde as suas origens no fim do século XIX. A segunda parte é dedicada ao movimento litúrgico até 1948. A terceiro – de longe a mais extensa – trata da reforma litúrgica sob Pio XII até as vésperas do Concílio Vaticano II. Esta parte se revela muito útil, justamente porque tal fase da reforma litúrgica não é mais muito lembrada, apesar de que justamente nela – assim como na história do movimento litúrgico, evidentemente – se encontram todas as questões acerca das modalidades corretas para uma reformas, fazendo com que seja possível adquirir também critérios de julgamento.

A decisão do autor de se deter no limiar do Concílio Vaticano II é muito sábia. Ele evita, assim, entrar na controvérsia ligada à interpretação e à recepção do Concílio, ilustrando o momento histórico e a estrutura das várias tendências, o que é determinante para a questão acerca dos critérios da reforma.

No fim do seu livro, o autor elenca os princípios para uma correta reforma: ela deve ser igualmente aberta ao desenvolvimento e à continuidade com a Tradição; deve saber-se ligada a uma tradição litúrgica objetiva e fazer com que a continuidade substancial seja salvaguardada.

O autor, depois, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que "mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia" (CC, n. 1.125). Como critérios adicionais encontramos, enfim, a legitimidade das tradições litúrgicas locais e o interesse pela eficácia pastoral.
Eu gostaria de ressaltar ainda, do meu ponto de vista pessoal, alguns dos critérios já brevemente indicados da renovação litúrgica. Vou começar com os dois últimos critérios fundamentais. Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem.

A lei à qual deve se ater não é o agir ad libitum, mas sim a obediência da fé. Razão pela qual, com relação à liturgia, ele tem a tarefa de um jardineiro e não de um técnico que constrói máquinas novas e joga fora as velhas. O "rito", ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto da sua fé e da sua oração, tornando assim experimentável, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações, a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom feito à Igreja, uma forma viva de parádosis.

É importante, a esse respeito, interpretar corretamente a "continuidade substancial". O autor nos adverte expressamente com relação ao caminho equivocado no qual podemos ser conduzidos por uma teologia sacramental neoescolástica separado da forma viva da liturgia. Partindo dela, se poderia reduzir a "substância" à matéria e à forma do sacramento e dizer: o pão e o vinho são a matéria do sacramento, as palavras da instituição são a sua forma; somente essas duas coisas são necessárias, todo o resto pode até mudar [SIC! SIC! SIC!]. Sobre esse ponto, modernistas e tradicionalistas se encontram de acordo. Basta que haja a matéria e que sejam pronunciadas as palavras da instituição: todo o resto é "à vontade". Infelizmente muitos sacerdotes hoje agem com base nesse esquema, e até as teorias de muitos liturgistas, infortunadamente, se movem nessa direção.

Eles querem superar o rito como algo rígido e constroem produtos da sua imaginação, considerada pastoral, em torno desse núcleo residual, que é, assim, relegado ao reino da magia, ou privado totalmente do seu significado. O movimento litúrgico tinha tentado superar esse reducionismo, produto de uma teologia sacramental abstrata, e nos ensinar a considerar a liturgia como o conjunto vivo da Tradição que se fez forma, que não pode ser rasgado em pequenos pedaços, mas que deve ser visto e vivido na sua totalidade viva.

Quem, como eu, na fase do movimento litúrgico às vésperas do Concílio Vaticano II, ficou impressionado com essa concepção só pode constatar com profunda dor a destruição daquilo que estava em seu coração.

Eu gostaria de comentar brevemente outras duas intuições que aparecem no livro do padre Alcuin Reid. O arqueologismo e o pragmatismo pastoral – este último, no entanto, é muitas vezes um racionalismo pastoral – são ambos incorretos. Poderiam ser descritos como um par de gêmeos profanos. Os liturgistas da primeira geração eram, em sua maioria, historiadores e, consequentemente, propensos ao arqueologismo.

