Há setenta anos
“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos” – A
frase de Winston Churchill foi pronunciada há 70 anos
Os “tão poucos” eram os
2900 jovens pilotos da Royal Air Force que iriam enfrentar a superioridade
numérica da força aérea alemã, a Luftwaffe, nos céus do Reino Unido.
O confronto ficou conhecido
como “a batalha de Inglaterra” e foi decisivo. As palavras de Churchill, a 20
de Agosto de 1940, ficaram para a História:
“Nunca, no campo dos
conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”.
Entre julho e outubro de
1940, a força aérea britânica impediu que o país fosse ocupado pelos nazistas.
Hoje
A guerra tomou nova
modalidade e virulência: trata-se de interminável batalha psicológica
revolucionária para “obter a conquista das mentes”
Em nossos dias, quais os
artifícios mais aptos para obter a derrocada mental dos indivíduos?
Uma das primeiras medidas:
transformar a “elite intelectual” num magma pastoso de “analfabetos
funcionais”.
De fato, essa é a expressão
em voga para designar os que, embora com nível superior de estudo, são
incapazes de interpretar corretamente um texto comum. Melhor seria
caracterizá-los como “indigentes mentais”. — Em favor destes, ninguém lança
nenhuma campanha de “opção preferencial”, apesar de serem bem mais pobres do
que os relativamente pobres em bens
materiais..
Multiplicaram-se as
Faculdades e o saber ficou raquítico. – Relação de causa e efeito? Sintoma de
uma geração embrutecida, aparvalhada, envilecida e hedonista?
Parafraseando Churchill,
poderíamos hoje afirmar:
“Nunca tantas faculdades diplomaram tão grande número
de analfabetos em tão pouco tempo!”
Do “analfabetismo funcional”
(ou “indigência mental”) à saturação doutrinária marxista, só há um passo.
Espíritos sem capacidade de refletir tornam-se presa fácil para demagogos e
comunistas de todos os matizes.
Ora, desde há muito, esse
passo já foi transposto por nós: há décadas, as Universidades são um valhacouto
do fossilizado socialismo (científico e utópico) do século XIX!
Raphael de la Trinité
*** * ***
Ruth Costas
Da BBC Brasil em São Paulo
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Número de instituições de ensino superior mais que dobrou desde 2001 |
Nunca tantos brasileiros chegaram às salas de aula das universidades,
fizeram pós-graduação ou MBAs. Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam
da oferta e qualidade da mão-de-obra no país como os índices de produtividade
do trabalhador custam a aumentar.
Na última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil
dobrou, embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e
alguns emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros
receberam um diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio
(Pnad) do IBGE.
"Mas mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por
exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012,
enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz
Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da
Indústria (CNI).
A decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração
do diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e
consultores de recursos humanos.
"Os
empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de
apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a
maioria", diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da
Faculdade de Economia e Administração da USP, José Pastore.
Entre empresários, já são lugar-comum relatos de administradores
recém-formados que não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento,
arquitetos que não conseguem resolver equações simples, ou estagiários que
ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às
regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não
conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para
preencher todas as nossas 5 mil vagas", diz Maíra Habimorad,
vice-presidente do DMRH, grupo do qual faz parte a Companhia de Talentos, uma
empresa de recrutamento. "Surpreendentemente, terminamos com vagas em
aberto".
Outro exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os
predicados de quem consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo
de Recursos Humanos Manpower. De 38 países pesquisados, o Brasil é o segundo
mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás
apenas do Japão.
É claro que, em parte, isso se deve ao aquecimento do mercado de
trabalho brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de
desemprego já caíram para baixo dos 6% e têm quebrado sucessivos recordes de
baixa.
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Produtividade da industria aumentou apenas 1,1% na última década, segundo a CNI |
Mas segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (Ipea) divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de
estudo formariam 50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso
superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o
conhecimento específico que as boas posições requerem", explica Márcia
Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais
para a decepção com a "geração do diploma".
A principal delas estaria relacionada à qualidade do ensino e
habilidades dos alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do
país.
Os números de novos estabelecimentos do tipo criadas nos últimos anos
mostra como os empresários consideram esse setor promissor. Em 2000, o Brasil
tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo
2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada
pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim",
diz Pastore.
Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade
de Londres, concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema
educacional brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez
nem pudessem ser classificados como tal.
"São mais uma extensão do ensino fundamental", diz McCowan.
"E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a
capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam
ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado
à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e
qualidade."
Para termos a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para
expandir a qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de anafalbetismo funcional entre
universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto Paulo Montenegro
(IPM), vinculado ao Ibope.
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Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil |
Na prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país
até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar
informações. Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo
fazer contas um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados
caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. "E os resultados das
próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda", prevê Ana
Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Segundo Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino
superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para
bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má
qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para
sua aprendizagem.
"Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas
acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus
cursos", diz ela. "E como consequência, acabamos criando uma
escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos
brasileiros."
Postura e
experiência
A segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados
estaria ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos
profissionais no mercado.
"Muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se
posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com
uma figura de autoridade", diz Marcus Soares, professor do Insper
especialista em gestão de pessoas.
"Entre os que se formam em universidades mais renomadas também há
certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o
estagiário entra na empresa já querendo ser diretor."
As empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as
expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto
de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a
falta de experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de
expansão econômica brasileira.
"Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação,
em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a
escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que
não pode ser resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor
financeiro, por exemplo.
"Não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros
com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez
que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no
mercado", acredita o consultor.
'Tradição
bacharelesca'
Por fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a
decepção com a "geração do diploma" estaria ligada a um
desalinhamento entre o foco dos cursos mais procurados e as necessidades do
mercado.
"É bastante
disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos
técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por
profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários." - Gabriel Rico
De um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros
tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como
administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam
ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
"O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou
especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número
de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes", diz o
diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo Rico, as consequências dessas deficiências são claras: "Em
2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas
de empresas como a GE a IBM e a Boeing", ele exemplifica. "Mas se não
há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam
relevância dentro das empresas."
Do outro lado, também há críticas ao que alguns vêem como um excesso de
valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
"É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão
pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a
demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus
salários", diz o consultor.
Rafael Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural
baicharelesca, que está sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que
também é o diretor-geral do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece
cursos técnicos).
Segundo Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico
petroquímico chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de
mineração com dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais
do que ganham muitos profissionais com ensino superior.
"Por isso, já há uma procura maior por essas formações,
principalmente por parte de jovens da classe C, mas é preciso mais
investimentos para suprir as necessidades do país nessa área", acredita.