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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Zygmunt Bauman - ‘Vivemos Tempos Líquidos. NADA É FEITO PARA DURAR’


DESTAQUE

O homem se colocou no lugar de Deus, e agora, não sabe porque vive. Pior do que a vida, perdeu a razão de viver.
O mundo de hoje se encaminha para o quadro de non-sense, abaixo descrito, com invulgar clareza. É um mundo que, tendo abdicado de Deus,  pretende encontrar a felicidade em si. Por isso, ruma para a loucura. É disso que devemos fugir, ou seja, do espectro do “bon vivant” pós-moderno.
Eis um depoimento insuspeito, já que procede de um ponto de vista em tudo alheio à Religião católica. Não obstante, confirma por inteiro o que a Igreja nos ensina sobre as consequências extremas de uma sociedade que exclui a Lei de Deus.
Uma das doenças mentais que emergem é esta — a da “solidão interativa”.

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Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja marca principal é a ausência de comprometimento. Este texto tem como base a ideia de líquido, característica presente nas relações humanas atuais, inspirado na obra "Amor Líquido", sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zigmunt Bauman.

As relações se misturam e condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Em um mundo cada vez mais dinâmico, fluido e veloz, seja real ou virtual.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Aos 87 anos seus livros publicados venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Entre eles “Amor liquido” é talvez o livro mais popular de Bauman, no Brasil. É neste livro que o autor expõe sua análise de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade liquida”.

Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água. Ele tenta nos mostrar nossa dificuldade de comunicação afetiva. Todos querem relacionar-se, mas chega na hora, não conseguem. Seja por medo ou insegurança. Bauman cita como exemplo um vaso de cristal, na primeira queda, quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas. É um mundo de incertezas. E cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual, e com a facilidade de se “desconectar”, as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo. É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar das pessoas a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros. Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, caso haja “defeito”, descarta-se ou até mesmo troca-se por versões mais atualizadas.

O romantismo do amor parece estar fora de moda. O amor de verdade foi banalizado, diminuído a vários tipos de experiências vividas pelas pessoas, na qual se referem a estas utilizando a palavra amor. Noites descompromissadas de sexo são chamadas “fazer amor”. Não existem mais responsabilidades de estar amando, a palavra amor é usada mesmo quando as pessoas nem sabem direito seu real significado. Ainda para tentar explicar a relações amorosas em “Amor Líquido”, Zygmunt Bauman fala da “Afinidade e Parentesco”.

O parentesco seria o laço irredutível e inquebrável; é aquilo que não nos dá escolha. A afinidade é, ao contrário do parentesco, voluntária. A afinidade é escolhida. Porém, e isso é importante, o objetivo da afinidade é ser como o parentesco. Entretanto, vivendo em uma sociedade de total “descartabilidade”, até as afinidades estão-se tornando raras.

Bauman fala também sobre o amor-próprio. Afirma que as pessoas precisam sentir-se amadas, ouvidas, amparadas ou que sintam sua falta. Segundo ele, ser digno de amor é algo em cuja escala só o outro nos pode classificar, o que fazemos é aceitar essa classificação. Mas, com tantas incertezas, relações sem forma, líquidas, na qual o amor nos é negado, como teremos amor-próprio? Os amores e as relações humanas de hoje são todos muito instáveis. E assim não temos certeza do que esperar. Relacionar-se é caminhar na neblina, sem a certeza de nada. É uma descrição poética da situação. "Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é liberdade, você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. [...] Cada vez que você tem mais segurança, entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e perde algo". (Bauman)

Fonte: Jornal GGN

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os preparativos para a celebração ecumênica dos 500 anos da Reforma, em 2017

Lançando uma nova luz sobre questões centrais da fé, o documento ecumênico possibilita a superação das controvérsias dos séculos passados [SIC! SIC! SIC!]... a origem de acusações recíprocas não subsiste mais [SIC! SIC! SIC!... com vistas a uma possível declaração comum por ocasião do ano da comemoração da Reforma, em 2017.

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Os preparativos para a celebração ecumênica dos 500 anos da Reforma, em 2017


Cidade do Vaticano (RV) - Em 2017, luteranos e católicos vão celebrar juntos os quinhentos anos da Reforma Protestante e recordar com alegria os cinquenta anos de diálogo ecumênico oficial conduzido a nível mundial, na esteira do Concílio Vaticano II.

A Comissão Internacional de Diálogo Luterano-católica pela Unidade, já há alguns anos organizou uma programação
com vistas a uma possível declaração comum por ocasião do ano da comemoração da Reforma, em 2017. Nos últimos cinquenta anos, o diálogo ecumênico realizou grandes esforços buscando relacionar a teologia dos reformadores às decisões do Concílio de Trento e do Vaticano II, avaliando se as respectivas posições se excluem ou se completam mutuamente.

