Dados básicos de uma questão de
consciência
A] Como uma das razões da
intervenção da Congregação dos Religiosos no Instituto dos Franciscanos da
Imaculada em 11 de julho último, o comissário, Pe. Fidenzio Volpi, O.F.M.Cap.,
referiu-se a problemas na aceitação do Magistério e no “sentir com a Igreja”.
B] Por outro lado, os
numerosos comentários sobre o assunto publicados nas redes sociais antimodernistas
indicam que o fundador e superior geral, Pe. Stefano Manelli, vinha orientando
o Instituto no sentido da Tradição. A intervenção, portanto, não visaria apenas
afastar os frades da celebração da Missa de São Pio V, mas também, ou
sobretudo, pôr fim às resistências de muitos deles às doutrinas controvertidas
do Vaticano II e às novidades inauditas do pós-Concílio.
C] Segundo deflui do decreto de
intervenção da Congregação dos Religiosos e dos documentos de lavra do
interventor, recusar tais doutrinas e a Missa de 1969, ou manifestar restrições
em relação a elas, seria não ter o “sentir com a Igreja”, em cuja definição,
por Santo Inácio de Loyola, se lê:
“1ª regra - Renunciando a todo juízo próprio,
devemos estar dispostos e prontos a obedecer em tudo à verdadeira esposa de
Cristo Nosso Senhor, isto é, à Santa Igreja hierárquica, nossa mãe.”
“9ª regra - Louvar todos os preceitos da Santa
Igreja, e estar disposto a procurar razões em sua defesa, e nunca para os
criticar”.
“13ª regra - Para em tudo acertar, devemos estar
sempre dispostos a crer que o que nos parece branco é negro, se assim o
determina a Igreja hierárquica; persuadidos de que entre Cristo Nosso Senhor -
o Esposo - e a Igreja - sua Esposa – não há senão um mesmo Espírito, que nos
governa e dirige para a salvação das nossas almas. Porque é pelo mesmo Espírito
e mesmo Senhor, autor dos dez mandamentos, que se dirige e governa a Santa
Igreja, nossa Mãe”.
D] Com base nos estudos
antimodernistas dos últimos cinquenta anos, pode-se atribuir ao Vaticano II o
rótulo de “heretizante” ([1]).
Seus documentos estão prenhes de proposições próximas da heresia modernista,
dela favorecedoras, escandalosas, etc. Assim, é intolerável que o “sentir com a
Igreja” seja identificado ao sentir com o Vaticano II. Na raiz dessa falsa
identificação está uma noção errônea do Magistério da Igreja.
Falsa concepção da infalibilidade do
Magistério
1] Nosso Senhor prometeu que
as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja ([2]).
Mas não foi só isso. Prometeu igualmente que estaria com os apóstolos “todos
os dias até a consumação dos séculos” ([3]).
Note-se bem, “todos os dias”. Logo, segundo a doutrina clássica de papas
e grandes doutores, o ensinamento da Hierarquia em cada época é assistido por
Nosso Senhor. Surge aqui a grande questão: o Papa e os bispos hoje vivos podem
errar? O católico fiel é obrigado a aceitar incondicionalmente tudo que eles
ensinam, como parecem determinar as regras do “sentir com a Igreja” de Santo
Inácio de Loyola?
2] Para muitas figuras
representativas da teologia atual que acolhem o Vaticano II como regra absoluta
da Fé, o Magistério, tanto pontifício quanto conciliar, jamais pode errar,
mesmo quando fala sem preencher as cinco condições necessárias para gozar
do carisma da infalibilidade. O Vaticano I definiu essas condições quanto à
infalibilidade papal, as quais valem também, mutatis mutandis, para
a infalibilidade conciliar. No texto dessa definição dogmática, a seguir
transcrito, vêm ressaltadas as cinco referidas condições:
“Ensinamos e definimos como dogma divinamente
revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é,
quando,
[1ª condição] no desempenho do ministério de
pastor e doutor de todos os cristãos,
[2ª condição] define,
[3ª condição] com sua suprema autoridade
apostólica,
[4ª condição] alguma doutrina referente à fé e à
moral
[5ª condição] para toda a Igreja,
goza, em virtude da assistência divina a ele
prometida na pessoa de São Pedro, daquela infalibilidade com a qual Cristo quis
dotar a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre fé e moral; e que
portanto tais declarações do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas,
e não apenas em virtude do consentimento da Igreja”.
