terça-feira, 1 de outubro de 2013

PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA, UM PAPA QUE REJEITA A FÉ CATÓLICA... QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DISSO?



 “E eu creio em Deus, mas não em um Deus Católico, não há Deus Católico, há Deus e creio em Jesus Cristo, sua encarnação. Jesus é o meu mestre e meu pastor, mas Deus, o Pai, Abba, é a luz e o Criador. Esse é o meu Ser...”

Caro leitor, quem fez a declaração acima?

Lutero?
Voltaire?

NÃO, O PAPA FRANCISCO!!!

Pode alguém ser católico, se rejeita "o Deus dos católicos?"

E quando se trata do Papa?



*** * ***




Nova entrevista do Papa Francisco – ‘A corte é a lepra do Papado’

Entrevista concedida pelo Papa Francisco ao diretor do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari — a quem o bispo de Roma dirigiu uma carta recentemente. O Papa sobre a aplicação do Vaticano II: “Muito pouco foi feito”. Scalfari: “Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar como ele e ficar do jeito que ele quer que ela seja, será uma mudança de época”.

O Papa: como a Igreja mudará *


Por Eugenio Scalfari - La Repubblica | Tradução: Fratres in Unum.com - O Papa Francisco me disse: “Os maiores males que afligem o mundo nestes dias são o desemprego dos jovens e a solidão dos idosos. Os idosos precisam de cuidado e companhia; os jovens precisam de trabalho e esperança, mas não tem um nem outro, e o problema é que eles sequer os buscam mais. Eles foram esmagados pelo presente. Você me diz: é possível viver esmagado sob o peso do presente? Sem uma memória do passado e sem o desejo de olhar adiante para o futuro para construir algo, um futuro, uma família? Você consegue ir adiante assim? Este, para mim, é o problema mais urgente que a Igreja enfrenta”

Santidade, digo, trata-se de um principalmente de um problema econômico e político para os estados, governos, partidos políticos, sindicatos.
“Sim, você tem razão, mas também preocupa a Igreja, de fato, particularmente a Igreja, porque essa situação não fere apenas os corpos, mas também as almas. A Igreja deve se sentir responsável tanto por corpos como almas”.

Santidade, o senhor diz que a Igreja deve se sentir responsável. Devo concluir que a Igreja não está ciente desse problema e que o senhor a conduzirá nessa direção? 
“Em grande parte há ciência, mas não suficientemente. Quero que haja mais. Não é o único problema que enfrentamos, mas é o mais urgente e mais dramático”.

O encontro o Papa ocorreu na última terça-feira, na sua residência em Santa Marta, em um quarto pequeno e simples, com uma mesa, cinco ou seis cadeiras e um quadro na parede. Ele foi precedido por um telefonema que não esquecerei por toda a minha vida.
Eram duas e meia da tarde. Meu telefone tocou e com uma voz um tanto abalada minha secretária me diz: “O Papa está na linha. Transferirei imediatamente”.
Eu ainda estava chocado quando ouvi a voz de Sua Santidade do outro lado da linha dizendo: “Olá, é o Papa Francisco”. “Olá Santidade”, disse então, “Estou chocado, não esperava que o senhor pudesse me telefonar”. “Por que está tão surpreso? Você me escreveu uma carta pedindo para me encontrar pessoalmente. Tenho o mesmo desejo, então estou ligando para marcar um horário. Deixe-me ver em minha agenda: não posso na quarta-feira, nem segunda, na terça está bom para você?”
Eu respondi que estava bem.
“O horário é um pouco complicado, três da tarde, ok? De outra forma, terá que ficar para outro dia”. Santidade, o horário está bom. “Então combinamos: terça, 24, às três da tarde. Na Santa Marta. Você tem que vir até a porta do Sant’Uffizio”.
Eu não sabia como terminar o telefonema e me deixei levar, dizendo: “Posso abraçá-lo por telefone?” “Claro, um abraço meu também. Depois fazemos isso pessoalmente, tchau”.
E aqui estou. O Papa chega, aperta minha mão e então sentamos. O Papa sorri e diz: “Alguns dos meus colegas que o conhecem disseram que você tentaria me converter”.

É uma piada, respondo. Meus amigos acham que você é quem quer me converter.

Ele sorri e responde: “O proselitismo é uma solene tolice [nonsense], não tem sentido. Nós temos que conhecer um ao outro, ouvir um ao outro e melhorar o nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidades. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. O mundo é cruzado por vias que se aproximam e se separam, mas o importante é que elas levem ao Bem”.

Santidade, existe uma visão de Bem única? E quem decide qual é ela? 

“Cada um de nós tem uma visão do bem e do mal. Temos que encorajar as pessoas a caminhar em direção ao que elas consideram ser o Bem”.

Santidade, o senhor escreveu isso em sua carta para mim. A consciência é autônoma, o senhor disse, e todos devem obedecer a sua consciência. Creio que este seja um dos passos mais corajosos dados por um Papa. 

“E repito aqui: Cada um tem sua própria ideia de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe. Isso bastaria para fazer o mundo um lugar melhor”.

A Igreja está fazendo isso?

“Sim, esse é o propósito de nossa missão: identificar as necessidades materiais e imateriais do povo e tentar ir ao encontro delas conforme pudermos. Você sabe o que é ágape?

Sim, eu sei.

“É o amor pelos outros, como Nosso Senhor pregou. Não é fazer proselitismo, é amar. Amar o próximo, aquele fermento que serve ao bem comum”.

Amar o próximo como a si mesmo.

“Exatamente”.

Jesus, na sua pregação, disse que agape, amor pelos outros, é o único caminho para Deus. Corrija-me se eu estiver errado.

“Você não está errado. O Filho de Deus se encarnou nas almas dos homens para instilar o sentimento de fraternidade. Todos somos irmãos e todos somos filhos de Deus. Abba, como ele chamou o Papa. Mostrarei o caminho, ele disse. Siga-me e encontrará o Pai e será seu filho e ele se compadecerá de ti. Agape, o amor de cada um de nós pelo outro, do mais próximo ao mais distante, é, de fato, o único caminho que Jesus nos deu para encontrar o caminho da salvação e das Beatitudes”.

No entanto, como dissemos, a exortação de Jesus é que o amor ao próximo seja igual ao que temos por nós mesmos. Mas o que muitos chamam narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Nós falamos muito sobre esse aspecto.
“Não gosto da palavra narcisismo”, diz o Papa. “Ela indica um amor excessivo por si mesmo e isso não é bom, pode produzir sérios danos não só à alma do que dele sofre, mas também no relacionamento com outros, com a sociedade na qual se vive. O verdadeiro problema é que aqueles mais afetados por isso — que é, na realidade, um tipo de desordem mental — são pessoas que têm muito poder. Normalmente os chefes são narcisistas”.

Muitos líderes na Igreja o foram.

