segunda-feira, 7 de outubro de 2013

7 de Outubro - Solenidade do Santíssimo Rosário





Quasi rosa, plantata super rivos aquarum, fructificate — “Frutificai como rosal plantado sobre as correntes das águas” (Ecclus. 39, 17).

Sumário.  O santíssimo Rosário merece ser rezado com respeito e atenção, pois é uma devoção sublime e excelente sob todos os pontos de vista. Foi aprovada pela Igreja, enriquecida de indulgências pelos Sumos Pontífices, e glorificada por Deus com milagres estupendos. Por outro lado este saltério celeste, em razão das orações que o compõem, encerra tudo o que há de mais belo na Igreja católica. Em que estima tens tão precioso tesouro? Como é que costumas rezar o Rosário?

I. Considera a excelência da devoção do santíssimo Rosário. Já se sabe que foi revelada a São Domingos pela divina Mãe, na ocasião em que, estando aflito o Santo e lamentando-se, com Nossa Senhora, dos grandes danos que naquele tempo faziam à Igreja os hereges albigenses, a Virgem lhe disse: “Este terreno será sempre estéril enquanto sobre ele não cair a chuva.” Entendeu então São Domingos que esta chuva era a devoção do Rosário que ele devia publicar. — Com efeito, o Santo foi logo pregando por toda a parte, e esta devoção veio a ser abraçada por todos os católicos; de tal maneira, que presentemente não há devoção mais praticada por todas as classes dos fiéis do que a do santíssimo Rosário.

Que não têm dito os hereges para desacreditar este uso? Mas, para nos persuadirmos da sua impiedade, basta sabermos que esta devoção foi aprovada pela Igreja, que a honrou com a instituição de uma solenidade especial; os Sumos Pontífices enriqueceram-na de indulgências, e Deus a glorificou por milages estupendos. — Por outra parte, é conhecido o grande bem que ao mundo tem resultado desta nobre devoção. Quantos por meio dela têm sido livres dos pecados? Quantos conduzidos a uma vida santa? Quantos têm obtido uma boa morte e hoje estão salvos? O próprio demônio, obrigado a isso por São Domingos, declarou pela boca de um possesso, que não se condenou nenhum daqueles que até à morte perseveraram em rezar devotamente o Rosário.

Nem isso nos pode admirar; porquanto, sendo este saltério celeste composto da contemplação dos mistérios, da Oração dominical e da Saudação Angélica, encerra em si tudo que há de mais sublime na Igreja católica. — Examina-te aqui sobre se tens o santíssimo Rosário na devida estima, já que é uma devoção tão exímia sob todos os pontos de vista.

II. Para compreendermos quanto agrada à Santíssima Virgem a devoção do santo Rosário, basta refletirmos nas belas promessas por ela feitas àquele que constantemente reza o Rosário. “A todos os”, disse Nossa Senhora ao Bem-aventurado Alano, “que recitarem o meu saltério, prometo a minha proteção especialíssima. O Rosário será para todos um penhor seguro da sua predestinação à glória, porquanto é uma arma poderosíssima contra o inferno para extirpar os vícios, dissipar o pecado e vencer as heresias. Aquele que recitar devotamente o santo Rosário, não será oprimido pelas desgraças, não morrerá de morte imprevista, sem sacramentos; mas converter-se-á, se for pecador; crescerá na graça, se for justo, e será feito digno da vida eterna. Os que na terra se esmerarem em propagá-lo, serão por mim assistidos em todas as suas necessidades.”

O fruto desta consideração será que rezaremos freqüentemente o santo Rosário, e o rezaremos devotamente, com a coroa benta na mão, acompanhando-o da contemplação dos mistérios, e pondo-nos, sendo possível, diante de uma imagem de Maria. — Considerando também de uma parte as perseguições de que é alvo a Igreja católica e da outra a confiança esclarecida que os Sumos Pontífices põem nesta arma poderosíssima, rezemos muitas vezes o saltério celeste para que seja acelerado o triunfo da Igreja.

Ó Virgem gloriosa, Rainha do santíssimo Rosário, congratulo-me convosco pela homenagem que no mundo inteiro vos tributam tantas confraternidades que se gloriam de vosso venerável Nome. Prostrado diante do vosso trono, rogo-vos que lanceis um olhar benigno sobre a herança que Jesus Cristo adquiriu com o seu sangue e renoveis em seu favor um daqueles prodígios que vos mereceram o título de Rainha das Vitórias. Igualmente vos rogo, ó minha Mãe, que me permitais unir-me hoje e sempre a tantos confrades, vossos filhos diletos e vos saúde sempre com a saudação angélica: Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco (1).