3] Estudos antimodernistas
dos últimos decênios já demonstraram amplamente a falsidade da concepção da uma
infalibilidade absoluta e omnímoda, que tenho chamado de monolítica ([4]).
Prevalece hoje, tanto em relação aos Papas quanto aos concílios ecumênicos, uma
doutrina matizada e sólida, segundo a qual o Magistério pode cair em erro e
mesmo heresia, quando não preenche as condições da infalibilidade.
4] Em aprofundado estudo
recente sobre essa matéria, o Pe. Daniel Pinheiro, do Instituto Bom Pastor,
mostra que “o Magistério desse segundo tipo – não infalível – pode (...) conter
erros porque, ao contrário do primeiro grau estudado, não se encontra garantido
na verdade por Deus. (...). A possiblidade de erro nesse grau
de Magistério é, praticamente, unanimidade entre os teólogos. É incompreensível
que alguns afirmem a impossibilidade de erros em atos do Magistério
não-infalível. Negar a possiblidade de erro desse Magistério seria torná-lo
infalível (...). Deve ser assimilado a esse Magistério o magistério
de um Concílio Ecumênico que não possui a voluntas definiendi/obligandi. Trata-se da
autoridade suprema que ensina, mas sem a intenção de engajar toda a sua
autoridade e revesti-la inteiramente da assistência divina infalível” ([5]).
5] Para compreender que tal
possibilidade de falha magisterial não se opõe às promessas de Nosso Senhor, é
importante observar que, segundo a doutrina verdadeira do Magistério
ordinário ([6]),
uma condição essencial para a infalibilidade de seus ensinamentos é que estes
sejam aceitos pacificamente pela Igreja universal, dentro de um tempo
suficiente para serem tidos como pertencentes à Fé, e portanto como devendo ser
professados pelos fiéis.
6] E é manifesto que as
novidades heretizantes do Vaticano II, mesmo após cinquenta anos de aggiornamento conciliar,
jamais contaram com o consenso na Santa Igreja, tanto no corpo docente quanto
no discente. Na Carta Apostólica Tuas Libenter, de 1863, Pio
IX ressalta a importância fundamental desse consenso, declarando que a sujeição
a ser prestada à fé divina “deve ser estendida também ao que é transmitido
pelo Magistério Ordinário de toda a Igreja, dispersa pelo orbe, como
divinamente revelado, e por isso é tido como pertencente à fé pelo consenso
universal e constante dos teólogos católicos”. Adiante, Pio IX afirma
que os fiéis devem também submeter-se “aos pontos de doutrina que pelo
consenso comum e constante dos católicos são tidos como verdades teológicas e
conclusões a tal ponto certas que as opiniões a estas doutrinas opostas, embora
não possam dizer-se heréticas, merecem no entanto alguma outra censura
teológica” ([7]).
7] É chocante que, para
muitos teólogos modernos, o “sentir com a Igreja” não permite rejeitar
ensinamentos do Magistério atual mesmo quando não envolvem a infalibilidade;
mas permite negar ensinamentos do passado, mesmo quando garantidos
incontestavelmente pela infalibilidade do Magistério Extraordinário ou do
Magistério Ordinário universal.