“Sabe o que penso disso? Os líderes na Igreja frequentemente foram narcisistas, bajulados e negativamente influenciados por seus cortesãos. A corte é a lepra do Papado”.

A lepra do papado, estas foram exatamente as suas palavras. Mas o que é a corte? Talvez esteja se referindo à cúria?

“Não, há por vezes cortesãos na cúria, mas a cúria enquanto tal é outra coisa. É o que no exército se chama de intendência, ela administra os serviços que servem à Santa Sé. Mas ela tem um defeito: é Vaticanocêntrica. Ela vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, na maior parte, interesses temporais. Essa visão Vaticanocêntrica negligencia o mundo ao nosso redor. Não compartilho dessa visão e farei tudo o que eu puder para mudá-la. A Igreja é ou deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus e os padres, párocos e bispos que têm a cura das almas, estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isso, uma palavra não por acaso diferente da Santa Sé, que tem a sua própria função, importante, mas a serviço da Igreja. Eu não teria condições de ter total fé em Deus e em seu Filho se eu não tivesse sido formado na Igreja, e se eu não tivesse tido a felicidade de me encontrar na Igreja, em uma comunidade sem a qual não teria tomado consciência de mim mesmo e de minha fé”.

O senhor ouviu o seu chamado na juventude?

“Não, não muito jovem. Minha família quis que eu tivesse uma profissão diferente, que trabalhasse e ganhasse dinheiro. Fui para a universidade. Também tive uma professora por quem tive muito respeito e desenvolvi amizade, e que era uma comunista fervorosa. Ela sempre lia textos do Partido Comunista para mim e me dava para ler. Então, também cheguei a conhecer aquela concepção muito materialista. Recordo-me que ela também me deu a declaração dos Comunistas Americanos em defesa dos Rosenbergs, que foram sentenciados à morte. A mulher de quem estou falando foi por fim presa, torturada e morta pela ditadura que então governava a Argentina”.

O senhor foi seduzido pelo comunismo?

“O materialismo dela nunca me convenceu. Mas aprender sobre isso por uma pessoa corajosa e honesta foi útil. Descobri algumas coisas, um aspecto do social, que então encontrei na doutrina social da Igreja”.

A teologia da libertação, que o Papa João Paulo II excomungou, era muito presente na América Latina.

“Sim, muitos de seus membros eram argentinos”.

Acredita ter sido justo que o Papa os combatesse?

“Eles certamente deram um aspecto político à sua teologia, mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade”.

Santidade, posso lhe contar algo sobre minha própria formação cultural? Fui criado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos, venci um concurso de catecismo realizado por todas as paróquias em Roma e recebi um prêmio do vicariato. Recebi a comunhão nas primeiras sextas-feiras de cada mês, noutras palavras, fui um católico praticante e um verdadeiro crente. Mas tudo isso mudou quando entrei na universidade. Eu li, entre outros textos filosóficos que estudávamos, o “Discurso sobre o Método” de Descartes, e fui golpeado pela frase, que agora se tornou um ícone, “Penso, logo existo”. O indivíduo, assim, se torna a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

“Descartes, todavia, nunca negou a fé em um Deus transcendente”.

Isso é verdade, mas ele assentou os alicerces para uma visão muito diferente e acontece que eu sigo esse caminho, que mais tarde, com o apoio de outras coisas que li, me deixaram em um lugar muito diferente.
“Entretanto, você não é crente, mas também não é anticlerical. Essas são duas coisas muito distintas”.

Verdade, não sou anticlerical, mas me torno anticlerical quando encontro clericalistas.

Ele sorri e diz, “também acontece comigo quando encontro um clericalista, de repente, me torno anticlerical. O clericalismo não deveria ter qualquer coisa a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos gentios, os pagãos, crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isso”.

Posso perguntar a Sua Santidade de que santos o senhor se sente mais próximo em sua alma, aqueles que modelaram a sua experiência religiosa?

“São Paulo é um que colocou as pedras fundamentais de nossa religião e nosso credo. Você não pode ser um cristão consciente sem São Paulo. Ele traduziu os ensinamentos de Cristo em uma estrutura doutrinal que, mesmo com os acréscimos de um grande número de pensadores, teólogos e pastores, resistiu e ainda existe após dois mil anos. Em seguida, há Agostinho, Bento, Tomás e Inácio. Naturalmente, Francisco. Preciso explicar o porquê?”


Francisco  -  Permito-me chamá-lo assim porque é o próprio Papa que dá a entender pela maneira como ele fala, o modo como sorri, com as suas exclamações de surpresa e compreensão – olha para mim como para me encorajar a fazer perguntas que são até mais escandalosas e constrangedoras para aqueles que conduzem a Igreja. Assim eu lhe pergunto: o senhor explicou a importância de Paulo e o papel que ele desempenhou, mas eu quero saber quais desses que o senhor mencionou é mais próximo de sua alma?

“Você está me pedindo para fazer um ranking, mas classificações servem para esportes ou coisas assim. Eu poderia lhe dizer o nome dos melhores jogadores da Argentina. Mas os santos…”

Eles fazem piadas com desonestos, o senhor conhece o ditado?

“Exatamente. Mas eu não estou tentando evitar a sua pergunta, porque você não me pediu para classificar a sua importância cultural e religiosa, mas quem é mais próximo da minha alma. Assim eu diria: Agostinho e Francisco”.

Não Inácio, de cuja ordem o senhor procede?

“Inácio, por motivos compreensíveis, é o santo que conheço melhor do que quaisquer outros. Ele fundou a nossa Ordem. Gostaria de recordar-lhe que Carlo Maria Martini também veio dessa ordem, alguém que me é muito caro e também a você. Os jesuítas foram e ainda são o fermento  -  não apenas um, mas talvez o mais eficaz -  do catolicismo: cultura, ensinamento, trabalho missionário, lealdade ao Papa. Mas Inácio que fundou a Companhia, também foi um reformador e um místico. Especialmente um místico.”

E o senhor acha que os místicos têm sido importantes para a Igreja?

“Eles são fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.”

O senhor tem uma vocação mística? 

“O que o senhor acha?”

Acho que não. 

“Provavelmente, você está certo. Amo os místicos; Francisco também o foi em muitos aspectos de sua vida, mas não acho que tenho vocação e então precisamos entender o significado profundo dessa palavra. O místico consegue desvencilhar-se de ação, fatos, objetivos e até mesmo missão pastoral e ascende até atingir a comunhão com as Beatitudes. Breves momentos, mas que preenchem toda uma vida”.

Alguma vez isso já aconteceu com o senhor? 

