quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sem dúvida, a força dos maus provém da fraqueza dos bons. Somos nós que, o mais das vezes, não nos colocamos à altura daquilo que a contingência histórica nos impõe. Quando nos demitimos do dever de lutar, geralmente o inimigo triunfa.



Representação de Cristo em uma exposição financiada pelo prefeito de Nancy, do UMP (partido de oposição na França)


Talvez por isso cenas como essas se tornaram tão rotineiras, afinal, os católicos estão bem conscientes de sua fé, a defendem plenamente, integralmente, e os políticos, eleitos conscientemente por essa pencha de católicos, lhes oferecem uma ajudinha... não é mesmo?



STF tem de decidir até sobre pães mofados


Tragédia? Ironia? Eis no que a Constituição de 1988 transformou o Brasil: num achincalhe de nação!






Luiz Orlando Carneiro


Brasília - O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, na qualidade de relator, negou um recurso da Defensoria Pública do Rio de Janeiro que conseguiu fazer chegar à mais alta corte do país um caso de indenização por danos morais e materiais em torno de um saco de pães de queijo no valor de R$ 5,69. A indenização pretendida de um supermercado que vendera o produto mofado era de R$ 5 mil.
No seu despacho, o ministro Zavascki aproveitou para registrar sua crescente preocupação com o fato de o STF ter de apreciar, como instância final, questões irrisórias como esta que “claramente deveriam ter sido resolvidas em outras instâncias ou por mecanismos extrajudiciais”
E acrescentou: “Sem falar nos custos financeiros que isso representa aos cofres da nação (milhares de vezes superiores ao valor econômico da causa) e do gasto de tempo que impõe aos serviços judiciários, a insistência em recorrer, em situações da espécie, revela que não basta haver leis no país filtrando o acesso às instâncias extraordinárias. É preciso que haja também uma mudança de cultura, uma séria tomada de consciência, inclusive pelos representantes judiciais das partes, de que a universalização do acesso ao STF, antes de garantir justiça, contribuirá ainda mais para a inviabilização do nosso sistema de justiça”.

Os boatos sobre a morte de Lutero - (Parte II)








O sábio doutor da Sorbonne, Génébrard, escreve em suas Chronographiae, editadas em Colônia, em 1582 (pag. 1181):

"Lutero, estando em Eisleben, após ter comido e bebido muito à noite, se encontrou, pela manhã, a caminho do diabo[1]".

Floremond de Raemond diz em sua Histoire de la naissance, progrès et décadence de l'hérésie de ce siècle (traduzido em latim, em Colônia, 1655; em alemão, em Glogau, 1695):

"Encontrei este fato relatado por alguns autores: é que Lutero, tendo se levantado para se aliviar, derramou suas entranhas do mesmo modo que Arius[2]". 

Floremond de Raemond não cita as fontes de sua comunicação; porém, como veremos mais tarde, ocorreu-lhe geralmente de trabalhar sem ser rigoroso na citação das fontes históricas.

O cardeal Belarmino oferece uma versão que se aproxima da de Bozio. Encontrá-la-emos mais adiante. Ele diz em um de seus sermões (pregados de 1570 a 1576 em Lovaina, publicados em Colônia em 1615):

"Martinho Lutero não viveu como voluptuoso, não morreu como voluptuoso? Numa noite, algumas horas depois de ter comido bem segundo seu costume, e alegrado todos os seus convivas com seus contos e suas piadas, ele rendeu sua alma ao diabo[3]".