“Ó Deus, cujo Filho unigênito pela sua vida, morte e ressurreição nos mereceu os prêmios da salvação eterna, concedei-me propício, que contemplando estes mistérios no santíssimo Rosário da Bem-aventurada Virgem Maria, possa imitar o que eles contêm e conseguir o que prometem. Pelo mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor.” (2) (*I 276.)

----------
1. Luc. 1, 28.
2. Or. Fest.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 374 - 377.)


Fonte: São Pio V

A Batalha de Lepanto e o heroísmo de São Pio V



Lepanto, vitral da igreja de São Giles em Cheadle, Inglaterra
Neste mês cumprem-se 437 anos da maior vitória naval da Cristandade sobre o Império muçulmano.

No dia 7 de outubro de 1571, o enfrentamento das esquadras católicas contra as do Islã, no golfo de Lepanto, salvou a Civilização Cristã de terrível dano: a invasão — cujas conseqüências seriam incalculáveis — do continente europeu pelos mouros.

Por intercessão de Maria Santíssima, apesar da enorme desproporção de forças, a armada católica saiu magnificamente vencedora.


*** * ***

Vou destacar aqui um herói da batalha de Lepanto, a respeito do qual pouco se fala. Esse herói foi o Papa São Pio V.

Cristo miraculoso de Lepanto, catedral de Barcelona
O Pontífice via bem o poder otomano crescer cada vez mais, e o perigo de os otomanos se jogarem sobre a Itália ou sobre qualquer outra parte da Europa, e operarem uma invasão que poderia ter efeitos tão ruinosos ou talvez mais ruinosos do que teve a invasão dos árabes na Espanha, no começo da Idade Média.

Nessa situação, São Pio V tinha que apelar naturalmente para o varão que era o apoio temporal da Igreja naquele tempo: Felipe II, Rei da Espanha.

O Imperador do Sacro Império Romano Alemão não tinha condições, por causa da divisão religiosa no império [em razão da revolução protestante], de lutar eficazmente contra os mouros. A França estava corroída por uma crise religiosa muito grande, guerra de religião etc.

A união do poder espiritual com o poder temporal

O Papa só podia contar, dentre as grandes potências católicas, com Felipe II de um lado, e, de outro, com Veneza, que dispunha de grande poder marítimo.

Caso Felipe II se retraísse, a horda maometana desataria sobre a Itália, e depois atingiria toda a Cristandade. Seria o fim da Civilização Cristã no Ocidente. Não seria o fim da Igreja, porque ela é imortal; mas, ao que a Igreja poderia ficar reduzida, ninguém sabe.

Se não fosse a pressão de São Pio V, não se teria realizado a Batalha de Lepanto, porque a Espanha não teria mandado sua esquadra. Esta era o grande contingente decisivo dentro das esquadras aliadas que lutaram e venceram em Lepanto.

Sao Pio V vê a vitória de Lepanto, Notre Dame de Fourvière, LyonAssim se compreende melhor por que razão houve a famosa aparição a São Pio V.

Ele estava numa reunião de cardeais, em Roma, e em certo momento levantou-se e rezou um terço pela vitória dos católicos sobre os maometanos, decisiva para a Cristandade. Enquanto o Papa rezava o terço, teve a revelação da vitória das esquadras católicas.

São Pio V foi um verdadeiro herói, como Dom João d’Áustria e os outros grandes guerreiros que venceram em Lepanto.



Plinio Corrêa de Oliveira, 7/10/75.

Fonte: As Cruzadas

‘Hélas’




Luis Fernando Verissimo




Deus criou o Céu e a Terra e o Dia e a Noite, e deu nome às plantas, aos bichos e às coisas. Mas também era preciso dar nome aos sentimentos e às emoções, a perplexidades e a situações inusitadas e, sentindo-se despreparado para a tarefa, Deus criou os franceses.

