terça-feira, 17 de março de 2015

‘LA GRANDE PEUR’ DO BRASIL DE 2015 - CAMBALEANDO NUM RUMO INCERTO








Em certo sentido, é a pior das situações, esta que presenciamos. Não há liderança clara.

Lula convocou o “exército” do MST — a imprensa, como era razoável supor, concedeu larga difusão à inconcebível bravata.

Como “resposta”, alta patente militar da reserva (Marinha) soltou um miado: só temos um Exército, o de Caxias!



ESBOÇO DE ANÁLISE


Admitir, pura e simplesmente, que, por si só, hordas do MST possam deixar o Brasil de joelhos, seria conceder amplo poder de crédito à propaganda. Quixotadas são de praxe num cenário de desordem induzida, como, desgraçadamente, é o nosso.

Outros fatores devem, portanto, ser alinhados numa visão global do panorama.

Sem dúvida, haveria paralelos a fazer. Para isso, retrocedamos na história (recente).

Adentremos pela esfera eclesiástica.

Não será sem motivo.

Segundo as palavras de Paulo VI, “a Igreja se acha numa hora inquieta de autocritica, dir-se-ia melhor de autodemolição. É como um revolvimento agudo e complexo que ninguém teria esperado do Concílio. A Igreja quase como se golpeia a si mesma’. (Paulo VI, Discurso ao Seminário Lombardo, 7 de Dezembro de 1968, apud Romano Amerio, Jota Unun, Ricardo Ricciardi, Milão, Nápoles, 1985, pp.7-8).

Tendo sido, pois, assim tão funestos os resultados do Concílio Vaticano II, a pergunta irrompe: como se chegou a isso?

Por acaso os progressistas eram fortes, eram maioria, eram invencíveis, às vésperas do Vaticano II?

Claro que não.

Era corpulenta minoria, coesa, aguerrida e bem organizada. Foi o que bastou.

Os demais — aqueles que eram apodados de “centro”, “direita” –, agiam como atoleimados, comodistas ou tão-só doentiamente otimistas. No fundo, um pouco de cada coisa.

Como se explica, por exemplo, que duas, três, quatro centenas de Bispos tenham escrito ao Papa Paulo VI pedindo a condenação do comunismo, e que, diante do silêncio, traição e deserção da Santa Sé, o Concílio ficasse de boca calada?

Em suma, a maioria era infensa àquilo que uma minoria impôs. Um caso típico de gigantesca fraude, portanto.

Sendo assim, por que os que, naquela magna assembleia, foram injustamente alijados e desconsiderados, não reagiram à altura?

Alega-se ter havido ordem expressa para desligar o microfone quando um antimodernista fizesse uso da palavra.

De fato, várias vezes, prelados que se manifestaram contra as inomináveis “aberturas” à concepção do mundo apregoada pela Revolução Francesa, ou seja, ao chamado mundo moderno — exatamente no sentido oposto ao que determinara Pio IX, vez que, entre as sentenças CONDENADAS do Syllabus de Pio IX, consta essa afirmação: “O Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se e transigir com o progresso, com o liberalismo e com a recente civilização [moderna]” —, foram brutal e sistematicamente cerceados.

Onde se achavam os brios destes?

DEVERIA TER SIDO FEITA UMA RESISTÊNCIA DURANTE O CONCÍLIO: OU O CONCÍLIO NOS DEIXA FALAR, OU CALAMOS O CONCÍLIO!

Aventar, como álibi, que se submetiam cegamente à “autoridade do papa” [sic!], ou que temiam incorrer em erro, cisma, ou algo que se lhe assemelhe, nada disso explica por inteiro essa gravíssima omissão, pois ninguém está impedido, PELA LEI NATURAL, de se defender contra as agressões, mesmo quando partem de um Papa ou de um Concílio.

Não obstante, havia muita gente douta e estudada na “soi-disant” direita, ali presente.

Tudo isso era de conhecimento dos diferentes grupos que tomavam parte nos debates e decisões.

Entretanto, e o medo de sofrer represálias?

Que lhes faltou, então?

Ressalvadas as exceções de praxe, faltou-lhes honra, faltou-lhes caráter, faltou-lhes, sobretudo, integridade e zelo pela Fé.

Teria sido o medo fator decisivo?

Certamente, de influência não pequena na quase generalizada inércia, ainda que não explique tudo.


A falta de um leão a rugir


“Quem se faz de carneiro, pelo lobo é engolido” (‘qui se fait brebis, le loup le mange’).

Numa espécie de autofagia — “kénosis” (esvaziamento) do poder constituído —, legiões de antístites consentiram em despojar-se da força de que sempre dispuseram no embate contra os inimigos internos e externos da Igreja.

Revolução Francesa (1789): não muito diverso se apresentou o panorama, não muito diversos os desdobramentos.

Há que frisar sempre essa razão de fundo; o medo, sim, mas, principalmente, GRANDE FALTA DE CONVICÇÃO.

No limiar do Vaticano II, a maior parte da Igreja (docente) já se demitira de seu poder, influência, prestígio. Isso se verificou muito antes de receberam o fulminante golpe da esquerda militante, ponta de lança do processo de “autodemolição” em marcha, referido acima.