O cardeal Hosius acreditava que, como Lutero, em quase todos os seus discursos, escritos ou ações, falava, escrevia ou agia sob o impulso do diabo, a mesma coisa deve ter ocorrido em sua morte. Em sua obra clássica Confutatio prolegomenon Brentii (Coloniae 1550), o cardeal se exprime assim:

"Enquanto que em todos os seus dizeres, seus escritos, seus feitos e gestos, ele não teve outro conselheiro - muito mau, sem dúvida - senão o ódio e a ira, pode-se ainda duvidar de que o que ele fez veio, aliás, senão do diabo? Se alguém ainda duvida disso, que ele se deixe esclarecer pelo próprio Lutero, que, em seu livro intitulado: Da Missa privada, não dissimula quem foi o seu autor. Ali ele mostra o diabo discutindo com ele, trazendo contra a missa argumentos tão fortes que ele não pode refutá-los. Ele descreve o tom de sua voz, grave e robusta, diz ele, terrível de se ouvir, de tal forma que acontece de por vezes algumas pessoas, depois de terem tido uma conversa noturna com o diabo, serem encontradas mortas na manhã seguinte. O diabo, diz ele ainda, pode matar o corpo: além disso, ele coloca a alma em tais angustias, que por vezes, em um piscar de olhos, ele a faz sair do corpo. Ainda um pouco, segundo ele, e isso teria lhe acontecido[4]. E definitivamente isso lhe aconteceu, pois este que, à noite, tinha comido bem e se alegrado, foi encontrado morto em sua cama na manhã seguinte, após ter causado na Igreja de Deus grandes perturbações, durante vinte e nove anos. Eis aqui este evangelho, esta palavra de Deus, tão magnificamente exaltada por alguns: isso não vem de Cristo, mas de Satanás, que é seu autor, como confessa aquele que, por primeiro, a lançou ao público; ele se gaba de ter tido de responder a argumentos que subverteram o sacerdócio e o sacrifício[5]".

Hosius intitula esse capítulo de: Lutherum malo spiritu actum pluraque perfecisse - "Lutero agiu geralmente sob a influência do espírito mau".

A passagem das obras de Lutero que ele cita se encontra no libelo impresso em 1533, "A missa privada e a consagração dos padres". É aí que Lutero narra que numa noite, ele teve uma discussão serrada com o diabo sobre esse assunto. Eis o que ele diz[6]:

"Uma vez, por volta da meia noite, fui acordado: quando o diabo começou em meu coração uma argumentação comigo, como ele soube me fazer em mais de uma noite, com bastante aspereza e amargura: "Escute, você, o grande sábio, disse o diabo; você sabe que você celebrou a missa privada quase todos os dias durante quinze anos! Com missas semelhantes, é como se você tivesse praticado uma soberba idolatria, adorando não o corpo e o sangue de Cristo, mas sim pão e vinho, e fazendo os outros adorá-los".

Os boatos sobre a morte de Lutero (Parte I)





Perguntamo-nos agora quais foram os boatos que tinham espalhado em torno do ataúde de Lutero, sobre o modo cujo ele tinha morrido. Deveríamos de preferência perguntar inicialmente quem tinha difundido estes boatos, ou quem os tinha feito circular? Coelius diz que os autores destas invenções malevolentes, mesmo diabólicas, só poderiam ser os "papistas". Mas então, como estes vieram a Eisleben, a cidade luterana onde, em 1546, a "liberdade da doutrina cristã" florescia a tal ponto que um "papista" não poderia mais viver em suas muralhas?[1] Como eles teriam podido penetrar no séquito de Lutero, seja no círculo dos teólogos e da nobreza de Eisleben, seja em seu serviço pessoal? Sendo dada a persistência dos boatos em questão, eles só poderiam sair deste círculo; neste caso eles poderiam se espalhar com maior facilidade na cidade e nas redondezas. 

Portanto, os autores destes boatos só poderiam ser partidários de Lutero. Seguramente eles não teriam dito nada, declarado nada, se uma ocasião repentina, extrapolando o comum, não os tivesse forçado a dar uma resposta ao público que os pressionava com inumeráveis perguntas. 