Em 2013, a Comissão de diálogo publicou o documento intitulado 'From Conflict to Communion. Lutheran Catholic Commom Commemoration of the Reformation in 2017', onde após uma detalhada introdução sobre as comemorações comuns, dedica dois capítulos à apresentação dos eventos da Reforma, resume a teologia de Martin Lutero e ilustra as resoluções do Concílio de Trento. A conclusão do documento apresenta um resumo das principais decisões comuns da Comissão de Diálogo Luterano-católico em 1967, particularmente sobre a justificação, a Eucaristia, as Escrituras e a Tradição.

O documento sobre os preparativos às comemorações, foi apresentado em 17 de junho de 2013 durante uma coletiva de imprensa realizada do Centro Ecumênico de Genebra, e contou com a presença, entre outros, do Presidente e Secretário da Federação Luterana Mundial (FLM), de Dom Munib Youan e do Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Lançando uma nova luz sobre questões centrais da fé, o documento ecumênico possibilita a superação das controvérsias dos séculos passados [sic! sic! sic!] e lança bases para uma reflexão ecumênica que se distinga do pensamento dos séculos precedentes, convidando assim os cristãos a considerar esta relação com espírito aberto, mas também crítico, para se avançar ainda mais no caminho da plena e visível unidade da Igreja.

Na primeira metade de 2014 deverá ser publicado o documento "Alegria partilhada pelo Evangelho, confissão dos pecados cometidos contra a unidade e testemunho comum para no mundo de hoje", com textos e subsídios para uma oração ecumênica comum. Os textos foram preparados por um grupo de trabalho litúrgico formado por representantes da FLM e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade.

Em 2017, o contexto histórico em que se recordará os 500 anos da Reforma é muito diferente do período em que ela foi implementada. A comemoração será realizada, pela primeira vez, numa época ecumênica. Assim, católicos e luteranos não pretendem festejar a divisão da Igreja, mas sim, trazer à memória o pensamento teológico e os acontecimentos relacionados à Reforma, precisamente o que escreve o Documento 'Do conflito à Comunhão', publicado em 2013.

O caminhar da história, tem levado luteranos e católicos a tornarem-se sempre mais conscientes de que
a origem de acusações recíprocas não subsiste mais [sic! sic! sic!], mesmo que ainda não exista um consenso em todas as questões teológicas. Neste sentido, o documento "Do Conflito a Comunhão" conclui propondo cinco imperativos que exortam católicos e luteranos a prosseguirem no caminho em direção a uma profunda comunhão.
Diversos encontros realizados em 2013 marcaram esforços comuns com o objetivo de estreitar o diálogo, com reuniões entre o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Conferência dos Bispos veterocatólicos da União de Ultrecht, realizadas em Konigswinter, em julho de 2013 e em Paderbon, em dezembro. As Comissões de ambas as partes continuam os trabalhos sobre os temas: a relação entre a Igreja universal e a Igreja local e o papel do ministério petrino; e a comunhão eucarística.

Em fevereiro do mesmo ano, realizou-se em Viena o primeiro encontro entre a Comunidade das Igrejas Protestantes na Europa e o Pontifício Conselho, o que levou a reflexões sobre o conceito de Igreja e definições do objetivo ecumênico. Encontros sucessivos realizaram-se em Heidelberg e Ludwigshafen am Rhein, com a participação sete teólogos de ambas as partes.

Em 2013, diversas delegações luteranos encontraram-se com o Papa Francisco. Em 2014, uma delegação do Conselho da Igreja Protestante da Alemanha foi recebida em 8 de abril pelo Papa Francisco, encontrando-se sucessivamente com o Cardeal Koch. (JE)


Fonte: News.va 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Papa Francisco abençoará iniciativa ecumênica com Igreja Ortodoxa




Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco receberá em audiência neste sábado os membros do Comitê de Colaboração Cultural com as Igrejas Ortodoxas e as Igrejas Ortodoxas Orientais, que celebra o 50º aniversário da sua instituição, ocorrida em 27 de julho de 1964, com uma Carta do Papa Paulo VI ao Cardeal Agostino Bea, então Presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, que mais tarde transformou-se no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O encontro adquire particular significado após o anúncio do encontro em maio próximo, em Jerusalém, com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, 50 anos após o histórico encontro entre Paulo VI e Atenágoras.