Em considerável medida, aqueles não esquerdistas haviam de antemão renunciado à luta, tendo perdido o ideal, ou se achando este fortemente esmorecido. As convicções estavam frouxas, sobrepondo-se às mesmas, por vezes, a sofreguidão por uma vidinha miúda e sem horizontes, de que, grosso modo, alguns tantos largamente desfrutavam.

Qual a atmosfera que campeava nas fileiras de grande parte dos não progressistas? A crer em vários depoimentos dignos de fé, o que predominava nesse meio (majoritário, diga-se de passagem) eram sentimentos de tédio, indolência e marasmo. Entre estes, havia até, segundo consta, os que balbuciavam uma espécie de cançoneta, ao final do dia e dos trabalhos: “que bom; vou agora calçar o meu chinelinho, vou tomar o meu leitinho, que gostosinho!...”.


*** *** ***

Nesse meio tempo, entre os títeres da esquerda delineava-se um plano muito bem urdido de promover, mesmo que por etapas, a derrubada de todos os bastiões da sagrada tradição de dois mil anos da igreja (D. Helder Câmara, conhecido como “O Arcebispo Vermelho”, comandava, nos bastidores, um “Concílio da conspiração”, como ele mesmo dizia).

Pote de barro versus pote de ferro — quem levaria a melhor?

A subversão vinha do cimo, isto é, do próprio Papa — João XXIII, Paulo VI. Imaginemos Santo Atanásio presente entre os Padres Conciliares...

Ensina Clausewitz, o grande teórico da guerra, que, para vencer o inimigo, muitas vezes não é preciso derrotá-lo em campo aberto: basta saber tirar-lhe a vontade de lutar. Por esse meio, obtém-se a liquidação psicológica do adversário com muito menos custo e maior êxito.

Não foi precisamente o que ocorreu, por exemplo, durante a Revolução Francesa, a grande parábola da história?

Luiz XVI, por sua inércia, moleza, irreflexão, otimismo, revelou-se o grande responsável pela escalada de horrores que se registrariam nos anos subsequentes: massacres, Terror...

Analogamente, nas devidas proporções e conforme o grau de conhecimento de cada um, como negar que tenham sido os prelados não esquerdistas do Vaticano II aqueles que criaram condições favoráveis para a eclosão da verdadeira catástrofe que, daquele recinto augusto, irrompeu?

Vontade de “reformar” a Igreja, anseios e planos bem traçados para protestantizar a Igreja, isso já era um sonho acalentado por muitos, há mais de um século (pelo menos, de forma bem calculada e planejada, desde o século XIX.). Por que, até aquele momento, não haviam sido levados a cabo esses sinistros anelos? Entre outros motivos, porque houve santos e papas santos que o barraram.



O “centro decisivo”

Ora, às vésperas do Concílio (tal como às vésperas da Revolução Francesa e no contexto do Brasil contemporâneo), presenciamos um quadro gravemente preocupante: prevalência dos MEDÍOCRES, POLTRÕES E TRAIDORES. Não é isso um sinistro presságio de grandes tragédias que se avizinham?

Com esse material humano, vislumbra-se como articular reação com possibilidade efetiva de vitória?

O general Foch, herói da Primeira Guerra Mundial (há um século, portanto) emitiu esse juízo lapidar: PREFIRO UM EXÉRCITO DE CARNEIROS COMANDADOS POR UM LEÃO A UM EXÉRCITO DE LEÕES COMANDADOS POR UM ASNO... (“j’aime mieux une armée de moutons commandée par un lion qu’une armée de lions commandés par un âne”).

Brasil, século XXI. Parafraseando o militar francês, desnecessário afiançar que, nos dias atuais, analogicamente falando, enxameiam manadas de asnos e rebanhos de ovelhas... Leões, porém, quem os há de encontrar? Pobre Brasil!

Detenhamos a atenção em nosso deplorável contexto, bem como nas causas do infortúnio presente em que se debate a Terra de Santa Cruz.

No que concerne ao alardeado poder do PT, apesar de todo o “aparelhamento” estatal, creem muitos entendidos ser este apenas um réptil, de extrema astúcia e calculada audácia, em vista das enormes proporções do território nacional. De fato, os ‘condottieri’ do PT longe estão de ter verdadeira 'emprise' sobre a opinião. Pelo contrário, a grande maioria de nosso povo ordeiro e sensato geme sob o tacão da dominação petista e sonha com o despontar de um líder sério e leal, capaz de pôr cobro a essa onipresença da esquerda.

Contudo, o que existe entre nós? Praticamente só se veem “quintas-colunas” e similares.


O Poder sendo entregue em fatias ao PT

Poderia ser acusado de açodamento ou precipitação quem discernisse, por detrás, um plano minuciosamente calculado?

O “intelectual” herenskyano do regime militar foi o general Golbery. 

Promoveu, sem quartel, o buliçoso Lula, que, naquela época, saíra do nada — quiçá um boquirroto, que, de expressivo nada tinha, pois, além do palavreado vulgar e chulo, com agressões desabridas à ordem e ao vernáculo, lançando inflamados apelos demagógicos e açulando os descontentes, ostentava evidente carência de preparo intelectual e moral para tomar as rédeas da Nação.