Em tais conjecturas, Coelius demonstraria muita imprudência ao acreditar que com seu alarido ele "silenciaria o diabo e suas línguas de mentira". Ele só soube despertar suspeitas sobre esta questão, e tornar os ouvidos surdos à sua narração. Ele também parece ter se arrependido muito cedo de sua falta de cautela, visto que, na Historia impressa, que ele tinha terminado e assinado em acordo com Jonas e Aurifaber, um, um pouco mais astuto, e o outro mais flexível do que ele, ele não trata mais destes famosos rumores. Como mencionamos mais acima, essa Historia permaneceu como a primeira fonte histórica sobre a morte de Lutero para os biógrafos protestantes. Eis porque esses boatos teriam sido abafados na controversa protestante, se escritores católicos não os tivessem registrado e os mantido como credíveis, ou mesmo os proposto como fatos históricos. 


Assim sendo, de que natureza eram estes propósitos que eram murmurados ao pé do ouvido? Ainda que eles se diferenciem nos detalhes, resta-lhes, contudo, um fundo comum de concordância. Ou seja, sobre o ponto capital eles estão de acordo, a saber, que Lutero tinha acabado de um modo "completamente súbito, inesperado, e, ademais, lamentável[2]".

Lutero tinha chegado à Eisleben na noite de 28 de janeiro. No dia 29 ele já se ocupava de questões de interesse daquele que o patrocinava, o conde Albert de Mansfeld. Fora isso, deste dia até o dia de sua morte, ele "pregara" quatro vezes e até "ordenara e consagrara"[3] dois "padres"[4].

Na noite de 17 de fevereiro, ele tomara sua refeição como de costume, no dizer da Historia: no dia 18, pela manhã, ele não era além de um cadáver. Enquanto era de conhecimento de todos que Lutero, não somente gostava muito de comer e beber, mas ainda que ele chegava à intemperança - ele mesmo se vangloriava de "comer" como um boêmio e de "beber" como um alemão[5] - não seria natural que se espalhasse tão logo o boato de que por ter comido demais, ele tinha sido abatido por uma apoplexia?  (sem contar que suas forças físicas estavam enfraquecidas).

Pode-se ler em Cochlaeus (De actis et scriptis Lutheri; Mayence 1546, Paris e Cologne 1565, p. 298 e seguintes) uma narração de um burguês de Mansfeld que dá numerosos detalhes diferentes daqueles da Historia. Segundo este documento, na noite que precedeu sua morte, Lutero teria alegrado companheiros de mesa com suas piadas de costume, porém, por volta das oito horas, ele teria ficado indisposto. Depois da meia noite, os dois médicos de Eisleben teriam sido chamados repentinamente para junto dele. Estes, em sua chegada não teriam encontrado mais sinal de vida nele: 

"Post medium noctis repente vocati sunt duo medici, quorum alter doctor alter magister erat[6]; qui ubi advenerunt, non repererunt int eo ullum amplius pulsum[7]. Scripserunt tamen mox Receptum quoddam pro immittendo clisterio seu enemate".

Depois eles teriam mandado buscar um clister no boticário. A narração continua: 

"Is ubi advenit, et medicorum jussu temperasset atque calefecisset clisterium, putabat illum adhuc vivere. Cumque versum esset corpus, ut ei clisterium applicaretur, apothecarius videns eum mortuum jam esse, ait ad medicos: Mortuusest, quid opus est enemate! Aderat comes Albertus et nonnulli homines eruditi. Responderunt autem medici: "Quid tum? Appone clisterium si forte supersit ullus adhuc spiritus, ut reviviscat". Ille ergo cannulam apponens, sensit in saccum clisterii exire quasdam ventositates et bombos. Erat enim totum corpus refertum humoribus ex supefluo cibo potuque. Habuerat enim coquinam magnifice instructam et vinum dulce atque exoticum permultis metretis abundans in hospitio. Ajunt sane, Lutherum, omni prandio et coena unum ebibisse sextarium (várias garrafas) vini dulcis et exotici[8]. Ubi igitur apothecarius clisterius in corpus torsit, totum refusum est e corpore in lectum, qui splendide praeparatus erat. Ait itaque medicis apothecarius: "Non remanet clisterium" - dixerunt illi "Omitte igitur[9]".