“Raramente. Por exemplo, quando o conclave me elegeu Papa. Antes de aceitar perguntei se eu poderia passar alguns minutos na sala contígua àquela com um balcão que dá para a praça. Minha cabeça estava completamente vazia e fui tomado de uma grande ansiedade. Para conseguir relaxar fechei meus olhos e fiz todos os pensamentos desaparecerem, mesmo os pensamentos de recusar aceitar o cargo, conforme permitido pelo procedimento litúrgico. Fechei meus olhos e não tive mais ansiedade ou emoção. Em dado momento fiquei repleto de uma grande luz. Isso durou um minuto, mas para mim pareceu muito longo. Então, a luz esmaeceu, levantei-me subitamente e caminhei na sala onde os cardeais estavam aguardando e a mesa onde estava o ato de aceitação. Assinei o documento, o Cardeal Camerlengo contra-assinou e em seguida no balcão deu-se o ‘“Habemus Papam”.

Ficamos em silêncio por um momento, então eu disse: estávamos falando sobre os santos que o senhor sente mais próximos de sua alma e ficamos com Agostinho. O senhor vai me dizer porque o senhor sente muito próximo dele? 

“Mesmo para o meu predecessor, Agostinho é um ponto de referência. Esse santo passou por muitas vicissitudes em sua vida e mudou sua posição doutrinal várias vezes. Ele também tinha palavras ásperas para os judeus, com as quais nunca partilhei [SIC!]. Ele escreveu muitos livros e creio que o que mais revela a sua intimidade intelectual e espiritual são as “Confissões”, que também contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos argumentariam, uma continuação de Paulo. Sem dúvida, ele vê a Igreja e a fé de muitas maneiras diferentes de Paulo, talvez quatro países passaram entre um e outro.

Qual é a diferença, Sua Santidade? 

"Para mim ela reside em dois aspectos substanciais. Agostinho se sente impotente diante da imensidão de Deus e as tarefas que um cristão e bispo tem de cumprir. Na verdade, ele não foi impotente de modo algum, mas sentia que sua alma estava sempre menor do que ele queria e precisava que ela fosse. E então a graça dispensada pelo Senhor como elemento básico da fé. Da vida. Do sentido da vida. Alguém  que não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mancha e sem medo, como dizem, mas ela nunca será como uma pessoa que tocou a graça. Esse é o insight de Agostinho.”

O senhor se sente tocado pela graça? 

Ninguém pode saber isso. A Graça não é parte de nossa consciência, ela é a quantidade de luz em nossas almas, nem conhecimento ou razão. Mesmo o senhor, sem o saber, poderia ser tocado pela graça”. [SIC! SIC! SIC!]

Sem fé? Um não crente? 

“A Graça diz respeito à alma”.

Não acredito na alma. 

“Você não acredita na alma, mas você tem uma.”

Sua Santidade, o senhor disse que não tem a intenção de tentar me converter e não acho que o senhor conseguiria. 

“Não podemos saber isso, mas eu não tenho qualquer tal intenção”.

E Francisco? 

“Ele é grande porque ele é tudo. Ele é um homem que quer fazer as coisas, quer construir, ele fundou uma ordem e as suas regras, ele é um itinerante e um missionário, um poeta e um profeta, ele é um místico. Ele encontrou o mal em si e o extirpou. Ele ama a natureza, os animais, a folha de grama no gramado e os pássaros voando no céu. Mas acima de tudo, ele amava as pessoas, as crianças, os idosos, as mulheres. Ele é o exemplo mais brilhante daquele ágape de que falamos anteriormente”.

Sua Santidade está certa, a descrição é perfeita. Mas porque nenhum de seus predecessores jamais escolheu esse nome? E creio que depois do senhor ninguém mais o escolherá.

“Não sabemos disso, não especulemos sobre o futuro. É verdade, ninguém o escolheu antes de mim. Aqui nos deparamos com o problema dos problemas. O senhor gostaria de beber alguma coisa?”

Obrigado, talvez um copo d’água.

Ele se levanta, abre a porta e pede a alguém na entrada para trazer dois copos d’água. Ele me pergunta se quero um café, digo que não. O garçom chega. Ao final de nossa conversa, meu copo d’água estará vazio, mas o dele permanece cheio. Ele pigarreia e começa.
“Francisco queria uma ordem mendicante e uma itinerante. Os missionários que queriam encontrar, ouvir, conversar, ajudar, espalhar a fé e o amor. Especialmente o amor. E ele sonhava com uma Igreja pobre que cuidaria dos outros, receberia ajuda material e a usaria para apoiar os outros, sem preocupação consigo. Oitocentos anos passaram desde então e os tempos mudaram, mas o ideal de uma Igreja missionária, pobre ainda é mais do que válido. Essa ainda é a Igreja que Jesus e seus discípulos pregaram”.

Vocês cristãos agora são uma minoria. Mesmo na Itália que é conhecida como o quintal do papa. Os católicos praticantes, de acordo com algumas pesquisas, estão em torno de 8 a 15 por cento. Aqueles que se dizem católicos, mas, na verdade, não são muito, estão em torno de 20%. No mundo, há um bilhão de católicos ou mais, e com outras igrejas cristãs há mais de um bilhão e meio, mas a população do planeta é 6 ou 7 bilhões de pessoas. Certamente há muitos de vocês, especialmente na África e América Latina, mas vocês são uma minoria.
“Sempre fomos, mas a questão hoje em dia não é essa. Pessoalmente, creio que ser uma minoria é realmente um ponto forte. Temos que se um fermento de vida e amor, e o fermento é infinitamente menor do que uma massa de frutas, flores e das árvores que nascem delas. Creio já ter dito que a nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança. Precisamos restaurar a esperança dos jovens, auxiliar os idosos, estarmos abertos para o futuro, espalharmos o amor. Sermos pobres dentre os pobres. Precisamos incluir os excluídos e pregar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo Papa Paulo VI e João, decidiu olhar para o futuro com um espírito moderno e abrir-se para a cultura moderna. O Padres Conciliares sabiam que abrir-se para a cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com não crentes. Mas posteriormente muito pouco foi feito nessa direção. Tenho a humildade e ambição de querer fazer alguma coisa”,

Também porque – permito-me acrescentar – a sociedade moderna ao redor do mundo está passando por um período de crise profunda, não somente econômica, mas também social e espiritual. No início de nosso encontro, o senhor descreveu uma geração esmagada sob o peso do presente. Mesmo nós, não crentes, sentimos esse peso quase antropológico. Essa é a razão pela qual queremos dialogar com os crentes e com aqueles que melhor os representam.

“Não sei se sou o melhor daqueles que os representam, mas a providência me colocou à frente da Igreja e da Diocese de Pedro [SIC! SIC! SIC!]. Farei o que puder para cumprir o mandato que me foi confiado.”

Jesus, conforme o senhor salientou, disse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O senhor acha que isso aconteceu?

“Infelizmente, não. O egoísmo aumentou e o amor em direção aos outros diminuiu.”

Assim, esse é o objetivo que temos em comum: Pelo menos para equalizar a intensidade desses dois tipos de amor. A sua Igreja está pronta e equipada para conduzir essa tarefa?

“O que você acha?”