Por sua vez, no ambiente de então, o Delegado Romeu Tuma, Chefe da Polícia -- tido e havido como grande amigo de certos representantes da “soi-disant” direita – não titubeara em abiscoitar Lula como informante, junto à esquerda clássica.

Conforme depoimento de um dos filhos de Tuma, em livro recente, o façanhudo metalúrgico, que seria depois presidente da República, naqueles idos, dormia na sala de espera do delegado Tuma...

Entrementes, certa ala esquerdista dos escalões militares (nas quais o ex-presidente Geisel figurava com destaque) aplainou todo o caminho para a ascensão do PT. Este, com efeito, muito rapidamente passou de sindicato, foco de agitação social (originário, fundamentalmente das Comunidades Eclesiais de Base, tendo como fonte inspiradora a malfadada Teologia da Libertação) para partido político, estruturado como tal.

Paralelamente a essa aglutinação de forças no espectro da esquerda-católica, cindiu-se ingloriamente a propalada 'direita' civil.

O partido dos militares -- ARENA, depois PDS -- desmanchou-se como um castelo de cartas, propiciando dessa forma a vitória (via Colégio Eleitoral) de Tancredo Neves, esquerdista não façanhudo, mas habilidosamente sinuoso.

Tancredo não governou, tendo falecido de câncer logo depois da posse. Sarney e Collor, que se lhe sucederam, eram dois “comensais” do establishment burguês. Fizeram dois governos desastrosos. Mesmo assim, o PT (oposição), naquele cenário, nunca ultrapassara os 10% do eleitorado.

Grande problema: como poderia empalmar o governo um partido de tão inexpressiva presença no cenário nacional?

Para esse efeito, tornou-se necessário ‘fatiar’ a “soi-disant” direita; e, em lances sucessivos, a centro-direita, o centro e a própria esquerda...

O tabuleiro político assume assim nova configuração: eis como se dá a “formação da nova esquerda”, a qual, por meio de contínuas metamorfoses bem dosadas, toma a dianteira do panorama político brasileiro, ocupando quase todo o cenário.

Desse modo, a esquerda de hoje passara a ser a direita de amanhã, em fases de camuflagens sucessivas, sempre a reboque de golpes publicitários e artimanhas soezes. E a outrora — tida como poderosa — ‘soi-disant’ direita, sempre mais longe das esferas do poder...

Desse vaivém camaleônico emerge o PSDB, o qual se equiparava a um “PT de terno e gravata”. Denominavam-se por essa perífrase os expoentes do PSDB daquele tempo, ou seja, Covas, FHC e outros correligionários. Com efeito, na década de 1980, era comum que petistas aparecessem de cabelo desgrenhado, barba desleixada — geralmente acompanhados de fala agressiva e pouco amistosa. Quanto às ideias, PT e PSDB combinavam como xipófagos — com ou sem gravata.

Entra na ribalta FHC, outrora em estreitas relações com o PCB, agora como anti-petista (embora tivesse ajudado Lula a formar o PT).

Durante os seus dois mandatos, malgrado medidas acertadas que tomou, FHC permite que a administração pública fique inchada de petistas e faz acenos para o prestigiado metalúrgico Lula, que, por efeito de uma hábil propaganda (marketing), assume, aos poucos, a figura esboçada no refrão "Lulinha, paz e amor!”... Apara a barba e começa a parecer um vovô, bem mais ajuizado, graças à intensa proximidade com a “soi-disant” esquerda “light”,  peessedebista ou não.

Oito anos de FHC: vestíbulo para a entrada em cena do PT, que, nesse ínterim, foi sendo “civilizado”. Menos rebarbas, menos arestas — sempre menos hirsuto.

Ponderáveis parcelas do Clero “progressista” (ou a sua quase totalidade), certa parte da burguesia, a porção mais representativa das Forças Armadas, sancionaram a entrega, sem choro nem vela, do país ao Lula de figurino “civilizado”.

Sarney, último presidente antes das Diretas-já (que levaria Collor ao poder), chegou a declarar, nessa mesma ocasião: “Bem, agora está na hora de o Brasil passar pelo gargalo do PT!”. Por quê? Eximiu-se da responsabilidade de dar os motivos.

Assim foi.


*** *** ***

No primeiro mandato, embora mantivesse intacta a política econômica do antecessor, o governo Lula foi tão marcado por escândalos de improbidade e grossas falcatruas, perpetrados pelos expoentes do PT (haja vista Mensalão assemelhados), que o impeachment, em certo momento, era tido como iminente (o próprio Lula declararia depois que, praticamente, àquela altura, já se considerava perdido).

Contudo, apesar de um contexto tão favorável para o soerguimento da Nação, graças ao afastamento do partido da esquerda-católica “autodemolidora”, o PSDB -- capitaneado por FHC, Goldman e outros próceres – decidiu, de forma cúmplice e arbitrária: NÃO PERMITIREMOS QUE HAJA IMPEACHMENT CONTRA O LULA!