Bento XVI e a continuidade do Concílio
com a Tradição
8] A questão da
compatibilidade entre o “sentir com a Igreja” e o sentir com o Vaticano II leva
necessariamente ao problema suscitado pelo Santo Padre Bento XVI em dezembro de
2005, ao convocar os católicos a interpretarem o Vaticano II como uma “reforma
na continuidade” da Tradição. Ele reprovou a hermenêutica de ruptura segundo a
qual os progressistas declaram abertamente que o Concílio se opõe de modo
formal às doutrinas de sempre; e reprovou também, como sendo igualmente de
ruptura a hermenêutica dos defensores da Tradição, segundo os quais o Concílio
contém novidades inconciliáveis com o Magistério anterior. Que os
progressistas rompem com dogmas católicos de todos os séculos é patente e
incontestado, de modo que eles se calaram diante do dito de Bento XVI. Os
antimodernistas, entretanto, se dedicaram a estudos aprofundados, mostrando
cabalmente que não há como interpretar o Vaticano II na linha da “reforma na
continuidade”.
9] Já se tornou tranquilo
para os teólogos antimodernistas, únicos que contam ([8]),
que o Vaticano II não pode ser entendido como “reforma na continuidade”,
mas carrega em seu bojo desvios graves em relação à doutrina tradicional. Essa
posição foi recentemente exposta pelo Padre Jean-Michel Gleize, da Fraternidade
São Pio X, numa fórmula cortante e concisa: “A hermenêutica da continuidade
proposta pelo Papa Bento XVI é um esforço louvável mas vão, um a mais depois de
cinquenta anos do Vaticano II. Esforço vão, porque incapaz de superar uma
ruptura inscrita nos textos do Concílio” ([9]).
O Cardeal Kasper e a reforma na
continuidade
10] Artigo recente do
Cardeal Walter Kasper ([10]),
que comentei neste site ([11]),
relata fatos fundamentais para a comprovação de que, numa hermenêutica séria e
objetiva, não há como interpretar certos textos do Vaticano II na continuidade
da Tradição. Depreende-se desse artigo que o Concílio se inspirou na nouvelle
théologie. Expõe o Cardeal que Paulo VI, não desejando aprovar
formulações às quais os tradicionalistas se opusessem em definitivo, “engajou”
a minoria tradicionalista com alterações de redação que atenuavam ou confundiam
o sentido das passagens modernizantes. Para isso, diz o Cardeal Kasper, “pagou-se
um preço” com “fórmulas de compromisso” em que “as posições da
maioria figuram imediatamente ao lado daquelas da minoria, pensadas para
delimitá-las”. Essas limitações não tornavam ortodoxos os textos
modernistas originais, mas debilitavam seu sentido, afastando ou dificultando
as censuras teológicas mais graves, e bloqueando as reações sadias que pudessem
surgir.
11] Continua o artigo
explicando que, em razão dessas “fórmulas de compromisso”, “os textos
conciliares têm em si um enorme potencial de conflito, abrem a porta a uma
recepção seletiva numa ou noutra direção”.
12] No mencionado artigo, o
Cardeal declara que “a recepção oficial não permaneceu estática, mas, em
parte, ultrapassou o Concílio”; “o primeiro passo oficial da recepção
foi a reforma litúrgica; foi sobretudo a introdução do novo Missal”; “tudo
isso transformou positivamente, sob muitos aspectos, o rosto da Igreja tanto
interna quanto externamente”. Essa afirmação, que pelo menos beira o
escândalo, permite entender melhor o alcance do título dado pelo purpurado ao
artigo: Um Concílio ainda em caminho.
13] Vê-se pois que o artigo
do Cardeal Kasper revela patente descontinuidade do Concílio em face da
Tradição. Somente uma hermenêutica a fórceps, e portanto
falsa, poderia interpretar o Vaticano II como uma “reforma na
continuidade”. Para poder prevalecer, essa hermenêutica haveria de partir
do pressuposto de que jamais um Concílio poderia opor-se à Tradição. Haveria de
ver nesse pressuposto um dogma de fé, que inexiste. A fórceps, haveria de
interpretar as passagens modernistas e modernizantes originais do Vaticano II
como se houvessem sido de todo corrigidas por “fórmulas de compromisso”,
as quais entretanto, como diz com razão o Cardeal Kasper, apenas se
justapõem às posições da maioria, de modo tal que “os textos
conciliares têm em si um enorme potencial de conflito, abrem a porta a uma
recepção seletiva numa ou noutra direção”. Isto é, são textos heretizantes.