Creio que o amor pelo poder temporal ainda é muito forte dentro dos Muros do  Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a instituição domina a Igreja pobre e missionária que o senhor gostaria.

“De fato, as coisas são assim, e nessa área você não pode fazer milagres. Deixe-me recordar que mesmo Francisco em sua época teve longas negociações com a hierarquia romana e o Papa para que as regras de sua ordem fossem reconhecidas. Eventualmente ele obteve a aprovação, mas com mudanças e compromissos profundos”,

O senhor terá de seguir o mesmo caminho?

“Não sou Francisco de Assis e não tenho a sua força e sua santidade. Mas sou o Bispo de Roma e Papa do mundo católico. A primeira coisa que decidi foi nomear um grupo de oito cardeais para serem meus conselheiros. Não cortesãos, mas pessoas sábias que partilham de meus próprios sentimentos. Esse é o início de uma Igreja com uma organização que não é apenas do alto para baixo, mas também horizontal. Quando o Cardeal Martini falou sobre enfocar nos concílios e sínodos, ele sabia do tempo e da dificuldade que implicaria caminhar nessa direção. Gentilmente, mas de maneira firme e tenaz”.

E a política?

“Por que você faz essa pergunta? Já disse que a Igreja não lidará com política.”

Mas há apenas alguns dias o senhor apelou aos católicos para se engajarem civil e politicamente.

“Não estava tratando apenas dos católicos, mas de todos os homens de boa vontade. Digo que a política é a mais importante das atividades civis e tem o seu próprio campo de ação, que não é o da religião. As instituições políticas são seculares por definição e operam em esferas independentes. Todos os meus predecessores têm dito a mesma coisa, por muitos anos ao menos, embora com acentos diferentes. Creio que os católicos envolvidos em política trazem os valores de sua religião dentro de si, mas têm a consciência madura e a experiência para implementá-las. A Igreja nunca irá além de sua tarefa de expressar e disseminar os seus valores, ao menos, pelo tempo que eu esteja aqui”.

Mas isso nem sempre aconteceu com a Igreja.

“Nem sempre aconteceu assim. Com frequência a Igreja como instituição foi dominada pela temporalidade e muitos membros e líderes católicos maiores ainda pensam assim. Mas agora, deixe-me fazer-lhe uma pergunta: Você, uma pessoa secular que não acredita em Deus, em que você acredita? Você é um escritor e um homem de pensamento. Você acredita em alguma coisa, você deve ter um valor dominante. Não me responda com palavras como honestidade, busca, a visão do bem comum, todos princípios e valores importantes, não é isso que estou perguntando. Estou perguntando o que você considera ser a essência do mundo, sem dúvida, do universo. Você deve se perguntar, é claro, como todo mundo, quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Mesmo as crianças fazem essas perguntas a si mesmas. E você?”

Agradeço essa pergunta. A resposta é esta: Acredito no Ser, que está no tecido do qual surgem as formas e o corpos.

“E eu creio em Deus, mas não em um Deus Católico, não há Deus Católico, há Deus e creio em Jesus Cristo, sua encarnação. Jesus é o meu mestre e meu pastor, mas Deus, o Pai, Abba, é a luz e o Criador. Esse é o meu Ser. Você acha que estamos muito distantes?”

Estamos distantes em nossa maneira de pensar, mas somos semelhantes como seres humanos, inconscientemente animados por nossos instintos que se transformam em impulsos, sentimentos e vontade, pensamento e razão. Nisso somos iguais.

“Mas você pode definir o que você chama de Ser?”

Ser é uma fábrica de energia. Energia caótica, mas indestrutível e caos eterno. As formas emergem da energia quando ela atinge o ponto de explosão. As formas têm as suas próprias leis, os seus campos de magnetismo, os seus elementos químicos, que combinam aleatoriamente, evoluem e eventualmente são extintos, mas a sua energia não é destruída. O homem é provavelmente o único animal dotado de pensamento, ao menos, no nosso planeta e no sistema solar. Disse que ele é guiado por instintos e desejos, mas eu acrescentaria que ele também contém dentro de si uma ressonância, um eco, uma vocação de caos.

“Está certo. Não quero que você me faça um resumo  de sua filosofia e o que você me disse é o suficiente. Do meu ponto de vista, Deus é a luz que ilumina a escuridão, mesmo se não a dissolve, e uma fagulha de luz divina está dentro de nós. Na carta que lhe escrevi, você irá lembrar que disse que as nossas espécies terminarão, mas a luz de Deus não terminará e nesse ponto ela invadirá todas as almas e estará toda em todos”.

Sim, lembro disso muito bem. O senhor disse: “Toda a luz estará em todas as almas” que – se posso dizer assim – transmite uma imagem mais de imanência do que de transcendência.

“A transcendência permanece porque essa luz, tudo em tudo, transcende o universo e as espécies em que habita nesse estágio. Mas de volta ao presente. Demos um passo à frente em nosso diálogo. Observamos que na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo tem aumentado mais do que o amor pelos outros, e que os homens de boa vontade precisarão trabalhar, cada qual com os seus pontos fortes e experiência, para garantir que o amor aos outros aumente até que seja igual e possivelmente exceda o amor por si mesmo”.

Novamente, a política é invocada.

“Certamente. Pessoalmente creio que o chamado liberalismo irrestrito somente faz do forte mais forte e do fraco mais fraco e exclui os mais excluídos. Precisamos de grande liberdade, não descriminação, não demagogia e muito amor. Precisamos de regras para conduzir e também, se necessário, intervenção direta do estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis”.

Sua Santidade, certamente o senhor é uma pessoa de grande fé, tocada pela graça, animada pelo desejo de reviver uma igreja pastoral e missionária, que é renovada e não temporal. Mas da maneira que o senhor fala e de como compreendo, o senhor é e será um papa revolucionário. Metade jesuíta, metade franciscano, uma combinação que talvez nunca tenha sido vista antes. E então, o senhor gosta de “The Betrothed” de Manzoni, Holderlin, Leopardi, especialmente, de Dostoevsky, o filme “La Strada” e “Prova d’orchestra” de Fellini, “Open City” de Rossellini e também dos filmes de Aldo Fabrizi .

“Gosto desses porque os assisti com meus pais quando era criança.”

Aqui está. Posso recomendar dois filmes lançados recentemente? “Viva la libertà” e os filmes sobre Fellini de Ettore Scola. Estou certo de que o senhor irá gostar deles. Com relação ao poder, digo, o senhor sabe que quando eu tinha 20 anos passei um mês e meio em um retiro espiritual com os jesuítas? Os nazistas estavam em Roma e eu havia desertado do serviço militar. A deserção era passível de punição por sentença de morte. Os jesuítas nos esconderam sob a condição de que fizéssemos exercícios espirituais o tempo todo que eles nos mantivessem escondidos.

“Mas é impossível ficar um mês e meio de exercícios espirituais?” Ele pergunta, maravilhado e divertido. Eu lhe direi mais da próxima vez.