Noutros termos, isso partiu do ex-presidente FHC e de seu partido (PSDB) que, per fas et per nefas, numa primeira etapa, contribuíram decisivamente para aplainar o caminho de Lula ao Planalto, e, numa segunda fase, mediante a operação abafa-impeachment, jogaram a balsa salva-vidas a um Lula exangue, quase a ponto de ser apeado da Presidência, afogado nos próprios desatinos de sua inviável administração. Com efeito, mais ou menos por essa ocasião, quando estava prestes a assumir Lula o primeiro mandado, FHC não teve pejo de declarar, contribuindo para derrubar certa “barreira de horror” contra o PT: “Fiquem tranquilos, o Lula não é nenhum ferrabrás...”.

Numa visão de conjunto, pois, PSDB e PT revezaram-se no Poder, não sem formar, a seu modo, uma como que insólita “dobradinha”.


Teatro de marionetes


Artifício atrás de artifício, Lula consegue o segundo mandato.

Findo este, renovam-se as peças do tabuleiro: que novos figurantes viriam à baila nesse desengonçado teatro de marionetes?

Cogitava-se do lançamento ao Planalto do antigo guerrilheiro Dirceu, cujo destino, porém, foi bem mais inglório do que concorrer à Suprema direção do país. De fato, acabou indo parar na cadeia.

Entrementes, Lula tirou da cartola a guerrilheira do Var-Palmares, Diilma Rossef, mas o governo desta deu no que deu...


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Encerra-se o primeiro governo Dilma Rossef.

Novas divisões e perlengas na chamada “oposição”.

“Malgré-lui”, Aécio Neves, sobrinho do pranteado Tancredo, mesmo sabendo que as eleição presidenciais, muito provavelmente, seriam (com o de fato foram) fraudadas – URNAS ELETRÔNICAS PODERIAM ADULTERAR A VOTAÇÃO, conforme se depreende de superabundante documentação publicada, antes e depois do pleito — deu o beijo da morte na oposição, entregando de bandeja para a antiga guerrilheira um segundo catastrófico mandato.

Conforme se comentou na época: embora Aécio não tenha demonstrado grande desejo de vencer, foi amplamente sufragado como último recurso contra o PT... Simplesmente isso.

Obviamente, apesar da chuva torrencial de denúncias sobre fraude nas urnas, o Governo não aceitou fazer a auditoria dos votos!...

Ora, essa mal explicada “derrota” da oposição, no entanto, soou tão forjada, que o segundo mandato de Dilma mais se parece com um não mandato, ou seja, um golpe de Estado branco.


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No atual contexto, hipóteses e especulações afloram.

Impeachment da Dilma, solução cabível?

Ao que se crê, nada mais seria do que uma inócua troca de guarda de mercenários no poder...

Convulsão social à vista?

Não parece ser o rumo mais provável.

Talvez, estejamos o trilhando o percurso de um prolongamento da atual borbulhante-pasmaceira, associada a alguma solução provisória, “emergencial”, na hipótese de o país se tornar ingovernável.

Como mera conjetura, suponhamos que Dilma, quem sabe, divida o poder com um pau mandado, um dois-de-paus. Na prática, já é mais ou menos o que acontece, mediante a pública troca de favores, de toda ordem, barganhas com apaniguados de outras siglas partidárias, em prol da sustentação da administração petista. Portanto, as ser este o desdobramento, muito não haveria que inovar.

Caso algo saia dos trilhos...

De fato, principiando a faltar o essencial, a situação do Brasil poderia ficar muito desestabilizada. Contudo, esta não parece ser a realidade imediata. Pode, de fato, ocorrer que, nesse meio tempo, excogitem outro expediente “cortina de fumaça”.

Nesse mesmo diapasão, que alvitrar dos “panelaços”?

Por enquanto, apontam para uma reação epidérmica, que se manifesta mais em razão do agravamento da situação geral (país em rebuliço em todos os âmbitos, confronto entre os poderes, vilipêndio dos mais sagrados direitos, e assim por diante) do que como reflexo de um projeto de reação anticomunista, concebido por algum candidato “salvador da pátria”, sob uma forte pressão de graves acontecimentos que poderiam irromper.

No que se refere às próximas manifestações, não é, igualmente impossível que, como numa miragem, se dissipe a fermentação, assim como ficou patente no recente caso dos caminhoneiros. Com efeito, programada essa manifestação — que, de si, deveria provocar grandes repercussões na vida nacional —, por razões mais ou menos ignoradas, tudo se extinguiu brevemente.

Por vários indícios, somos levados a crer que muitos outros interesses tenham entrado em jogo.

Repetir-se-ia esse desfecho, em presença das manifestadas programadas para o dia 15 de Março, ou seja, domingo próximo?

Os dados escasseiam para uma resposta mais ponderada.

Entre nós, por exemplo, não há sinais que prenunciem algo do porte daquilo que aconteceu no Chile, às vésperas da derrubada de Allende, quando o papel dos caminhoneiros (em greve naquele país, pouco antes da intervenção militar), teve grande papel na derrocada do governo da chamada Aliança Popular.