Eles queriam desenterrar as formas mais antigas na sua pureza original; viam os livros litúrgicos em uso, com os seus ritos, como expressão de proliferações históricas, fruto de mal-entendidos e ignorância passados. Tentava-se reconstruir a mais antiga Liturgia romana e limpá-la de todos os acréscimos posteriores. Não era algo totalmente equivocado; mas a reforma litúrgica é, contudo, algo diferente de uma escavação arqueológica, e bem todos os desenvolvimentos de algo vivo devem seguir a lógica de um critério racionalista/historicista.

Essa é também a razão pela qual – como o autor observa com razão – na reforma litúrgica a última palavra não deve ser deixada aos especialistas. Especialistas e pastores têm, cada um, o seu próprio papel (assim como, na política, os técnicos e aqueles que são chamados a decidir representam dois níveis diferentes). Os conhecimentos dos estudiosos são importantes, mas não podem ser imediatamente transformados em decisões dos pastores, que têm a responsabilidade de ouvir os fiéis na implementação com inteligência junto com eles do que hoje ajuda a celebrar os Sacramentos com fé ou não.

Uma das debilidades da primeira fase da reforma depois do Concílio foi que quase somente os especialistas tinham voz no capítulo. Teria sido desejável uma maior autonomia por parte dos pastores. Porque, muitas vezes, obviamente, é impossível elevar o conhecimento histórico ao posto de nova norma litúrgica, esta "arqueologismo" se vinculou muito facilmente ao pragmatismo pastoral. Decidiu-se, em primeiro lugar, eliminar tudo o que não era reconhecido como original e, consequentemente, como "substancial", para depois integrar a "escavação arqueológica" – quando ainda parecesse insuficiente – com o "ponto de vista pastoral".

Mas o que é "pastoral"? Os julgamentos intelectualistas dos professores sobre essas questões eram muitas vezes determinados pelas suas considerações racionais e não levavam em conta o que realmente sustenta a vida dos fiéis. De modo que, hoje, após a vasta racionalização da liturgia na primeira fase da reforma, estamos novamente em busca de formas de solenidade, de atmosferas "místicas" e de uma certa sacralidade.

Mas uma vez que existem – necessariamente e cada vez mais evidentes – julgamentos largamente divergentes sobre o que é pastoralmente eficaz, o aspecto "pastoral" tornou-se uma fenda para a irrupção da "criatividade", que dissolve a unidade da liturgia e nos coloca muitas vezes diante de uma deplorável banalidade. Com isso, não queremos dizer que a liturgia eucarística, assim como a liturgia da Palavra, não sejam muitas vezes celebradas a partir da fé, de modo respeitoso e "bonito", no melhor sentido da palavra.

Mas, como estamos buscando os critérios da reforma, também devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma. Gostaria de me deter ainda sobre o fato de que, naquele compêndio litúrgico acima mencionado, o culto foi apresentado como "projeto de reforma", isto é, como um canteiro de obras onde sempre há muito a fazer. Semelhante, embora um pouco diferente, é a sugestão, por parte de alguns liturgistas católicos, de adaptar a reforma litúrgica à mudança antropológica da modernidade e de construí-la de modo antropocêntrico.

Se a liturgia aparece, sobretudo, como o canteiro de obras do nosso agir, então isso significa que esquecemos do essencial: Deus. Porque, na liturgia, não se trata de nós, mas sim de Deus. O esquecimento de Deus é o perigo mais iminente do nosso tempo. A essa tendência, a liturgia deveria opor a presença de Deus. Mas o que acontece se o esquecimento de Deus entra até mesmo na liturgia, se na liturgia pensamos apenas em nós mesmos?

Em toda reforma litúrgica e em toda celebração litúrgica, o primado de Deus deveria sempre ocupar o primeiríssimo lugar. Com isso, foi muito além do livro do padre Alcuin. Mas acredito que, no entanto, tenha ficado claro que este livro, com a riqueza das suas ideias, nos ensina critérios e nos convida a uma reflexão posterior. Por isso eu recomendo a sua leitura.