Neste momento, os dois médicos chegam a uma opinião diferente sobre o tipo de morte. O que era médico, acreditava em uma apoplexia: "Por causa da contorção da boca e do negrume de todo o lado direito. O que era mestre, estimava que um homem tão santo não poderia ter sido atingido de apoplexia por Deus, e que se tratava de um catarro sufocante que o tinha asfixiado. Nisso chegam outras pessoas, como todos os condes. Jonas estava sentado na cabeceira do defunto, e se lamentava grandemente, contorcendo as mãos e gesticulando. Quando lhe perguntaram se Lutero tinha se queixado de algumas dores na véspera à noite, (eles já estavam no raiar do dia, na segunda-feira de 18 de fevereiro[10]), ele respondeu:

"Ó, não! Pois ontem ele estava mais alegre do que nunca. Ah! Senhor Deus, Senhor Deus[11]!"

Primeiro relato autêntico sobre a morte de Lutero (1592)







A morte de Lutero permaneceria então um segredo; alguns iniciados presentes em seu leito de morte eram os últimos que tinham a chave dele. A questão permaneceu como tal durante mais de quarenta anos, até que enfim, em 1592, um polemista, historiador católico de renome, o oratoriano Thomas Bozio, se colocou à parte e publicou uma relação devida a uma testemunha ocular - o próprio empregado de Lutero. Esse empregado ainda era jovem quando seu mestre morreu. Ele retornou para o seio da Igreja católica. Nesse meio tempo, ele fez contato pessoal seja com Bozio, seja com seus amigos, justo no momento que Bozio escrevia sua famosa obra, frequentemente citada por teólogos do século XVI, de Dignis Ecclesiae (Roma e Colônia, 1592; 1593). Nela há um capítulo sobre o fim desafortunado de todos os hereges. É aí que, confiando em seus dados, ele estabeleceu o que segue: 

"Uma noite, Lutero tinha jantado copiosamente; ele fora dormir com um humor jovial. Na mesma noite, ele morreu sufocado. Eu tomei esse detalhe pouco conhecido de seu criado, de quem recebi o testemunho. Ele era jovem quando esteve a seu serviço; e voltou a ser um dos nossos, há alguns anos. Segundo ele, Lutero morreu miseravelmente, por meio de um laço no pescoço; porém rapidamente fizeram todos os seus familiares que estavam a parte da questão jurarem não divulgar isso, pela honra do Evangelho".

Essa informação autêntica e de fonte estranha, de forma alguma improvável em si, logo encontrou entre os historiadores católicos um crédito universal. Ela foi repetida por Cornelius a Lapide, que disse, em seu comentário sobre a segunda epístola de São Pedro, II, 12 (pseudoprophetae in corruptione sua peribunt), composta por volta de 1600: 

"É certo que Lutero, após um rico jantar, foi tomado de desesperança. Impelido pelo furor diabólico, ele passou um laço pelo pescoço e morreu assim. É o que afirmou seu criado, convertido na sequência à verdadeira fé, segundo o que relata Thomas Bozio[1]".

Assim, o famoso exegeta acrescenta, por sua parte, um esclarecimento ao que Bozio tinha narrado, a saber, que Lutero tinha perpetrado sua última ação "desperatione et furiis daemonis actus", na desesperança e impelido pelo furor do diabo.

Outro logo revelou a informação de Bozio. Foi o jesuíta Martin Becan. Ele ensinava filosofia em Colônia, quando Bozio mandara imprimir seu livro[2].

De acordo com ele, pode-se conhecer até mesmo o texto do esclarecimento devido ao criado de Lutero, pois ele possuía seu testemunho escrito, e várias cópias tinham sido feitas. 