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De um lado, é de presumir que, caso as Forças Armadas quisessem positivamente alterar os rumos da situação, já teriam agido. De outro, tanto quanto seja de nosso conhecimento, mesmo sob o fogo cerrado do enxovalhamento petista, o Alto Comando militar não deu sinais claros de erguer-se, como um só homem, contra as nódoas que lhes pretendem impingir.

Conquanto, aliás, o quadro atual possa parecer-lhes desfavorável, sabido é que gozam de credibilidade junto a amplas camadas da população, que as têm num alto conceito.


Guerra-psicológica — nada mais?

Nesse sentido, que alcance atribuir a pronunciamentos esparsos, advindos da área castrense (representantes de base ou da reserva), apregoando ou vaticinando iminente intervenção militar?

Qual o grau de penetração ou influência que tais vozes esparsas poderão ter nas mais altas cúpulas?

Tais proclamações e clamores serão eco da realidade?

De permeio, uma indagação: se houver confrontação nas ruas, como se haverão as “forças da ordem”?

A bem dizer, ainda existem ‘forças da ordem’ em prontidão, ou seja, à maneira de compasso de espera, aptas a intimidar aqueles que pretendem espalhar o barril de pólvora? Esse intento incendiário — de confrontação prenunciada com anti-petistas — veio a público recentemente, mediante declarações de Stedile, dirigente do MST (http://oglobo.globo.com/brasil/stedile-recomenda-que-militantes-engraxem-as-botas-porque-jogo-so-esta-comecando-15576625).

Árduo prognosticar nessas condições. Como pretender que tudo não passe de um espocar de faíscas? É o que menos se pode saber.

O povo brasileiro, em boa medida, caracteriza-se pelo anseio de fugir das contendas, sobretudo em face de iminente risco do derramamento de sangue.

Mais uma vez, essa índole pacata e contemporizadora está sendo posta à prova.  Permanecerá inalterada a índole nacional, mesmo em presença dos assustadores prognósticos que se divulgam? 


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É conhecido o mote da época getulista, consubstanciado nestes inusitados dizeres: 'deixe estar, para ver como que é que fica'?

À mingua de dados mais precisos, é inconteste que tendemos celeremente para o agravamento de uma perturbadora guerra de nervos.

Ressalvado o fator da imprevisibilidade, tanto de um como de outro lado, os próceres, ao menos até o presente, não se afiguram em vias de medir forças para um conflito de larga escala, talvez de envergadura nacional.

Cabe uma reminiscência, bem próxima a nós: quem não se recorda das manifestações retumbantes de 2013, que pareciam capazes de derrubar tudo?

Dissolveram-se como bolhas de sabão.

Não custou muito esforço. Introduziram-se elementos de sabotagem no seio desses grupos, o que conduziu a sucessivas e ridículas cisões entre os promotores de tais manifestações. Como que obedientes à batuta de um maestro invisível, foram estas desde logo esvaziadas, não sem difundir em torno uma atmosfera de grande mal-estar, característico das situações mal explicadas ou escamoteadas.

Nada improvável, pois, é que, também agora, a confusão e o descontrole aumentem, sem, porém, redundar nenhum efeito definitivo, duradouro ou definido.

Com esse fundo de quadro presente, não parece de excluir por inteiro, no momento atual — ou seja, sobretudo por ocasião das manifestações organizadas para o dia 15 de Março, domingo próximo — um lastimável e teatral confronto entre arruaceiros e baderneiros, de procedências diversas, que, em tais ocasiões soem atuar como “pescadores de águas turvas”.

Que desfecho prever?

Tratando-se de uma locomotiva em marcha acelerada, não surpreenderia que, em dada circunstância, pela própria força de fricção, depois de mil peripécias, a mesma pudesse efetivamente descarrilar... Tal é o ímpeto da marcha revolucionária conferido pelo PT ao quadro brasileiro contemporâneo.


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Que pensar, de sua parte, no que respeita ao apoio manifestado por FHC e outras lideranças do PSDB às manifestações?

Tal perspectiva dilui, ao menos por ora, a miragem da entrada em cena de alguma personagem nova, digna de nota, que pudesse “virar a mesa”.

“Balão-de-ensaio”, dirão alguns.

A certa altura, se — para governo e oposição, que, de fato, vistos em profundidade, nada mais são do que verso e reverso da mesma medalha — as coisas desandarem, “panos quentes” viriam? Resta saber se não ficariam cicatrizes indeléveis de eventuais graves perturbações da ordem pública.

Em sentido contrário, quem pode assegurar que não irrompa das brumas algum aventureiro sagaz?

Não se conhece, todavia, ninguém fadado a desempenhar esse papel.

Forte incógnita paira no ar.

É uma incógnita cheia de perplexidade e de uma indizível apreensão.

Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, a cuja excelsa proteção o Brasil se recolhe, valei por nós, na emergência presente.


RAPHAEL DE LA TRINITÉ - 13/3/2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

LEONARDO BOFF - GOLPE É INDUZIDO PELA MÍDIA



EX-TEÓLOGO BOFF, PREGOEIRO DA SUVERSÃO E DA TEOLOGIAA DA LIBERTAÇÃO, DIZ QUE É 'BLASFÊMIA' MANIFESTAR-SE CONTRA O PT

Também para Lênin, ' bom era o que servia aos interesses da Revolução comunista; mau, aquilo que prejudicava esse objetivo'.