Fonte: Unisinos

O ‘caso’ dos Franciscanos da Imaculada




















Corrispondenza Romana, n° 1304, 30 luglio 2013
Roberto De Mattei

O “caso” dos Franciscanos da Imaculada* apresenta-se como um episódio de extrema gravidade, destinado a ter consequências no seio da Igreja talvez não previstas por aqueles que o transformaram imprudentemente em ato. *http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/ 1.350.567

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada (conhecida como Congregação para os Religiosos) com seu decreto de 11 de julho de 2013, assinado pelo cardeal prefeito João Braz de Aviz e o arcebispo secretário José Rodriguez Carballo, OFM, desautorou os superiores dos Franciscanos da Imaculada, confiando o governo do Instituto a um “comissário apostólico”, o padre Fidenzio Volpi, capuchinho.

Para “blindar” o decreto, o cardeal João Braz de Aviz se muniu de uma aprovação ex auditu do Papa Francisco, que tira dos frades qualquer possibilidade de recurso à Signatura Apostólica. As razões dessa condenação, que tem sua origem em uma reclamação feita à Congregação para os Religiosos por um grupo de frades dissidentes, permanecem misteriosas. Desde o decreto da Congregação e da carta enviada aos franciscanos em 22 de julho pelo novo Comissário, as únicas acusações parecem ser as de um escasso “pensar com a Igreja” e de um apego excessivo ao Rito Romano antigo.

Na realidade, estamos diante de uma injustiça manifesta contra os Franciscanos da Imaculada. Este instituto religioso fundado pelos padres Stefano Maria Manelli e Gabriele Maria Pellettieri é um dos mais florescentes de que se ufana a Igreja, pelo número de vocações, a autenticidade da vida espiritual, a fidelidade à ortodoxia e às autoridades romanas. Na situação de anarquia litúrgica, teológica e moral em que nos encontramos hoje, os Franciscanos da Imaculada deveriam ser tomados como modelo de vida religiosa. O Papa se refere muitas vezes à necessidade de uma vida religiosa mais simples e sóbria.

Os Franciscanos da Imaculada se destacam por sua austeridade e pobreza evangélica, com as quais vivem, desde a sua fundação, seu carisma franciscano. Acontece, porém, que em nome do Papa, a Congregação para os Religiosos retira o governo do Instituto para transmiti-lo a uma minoria de frades rebeldes de orientação progressista, nos quais o novo Comissário se apoiará para “normalizar” o Instituto, ou para conduzi-lo ao desastre do qual até agora tinha escapado graças à sua fidelidade às leis eclesiásticas e ao Magistério.

Mas hoje o mal é recompensado e o bem castigado. Não surpreende que a empregar o punho de ferro no confronto com os Franciscanos da Imaculada esteja o mesmo Cardeal que auspicia compreensão e diálogo com as irmãs heréticas e cismáticas americanas. Aquelas religiosas pregam e praticam a teoria do gênero, e, portanto, deve-se dialogar com elas. Os Franciscanos da Imaculada pregam e praticam a castidade e a penitência e por isso não há possibilidade de entendimento com eles. Esta é a triste conclusão a que inevitavelmente chega um observador desapaixonado.

Uma das acusações é de serem muito apegados à Missa tradicional, mas a acusação é um pretexto, porque os Franciscanos da Imaculada são, como se costuma dizer, “bi-ritualistas”, ou seja, celebram a nova Missa e a antiga, conforme lhes é concedido pelas leis eclesiásticas em vigor. Colocados diante de uma ordem injusta, é de supor que alguns dentre eles não desistirão de celebrar a Missa tradicional; e farão bem em resistir neste ponto, porque não será um gesto de rebeldia, mas de obediência. Os indultos e privilégios em favor da missa tradicional não foram revogados e possuem uma força legal superior ao decreto de uma congregação, e até mesmo das intenções do Papa, se não expressas num ato legal claro.

