DESTAQUE
Se alguém se encarregasse de fazer entre os nossos católicos um inquérito a este respeito, recolheria respostas muito curiosas, revelando em geral uma pavorosa confusão de ideias, um ilogismo fundamental.
O
"bom coração" sacrifica tudo a este objetivo essencial, de poupar
sofrimento. Se vê alguém queixar-se do rigor do Decálogo, pensa imediatamente
em reformas, abrandamentos, interpretações acomodatícias. Se vê alguém sofrer
de inveja por não ser nobre, ou milionário, pensa logo em democratização. Juiz,
sua "bondade" o levará a sofismar com a lei para deixar impunes
certos crimes. Delegado, fechará os olhos a fatos que seu dever funcional lhe
imporia que reprimisse. Diretor de prisão, quererá tratar o sentenciado como
uma vítima inocente dos defeitos da época e do ambiente; e, em consequência,
instaurará um regime penal que transformará a casa de correção em ponto de
encontro de todos os vícios, em que a livre comunicação entre sentenciados
exporá cada um ao contágio de todos os vírus que ainda não tem. Professor,
aprovará sonolenta e bonacheironamente alunos que no máximo mereceriam 2 ou 3.
Legislador, será sistematicamente propenso a todas as reduções de horas de
trabalho, e a todos os aumentos de salário. Na política internacional, será a
favor de todos os "Munique" [NOTA: Em setembro de 1938, os chefes dos governo da Inglaterra, França,
Alemanha e Itália, realizaram uma conferência em Munique (Alemanha) de que resultou
o Acordo de Munique, por força do qual a Inglaterra e a França entregavam a
Checoslováquia à Alemanha] ,de todas as capitulações imprevidentes, preguiçosas, imediatistas
desde que sem dispêndio de energia salvem a paz por mais alguns dias.
*** * ***
UMA DEFORMAÇÃO
ROMÂNTICA DA CARIDADE – ‘O BOM CORAÇÃO’

Odiar é pecado? Sim, não? Por quê? Se
alguém se encarregasse de fazer entre os nossos católicos um inquérito a este
respeito, recolheria respostas muito curiosas, revelando em geral uma pavorosa
confusão de ideias, um ilogismo fundamental.
Para muita gente, ainda
intoxicada por restos do romantismo herdado do século XIX, o ódio não é apenas
um pecado, mas o pecado por excelência. A definição romântica do homem mau é o
que tem ódio no coração. A contrario
sensu, a virtude por excelência é a bondade, e por isto todos os pecados
têm sua atenuante se cometidos por uma pessoa de "bom coração". É
frequente ouvirem-se frases como esta: "pobre X, teve a fraqueza de se
‘casar’ no Uruguai [NOTA: Há cerca de
sessenta anos, o divórcio já vigorava no Uruguai], mas no fundo é muito boa
pessoa, tem ótimo coração". Ou então: "pobre Y, deixou roubar em sua
repartição, mas foi por excesso de bondade: ele não sabe dizer não, a
ninguém".

O que vem a ser "um bom
coração"? Evidentemente, começa por não ser um coração propriamente dito,
mas um estado de espírito. Tem "bom coração" quem experimenta em si,
muito vivamente, o que sofrem os outros. E que, por isto mesmo, nunca faz
sofrer a ninguém. É por "bom coração" que uma pessoa pode deixar
sistematicamente impunes as más ações de seus filhos, permitir que a anarquia
invada a aula em que leciona, ou os operários que dirige. Uma reprimenda faria
sofrer, e a isto não se resolve o homem de "bom coração", que sofre
ele mesmo demais, em fazer os outros sofrer. O "bom coração"
sacrifica tudo a este objetivo essencial, de poupar sofrimento. Se vê alguém
queixar-se do rigor do Decálogo, pensa imediatamente em reformas,
abrandamentos, interpretações acomodatícias. Se vê alguém sofrer de inveja por
não ser nobre, ou milionário, pensa logo em democratização. Juiz, sua
"bondade" o levará a sofismar com a lei para deixar impunes certos
crimes. Delegado, fechará os olhos a fatos que seu dever funcional lhe imporia
que reprimisse. Diretor de prisão, quererá tratar o sentenciado como uma vítima
inocente dos defeitos da época e do ambiente; e, em consequência, instaurará um
regime penal que transformará a casa de correção em ponto de encontro de todos
os vícios, em que a livre comunicação entre sentenciados exporá cada um ao
contágio de todos os vírus que ainda não tem. Professor, aprovará sonolenta e
bonacheironamente alunos que no máximo mereceriam 2 ou 3. Legislador, será
sistematicamente propenso a todas as reduções de horas de trabalho, e a todos
os aumentos de salário. Na política internacional, será a favor de todos os
"Munique" de todas as capitulações imprevidentes, preguiçosas,
imediatistas desde que sem dispêndio de energia salvem a paz por mais alguns
dias.