O primeiro que mandou imprimir esse manuscrito, foi Henri Sedulius, homem cheio de obras e grande viajante. Ele tinha tomado conhecimento dele em Fribourg en Brisgau; e ele o publicou em seu livro: "Praescriptiones adversus haereses, Antuérpia 1606".

O empregado, que como vimos, retornou mais tarde ao catolicismo, faz observar desde o princípio que, antes de tudo, lhe foi prescrito guardar o silêncio sobre o triste acontecimento, porém que Deus e a voz de sua consciência tiveram de ser ouvidas mais que os homens. Ademais, ele descreve de um modo muito vigoroso como ele foi o primeiro a encontrar seu mestre, na manhã de 18 de fevereiro de 1546, "pendurado contra sua cama, e miseravelmente estrangulado". 

Encontraremos mais abaixo, no apêndice B, esse texto com a introdução in extenso de Sedulius. Não obstante, a tradução cabe conveniente aqui, dada como o processo verbal redigido pelo criado de Lutero. Ei-la:

"Sem dúvida seu piedoso pedido me insta a rejeitar todo temor em ofender ou em indignar as pessoas, e me chama a dar o testemunho que é devido à verdade; mas o que me arrasta a isso com maior veemência ainda, é o respeito que devo a Deus e a todos os santos. Sei que é preciso dar, por toda parte, glórias às obras admiráveis de Deus, e que, antes vale obedecer as ordens divinas que as dos homens. Assim, ainda que os senhores da Alemanha me tenham assinalado severamente para não revelar a quem quer que fosse a terrível morte de meu mestre Martinho Lutero, eu, contudo, não a esconderia; porém, para a glória de Cristo, farei conhecer, e pela edificação da sociedade cristã, divulgarei o que eu mesmo vi e tomei conhecimento dos primeiros, o que anunciei aos príncipes reunidos em Eisleben, e isso sem ser excitado por nenhum ódio, nem provocado por qualquer amizade ou qualquer favor. Eis, portanto, o que aconteceu:

Lutero, se encontrando em Eisleben, em meio aos ilustríssimos senhores da Alemanha, tinha concedido à sua sede uma generosa satisfação. Bêbado, ele estava absolutamente sem controle, e nós o tínhamos levado para deitar e o acomodado em sua cama. Após ter-lhe desejado boa noite, nos retiramos para nosso quarto, sem predizer, nem suspeitar de algum desfecho sinistro, e dormimos tranquilamente. Na manhã seguinte, chegando perto de nosso mestre para vesti-lo como de costume, qual não é nossa dor, quando percebemos Martinho Lutero pendurado em sua cama e miseravelmente estrangulado. Esse espetáculo de enforcamento horrível nos encheu de pavor. Após um pouco de hesitação, corremos até os príncipes e os companheiros da cidade, para lhes anunciar o execrável fim de Lutero. Eles, não menos assustados que nós, começaram por nos obrigar a prometer todo tido de coisas e levar numerosas testemunhas: em primeiro lugar, era para mantermos o assunto em silêncio, fielmente, constantemente, a fim que nada fosse revelado; depois, recolocar o cadáver maculado de Lutero na cama, porém livre de sua corda; enfim, espalhar entre o público que ele tinha morrido subitamente. Cheios de grandes promessas, iríamos manter nosso compromisso, tanto por apego e fidelidade à memória de nosso mestre quanto por causa do pedido dos príncipes, se não houvesse a força insuportável da verdade para nos impelir a fazer o contrário. A verdade pode por vezes ser oprimida, quando o respeito humano, o medo, ou a esperança do lucro se misturam, mas graças ao sentimento da religião ou ao remorso da consciência, isso não pode durar para sempre".

O cartuxo Théodore Petrejus, em seu Catalogus haereticorum (Colônia, 1629), releva a importância dessa declaração.

Ele acrescenta por conta própria (p. 120): 

"É isso que eu vi consignado em um escrito sincero de nossa biblioteca de Colônia. E eu encontrei em uma biblioteca da Silésia um velho manuscrito segundo o qual Lutero se aplicou o modo de procedimento hoje conhecido entre nós como "com a ajuda de uma toalha"[3].