Os franceses têm a expressão certa para tudo, inclusive para o inexprimível, que eles chamam de “je ne sait quoi”. O francês é a única língua do mundo com uma definição para a incapacidade de definir. Eles não apenas têm um nome para “fazer beicinho”, bouder, como inventaram uma peça da casa que teoricamente existe só para a mulher se recolher enquanto o faz, o boudoir. Outra expressão francesa que não ocorreria a mais ninguém é esprit d’escalier, ou o espírito que só se faz presente quando a gente já está descendo a escada, depois de falhar na hora de ser brilhante. Se não fossem os franceses, não saberíamos como chamar a sensação de que a boa frase ou a resposta arrasadora geralmente só nos vêm quando não adianta mais. Na escada ou, mais recentemente, no elevador.

Outra boa frase era epater les bourgeois. Caiu em desuso, em primeiro lugar, porque todas as frases prontas francesas foram ficando antigas num mundo cada vez mais americano, mas também porque foi ficando cada vez mais difícil espantar a burguesia. Depois da revolução sexual e do escancaramento da privacidade, nada mais espanta ninguém e o que antes chocava hoje vira moda.


O que ainda funciona — tanto que, no Brasil, se transformou num gênero jornalístico — é epater la gauche, contrariar o pensamento convencionalmente progressista, ou apenas correto, com reacionarismo explícito. Os epateurs da esquerda podem ser divertidos, mas como em todo succès d’escandale (que remédio, sou um antigo) nunca se sabe se o sucesso se deve ao talento para escandalizar ou se o escândalo dispensa o talento, e basta ser contra para aparecer. De qualquer maneira, hélas, aos poucos as frases feitas francesas vão perdendo a atualidade e — ça va sans dire — a utilidade.

Fonte: ESP

domingo, 6 de outubro de 2013

Fidalguia




Lord Mountbatten


Francisco Daudt


Lorde Mountbatten — último vice-rei da Índia — foi, certa vez, eleito como o homem mais elegante do mundo. Perguntado o que achava, respondeu que não devia ser tão elegante assim, já que o haviam notado. Pode-se alegar que a fidalguia é qualidade da nobreza e da aristocracia, e eu concordo, com um reparo: que a nobreza (a qualidade de ser nobre) e a aristocracia (o comando dos melhores) não são privilégio daqueles que o senso comum reconhece, com pompas e circunstâncias.

Um dos aristocratas mais fidalgos que conheci foi Seu Amadeu, faz-tudo na casa dos meus pais, aos quais serviu por 48 anos. Emanava serenidade e eficiência, havia algo nele que o tornava irresistível aos meus incontáveis sobrinhos.

Não era nenhuma sedução, não os paparicava, era alguma coisa acolhedora que as crianças viam nele, no jeito de igual para igual como conversava com os pequenos, não a se infantilizar, mas a tratá-los como pessoas com discernimento de gente grande (pense na irritação que te causava ser tratado como um débil aos seus seis anos, quando você já era você).

Foi assim que conheci um fidalgo e aristocrata de aguda inteligência e de cultura singular gerado por acidente genético. Na origem, “fidalgo” significa “filho de algo”. De fato, são prêmios da loteria genética que, apesar de capaz de produzir tanta vilania, cá e lá nos dá um refresco, só para lembrar que estética e ética são uma coisa só, e que é belo ser do bem.

Tenho hoje a ventura de conviver com outro desses fidalgos. Meu amigo Professor fez 89 anos esta semana, e busquei-o para ver um DVD aqui em casa. Era O Último Samurai, a história de um Japão se ocidentalizando e a luta não reconhecida de um fidalgo para que seu país o fizesse sem perder sua identidade e valores.

Meu amigo não vive de seu passado, referência mundial em doenças do fígado que foi. Nossas conversas giram em torno de História, casos médicos, dinâmica das relações pessoais, tudo com o humor fino que sua inteligência lhe produz. “Como vai a saúde, Professor?” “Olha, Daudt, afora o fato de eu estar morrendo de câncer, vou muito bem, e isso é o que me importa, já que de morrer ninguém escapa”.

“Professor, você é o último samurai, uma vida dedicada à honra e à beleza de ser médico, da estatura com que sempre imaginamos os médicos, dedicado à excelência do serviço público, pela convicção de que o país merece tratar igualmente bem o pobre e o poderoso. Sua lição não se perde, também, pois sempre haverá quem se espelhe em seu exemplo”.

Ele sorriu, tocado com o reconhecimento. Mas não gostaria que eu o identificasse aqui. Como Lorde Mountbatten, prefere não ser notado.