Nos abraçamos. Subimos o pequeno lance de degraus até a porta. Digo ao Papa que não é preciso me acompanhar, mas ele faz um gesto dizendo que deixe isso pra lá. 

“Ainda iremos discutir o papel da mulher na Igreja. Lembre-se de que a Igreja (la chiesa) é feminina. E se você quiser, também podemos falar sobre Pascal. Gostaria de saber o que você acha dessa grande alma. Transmita a todos os seus familiares as minhas bênçãos e peça-lhes para rezarem por mim. Pensem em mim, pensem em mim com frequência”.
Apertamos as mãos e ele fica de pé com dois dedos levantados em sinal de benção. Aceno para ele da janela.
Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar como ele e ficar do jeito que ele quer que ela seja, será uma mudança de época.

* Tradução literal do título da versão em inglês; a tradução do título original em italiano é “O Papa: assim mudarei a Igreja”. Correções à tradução são bem-vindas.

Urgente - Proteste contra apresentação teatral blasfema, gnóstica e satânica de Romeo Castellucci em Porto Alegre




Autor: Edson Oliveira
Fonte: Conservador

"O anjo da arte é Lúcifer" (Castellucci)
Lúcifer se revestiu com "a pele da Serpente e usou a linguagem da Serpente [para tentar Adão e Eva]. Dando assim origem à arte. A arte encontra neste núcleo originário sua relação privilegiada com o mal". (Castellucci)

Proteste

Em Porto Alegre, hoje (19), amanhã (20) e sábado (21), no teatro São Pedro, será representada a blasfema peça teatral do italiano Romeo Castellucci intitulada "Sobre o Conceito da Face no Filho de Deus". Leia abaixo mais detalhes e depois envie uma mensagem de protesto usando o "Fale Conosco" do site oficial do teatro,  escolha opção AATSP (Associação dos Amigos do Teatro São Pedro, que promove e apóia as atividades da instituição), no campo "área responsável".

Opinião do Jornal La Croix em defesa de Castellucci

No mês de julho de 2011, o jornal La Croix, da esquerda-católica, afirmou que "o show nos traz de volta a nossa condição de homens feitos de carne e de matéria, como foi Cristo na Cruz". "Como um espelho obscuro, o espetáculo remete à consciência todas as suas limitações, sua fragilidade, sua finitude infinita. A seus medos e suas experiências mais íntimas, suas crenças, sua fé no homem. Em Deus". E no fato das crianças jogarem objetos no rosto de Cristo, La Croix vê um "gesto não de blasfêmia, mas de inocência" (1) (veja o vídeo).

Mas qual é o enredo da peça?

Diante de uma enorme fotografia da face de Jesus Cristo, estampada em uma tela, um idoso nu é vítima de vários ataques de disenteria que exigem de seu filho o trabalho de limpá-lo regularmente. O diretor Romeo Castellucci não poupa nada ao público, nem mesmo o cheiro ...
O pai pede perdão ao filho que continua seu trabalho. Mas a situação vai ficando cada vez mais difícil. O velho então grita e se revolta. O filho beija a imagem do Cristo. Ambos se retiram do palco. Até que por detrás daquela imagem de Cristo, as sombras de um homens a cobrem com um véu negro. Excrementos fecais são despejados na tela e no palco. O rosto de Cristo vai se escurecendo até ser rasgado e aparecem os dizeres: “Você (não) é meu pastor”.

Na versão apresentada no festival de Avignon, crianças aparecem em cena jogando granadas no retrato de Cristo ... (
veja o vídeo)


OBS:  No formulário do "Fale Conosco", escolha opção de enviar a mensagem para a sigla AATSP (Associação dos Amigos do Teatro São Pedro, que promove e apoia as atividades da instituição), no campo "área responsável".



Romeo Castellucci
Romeo Castellucci: simples expressão artística ou representação de uma cosmovisão gnóstica?

Castellucci concedeu uma entrevista para a revista australiana Arts RealTime (No. 52 Dezembro-Janeiro de 2002) por ocasião da apresentação de sua peça Genesino Festival de Melbourne (2).
Primeiro, veja como Arts RealTime descreve a obra Genesi:

"Genesi é a história de Deus criando amorosamente o Universo. Em seguida o homem comete o Pecado Original e é expulso do Jardim do Éden. Tudo isso é bem conhecido.
Menos familiar, no entanto, é a versão mística judaico-cristã que se encontra no Gnosticismo, na Cabala e na Rosacruz. E é esta a versão que Castellucci representa por meio de sons e outros recursos espetaculares. Castellucci se serve das mesmas tradições que têm servido de inspiração para artistas tais como Baudelaire, Antonin Artaud, Peter Brook [...]

"Nesta versão mais negra do Gênesis, o ato de criação não é aquele de amor, mas trata-se de um terrível erro. (...) O ato da criação é, então, uma transgressão violenta contra as leis do universo e, portanto, toda a criação contém dentro de si o caos (...). Não é o amor que reina neste universo, mas a crueldade. Não foi o homem que pecou, ​​mas Deus. Toda a arte, o teatro e a história constituem, portanto, um conto deste ato inicial de violência primordial "




Agora, trechos da entrevista.


Antonin Artaud, louco, inventor 
do "Teatro da Crueldade" e mestre 
de Romeo Castellucci
- Você disse: "o Genesis me assusta mais do que o Apocalipse", porque representa o "terror de uma possibilidade sem fim". Isto parece ter sido inspirado muito nos escritos de Antonin Artaud e de Blau Herbert, nas doutrinas cabalistas e gnósticas pelas quais Artaud mesmo era influenciado. Você concorda com essas ideias geralmente associada a esta cosmologia? Por exemplo, Artaud afirmava que um caos terrível existia antes da criação e que se manteve sempre presente, latente ou imanente, dentro de cada existência diária. Ele alegou que este "caos" é a 'dupla linguagem' do teatro. O fim mais elevado e a virtude mais eminente do teatro são, então, o poder representar - ou pelo menos chegar perto de representar - o caos através de uma representação viva?

Castellucci: (...) O teatro não é algo para ser "reconhecido". Não deve ser isso, mas sim um caminho através do desconhecido, para o desconhecido. O que eu e outros com uma concepção semelhante têm tentado fazer ao longo dos anos tem sido a de levar alto o escândalo da cena e de mantê-las sempre vibrantes. (...)

A este respeito, eu acho que o pensamento de Antonin Artaud é de fundamental importância para a compreensão plena da forma ocidental. Ele coloca o problema da forma em um banho de violência que desperta, que mantém um teatro real. Este é o lugar onde a forma se torna espírito. Estamos falando, de fato, sobre a alquimia da transformação, da transmigração de uma forma em outra. (...)

- Você concorda que todos os atos criativos são um ato de violência, ou pelo menos uma violação do tabu contra a criação?
Tenho em mente seu comentário de que Lúcifer, o anjo decaído, é o primeiro artista com quem a humanidade pode se identificar.