E o povo?


Pobre 'massa de manobra...'




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DESTAQUE


Na contramão da história, exercendo a função de ‘teólogo da corte’ Leonardo Boff comenta o movimento ‘FORA DILMA’:

“Como teólogo me pergunto angustiado: na sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos. Como combinam esta prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas Universidades Católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse 
movimento blasfemo, pois, atinge o próprio Deus que é amor e compaixão e que tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?”[grifos nossos]


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ABAIXO A MATÉRIA COMPLETA






"Essa dramatização que se faz aqui, é feita pela mídia conservadora, golpista, que nunca respeitou um governo popular [SIC!]. Devemos dizer os nomes: é o jornal O Globo, a TV Globo, a Folha de S. Paulo, o Estadão, a perversa e mentirosa revista Veja", diz o teólogo Leonardo Boff; ele afirma ainda que o golpismo reflete apenas a frustração dos derrotados na disputa presidencial de 2014; "É o golpe virtual, que eles fazem pelas redes sociais e pela mídia, inventando e fantasiando, projetando cenários dramáticos, que são projeções daqueles que estão frustrados e não aceitam a derrota do projeto que era antipovo"; Boff afirma ainda que o golpe não passará, em razão da força dos movimentos sociais e de uma nova "consciência política" [SIC!]

11 DE MARÇO DE 2015 ÀS 12:06
Da Rede Brasil Atual - A crise econômica e política pela qual o país atravessa neste momento é "em grande parte forjada, mentirosa, induzida, ela não corresponde aos fatos", afirma o teólogo Leonardo Boff. Segundo o teólogo, a crise amplificada por uma dramatização da mídia. "Essa dramatização que se faz aqui, é feita pela mídia conservadora, golpista, que nunca respeitou um governo popular. Devemos dizer os nomes: é o jornal O Globo, a TV Globo, a Folha de S. Paulo, o Estadão, a perversa e mentirosa revista Veja."

Em entrevista à Rádio Brasil Atual na segunda-feira (9), o teólogo disse que, no entanto, o atual nível de acirramento no cenário político não preocupa porque, para ele, comparado a outros contextos históricos, a "democracia amadureceu". Ele diz acreditar, ainda, na emergência de uma "nova consciência política".

Boff também considera que o cenário brasileiro é bastante diferente da Grécia, Espanha e Portugal, onde são registrados centenas de suicídios, por conta do fechamento de pequenas empresas e do desemprego, e até mesmo de países centrais, como os Estados Unidos, que veem a desigualdade social avançar.

"A situação não é igual a 64, nem igual a 54", compara. "Agora, nós temos uma rede imensa de movimentos sociais organizados. A democracia ainda não é totalmente plena porque há muita injustiça e falta de representatividade, mas o outro lado não tem condições de dar um golpe."

Para Boff, não interessa ao militares uma nova empreitada golpista. Restaria ao campo conservador a "judicialização da política", e acrescenta: "Tem que passar pelo parlamento e os movimentos sociais, seguramente, vão encher as ruas e vão querer manter esse governo que foi legitimamente eleito. Eles têm força de dobrar o Parlamento, dissuadir os golpistas e botá-los para correr [SIC!]".

Sobre o 'panelaço' ocorrido no domingo, durante o discurso da presidenta Dilma Rousseff para o Dia Internacional da Mulher, Boff afirma que o protesto é "totalmente desmoralizado", pois "é feito por aqueles que têm as panelas cheias e são contra um governo que faz políticas para encher as panelas vazias do povo pobre".

O teólogo afirma que a manifestação expressa "indignação e ódio contra os pobres" e são símbolo da "falta de solidariedade"; e que o "panelaço veio exatamente dos mais ricos [SIC!], daqueles que são mais beneficiados pelo sistema e que não toleram que haja uma diminuição da desigualdade e que gostariam que o povo ficasse lá embaixo".

Sobre o ato programado pela CUT e movimentos sociais para sexta-feira (13), Leonardo Boff diz que a importância é reafirmar os valores democráticos e a defesa da soberania do país: "Aqueles que perderam, as minorias que foram vencidas, cujo projeto neo liberal foi rejeitado pelo povo, até hoje, não aceitam a derrota. Eles que tenham a elegância e o respeito de aceitar o jogo democrático".

O teólogo frisa, mais uma vez, não temer o golpe. "É o golpe virtual, que eles fazem pelas redes sociais e pela mídia, inventando e fantasiando, projetando cenários dramáticos, que são projeções daqueles que estão frustrados e não aceitam a derrota do projeto que era antipovo".