O Comitê tem por objetivo a distribuição de bolsas de estudo a estudantes ortodoxos de teologia, alunos das Universidades Pontifícias. Ao distribuir estas bolsas de estudo a estudantes ortodoxos, o Comitê deseja “promover um sincero conhecimento de uma compreensão recíproca, baseada no respeito e na caridade de uns para com os outros” e ao mesmo tempo “incentivar as iniciativas voltadas ao restabelecimento de vínculos fraternos entre a Igreja Católica e as veneráveis Igrejas do Oriente”.

Os membros do Comitê serão guiados pelo Cardeal Kurt Koch, na qualidade de Presidente de Gestão do Comitê - que compreende os principais benfeitores -, acompanhados pelos estudantes bolsistas atualmente em Roma.

A abertura a uma possível revisão das modalidades de atuação do Primado Petrino confirmada por Francisco na ‘Evangelii guadium’ com palavras análogas àquelas de João Paulo II na ‘Ut unum sint’, suscitou esperanças no mundo ortodoxo, como afirmou o Patriarca de Moscou e de todas as Russias, Kirill, recebendo no início de dezembro o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, não obstante tenha afirmado numa declaração a “impossibilidade de aceitar qualquer primado do Pontífice Romano que não fosse apenas de honra”.

O Patriarca Kirill usufrui de uma destas bolsas de estudo para formar-se na Gregoriana. (JE)



Fonte: Rádio Vaticano

sábado, 21 de dezembro de 2013

Entrevista papal retirada do site vaticano









Arnaldo Xavier da Silveira




Ingênuo seria o fiel católico para quem a questão de fundo estaria resolvida com a simples retirada da entrevista ao La Repubblica do site da Santa Sé. Essa retirada pouco ou nada significa, diante da permanência no site da entrevista à Civiltà Cattolica, que contém numerosas passagens igualmente inaceitáveis.


1] Os debates sobre as entrevistas concedidas recentemente pelo Papa Francisco ao Diretor da Civiltà Cattolica e ao fundador do jornal romano La Repubblica tomaram, em meados de novembro, um caminho surpreendente. No dizer do professor e jornalista italiano Antonio Socci, “em torno daquela entrevista [ao La Repubblica] nasceu o primeiro, verdadeiro problema do pontificado de Francisco. Ou melhor, um drama (1). Com o coração dilacerado, o católico fiel verifica que uma observação serena dos fatos mostra que falar em “drama”, no caso, não é sensacionalismo de jornalista.

Crise dramática

2] As duas mencionadas entrevistas papais, divulgadas amplamente pela imprensa internacional em setembro e outubro últimos, provocaram reações vigorosas de numerosos setores católicos antimodernistas de todo o orbe, porque ali o Papa adotava posicionamentos aberrantes da doutrina tradicional. As manifestações nesse sentido vinham num crescendo inaudito, e em termos inesperados, por partirem sobretudo dos analistas e autores mais apegados ao Papado e à Tradição. Destes vieram respeitosas mas públicas e veementes observações quanto à ortodoxia daqueles posicionamentos.

3] Na política civil é frequente e até corriqueiro que uma autoridade pressionada por setores de peso da sociedade se veja forçada a explicar-se. Assim também, estava se tornando estranho o silêncio do Papa. O sabor amargo de suas duas entrevistas pedia um esclarecimento, dele pessoalmente ou talvez da Cúria, que fosse visto como uma resposta tranquilizadora para seus filhos mais fieis.

4] Eis que na sexta-feira, 15 de novembro, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, anuncia à imprensa que, por ordem da Secretaria de Estado de Sua Santidade, a entrevista ao La Repubblica estava sendo retirada do site da Santa Sé. Os fatos foram noticiados no próprio dia 15, conforme se lê no site Vatican Insider,sob o título Il testo non era stato rivisto parola per parola”, nos termos seguintes:

A Santa Sé decidiu retirar do site vaticano o texto do colóquio entre o Papa Francisco e o fundador do La Repubblica, Eugênio Scalfari. Francisco havia recebido Scalfari, que veio agradecer-lhe a carta aberta recebida e publicada em seu cotidiano.
Às perguntas dos jornalistas sobre a razão dessa decisão, o porta-voz da Santa Sé, Padre Federico Lombardi, respondeu: ‘a entrevista é confiável no sentindo geral, mas não em suas valorações  individuais. Por isso se decidiu não deixar o texto consultável no site da Santa Sé. Em substância, retirando-a, fez-se uma mise-au-point da natureza daquele texto. Havia algum equívoco e debate sobre o valor dele. A decisão foi da Secretaria de Estado’.
O Padre Lombardi, nos dias que sucederam à publicação da entrevista, havia declarado que o Papa não havia revisto pessoalmente o texto, mas que Scalfari o havia simplesmente enviado ao Vaticano. Com efeito, o arquivo continha expressões dificilmente atribuíveis ao Papa Francisco. Quando não, um erro concernente ao acontecido na Sistina. Em uma das respostas, se dissera que o Pontífice, após ter sido atingido o quórum necessário para a eleição, antes de aceitar se teria retirado para rezar. Circunstância não verdadeira e desmentida por diversos cardeais, entre os quais o Arcebispo de Nova York ,Timothy Dolan.
Muitas polêmicas e discussões havia provocado ainda uma afirmação ─ aliás em tudo compatível com o Catecismo da Igreja Católica ─ concernente ao primado da consciência. Lombardi também desmentiu que a decisão de retirar a entrevista do site teria sido tomada a pedido do Prefeito do ex-Santo Oficio, Gerhard Ludwig Müller (2).

5] Dispensamo-nos de uma análise circunstanciada dessas declarações, em vista das incongruências que apresentam, e da debilidade insanável de sua fundamentação. Fazemos uma única e rápida observação. O Padre Lombardi indica como uma das razões da retirada da entrevista do site, os ditos papais sobre o primado da consciência, que provocaram polêmicas e discussões; e, para justificar o texto pontifício, acrescenta ser este em tudo compatível com o Catecismo da Igreja Católica. Ora, essa consideração, de si, não elimina a reserva, uma vez que, na passagem em questão, esse Catecismo é conflitante com a doutrina tradicional, do mesmo modo que o é o Vaticano II, no qual ele se inspira (vide Declaração a Dignitatis Humanae), que deve ser qualificado como heretizante (ver, neste site, o artigo “Da qualificação teológica extrínseca do Vaticano II).

6] Outrossim, as singulares declarações do Pe. Lombardi suscitam dúvidas e questões variadas, como por exemplo as que seguem. ─ Por que retirar o texto do site sem explicar em que pontos precisos ele não fora fiel ao pensamento do Papa? ─ Por que retirar do site só a entrevista a La Repubblica, ali deixando a da Civiltà Cattolica, que revela idêntica orientação teológica? ─ Desqualificar dessa forma, indiretamente, o texto de La Repubblica como documento magisterial, não seria fugir às graves acusações formuladas pelos antimodernistas de todo o mundo, em vez de enfrentá-las serenamente e às claras, como seria de rigor para o mestre e intérprete infalível da verdade revelada? ─ Bem sopesada a exclusão dessa entrevista do site da Santa Sé, não se poderia concluir, em boa e singela lógica, que realmente seu texto estava prenhe de proposições desviadas da boa doutrina? ─ E, enfim: por mais que os fieis verdadeiros cultuem filialmente o Papa e o Papado, à luz da Fé; por mais que tenham o Pontífice como o doce Cristo na Terra; e por mais que lamentem de toda a alma a dramática situação presente, seriam eles insanae mentis a ponto de pensarem que a questão da ortodoxia das duas aludidas entrevistas estaria encerrada com a retirada de uma delas do site vaticano?

Expressões inaceitáveis na entrevista à Civiltà Cattolica

7] Nas declarações do Papa a La Repubblica estão algumas das frases papais que correram mundo atordoando os católicos fieis, tais como: ─ “o proselitismo é um solene disparate”; ─ “cada um tem sua ideia do Bem e do Mal e deve escolher de seguir o Bem e combater o Mal como ele os concebe”; ─ “os cabeças da Igreja com frequência foram narcisistas, adulados e mal instigados por seus cortesãos; ─ a corte é a lepra do Papado”; ─ “muitos da teologia da libertação eram crentes e com um alto conceito de humanidade”; ─ “não existe um Deus católico, existe Deus”. Tudo isso, portanto, foi agora retirado do site vaticano.