Fonte: FSP


sábado, 5 de outubro de 2013

FRANCISCO, A COQUELUCHE DA ESQUERDA?




EM ROMA, HÁ TEÓLOGO QUE FAZ NOTAR: O RESPEITO QUE TRIBUTAMOS AO PAPA PODE VIR ACOMPANHADO DA “OBRIGAÇÃO DE FALAR CONTRA ELE [PAPA FRANCISCO] E ATÉ DE LHE RESISTIR, PORQUE, ALÉM DE NÃO SEREM PARTICULARMENTE ÚTEIS, ESSAS DECLARAÇÕES [RECENTES] SÃO FRANCAMENTE CONTRAPRODUCENTES, E ATÉ PERIGOSAS”.





TRADUÇÃO DAS PARTES MAIS FRISANTES
Raphael de la Trinité


Eis um sinal: o mundo de esquerda se rejubila diante do Papa Francisco. Libération publicou três páginas que não poderiam ser mais cordiais, embelezadas de fotos sorridentes desse Papa que “tira a Igreja de sua bolha [envoltório, invólucro, cápsula, empola]”. Desconcertante aprovação da parte de um quotidiano anárquico-bancário, mais conhecido como vetor de um anticatolicismo mesquinho e de um espírito libertário sem limites (...).

Nesse caso, fazendo uma paráfrase de Alain Juppé, o Papa nos colocaria diante de um sério problema.

Ele (Papa Francisco) que detesta as entrevistas e diz precaver-se contra os seus primeiros impulsos, passou a emitir, um após outro, ditos e frases para a mídia, tal como se deu na entrevista com o ateu Scalfari, publicada por La Repubblica. Não são encíclicas, e tais afirmações não empenham de nenhum modo a sua autoridade de papa. São, porém, muito bem recebidas, várias vezes reproduzidas e comentadas pela mídia, bem mais que declarações de peso. Adivinha-se que será por esse motivo que Francisco se acha inclinado a deixá-las escapar...

Contudo, até o Padre Frederico Lombardi, porta-voz do Vaticano — não obstante, jesuíta —, vê-se na obrigação de clarificar as coisas, relegando duas matérias de teor bem diverso — de um lado, a entrevista, repleta de reflexões, que Francisco concedeu à Civiltà Cattolica, e de outro, a conversa mais descontraída com Eugenio Scalfari — à categoria de “declarações informais...”. Suas palavras: “Não se trata de documento do magistério”.

Temos, portanto, toda liberdade para acolhê-las com circunspecção, manifestando a nossa surpresa ao ver que o Papa Francisco, sem revelar nenhum embaraço, afirma o contrário de seu predecessor, que ainda vive. Consideremos a insistência com que faz menção de um progressista, o Cardeal Martini; igualmente, quando afirma que irá ver o que será possível ver com o seu G-8 cardinalício — teria sido este um dos compromissos dos quais dependeu a sua eleição —; por fim, [a sua obsessão] em se apresentar como um novo São Francisco de Assis... Entretanto, o Poverello de Assis não impôs a sua regra de vida a toda a Igreja, nem suscitou a controvérsia [que está provocando o atual Pontífice] (...).

Os rumores que circulam em Roma exprimem pelo menos prudência diante do que é imprudente. E, falando sob o coberto do anonimato, um teólogo, ao mesmo tempo em que recorda o respeito que tributamos ao Papa, observa que esse respeito pode vir acompanhado da “obrigação de falar contra ele [Papa Francisco] e até de lhe resistir, porque, além de não serem particularmente úteis, essas declarações são francamente contraproducentes, e até perigosas”. Nada disso impede a consideração, nem o afeto...


Afinal, não foi o Papa Francisco o primeiro a solicitar que o criticássemos? 

*** * ***



François, le chéri de la gauche ?



Extrait d’un article de Jeanne Smits, dans Présent

C’est un signe : le monde de gauche jubile devant le pape François. Libération a publié trois pages on ne peut plus aimables, agrémentées de photos souriantes de ce pape qui « sort l’Eglise de sa bulle ». Ahurissante approbation de la part du quotidien anarcho-bancaire mieux connu comme vecteur d’un anticatholicisme mesquin et d’un libertarisme sans limites.