Subjacente a todas estas
atitudes, está a ideia de que no mundo só há um mal, que é a dor física ou
moral: em consequência, bem é tudo quanto tende a evitar ou a suprimir
sofrimento, e mal é o que tende produzi-lo ou agrava-lo. O "bom
coração" tem uma forma especial de sensibilidade, pela qual se emociona à
vista de qualquer sofrimento, e defende todo e qualquer indivíduo que sofre,
como se ele fosse vítima de uma injusta agressão. Dentro desta concepção,
"amar ao próximo" é não querer que ele sofra. Fazer sofrer o próximo
é sempre e necessariamente ter-lhe ódio.

Daí advém para o homem de "bom coração" uma psicologia
muito especial. Todos os que têm zelo pela ordem, pela hierarquia, pela
integridade dos princípios, pela defesa dos bons contra as investidas do mal,
são desalmados, pois "fazem sofrer" com sua energia os "pobres
coitados" que "tiveram a fraqueza" de cair em algum deslize.
E se em relação a todos os
pecadores da terra o homem de "bom coração" tem tolerância, é muito
explicável que odeie o homem de "mau coração" que "faz sofrer os
outros".
Estas são as linhas gerais em que
se pode sintetizar um estado de espírito muito frequente. Claro está que
apontamos um caso em tese. Graças a Deus, só um número relativamente pequeno de
pessoas é que em todos os campos chega a estes extremos. Mas é frequente
encontrar gente que em diversos pontos age inteiramente assim.
E constituem multidão aqueles em
que se encontram pelo menos laivos deste estado de espírito.
Ainda aqui, alguns exemplos são
esclarecedores. Para mostrar quanto este mal está entranhado no brasileiro,
escolhamos esses exemplos em maneiras de falar e de sentir comuns entre
católicos.
Para que se entenda bem o que há
de errado nos exemplos que vamos dar, comecemos por lembrar rapidamente qual é
neste assunto a autêntica doutrina católica.
Para a Igreja, o grande mal neste
mundo não é o sofrimento, mas o pecado. E o grande bem não consiste em ter boa
saúde, mesa farta, sono tranquilo, em gozar honras, em trabalhar pouco, mas em
fazer a vontade de Deus. O sofrimento é certamente um mal. Mas este mal pode em
muitos casos transformar-se em bem, em meio de expiação, de formação, de
progresso espiritual. A Igreja é Mãe, a mais terna, a mais solícita, a mais
carinhosa das mães. Dela se pode dizer, como de Nossa Senhora, que é Mater Amabilis, Mater Admirabilis, Mater
Misericordiae. Assim, ela procurou sempre, procura hoje, até o fim dos
séculos procurará quanto possa afastar de seus filhos, e de todos os homens,
qualquer dor inútil. Mas nunca deixará de lhes impor a dor, na medida em que a
glória de Deus e a salvação das almas o peçam. Ela [a Igreja] exigiu dos
mártires de todos os séculos que aceitassem os tormentos mais atrozes, ela
pediu aos cruzados que abandonassem o conforto do lar para arrostar mil
fadigas, combates sem conta, a própria morte em terra estranha. E ainda em
nossos dias ela pede aos missionários que se exponham a todos os riscos, a
todas as fadigas, nos rincões mais inóspitos e longínquos. A todos os fiéis,
pede ela uma luta incessante contra as paixões, um esforço interior contínuo
para reprimir tudo quanto é mau. Ora, tudo isto supõe sofrimentos de tal monta,
que a Igreja os considera insuportáveis para a fraqueza humana, a ponto de
ensinar que, sem a graça de Deus, ninguém pode praticar na sua totalidade, e
duravelmente, os Mandamentos.

Todos estes sofrimentos,
a Igreja os impõe com prudência e bondade, é certo, mas sem vacilação, nem
remorso, nem fraqueza. E isto, não apesar de ser boa mãe, mas precisamente
porque o é. A mãe que sentisse remorso, vacilasse, fraquejasse ao obrigar seu
filho a estudar, a se submeter a tratamentos médicos penosos mas necessários, a
aceitar punições merecidas, não seria boa mãe
Este procedimento, a Igreja o
espera também de seus filhos, não só em relação a si mesmos, mas ao próximo. É
justo que nos dispensemos de dores inúteis e evitáveis. Devemos ter, para com o
próximo, entranhas de misericórdia, condoendo-nos com seus padecimentos, e não
poupando esforços para os aliviar. Entretanto, devemos amar a mortificação, devemos
castigar corajosamente nosso corpo e, principalmente, combater com afinco,
clarividência, meticulosidade os defeitos de nossa alma. E como o amor do
próximo nos leva a desejar para ele o mesmo que para nós, não devemos hesitar
em fazê-lo sofrer, desde que necessário para sua santificação.