O cardeal Braz de Aviz parece ignorar a existência do motu proprio Summorum Pontificum, de 7 de julho de 2007, de seu decreto de aplicação, a Instrução Universae Ecclesiae de 30 de Abril de 2011, e da Comissão Ecclesia Dei, ligada à Congregação para a Doutrina da Fé, das quais a Congregação para os Religiosos invade hoje o campo.

Qual é a intenção da suprema autoridade da Igreja? Suprimir a Ecclesia Dei e revogar o motu proprio de Bento XVI? Se for, que o diga explicitamente, para que possamos tirar as consequências. E se não for, por que fazer um decreto desnecessariamente provocativo contra o mundo católico ligado à Tradição da Igreja? Este mundo está numa fase de grande expansão, especialmente entre os jovens, e esta talvez seja a principal razão da hostilidade de que ele é hoje objeto.

Por fim, o decreto constitui um abuso de poder não apenas em relação aos Franciscanos da Imaculada e àqueles impropriamente definidos de tradicionalistas, mas a todos os católicos. Na verdade, é um sintoma alarmante da perda da segurança jurídica que está ocorrendo hoje no seio da Igreja. De fato, a Igreja é uma sociedade visível na qual há o “poder do direito e da lei” (Pio XII, Discurso Dans notre souhait, de 15 de Julho 1950). A lei é o que define o certo e o errado, e, como explicam os canonistas, “o poder da Igreja deve ser justo, para o que é necessário que parta da própria Igreja, que determina as finalidades e os limites da atividade da Hierarquia. Nem todo ato dos Pastores sagrados, pelo fato de provirem deles, é justo” (Carlos J. Errazuriz, Direito e justiça na Igreja, Giuffre, Milão 2008, p. 157).

Quando diminui a segurança jurídica, prevalece o arbítrio e a vontade do mais forte. Muitas vezes isso acontece na sociedade, e pode ocorrer na Igreja quando nesta a dimensão humana prevalece sobre a sobrenatural. Mas se não há segurança jurídica, não há nenhuma regra de comportamento segura. Tudo é deixado ao arbítrio do indivíduo ou de grupos de poder, e à força com a qual esses lobbies são capazes de impor a sua vontade. A força, separada da lei, torna-se prepotência e arrogância.

A Igreja, Corpo Místico de Cristo, é uma instituição legal baseada numa lei divina, da qual os homens da Igreja são os depositários, e não os criadores ou proprietários. A Igreja não é um soviet, mas uma construção fundada por Jesus Cristo, na qual o poder do Papa e dos bispos deve ser exercido de acordo com as leis e as formas tradicionais, todas enraizadas na Revelação divina. Hoje se fala de uma Igreja mais democrática e igualitária, mas o poder vem sendo exercido muitas vezes de modo personalista, em desprezo a leis e costumes milenares. Quando existem as leis universais da Igreja, como a bula de São Pio V Quo primum (1570) e o motu proprio de Bento XVI Summorum Pontificum, para mudá-los é necessário um ato legal equivalente. Uma lei anterior não pode ser revogada senão com um ato explicitamente abrogatório de igual porte.

Para defender a justiça e a verdade no interior da Igreja, confiamos na voz dos juristas, entre os quais estão alguns eminentes cardeais que ordenaram de acordo com o rito “extraordinário” os Frades Franciscanos da Imaculada, cuja vida exemplar e zelo apostólico eles conhecem. Apelamos especialmente ao Papa Francisco, para que queira retirar as medidas contra os Franciscanos da Imaculada e contra seu uso legítimo do Rito Romano antigo.

Qualquer que seja a decisão tomada, não podemos esconder o fato de que a hora em que vive hoje a Igreja é dramática. Novas tempestades se adensam no horizonte e essas tempestades certamente não são suscitadas nem pelos Frades, nem pelas Irmãs Franciscanas da Imaculada. O amor à Igreja Católica Apostólica Romana sempre nos moveu e nos move a tomar sua defesa. Nossa Senhora, Virgo Fidelis, sugerirá à consciência de todos nesta difícil conjuntura, o caminho certo a seguir.



Tradução: Helio Viana
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