551436-pope-francis-leads-an-audience-with-the-knights-of-the-holy-sepulchre-in-paul-vi-hall-at-the-vatican

Serait-il touché par la grâce ? Par la parole et le geste de ce François qui dénonce l’esprit courtisan de la Curie, qui semble bousculer la morale sinon le dogme ? Qui qualifie le prosélytisme de « pompeuse absurdité » ? Libé, attiré par la radicalité du Christ ? On n’y croit pas un instant, pas plus qu’il ne faut croire l’exégèse des propos de François par la presse, trop ravie de ne pas faire les distinctions qui s’imposent.
Car on ne peut pas (on ne veut pas…) imaginer que ce pape, qui cherche à porter le Christ dans tous les cœurs, et qui sermonne quotidiennement les fidèles sur leurs péchés mignons à la manière d’un curé de paroisse, ne veuille pas convaincre de la véracité de la foi qui l’anime. Et il est vrai qu’on ne convertit pas, ordinairement, par A + B, mais avec l’amour et la grâce du Christ.
Barack Obama lui aussi aime bien le pape Bergoglio. Il s’est dit « énormément impressionné par les déclarations du pape », par toute son attitude « embrassante » à l’égard des plus pauvres : « Il ressemble à quelqu’un qui vit pleinement les enseignements du Christ. » « Son sourire change de la mine austère de son prédécesseur », écrivait Libération.
On comprend la manœuvre d’Obama, engagé dans un bras de fer avec les évêques catholiques américains qui luttent pour échapper aux éléments tyranniques de l’« Obamacare » imposant la couverture de la contraception. Politiquement, c’est tout bon pour lui.
Alors, ce pape commencerait-il à poser un sérieux problème, pour paraphraser Alain Juppé ?
Lui qui déteste les interviews et se méfie de ses premiers mouvements multiplie désormais les petites phrases en direction des médias, telle l’interview avec l’athée Scalfari publiée par La Repubblica. Ce ne sont pas des encycliques et ces propos n’engagent nullement son autorité pontificale – mais ils sont accueillis, repris, commentés, par les médias bien plus que ses textes de fond. On devine même que c’est pour cette raison que François y prend goût…
Mais voici que même le porte-parole du Vatican, le P. Frederico Lombardi – jésuite pourtant ! – se voit contraint de clarifier les choses, reléguant aussi bien l’entretien très réfléchi donné à la Civilta Cattolica et la conversation plus décontractée avec Eugenio Scalfari à des propos « informels » : « Il ne s’agit pas d’un document du magistère. »
Nous sommes donc libres de les accueillir avec circonspection, et de nous étonner de voir le pape François prendre sans délicatesse le contrepied de son prédécesseur qui vit encore. Voyez son insistance à citer un cardinal progressiste, Carlo Maria Martini, à annoncer qu’on va voir ce qu’on va voir avec son « G8 » cardinalice – dont la constitution relève pour lui d’une sorte d’engagement d’élection – à se présenter comme un nouveau saint François. Mais le Poverello n’avait pas imposé sa règle de vie à toute l’Eglise, et il n’avait pas rejeté la beauté et la richesse de la liturgie. Le siècle qui suscita François fut aussi celui des Dominicains, des débuts de l’explosion luxuriante du gothique, et d’une chrétienté sans pareille.
Au temps de François d’Assise, Thomas Becket
« portait une chemise de crin sous ses ors et cramoisis, et il y a beaucoup à dire en faveur de cette association, car Becket avait le bénéfice de la chemise de crin tandis que l’homme de la rue profitait des ors et des cramoisis » :
Chesterton pensait au saint anglais, saint Louis – ce modèle de gouvernance chrétienne – fit de même, en France.
Les bruits qui viennent de Rome traduisent pour le moins une prudence devant l’imprudent, et parlant sous couvert d’anonymat un théologien rappelle le respect dû au pape qui peut se doubler d’une « obligation de parler contre lui, voire de lui résister ». Car ses propos peuvent « ne pas être particulièrement utiles – et même carrément contre-productifs, voire dangereux ».
Cela n’empêche ni le respect, ni même l’affection – mais François n’est-il pas le premier à solliciter la critique ?

JEANNE SMITS

Fonte: Itinerarium

Liberdade do Papa em relação ao dogma alimenta questionamentos



SOBRE A ENTREVISTA DO PAPA FRANCISCO A SCALFARI, FUNDADOR DO JORNAL ‘LA REPUBBLICA’ - O porta-voz Lombardi partiu do princípio que a entrevista "foi gravada e que é verdadeira".