8] Contudo, ingênuo seria o fiel católico para quem a questão de fundo estaria resolvida com a simples retirada do texto de La Repubblica do site vaticano. Com efeito, na entrevista à Civiltà Cattolica, que permanece no site, o Papa disse:
a.   Que um de seus pensadores contemporâneos preferidos é Henri de Lubac. ─ Tal asserção constitui uma recomendação implícita mas incisiva para que o neomodernista Cardeal Henri de Lubac seja estudado e seguido pelos católicos fieis, como já observamos anteriormente (ver, neste site, o artigo “Grave lapso teológico do Padre Federico Lombardi).
b.   Jamais fui de direita”. ─ Também já observamos, no mesmo artigo, que essa expressão claramente convida os fieis a adotarem um posicionamento antes de esquerda.
c.   Deus é maior do que o pecado. ─ Essa frase insinua que o pecado não é tão grave, desde que se creia em Deus e em sua misericórdia.
d.   “Durante o voo de retorno do Rio de Janeiro, eu disse que se uma pessoa homossexual tem boa vontade e está à procura de Deus eu não sou ninguém para julgá-la”. ─ É evidente que não cabe ao Papa julgar o íntimo da consciência individual ─ de internis nec Ecclesia ─, mas é missão essencial ao representante de Jesus Cristo na Terra expor a doutrina da Igreja sobre fé e moral. A esse propósito, é estarrecedora a notícia de que o casamento homossexual foi aprovado, no Estado americano de Illinois, graças às instâncias de um deputado católico, Michael J. Madigan, que conseguiu obter a pequena dezena de votos necessária para que a nova lei fosse aprovada, com o argumento de que, se o Papa dizia “eu não sou ninguém para julgá-la”, menos ainda o poderia ele.
e.   A religião tem o direito de exprimir a própria opinião a serviço do povo, mas Deus na criação nos tornou livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível”. ─ Nos pontos fundamentais do dogma e da moral, a doutrina católica não tem “opiniões” mas certezas. O apostolado, a formação doutrinária, o aconselhamento na direção espiritual não podem ser considerados “ingerência” na “vida pessoal” de ninguém. Nos documentos pontifícios anteriores ao Vaticano II, como a Encíclica Libertas Praestantissimum, de Leão XIII, e nos manuais da neoescolástica, a verdadeira noção da liberdade vem exposta de modo claro, sem relativizações.
f.    Não podemos insistir apenas nas questões ligadas ao aborto, ao matrimônio homossexual e ao uso dos métodos contraceptivos. Isso não é possível”. ─ Essa frase vem evidentemente desestimular as magníficas campanhas que têm sido promovidas em todo o orbe contra aqueles flagelos. É grave que essa intervenção papal se dê exatamente quando do auge de algumas dessas campanhas.
g.   O parecer da Igreja [sobre aborto, homossexualidade, contracepção] é conhecido, e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente ─ É igualmente estarrecedor que a posição da Igreja sobre esses pontos fundamentais da moral seja qualificada como simples “parecer”. E não se vê que o texto dê a devida atenção ao dever enunciado por São Paulo, de “insistir oportuna e importunamente”.   
h.   Uma pastoral missionária não tem obsessão pela transmissão desarticulada de uma multidão de doutrinas a serem impostas com insistência”. ─ Essa afirmação constitui grave condenação da neoescolástica, como anotamos no mencionado artigo “Grave lapso teológico do Padre Federico Lombardi”.
i.    O anúncio do amor salvífico de Deus é prévio à obrigação moral e religiosa”. ─ O que fica insinuado nessa frase não é tanto a antecedência temporal do “anúncio do amor salvífico de Deus” em relação às obrigações morais e religiosas, mas é sobretudo a ideia modernista de que realmente importante é o amor de Deus, ao passo que as obrigações morais e religiosas são relativas, podendo até variar segundo a consciência de cada qual.
j.    “Os dicastérios romanos, quando não bem entendidos, correm o risco de se tornar organismos de censura. É impressionante ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam  a Roma”. ─ Essa declaração revela, de um lado, o zelo dos fieis católicos, que os leva a batalhar pela pureza da Fé. E, de outro lado, que seu autor parece adotar a norma liberal do politicamente correto de nossos dias, segundo a qual toda censura é má. A Santa Igreja sempre ensinou que, em princípio, a censura é indispensável à preservação da Fé.
k.   “Ainda não foi feita uma profunda teologia da mulher [...]. Qual deve ser o papel da mulher na Igreja?”. ─ Como já nos perguntamos no mesmo artigo “Grave lapso teológico do Padre Federico Lombardi”, não é verdade que tal afirmação sugere uma modernização do papel da mulher na Igreja, favorecendo em tese a posição dos que querem até a ordenação sacerdotal de mulheres?
l.    Considero preocupante o risco de ideologização do antigo Ordo da Missa, a sua instrumentalização”. ─ Para o bom entendedor, essa frase manifesta o fundo do pensamento do Papa Francisco sobre a Missa tradicional. Não se vê que seja possível pôr à margem, com uma simples palavra ligeira, os graves problemas de Fé, e portanto de consciência, que a Missa nova suscita. 
m. “Deus se encontra no hoje. Deus se manifesta numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço os cristaliza. Deus se encontra no tempo, nos processos em curso”. ─ Essa formulação induz à tese modernista de que a Revelação não terminou com a morte do último dos Apóstolos; tese essa que, por sua vez, leva à evolução intrínseca do dogma.
n.   Nesse procurar e encontrar a Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incerteza. Deve ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou a Deus com certeza total e nisso não aflora uma margem de incerteza, então as coisas não vão bem. Para mim, essa é uma chave importante”. ─ Está aí, pelo menos insinuada, a profissão de uma Fé que admite incertezas.
o.   Não devemos confundir a genialidade do tomismo com o tomismo decadente. Eu, infelizmente, estudei a filosofia com manuais de tomismo decadente”. ─ Para quem tem uma noção da história do tomismo, ainda que sumária, essa declaração constitui uma condenação genérica e total da magnífica neoescolástica dos séculos XIX e XX.