O esclarecimento dado pelo criado de Lutero leva a entender, ademais, como - segundo a narração do civis Mansfeldensis citada mais acima - dois médicos e um boticário chamados para junto de Lutero apareceram imediatamente após a visita da morte. Ele dá ainda a entender como se tinha podido fazer tentativas para chamar o morto à vida, tentativas que espantam, sem dúvida, mas que são assinaladas pela Historia. Enfim, ele esclarece uma circunstância mais espantosa ainda, igualmente destacada pela Historia, a saber, o transporte do cadáver que ocorreu, do sofá onde o encontraram, para uma cama comum preparada às pressas.

Então, ainda que todos os interessados mantivessem inicialmente o silêncio sobre essa questão capital, parece, contudo, que eles esbanjaram declarações, e que relativamente em certas circunstâncias acessórias, eles não se impuseram nenhuma reserva, por exemplo, ao que concerne ao procedimento de ressuscitação, ao transporte do cadáver para a cama. 

Dr. Paul Majunke. La fin de Luther. Paris, Hte Walzer. Traduit par l'abbé Scklincker, 1893.
_______

[1] Thomas Bozius, de signis Ecclesiae, tom. 2; lib. 23, c.3.
[2] Ouvres complètes, Mayence, 1631, tom. 2, p. 460.
[3] Original em francês: "à l'aide d'un essuie-main".




Um pouco de New Age (Parte II)




A Nova Era como neo-gnosticismo - auto-salvação de baixo para cima



ROMA, 9 de Outubro de 2013 (Zenit.org)
Sandro Leoni


A Conferência Episcopal Italiana (CEI) apontou a Nova Era, juntamente com o movimento das Testemunhas de Jeová (salvação alternativa vinda de cima), como um símbolo do neo-gnosticismo (auto-salvação vinda de baixo):

"A New Age:

41. Mais do que grupos individuais e movimentos religiosos definidos, com estruturas e doutrinas próprias, devemos levar em consideração a propagação de uma nova maneira de compreender o mundo, que atende pelo nome de New Age: nela, confluem e se confundem pensamento oriental, elementos de derivação cristã, doutrinas esotéricas, novas cosmologias e interpretações astrológicas, numa composição sincretista que tende a responder às mais diversas e até opostas exigências da sociedade contemporânea.

A New Age desvaloriza e torna irrelevante o critério de verdade, e quem evoca a sua necessidade é considerado perigoso para a concórdia entre os homens, perturbador do caminho rumo à nova era, a qual estaria destinada a pôr fim às disputas e divisões das idades anteriores do mundo.

No limiar do milênio, é prometida uma "nova era" do mundo, a "Era de Aquário", que será de unidade e paz universal, caracterizada pelo advento de uma religião planetária, herdeira do que houve de positivo em todas as religiões anteriores, levando-as, assim, ao seu cumprimento. Embora faça referências também ao pensamento de autores cristãos, esse movimento esvazia o evento salvífico de Cristo eliminando a sua verdade, singularidade e plenitude.

Além do sincretismo, a New Age é dominada por um vago naturalismo e imanentismo. O homem, de acordo com essa linha de pensamento, pode se tornar capaz, através de algumas técnicas, de fazer a experiência do divino sem a ajuda da graça divina, realizando com as próprias forças a sua salvação, da qual depende a harmonia universal.

42. O pensamento da New Age se espalha de modo sutil e quase imperceptível, por muitos canais e formas, e é apresentado com metodologias adequadas inclusive para as crianças, sublinhando as suas características de amor universal e de proteção da natureza.

Esta proposta pode ser enganosa, porque apresenta determinados objetivos com os quais é fácil concordar: harmonia entre homem e natureza, consciência e compromisso para tornar o mundo melhor, mobilização de todas as forças do bem para um novo projeto unitário de vida.