* * *
Ora, na aplicação destes princípios é
fácil apontar muitos desvios ocasionados pela concepção romântica do "bom
coração".
É "bom coração" ter
certa condescendência para com formas veladas de divórcio, por pena dos
cônjuges, ser pela abolição dos votos religiosos e do celibato sacerdotal, por
pena das pessoas consagradas a Deus, considerar com laxismo os problemas
ligados à limitação da prole por pena da mãe, etc. Em outros campos, o
"bom coração" consiste em ser contra as polêmicas ainda que justas e
temperantes, contra o Index, contra o Santo Ofício, contra a Inquisição ( ainda
que sem os abusos a que deu ocasião em alguns lugares ), contra as Cruzadas,
porque tudo isto faz sofrer. Em outros campos ainda, o "bom coração"
consiste em não falar de demônio, nem de inferno ou de purgatório, em não
avisar aos doentes que a morte está próxima, em não dizer aos pecadores a
gravidade de seu estado moral, em não lhes falar de mortificação, nem de
penitência, nem de emenda, porque também isto faz sofrer. Já vimos um educador
católico se manifestar contra os prêmios escolares porque fazem sofrer os
alunos vadios! Como já vimos também associações religiosas tolerando em seu
grêmio elementos perigosos para os associados e desedificantes para o público,
porque a expulsão desses elementos os faria sofrer. Falar contra as modas e
danças imorais, preconizar uma censura cinematográfica sem laxismo, tudo isto
em última análise parece descaridoso, porque "faz sofrer". Soubemos a
este respeito de alguém que desaconselhava uma campanha contra os jornais
imorais porque isto "faz sofrer" os editores cujas almas cumpre
salvar!
* * *
Fizemos esta longa digressão para
focalizar melhor o problema que de início formulávamos. Para o "bom coração",
todo ódio é necessariamente um pecado. Dir-se-á o mesmo à luz da doutrina
católica?
Pensando no perigoso furor da
avalanche de "bons corações" de que o Brasil está cheio, quase não
ousamos formular a pergunta. E certamente não responderemos por nós. Mas
falaremos pela grande e autorizada voz de S. Tomás.
É o que faremos em próximo
artigo.
Catolicismo Nº 34 - Outubro de
1953
NOSSAS FIGURAS
O Clichê :
"A entrada de Joana d’Arc em Orléans" –
projeto de vitral para a Catedral de Orléans, por Lechevallier-Chevignard, séc.
XIX.
Joana d’Arc é um exemplo típico
de virtude heroica, praticada, não só por meio de atos capazes de despertar
louvores e aplausos, mas também cólera e reação. Modelo de combatividade
cristã, fez ela, em admiráveis respostas no processo iníquo que sofreu, a
apologia da virtude enquanto aplicada em guerrear e destroçar o mal. Assim,
quando os juízes lhe perguntaram se Santa Catarina e Santa Margarida odiavam os
ingleses, Joana d’Arc respondeu: “Elas amam o que Nosso Senhor ama e odeiam o
que Deus odeia”. - “Deus odeia os ingleses?” continuaram os juízes. - “Do amor
ou do ódio que Deus tem aos ingleses, nada sei, respondeu a Santa; o que sei
perfeitamente, é que todos eles serão expulsos da França, excetuado os que aqui
morrerem”.
As vinhetas:
Um leão rompante, símbolo
heráldico da combatividade, carregado com um tau antigo, que na visão de
Ezequiel ( Ez. 9,4 ) é sinal dos que não sabem sorrir para a iniquidade de seus
irmãos. Os dísticos reproduzem algumas das muitas apóstrofes candentes contra
os obreiros do mal, que se encontram no Antigo Testamento.
Inimicitias ponam: porei inimizades... entre tua descendência
e a da Mulher ( Gênesis, 3.15 ).
Scribae et pharisaei hypocritae: escribas e fariseus hipócritas ( S. Mat.
23.33 ).
Serpentes, genimina viperarum: serpentes, raça de víboras ( S. Mat. 23.33
).
Pleni hypocrisi et iniquitate: estais cheios de hipocrisia e iniquidade (
S. Mat. 23.28 ).
Fonte: Plínio Corrêa de Oliveira
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