Castelucci: (...) Ao longo da história da humanidade, Lúcifer sempre se fez ver através da disfarces e fantasias, adotando as palavras de outra pessoa. Ele também fez isso no Início, se revestindo da pele da Serpente e usando linguagem da Serpente. (...) Ele é realmente o primeiro a trabalhar na superabundância da linguagem, para explorar o teatro como uma energia, dando assim origem à arte. A arte encontra neste núcleo originário sua relação privilegiada com o mal. O mal é, aliás, o aspecto extremo da liberdade que Deus concedeu a todos os seres. Lúcifer vive no estado de sua condenação que é precisamente de viver na região do não-ser. Para retornar ao estado de ser, Lúcifer foi forçado a assumir a aparência de outra pessoa, a voz de outra pessoa. Arte torna-se necessária quando não se está mais no Paraíso.

(...) Porque o Anjo da arte é Lúcifer. Este é o primeiro Ser que assume o figurino e roupas de um outro ser. (...) Ele vem da região de não-ser. A única possibilidade para ele voltar para a área do Ser é fazê-lo na voz, no corpo e no nome de outro, e isso é teatro. Esta zona de não-ser é a condição genital de cada criação, ele permite esta necessária destruição que afasta e evita todas as superstições”.


OBS:  No formulário do "Fale Conosco", escolha opção de enviar a mensagem para a sigla AATSP (Associação dos Amigos do Teatro São Pedro, que promove e apóia as atividades da instituição), no campo "área responsável".

___________________
Fontes:
1 - La Croix, 22/7/2011
2 - Avenire de la Culture, 5/11/2011


Papa Francisco institui o Conselho de Cardeais



Órgão consultivo, que não tem poderes de governo, se reunirá pela primeira vez nesta semana
Rocio Lancho García, Sergio Mora





ROMA, 30 de Setembro de 2013 (Zenit.org) - O papa Francisco instituiu um conselho de cardeais que tem natureza consultiva e duas finalidades concretas: ajudar no governo de toda a Igreja e estudar um projeto de revisão do funcionamento da cúria romana. O texto manuscrito do decreto foi assinado em 28 de setembro e publicado hoje. O conselho de cardeais não é um órgão de governo, mas apenas consultivo. O anúncio da criação do grupo foi feito no dia 13 de abril, quando também foram divulgados os nomes dos cardeais que o formariam.

A cúria romana é a estrutura por meio da qual o santo padre governa a Igreja, comparável até certo ponto com os ministérios dos governos de outros países. Os “ministérios”, no Vaticano, se chamam dicastérios. Alguns mudam de nome, como o de Assuntos Exteriores, que na Igreja é chamado de departamento de Relações com os Estados. Há “ministérios” específicos para o trabalho pastoral, como o da Doutrina da Fé, o do Clero, o dos Processos de Canonização, o da Justiça e Paz, etc.

Os oito cardeais nomeados pelo santo padre se reúnem em sua primeira sessão nesta semana, até a próxima quinta-feira, 3 de outubro. Eles ficarão hospedados na Casa Santa Marta e o idioma de trabalho será o italiano. “O papa deverá fazer uma breve introdução e logo em seguida escutará o conselho, que tem muito a contribuir, porque o material é volumoso. Não está previsto por enquanto nenhum encontro da comissão com pessoas externas”, explica o pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano. Excetuam-se a quarta-feira de manhã, dia da audiência geral, e a quinta-feira, em que acontece uma audiência do congresso Pacem in Terris.

Os oito cardeais que compõem o conselho são o italiano Giuseppe Bertello, o chileno Francisco Javier Errazuriz Ossa, o indiano Oswald Graças, o alemão Reinhard Marx, o congolês Laurent Monsengwo Pasinya, o estadunidense Sean Patrick O'Malley, o australiano George Pell e o hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, que será o coordenador do grupo, auxiliado por dom Marcello Semeraro, bispo de Albano.

O porta-voz especificou que eles constituem um “novo instrumento que enriquece o governo da Igreja”. Todos são arcebispos de grandes dioceses, menos o de Albano.

O conselho “foi criado pelo papa, que é livre para ampliar ou modificar a equipe. Ele os consulta de maneira coletiva, mas também individualmente. Os cardeais darão os seus conselhos e o santo padre tomará as decisões que considerar oportunas”, esclareceu Lombardi. “O papa realiza também outras formas de consultas: reuniões com os chefes dos dicastérios da cúria, com as comissões e com pessoas que ele considera proveitoso consultar”.

“Além disso, o papa também falou de outra reforma importante: o método de trabalho do sínodo”. Neste sentido, “as palavras-chave para pensar neste método de governo são sinodalidade e caminhar juntos como Igreja [...] O papa procura discernir a vontade de Deus também através da consulta”.

Interrogado sobre a preparação dos trabalhos, o representante do Vaticano explicou que “o trabalho começou com o recebimento atencioso de sugestões e propostas, feitas pelos oito membros do conselho de cardeais, cada um de acordo com as suas áreas de competência. Também estão contribuindo os chefes dos dicastérios, o colégio cardinalício e a Secretaria de Estado”.

“São cerca de oitenta os documentos que já chegaram até o secretário antes da reunião, e uma parte desse material está sendo estudada pelos membros do conselho cardinalício”. Além disso, acrescenta Lombardi, “o secretário preparou uma síntese. No sábado foi feita uma reunião informal entre os membros que já tinham chegado e hoje haverá outra, para que exista um intercâmbio de informação antes de começar”.

O porta-voz encerrou a coletiva informando que “este é um primeiro encontro, é uma realidade que vai continuar. Não devemos esperar desses três dias conclusões ou publicações de documentos e decisões, já que é a primeira vez que eles se encontram deste modo para discutir temas de grande complexidade e amplidão, com uma documentação muito vasta. Sejamos realistas”, sugeriu.


MINI-VATICANO III - 2- "A estratégia é mostrar àqueles que resistem às mudanças que, na prática, o papa apenas está escutando as realidades de diferentes bispos pelo mundo. "Francisco quer usar sua base como seu próprio escudo".




Francisco vai refazer Constituição do Vaticano

Grupo começa a se reunir nesta terça-feira com o pontífice para reformar a Igreja e ainda deve opinar sobre temas diversos, incluindo casamento e divórcio

30/9/2013
Jamil Chade


Sob as ordens do papa de "rasgar e rescrever" a Constituição Apostólica, oito cardeais começam nesta terça-feira, 1º de outubro, as reuniões com Francisco para reformar o Vaticano, sua burocracia, suas operações e a forma pela qual se comunica com fiéis e o mundo. A meta será a de dar maior voz aos bispos de todo o mundo e, de certa forma, descentralizar parte das ações da Santa Sé.