Fonte: BRASIL 247

quinta-feira, 5 de março de 2015

A filial resistência de São Bruno de Segni ao Papa Pascoal II


DESTAQUE



Não vem ao caso, aqui, definir a natureza das censuras teológicas aplicáveis aos erros de Pascoal II e João XXII, mas analisar a liceidade de se resistir a tais erros, os quais certamente não correspondiam a sentenças pronunciadas ex cathedra. A teologia e a história nos ensinam que, se uma declaração do Sumo Pontífice contém elementos censuráveis no plano doutrinário, é lícito — e pode até ser obrigatório — criticá-la, mesmo que não se trate de uma heresia formal, expressa solenemente. Foi o que fizeram São Bruno de Segni contra Pascoal II e os dominicanos do século XIV contra João XXII. Com sua atitude, eles não erraram, mas os Papas daqueles tempos, os quais, aliás se retrataram antes de morrer.

[...] resistiram aos Papas que se desviavam da Fé foram precisamente os mais ardentes defensores da supremacia do Papado. Os prelados oportunistas e servis da época adaptaram-se ao flutuar dos homens e dos acontecimentos, antepondo a pessoa do Papa ao Magistério da Igreja. Bruno de Segni, nas pegadas de outros campeões da ortodoxia católica, antepôs, pelo contrário, a fé de Pedro à pessoa de Pedro e redarguiu a Pascoal II com a mesma firmeza respeitosa com que Paulo resistiu a Pedro (Gál. 2, 11-14).

Em seu comentário exegético de Mt. 16, 18, São Bruno explica que o fundamento da Igreja não é Pedro, mas a fé cristã confessada por Pedro. Cristo afirma, de fato, que Ele edificará a sua Igreja não sobre a pessoa de Pedro, mas sobre a fé que Pedro manifestou dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A esta profissão de fé, Jesus responde: “É sobre esta pedra e sobre esta fé que edificarei a minha Igreja” (Comment.. in Matth., Pars III, cap. XVI, in PL, vol. 165, col. 213).

Elevando Bruno de Segni à honra dos altares, a Igreja chancelou a sua doutrina e o seu comportamento.

 

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Por Roberto de Mattei | Tradução: Fratres in Unum.com – Entre os mais ilustres protagonistas da reforma da Igreja nos séculos XI e XII, destaca-se a figura de São Bruno, bispo de Segni e abade de Monte Cassino.

Bruno nasceu em torno do ano 1045 em Solero, perto de Asti, no Piemonte. Depois de ter estudado em Bolonha, foi ordenado sacerdote no clero romano e aderiu com entusiasmo à reforma gregoriana. O Papa São Gregório VII (1073-1085) nomeou-o bispo de Segni e o teve entre os seus mais fiéis colaboradores. Também seus sucessores Vitor III (1086-1087) e Urbano II (1088-1089) valeram-se da colaboração do bispo de Segni, que unia aos seus trabalhos de estudioso um intrépido zelo apostólico em defesa do Primado romano.

Bruno participou dos concílios de Piacenza e de Clermont — no qual Urbano II convocou a primeira Cruzada — e mais tarde foi legado da Santa Sé na França e na Sicília. Em 1107, sob o novo Pontífice Pasqual II (1099-1118), tornou-se abade de Monte Cassino, cargo que fazia dele uma das personalidades eclesiásticas mais destacadas de seu tempo. Grande teólogo e exegeta, resplandecente pela doutrina, como escreve em seus Anais o cardeal Barônio (tomo XI, ano 1079), é considerado um dos melhores comentadores medievais das Sagradas Escrituras (Réginald Grégoire,  Bruno de Segni, exégète médiéval et théologien monastique, Centro Italiano di Studi sull’Alto Medioevo, Spoleto, 1965).

Sua época foi cheia de choques políticos e de profunda crise espiritual e moral. Na obra De Simoniacis, Bruno oferece-nos uma imagem dramática das deturpações da Igreja de seu tempo. Já no tempo do Papa São Leão IX (1049-1054) “mundustotus in maligno positus erat (todo o mundo estava sob o poder do maligno): não havia mais santidade; a justiça estava em decadência e a verdade sepultada. Reinava a iniquidade, dominava a avareza; Simão o Mago possuía a Igreja, os Bispos e os sacerdotes entregavam-se à volúpia e à fornicação. Os sacerdotes não se envergonhavam de tomar mulher, de abertamente contrair núpcias e matrimônios nefandos. (…) Tal era a Igreja, tais eram os Bispos e os sacerdotes, tais foram alguns dos Romanos Pontífices” (cf. S. Leonispapae Vita inPatrologia Latina (PL), vol. 165, col. 110).

No âmago da crise, além do problema da simonia e do concubinato dos sacerdotes, havia a questão da investidura dos bispos. O DictatusPapae, com o qual, em 1075, São Gregório VII havia reafirmado os direitos da Igreja contra as pretensões imperiais, constituiu a magna carta à qual apelavam Vítor III e Urbano II. Mas Pascoal II abandonou a posição intransigente de seus predecessores e tentou de todas as maneiras um acordo com o futuro imperador Henrique V. No começo de fevereiro de 1111, em Sutri, ele pediu ao soberano alemão que renunciasse ao direito de investidura, oferecendo-lhe em troca a renúncia da Igreja a todos os direitos e bens temporais. As negociações esvaneceram-se como fumaça e, cedendo às intimidações do imperador, Pascoal II aceitou um compromisso humilhante, assinado em Ponte Mammolo, em 12 de abril de 1111. O Papa concedia a Henrique V o privilégio da investidura dos bispos, antes mesmo da sagração pontifícia, com o anel e o báculo que simbolizavam tanto o poder temporal quanto o espiritual, prometendo ao soberano de jamais excomungá-lo. Pascoal coroou então Henrique V em São Pedro.