9] Diante dessas passagens da Civiltà Cattolica, vê-se que, quanto ao mérito, nada ou pouco significa a retirada da entrevista ao La Repubblica do site vaticano. E vê-se também como é precária a afirmação do Pe. Lombardi de que o texto supresso teria “equívocos”, por isso não exprimindo com exatidão o pensamento papal. Equívocos, quando realmente existem, são por natureza ocasionais, circunstanciais, aleatórios, de modo tal que, se numerosos deles, num texto longo, caminham todos na mesma direção, como é aqui o caso, não se haveria de falar em equívocos, mas em algo de bem diverso.

Está se perdendo a “italianità” tradicional da Santa Sé

10] Há séculos a Santa Sé tem seus modos de proceder profundamente marcados pelo espírito italiano. De forma muito especial, esse estilo peninsular se revela na diplomacia clássica do Vaticano, sábia, silenciosa, sóbria, altamente eficiente. Esse modo de ser e agir traz em si um savoir-faire extraordinário, que sabe harmonizar as virtudes entre si opostas, como a justiça e a misericórdia, a magnificência e o espírito de pobreza. Sabe distinguir, compreende que a verdade está nas nuances. É uma escola de seriedade, de humildade, de organicidade, de habilidade, do senso das conveniências e medidas. No passado, grandes figuras estrangeiras, como o Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, souberam assimilar em si e no seu proceder esse magnífico espírito italiano. Em teologia, o mesmo ocorreu com o alemão Cardeal Franzelin, com o francês Cardeal Billot e com tantas outras personalidades insignes.

11] Infelizmente, a internacionalização do Colégio Cardinalício e da Cúria Romana nem sempre está mantendo em sua integridade e pureza os valores dessa italianitàmultissecular. Assim, despontam cá e lá, em espíritos das mais diversas nacionalidades, manifestações do esto pro lege voluntas, bem como de certa espontaneidade vistosa e pouco refletida, erigida por alguns como norma básica da vida social. Veja-se, por exemplo, nesse episódio das duas entrevistas papais, como desde o início a questão foi mal encaminhada, com ofensas a verdades da Fé e tradições curiais, podendo-se recear que se tenha tornado inevitável, em futuro próximo, a eclosão de uma crise mais pesada.

12] Com muita razão, o ilustre professor Pietro De Marco escreveu, a propósito da crise provocada pelas duas aludidas entrevistas do Papa Francisco, que, ”para quem não seja propenso à prosa relativista desta modernidade tardia”, um dos “sinais preocupantes” da situação de hoje é “a falta de controle, por pessoas de confiança, mas sábias e cultas, e italianas, dos textos destinados à circulação, talvez pelo convencimento papal de que isso não é necessário (3).

Breve esclarecimento e conclusão

13] A fim de evitar mal-entendidos, deixo claro que a italianità de que falo – sóbria, lúcida, ágil, orgânica, católica – talvez seja hoje rara, nos meios vaticanos como na Itália em geral. E, ademais, caberia perguntar se tal italianità autêntica é conciliável com o modernismo, o qual, negando a verdade objetiva (ver neste site: Garrigou-Lagrange, citado em meu artigo “Sentir com a Igreja é sentir com o Vaticano II?), não pode exprimir-se convenientemente na lógica aristotélica, à luz dos primeiros princípios da escolástica, de maneira racional, séria, clara e transparente.