L'osservatore Romano/EFE
Em abril, o papa anunciou a escolha de oito cardeais que iriam liderar o processo de reforma e que, durante os últimos meses, coletaram centenas de propostas de todo o mundo e prepararam um informe de mais de 500 páginas.
O líder do grupo, o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, revelou que o pedido do papa não era apenas de mudar "isso ou aquilo" na Constituição, conhecida como Pastor Bonus. "Essa Constituição acabou", disse Maradiaga, se referindo aos textos que foram emitidos em 1988 pelo papa João Paulo II. "Vamos fazer algo diferente. Precisamos escrever algo diferente", disse o cardeal, em entrevista a uma TV canadense.
Mas a reforma da Constituição é apenas parte do processo. O papa pediu ao grupo a opinião sobre o casamento e a possibilidade de divorciados que voltem a se casar poderem comungar, sobre o sínodo dos bispos e sobre a relação entre a Igreja de base e a Igreja em Roma. Segundo o Estado apurou, parte das propostas indica um equilíbrio entre uma flexibilização da posição da Igreja e a manutenção dos dogmas intactos.

Fontes no Vaticano admitiram ao Estado que há um sentimento nos últimos dias entre a Cúria de "expectativa e nervosismo". "Essa será a maior obra de Francisco na Igreja e ele sabe que poderá abalar as estruturas do Vaticano", reconheceu um religioso na Santa Sé, que pediu para não ser identificado.

Para fazer a reforma, Francisco escolheu seu G8 (grupo de oito cardeais), mas deixou claro que queria que as propostas fossem coletadas da base. A estratégia é mostrar àqueles que resistem às mudanças que, na prática, o papa apenas está escutando as realidades de diferentes bispos pelo mundo. "Francisco quer usar sua base como seu próprio escudo", contou outro diplomata.
Um temor do grupo que apoia o papa é que a implementação de qualquer uma das propostas de reforma acabe criando um mal-estar político dentro da Cúria. Não por acaso, no fim de semana, o papa deu claras indicações de que não aceitará que a Santa Sé se transforme em um local de disputa de poder. No sábado, em uma conversa com a segurança do Vaticano, ele ordenou que os policiais não hesitem em punir quem praticar "fofoca". "Isso é uma guerra travada com a língua", disse. "Aqui não pode haver isso."
Escuta. Na reunião desta terça, o papa vai mais escutar do que falar. Cada um dos cardeais apresentará sua avaliação. Mas todos no Vaticano insistem que, nesta semana, nenhuma decisão será tomada. Para Maradiaga, nada do que vai começar a ser realizado besta terça-feira poderá ser concluído em "um ou dois meses". "Esse será um processo longo."



 FonteESP

MINI-VATICANO III - 1 - É apenas o início de um trabalho que se prolongará por alguns anos, à semelhança do que ocorreu na instalação do Concílio Vaticano II



Papa fará reforma histórica, diz relatório

Texto de cardeais nomeados por Francisco deve pedir mudanças cruciais no Vaticano
29/9/2013

JOSÉ MARIA MAYRINK
O Estado de S.Paulo




O relatório dos oito cardeais nomeados há cinco meses pelo papa Francisco para ajudá-lo no governo da Igreja vai além da reforma da Cúria Romana, a administração do Vaticano. Ele deve abordar temas como o ecumenismo, o papel da mulher na Igreja e questões da vida cotidiana dos fiéis, em um cenário de mudança que se assemelha ao que antecedeu à reunião do Concílio Vaticano II.
O cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, coordenador do G-8, como está sendo chamada a comissão, informou ao bispo de Jales (SP), d. Demétrio Valentini, que chegaram a suas mãos mais de 500 páginas com sugestões enviadas por bispos, teólogos e leigos de todos os continentes.
Francisco se reunirá com o G-8 de terça a quinta-feira, para analisar as propostas. A reunião tem caráter consultivo, pois todas as decisões serão tomadas pelo papa. É apenas o início de um trabalho que se prolongará por alguns anos, à semelhança do que ocorreu na instalação do Concílio Vaticano II, quando o papa João XXIII pediu socorro ao episcopado e a consultores para a proposição de temas a serem discutidos.
Lançada a ideia de uma reunião ecumênica, em 1959, era necessário organizar uma pauta para a renovação da Igreja. O Vaticano II durou três anos, de 1962 a 1965, após três anos de preparação. João XXIII morreu em junho de 1963, após a primeira sessão. Seu sucessor, Paulo VI, levou o projeto adiante.
Alguns dos principais temas do Vaticano II deverão ser retomados, acrescentando-se várias inovações às questões que revolucionaram a Igreja, 50 anos atrás. Sobressaem o papel dos bispos na condução das dioceses, a colegialidade entre o episcopado mundial e o papa, o ecumenismo e o diálogo com outras religiões, a formação do clero, a valorização da participação da mulher na pastoral e na administração da Igreja, assim como uma nova visão em relação a itens cruciais na vida cotidiana. Propõe-se também que as conferências episcopais participem da eleição do papa.
"A reaproximação com os ortodoxos está mais que madura para se chegar à unidade dos cristãos", afirmou d. Demétrio, registrando os grandes passos dados nos últimos anos na discussão teológica que se estendeu também aos protestantes, especialmente aos luteranos e anglicanos. Em seus primeiros seis meses de pontificado, o papa incentivou também o diálogo com judeus e muçulmanos, em defesa de valores comuns às três religiões monoteístas.
Outra inovação deverá ser a ampliação da participação dos leigos, homens e mulheres, na liturgia e na administração dos sacramentos. A ordenação de homens casados para levar a eucaristia a comunidades carentes de padres tem boas chances de ser aprovada. Não se trata de "distribuidores de hóstias", mas de sacerdotes ordenados, adverte o bispo de Jales. A ordenação de mulheres, reivindicação recorrente desde o Concílio Vaticano II, é uma questão ainda fora da pauta, pela resistência que provoca, sobretudo após o papa João Paulo II ter-se oposto a ela.
Antecipando-se ao prazo para a apresentação das sugestões, o papa fez várias nomeações no governo central da Igreja, confirmando e demitindo colaboradores. A mudança mais importante, anunciada em 31 de agosto, foi a demissão do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, de 78 anos, que será substituído pelo arcebispo Pietro Parolin, de 58 anos, diplomata de carreira, que foi núncio apostólico na Venezuela.

Bertone declarou ter sido vítima de "uma rede de corvos e cobras". No cargo desde 2006, homem de confiança do papa emérito Bento XVI, seu nome foi envolvido em denúncias de escândalos, incluindo a manipulação de dinheiro no Banco do Vaticano. Ele foi muito criticado nas congregações gerais, reuniões de cardeais preparatórias para o conclave que elegeu Francisco em março. Sua substituição era esperada.