Essa concessão levantou uma multidão de protestos na Cristandade, porque contrariava a posição de São Gregório VII. O abade de Monte Cassino, segundo o ChroniconCassinense (PL, vol. 173, col. 868 C-D), protestou com força contra o que ele então definiu não como um privilegium, mas um pravilegium [NdT: jogo de palavras contrapondo um privilégio legítimo ao favorecimento do mal – pravus]e promoveu um movimento de resistência ao lapso papal. Numa carta endereçada a Pedro, bispo de Porto, ele definiu o tratado de Ponte Mammolo como “heresia”, apelando para as determinações de muitos concílios: “Quem defende a heresia – escreve – é herético. Ninguém pode dizer que essa não é uma heresia” (Carta Audivimus quod, in PL, vol. 165, col.1139 B).

Dirigindo-se depois diretamente ao Papa, Bruno afirma: “Os meus inimigos vos dizem que eu não vos amo e que falo de vós pelas costas, mas eles mentem. Eu de fato vos amo, como devo amar a um Pai e senhor. Enquanto estiverdes vivo, não quero ter outro pontífice, como vos prometi, junto a muitos outros. Escuto porém Nosso Salvador que me diz: ‘Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim’ (Mt. 10-37). (…) Devo portanto amar-vos, mas devo amar ainda mais Aquele que criou a vós e a mim”. Com o mesmo tom de filial franqueza, Bruno convidava o Papa a condenar a heresia, porque “quem defende a heresia é herético” (CartaInimicimei, in PL, vol. 163, col. 463 A-D).

Pascoal não tolerou essa voz de dissensão e destituiu Bruno do cargo de abade de Monte Cassino. Mas o exemplo de São Bruno motivou muitos outros prelados a pedirem com insistência ao Papa que revogasse o pravilegium. Alguns anos mais tarde, num Concílio que se reuniu no Palácio de Latrão, em março de 1116, Pascoal II retratou o acordo de Ponte Mammolo. O mesmo Sínodo lateranense condenou a visão pauperista da Igreja, expressa no acordo de Sutri. A concordata de Worms, de 1122, entre Henrique V e o Papa Calixto II (1119-1124), encerrou – pelo menos temporariamente – a questão das investiduras. Bruno morreu em 18 de julho de 1123. Seu corpo foi sepultado na catedral de Segni e, pela sua intercessão, houve a seguir muitos milagres. Em 1181, ou, mais provavelmente, em 1183, o Papa Lúcio III colocou-o entre os santos.

Alguém poderá objetar que Pascoal II (como mais tarde João XXII, na questão da visão beatífica) não incorreu jamais em heresia formal. Mas esse não é o cerne do problema. Na Idade Média o termo heresia era empregado em sentido amplo. Depois do Concílio de Trento, a linguagem teológica tornou-se mais precisa, introduzindo distinções entre proposições heréticas, próximas da heresia, errôneas, escandalosas, etc.

Não vem ao caso, aqui, definir a natureza das censuras teológicas aplicáveis aos erros de Pascoal II e João XXII, mas analisar a liceidade de se resistir a tais erros, os quais certamente não correspondiam a sentenças pronunciadas ex cathedra. A teologia e a história nos ensinam que, se uma declaração do Sumo Pontífice contém elementos censuráveis no plano doutrinário, é lícito — e pode até ser obrigatório — criticá-la, mesmo que não se trate de uma heresia formal, expressa solenemente. Foi o que fizeram São Bruno de Segni contra Pascoal II e os dominicanos do século XIV contra João XXII. Com sua atitude, eles não erraram, mas os Papas daqueles tempos, os quais,aliás se retrataram antes de morrer.

Além disso, aqueles que com mais firmeza resistiram aos Papas que se desviavam da Fé foram precisamente os mais ardentes defensores da supremacia do Papado. Os prelados oportunistas e servis da época adaptaram-se ao flutuar dos homens e dos acontecimentos, antepondo a pessoa do Papa ao Magistério da Igreja. Bruno de Segni, nas pegadas de outros campeões da ortodoxia católica, antepôs, pelo contrário, a fé de Pedro à pessoa de Pedro e redarguiu a Pascoal II com a mesma firmeza respeitosa com que Paulo resistiu a Pedro (Gál. 2, 11-14).

Em seu comentário exegético de Mt. 16, 18, São Bruno explica que o fundamento da Igreja não é Pedro, mas a fé cristã confessada por Pedro. Cristo afirma, de fato, que Ele edificará a sua Igreja não sobre a pessoa de Pedro, mas sobre a fé que Pedro manifestou dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A esta profissão de fé, Jesus responde: “É sobre esta pedra e sobre esta fé que edificarei a minha Igreja” (Comment.. in Matth., Pars III, cap. XVI, in PL, vol. 165, col. 213).

Elevando Bruno de Segni à honra dos altares, a Igreja chancelou a sua doutrina e o seu comportamento.

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