14] Que Nossa Senhora do Divino Amor, padroeira da cidade de Roma, conceda suas melhores graças ao Papa Francisco, bem como preserve a autêntica italianitàna vida vaticana, e faça com que sem delongas seja o modernismo extirpado dos meios católicos, como o há necessariamente de ser, dado o dogma da indefectibilidade da Santa Igreja, em que todos cremos com Fé verdadeira que inadmite dúvida.
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NOTAS:


3   Artigo “Un messagio ‘liquido’”, de 7.10.13 -  http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350619 ─ Pietro De Marco, historiador e sociólogo, é professor na Faculdade de Florença e na Faculdade de Teologia da Itália Central.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O que pensar quando nem mesmo os padres sabem os 10 mandamentos? O evidente FRACASSO do Concílio Vaticano II e seu progressismo decrépito




CQC italiano pergunta sobre os 10 Mandamentos e padres não conseguem responder

Clique aqui e veja o vídeo




Versão italiana do CQC deixa claro a falta de preparo dos religiosos
por Jarbas Aragão


O programa humorístico Le Iene, que numa tradução livre o nome seria “as hienas”, é bastante popular na Itália. Trata-se da versão do CQC apresentado pela TV de lá. Em outras ocasiões eles já deixaram o clero romano em maus lençóis. Algum tempo atrás, por exemplo, fizeram uma gravação com câmera escondida mostrando o comportamento sexual licencioso de alguns sacerdotes.

Desta vez, deram um passo além e foram até a Praça de São Pedro, no Vaticano, para investigar um assunto doutrinário básico.

Os sacerdotes entrevistados mostraram-se inseguros e hesitantes diante da câmera.  A maioria foi incapaz de responder a perguntas simples como qual é o quinto ou o sétimo mandamento. Claro, todos tinham desculpas para justificar seu desconhecimento.

Parece estranho que eles não saibam os mandamentos básicos da lei de Deus. Todo bom cristão deveria conhecer de cor os Dez Mandamentos, que afinal são à base da fé judaica e também cristã. A repórter, de microfone em punho, deu uma volta pelo Vaticano, centro do catolicismo, e perguntava aos sacerdotes que passavam coisas simples como: Qual é o oitavo mandamento? E quanto ao quinto? E o décimo?
  
Apenas o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, ex-prefeito da Congregação para o Clero, conseguiu responder de forma adequada. Os outros entrevistados são provenientes de vários países e falam línguas diferentes (como espanhol e inglês). Porém, a dificuldade não foi responder em italiano.

A repórter disse que podiam citar como lembravam, em sua própria língua. Alguns lembravam apenas da frase de Jesus, que os resumiu no Novo Testamento: “Amar a Deus sobre a todas as coisas e o próximo como a si mesmo”. Outros mencionaram mandamentos que sequer existem na Bíblia. [SIC!] Um deles pediu ajuda para o câmera. [SIC!] Há, inclusive, quem afirmasse que o importante não é saber os mandamentos, mas reconhecer que todos se resumem a um só: o amor. [SIC!]

A exibição teve repercussões dentro e fora da igreja católica: “Eu não vi a gravação, mas registrei os ecos negativos em muitos cristãos e também em alguns não católicos e não crentes. Percebi um forte desconforto”, explica o bispo Luigi Negri.

“Demonstra-se que a verdadeira crise que a Igreja Católica atravessa é uma crise de caráter cultural. Isto é, uma crise de cultura primária. O dogma foi, durante séculos, a cultura primária e tinha nos mandamentos um ponto de referência substancial”. “Se essa referência for perdida – concluiu o bispo –, falta a referência educativa fundamental que o povo tem”.


de Periodista Digital e Lastampa
Traduzido e Adaptado por Gospel Prime
Notícia originalmente publicada em 3/11/2011

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Cristo de Bergoglio - sem doutrina nem verdade



(...)

A bisavó “Antonia” de Gnocchi e Palmaro me lembra a minha bisavó. Chamava-se Marietta e aos domingos ia a pé, sozinha, faça chuva ou faça sol, à Santa Missa das cinco da manhã, porque precisava, depois, ficar “livre” para preparar o almoço para sua família, aquela construída sobre a rocha e não sobre a areia. E a rocha era Cristo na Cruz... Santa Missa, Santo Rosário, orações, jaculatórias, procissões... eram a sua força, sua resistência, sua perseverança, sua coerência de vida, eram a Fé vivenciada, não um sentimento religioso que hoje existe e amanhã se vai... Podia desabar tudo ao redor da bisavó Marietta (e muito para ela desabou), mas ela permaneceria de pé, sem necessidade de psicanalistas e psicofármacos... porque sabia discernir entre o que é bem e o que é mal; e não com base em uma consciência “pessoal” (que muitas vezes é levada ao erro porque o homem, por causa do pecado original, é mais dirigido para o mal do que para o bem; ao pecado e ao vício do que à virtude), mas com base e graças a uma trama e urdido católicos.