Modernismo e nouvelle théologie
14] Como observado no item
13 retro, o mencionado artigo do Cardeal Kasper torna claro que o Vaticano II
constituiu grande vitória da nouvelle théologie, condenada por
Pio XII na Encíclica Humani Generis, de 1950. Nela está o
elemento dinâmico dos textos conciliares, tudo confluindo para o vórtice do
modernismo, que, em suas diversas correntes, ainda hoje se pavoneia como se
fosse a doutrina católica verdadeira.
15] O eminente teólogo
dominicano Pe. Garrigou-Lagrange se perguntava, já bem antes do Vaticano II,
para onde ia a nouvelle théologie, e respondia: “Ela
redunda no próprio modernismo, porque aceitou a proposta que este lhe fazia:
substituir, como se fosse quimérica, a definição tradicional da verdade, ‘adaequatio
rei et intellectus’, pela definição subjetiva, ‘adaequatio realis
mentis et vitae’. A verdade já não é a conformidade do juízo com o real
extramental e suas leis imutáveis, mas a conformidade do juízo com as
exigências da ação e da vida humana sempre em evolução. A filosofia do ser ou
ontologia é substituída pela filosofia da ação que define a verdade não já em
função do ser mas da ação. Retorna-se, pois, à posição modernista (...). Assim,
Pio X dizia dos modernistas: ‘eles pervertem o conceito eterno da verdade’
(...). Ora, deixar de defender a definição tradicional da verdade, permitir
seja ela tida como quimérica, dizer que é necessário substituí-la por outra,
vitalista e evolucionista, isso leva ao relativismo completo e é um erro muito
grave” ([12]).
Conclusão: “sentir com a Igreja” não
pode ser sentir com um Concílio heretizante
16] Como se vê, os
modernistas de hoje pretendem utilizar-se dos conceitos mais sagrados e das
doutrinas mais santas da Tradição em favor de seus desvios na fé. Assim é que
deturpam e degradam a noção do Magistério, atribuindo-lhe uma infalibilidade
que discrepa das definições do Vaticano I. Entendem o “sentir com a Igreja” de
forma errônea, levando muitos a interpretá-lo em sentido diverso do ensinamento
de Santo Inácio. Valem-se da autoridade suprema de um Concílio Ecumênico para a
propagação de suas novidades opostas à fé.
17] A identificação pelos
progressistas do “sentir com a Igreja” ao sentir com o Vaticano II transcende a
questão dos Franciscanos da Imaculada, cujo desenrolar os fieis verdadeiros
aguardam com extrema preocupação e orações ardentes. De todo modo deve-se
proclamar, alto e bom som, que tal identificação não pode prevalecer, porque o
Vaticano II foi um Concílio heretizante, insuscetível de uma interpretação como
“reforma na continuidade”.
18] Que Nossa Senhora das Vitórias dê forças ao fundador dos Franciscanos da
Imaculada, a seus seguidores e a todos os católicos fiéis, mantendo-os firmes
na mais pura ortodoxia em doutrina como na prática; e que Ela abrevie os dias
de glória falaz e necessariamente transitória do modernismo.
[4] Ver, neste site Bonum
Certamen, os artigos: “Infalibilidade monolítica e as divergências entre
os antimodernistas” e “Grave lapso teológico de Mons. Ocáriz”.
[8] Com efeito, para a
finalidade aqui indicada, não se haverá de considerar os teólogos que
notoriamente se distanciam da ortodoxia católica. A mesma ideia vem
expressa nos itens 9 e 34-c do artigo “Da qualificação teológica extrínseca
do Vaticano II”, publicado neste site Bonum Certamen.
[11] Ver, neste site Bonum
Certamen, o artigo “Da qualificação teológica extrínseca do
Vaticano II”.
[12] Garrigou-Lagrange, “La
nouvelle théologie, ou va-t-elle?”, Angelicum, 1946, vol. 23,
p.126-145.
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