FonteESP

Como uma só alma em dois corpos


Santos Basílio e Gregório, rogai por nós!!!
São Basílio e São Gregório, rogai por nós!
Encontramo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo da única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões. Mas voltamos a nos reunir como se nos tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis.
Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos, que já conheciam sua reputação.
Que acontece então? Ele foi quase o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato. Este foi o prelúdio de nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo.
Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo: o amor à sabedoria era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo, aspirando aos mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade.
Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável: a ciência da fé. No entanto, não tínhamos inveja um do outro, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro.
Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos. E embora não se deva dar crédito àqueles que dizem que tudo se encontra em todas as coisas, em nosso caso podia-se afirmar que de fato cada um se encontrava no outro e com o outro.
A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos, estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro regra e o modelo para discernir o certo e o errado.
Assim como cada pessoa tem um sobrenome recebido de seus pais ou adquirido de si próprio, isto é, por causa da atividade ou orientação de sua vida, para nós constituía maior empenho sermos agraciados com o nome que realmente tínhamos, que era o de cristãos, e de sermos reconhecidos como tais.
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, Bispo (Oratio 43, in laudem Basilii Magni, 15, 16-17. 19-21: PG 36, 514-523, séc. IV)


Fonte: Sacrifício Vivo e Santo

Com o papa Francisco - o Terceiro Mundo no Vaticano



Segundo Boff "...a centralidade não é ocupada pela doutrina e pela disciplina, tão dominantes nos últimos tempos, mas na pessoa humana, nas suas buscas e indagações, seja ela crente ou não, como o mostrou em diálogo com o não crente e ex-editor do diário romano La Repubblica, Eugênio Scalfari. São novos ares que sopram das novas igrejas periféricas que arejam toda a Igreja. A primavera de fato está chegando, promissora".


Será mesmo isso que ensina a Doutrina Católica? 

Ensina São Paulo: "A fé é pelo ouvido, e o ouvido pela palavra de Cristo" Romanos X, 17.

O homem adquire forças para praticar a religião à luz da Fé, a qual, como diz São Paulo, é um "rationabile obsequium" (Rm 12, 1). Compreende pela Fé que a Santa Igreja Católica lhe foi dada para guiá-lo, como amparo de sua fragilidade. No seu Magistério infalível, o homem deve encontrar a verdade; sob a direção da Igreja, como Mestra das almas, ele deve encontrar o caminho; nos seus sacramentos, o meio para cumprir seu ideal.

A fé é racional -- rationabile obsequium, e não uma "experiência" interior, como pretendem os modernistas de ontem e de hoje.


Como, então, admitir que não ocupe papel central na Igreja a Doutrina?  









Leonardo Boff*


São notórias as muitas inovações que o papa Francisco, bispo de Roma, como gosta de ser chamado, introduziu nos hábitos papais e no estilo de presidir a Igreja na ternura, na compreensão, no diálogo e na compaixão.

Não são poucos os que ficam perplexos, pois estavam habituados ao estilo clássico dos papas, esquecidos de que tal estilo é herdado dos imperadores romanos pagãos, desde o nome de “papa” até o manto sobre os ombros (mozeta), todo adornado, símbolo do absoluto poder imperial, prontamente rejeitado por Francisco. 

Vale lembrar sempre de novo que o atual papa vem de fora, da periferia da Igreja central europeia. Carrega outra experiência eclesial, com novos costumes e outra forma de sentir o mundo com suas contradições. Conscientemente, ele o expressou em sua longa entrevista à revista dos jesuitas Civiltà Catolica: As Igrejas jovens desenvolvem uma síntese de fé, cultura e vida em devir, e, portanto, diferente da desenvolvida pelas Igrejas mais antigas”. Estas não são marcadas pelo devir mas pela estabilidade, e custa-lhes incorporar elementos novos provindos da cultura moderna secular e democrática. 

Aqui o papa Francisco enfatiza a diferença. Tem consciência de que vem de outra maneira de ser Igreja, madurada no Terceiro Mundo. Este se caracteriza pelas profundas injustiças sociais, pelo número absurdo de favelas que circundam quase todas as cidades, pelas culturas originárias sempre desprezadas e pela herança da escravidão dos afrodescendentes, submetidos a grandes discriminações. A Igreja entendeu que, além de sua missão especificamente religiosa, não pode furtar-se a uma missão social urgente: estar do lado dos fracos e oprimidos e empenhar-se por sua libertação. Nos vários encontros continentais dos bispos latino-americanos e caribenhos (Celam) amadureceu a opção preferencial pelos pobres contra sua pobreza e a evangelização libertadora. 

O papa Francisco vem deste caldo cultural e eclesial. Aqui tais opções com suas reflexões teológicas, com as formas de viver a fé em redes de comunidades e com celebrações que incorporam o estilo popular de rezar a Deus, são coisas evidentes. Mas não o são para os cristãos da velha cristandade europeia, carregada de tradições, teologias, catedrais e um sentimento do mundo impregnado pelo estilo greco-romano-germânico de articular a mensagem cristã. Por vir de uma Igreja que deu centralidade aos pobres, visitou primeiramente os refugiados na ilha de Lampedusa, depois em Roma, no centro dos jesuítas, e em seguida os desempregados da Córsega. Isso é natural para ele, mas é quase um “escândalo” para os curiais e inédito para os demais cristãos europeus. A opção pelos pobres, reafirmada pelos últimos papas, era só retórica e conceptual. Não havia o encontro com o pobre real e sofredor. Com Francisco se dá exatamente o contrario: o anúncio é prática afetiva e efetiva. 

Talvez estas palavras de Francisco esclareçam seu modo de viver e de ver a missão da Igreja: Eu vejo a Igreja como um hospital de campanha após uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem colesterol e glicose altos! É preciso curar as feridas. Depois se poderá falar de todo o restante”. A Igreja prossegue por vezes se fechou em pequenas coisas, pequenos preceitos. A coisa mais importante, ao invés, é o primeiro anúncio: Jesus o salvou!. Portanto, os ministros da Igreja, em primeiro lugar, devem ser ministros de misericórdia, e as reformas organizativas e estruturais são secundárias, ou seja, vêm depois, porque a primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar com elas na noite, de saber dialogar e também entrar na noite delas, na escuridão delas, sem perder-se. O povo de Deus conclui quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado”. No Brasil, falando aos bispos latino-americanos, cobrou-lhes fazer a “revolução da ternura”. 

Portanto, a centralidade não é ocupada pela doutrina e pela disciplina, tão dominantes nos últimos tempos, mas na pessoa humana, nas suas buscas e indagações, seja ela crente ou não, como o mostrou em diálogo com o não crente e ex-editor do diário romano La Repubblica, Eugênio Scalfari. São novos ares que sopram das novas igrejas periféricas que arejam toda a Igreja. A primavera de fato está chegando, promissora.


*Leonardo Boff, teólogo e filósofo, escreveu diversos livros, entre os quais, 'Francisco de Assis e Francisco de Roma' (Mar de Ideias, Rio, 2013).


Fonte: JB
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