Chesterton[1] escrevia: “O mundo moderno, com os seus movimentos modernos, vive graças ao capital católico que possui. Usa e abusa das verdades que lhe restavam daquele antigo tesouro que é a Cristandade”. Hoje, esta Cristandade está à beira do precipício.

Os católicos não podem aceitar que se abuse da Verdade (única Verdade) trazida pelo Salvador para o verdadeiro bem terreno e eterno de cada um de nós; não podem aceitar, por amor de seu Senhor e da Igreja, que se ultraje a Fé, a única que permite seguir em frente apesar dos problemas, das angústias, das doenças, dos lutos... Aquela Fé que faz descer o Pai do Céu sobre as chagas causadas pelos pecados, e por causa dos quais Ele morreu na Cruz.

As ponderadas e profundas reflexões deste artigo que apresentamos, a assinatura dos corajosos Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, não são Amarcord[2] estéreis, mas o antídoto ao que está acontecendo na Inglaterra, em cuja direção, se Papa Francesco não levar em conta a Tradição da Igreja, toda a Europa se dirige. O relatório anual da agência estatal britânica, que controla os padrões da educação e dos serviços sociais, declarou como“se estão fragmentando os níveis básicos da sociedade [...] na sua tradicional hierarquia: a família que forma a sociedade e a sociedade que sustenta [...], faltam pais que assumam a responsabilidade de criá-los. As crianças sofrem porque não se lhes dão regras claras ou limites. Ninguém lhes ensina a diferença entre um comportamento certo e um errado [...]. Se não voltarmos a reconhecer a importância de famílias estáveis, continuaremos usando o Estado para recolher os cacos” (“Pais, não sabeis educar os filhos”, em “La Stampa”, 17 de outubro de 2013). Quem decide o que é certo e o que é errado? Para “Antonia” e “Marietta” era a Tradição da Igreja, aquela sobre a qual foi construído o Mundo Ocidental. Nós católicos queremos (é nosso direito, porque direito que vem de Deus) um Vigário de Cristo que saiba educar seu rebanho; que indique a verdade e indique o erro; que nos abra, portanto, a porta estreita (Mt. 7,13-14), a que leva para o Céu.

Cristina Siccardi



CRISTO, SEM DOUTRINA NEM VERDADE

Reduzidos a “sans papiers[3] da Igreja, lembremos o que o Cardeal Biffi[4] lembrou: “Jesus é, por vezes, um pretexto para falar de outra coisa”.
Uma pastoral do íntimo, sem mediação racional do dogma? Não.


Por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro – 22-10-2013, Il Foglio.







Pobre bisavó Antonia, que viveu uma vida feita por pateravegloria[5], rosários, Missas às cinco da manhã, sinais da cruz em cada “santella[6], catecismo aprendido de cor e preceitos morais praticados escrupulosamente e ensinados com zelo. Pobre bisavó Antonia, e pobres seus oitenta e quatro anos passados a “dizer orações” e a observar “prescrições” na esperança de um dia abraçar Jesus, com quem utilizava o “Vós”, como usavam as gerações respeitáveis. Pobre bisavó Antonia, e pobre sua fé que, não fosse pela pureza ingênua e inerme típica das velhinhas do campo, poderia hoje ser tomada por uma cristã ideológica, moralista, farisaica, sem coração. Contudo, aquela senhorinha sempre vestida de negro, que só falava o dialeto e um latim todo seu, havia mostrado quanto amor por Deus e pelos homens jorra de uma vida passada a “dizer orações”. Ao marido, que em seu leito de morte lhe pediu perdão por tudo o que ele lhe havia feito e que ela havia suportado em silêncio e na paciência, a pobre bisavó Antonia havia respondido que não tivesse medo: “Quando chegardes do lado de lá, vereis quanto bem fizeram as orações que vossa esposa recitou por vós”.

A dureza da homilia de Santa Marta, onde Papa Francisco estigmatiza uma fé que passa “por um alambique e se torna ideologia”[7], e na qual julga as consciências daqueles que, hoje, se obstinam a viver um Cristianismo como o de seus antepassados, acaba por atropelar o passado que continua a viver no presente. É difícil supor que o alvo não seja aquele sentir tradicional que se pretende impedir que se torne um movimento capaz de agregar pessoas e ideias. Isso foi festivamente explicado pela jubilosa máquina de guerra dos hermeneutas do dia seguinte. Mas o havia inequivocamente antecipado o próprio papa, na entrevista a “Civiltà Cattolica”, condenando duramente um “uso ideológico” do rito tradicional restaurado por Papa Bento XVI[8], um “especialista do Logos” definitivamente arquivado pelos hermeneutas do seu sucessor.
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