Algumas técnicas propostas podem ser consideradas naturalmente boas e psicologicamente úteis, mas outras são altamente questionáveis, porque usam formas que violam a ética natural e o respeito pelo ser humano.

Exige-se, portanto, um aprofundamento e um esclarecimento sobre esta nova forma de sincretismo religioso, que é difícil de definir. Só é bom o que é verdadeiro: este é o critério que deve nos guiar. Temos uma obrigação de consciência para com a verdade e um dever de obediência à Palavra revelada, advertidos que fomos por São Paulo de que existe sempre o risco de trocarmos a verdade de Deus pela mentira e de adorarmos "a criatura no lugar do Criador" (Rm 1, 25).

43. A resposta cristã para a Nova Era está no mistério da Encarnação: o Filho de Deus nasceu da Virgem Maria "para nos salvar". Não há salvação em nenhum outro nome (cf. At 4 , 12). Ninguém pode salvar a si mesmo, com técnicas humanas.

Apesar da companhia de todas as constelações e com todas as práticas psicológicas possíveis, o homem permanece irremediavelmente sozinho. Veio Outro para nos salvar, aquele que "por nós, homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus" e está vivo e operante mediante o seu Espírito na Igreja.


O cristão não adere a um salvador humanamente inventado, mas ao Jesus Cristo do Evangelho, que nos salva através da cruz e da ressurreição, propondo o caminho das bem-aventuranças e nos fazendo transcender o horizonte terreno, ainda que o ilumine e o promova".

Um pouco de New Age (Parte I)





A Nova Era como neo-gnosticismo - auto-salvação de baixo para cima

Roma, 8/10/2013 (Zenit.org)
Sandro Leoni

A Nova Era, ou New Age, é um fenômeno contemporâneo, de invenção "laica", que copiou a ideia de São Pedro: foi ele o primeiro a dizer que os cristãos esperam "novos céus e nova terra", aludindo à palingênese do cosmo na segunda vinda de Jesus Cristo. Mas, sendo laica, a New Age deturpou-lhe tanto o propósito (que para nós é a vida eterna na glória de Deus, e, para ela, é um progresso indefinido na terra), quanto a causa (que, para nós, é Deus e, para ela, são as estrelas: o motor do seu mecanismo seria a astrologia, a passagem da constelação de Peixes para a de Aquário).

Esta ideologia, que remonta à revolução estudantil de 1968, diferentemente da seita que acredita numa mensagem de salvação que vem de cima, confia a "redenção" dos indivíduos ao agir pessoal e a ideias particulares. É um neo-gnosticismo: a gnose, presente desde os tempos apostólicos, confia à mente, ou seja, ao próprio homem, o caminho da salvação, uma salvação que é concebida como iluminação, emancipação, desenvolvimento de potencialidades interiores, autodivinização ("nós somos Deus", declarou a atriz Shirley MacLaine, adepta e divulgadora).

A New Age (que, após o fracasso das suas promessas sociais, evoluiu para uma “Next Age”, apontando para o “Yes, we can”) não é uma doutrina, uma ideologia, não tem uma estrutura organizada, com ativistas, centros específicos, etc... Ela é uma “atmosfera”, um “clima”, uma tensão emocional, alimentada por várias redes que desembocam nela como em um lago. Alguns dos "afluentes" estão presentes desde sempre como um problema pastoral para a Igreja. Astrologia, magia, espiritismo (reciclado como channeling) formam a sua espinha dorsal, mas a "salada" (sim, esta é uma das definições!) é formada ainda por terapias alternativas, medicina holística, a chamada nova música, uma nova política, a crença em "energias sutis" que devemos aprender a canalizar ou evitar, a crença na reencarnação, a existência de chacras que canalizam as energias do cosmo, a pranoteapia, o reiki, a energia terapêutica e formativa das pedras, os florais de Bach e uma longa lista de outros elementos... Em resumo, o sincretismo é o padrão da Nova Era.

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