O Papa Francisco mostrou-se relativista - inclinado a não dar valor absoluto ao dogma - em sua entrevista ao jornal "La Repubblica", consideram especialistas do Vaticano, que detectaram inquietações dos ciclos católicos a respeito dessa liberdade de expressão papal. 

Duas declarações em particular ecoaram nos círculos católicos: quando ele disse que "o proselitismo é um erro", e quando deu a impressão de relativizar o dogma cristão. 

"Cada um de nós tem a sua visão do bem e do mal (...). Todos devem optar por seguir o bem e combater o mal como o concebe. Isso seria o suficiente para melhorar o mundo". 

Pressionado com as perguntas, o padre Lombardi observou que essa entrevista não é "um texto do magistério, mas uma transcrição de uma conversa com uma pessoa que foi autorizada a publicá-la".
O porta-voz partiu do princípio que a entrevista "foi gravada e que é verdadeira". 

De acordo com o padre jesuíta, o Papa inaugura "um novo modo de expressão ao qual não estamos habituados". "É outra novidade do Papa, um terreno novo". 

"Os maiores males que afligem o mundo são o desemprego dos jovens e a solidão em que os idosos são deixados", disse Francisco, incorporando questões sociais que são queridas para ele. [SIC! SIC! SIC! SIC! SIC! SIC! SIC!]

*** * ***

Igreja deve reforçar o seu diálogo com os não-crentes, afirmou o Papa.
Pontífice também disse que Igreja está formada por pecadores.







O Papa Francisco mostrou-se relativista - inclinado a não dar valor absoluto ao dogma - em sua entrevista ao jornal "La Repubblica", consideram especialistas do Vaticano, que detectaram inquietações dos ciclos católicos a respeito dessa liberdade de expressão papal.

A coletiva de imprensa convocada nesta quarta-feira (2) pelo padre Federico Lombardi para falar sobre o "G8 dos cardeais" e a reforma da Igreja deu lugar a muitas perguntas sobre as condições em que a entrevista foi conduzida pelo fundador ateu do jornal, Eugenio Scalfari, o nível de confiabilidade das declarações do Papa e a fidelidade das frases transcritas.

A Igreja deve reforçar o seu diálogo com os não-crentes, afirmou o Papa nesta entrevista. Mas ele também acusou líderes da Igreja de "serem muitas vezes narcisistas", confidenciando sentir-se, às vezes, "anticlerical".

Duas declarações em particular ecoaram nos círculos católicos: quando ele disse que "o proselitismo é um erro", e quando deu a impressão de relativizar o dogma cristão.

"Cada um de nós tem a sua visão do bem e do mal (...). Todos devem optar por seguir o bem e combater o mal como o concebe. Isso seria o suficiente para melhorar o mundo".

Pressionado com as perguntas, o padre Lombardi observou que essa entrevista não é "um texto do magistério, mas uma transcrição de uma conversa com uma pessoa que foi autorizada a publicá-la".

O porta-voz partiu do princípio que a entrevista "foi gravada e que é verdadeira".

De acordo com o padre jesuíta, o Papa inaugura "um novo modo de expressão ao qual não estamos habituados". "É outra novidade do Papa, um terreno novo".

"Esta entrevista, sem preconceitos ou filtros, demonstra a sua disponibilidade para com um mundo descrente nem sempre benevolente", considerou.

"Não houve nenhuma revisão do texto" antes de sua publicação, garantiu o padre Lombardi.

"Não havia nenhuma razão para fazer correções. Se o Papa tivesse a intenção de negar ou afirmar que houve má interpretação, ele teria dito", comentou o porta-voz.
O fato de ela ter sido reproduzida pelo jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano", "dá-lhe uma autenticidade", disse ainda.

Além de nesta quarta-feira, em sua audiência-geral, Francisco afirmar que o fato de padres, cardeais e papas serem pecadores não muda o fato de que a Igreja é santa, na véspera ele fez contundentes observações após iniciar os trabalhos do G8 clerical.

Ele declarou desejar uma Igreja mais engajada socialmente, que dialogue com os não-crentes e livre da corrupção.

"É o início de uma Igreja concebida como uma organização não somente vertical, mas também horizontal", explicou o Papa na longa entrevista ao jornal La Repubblica.

Nesta ocasião, ele lamentou uma "visão muito vaticano-centrada que ignora o mundo ao seu redor", anunciando que fará o possível para mudar isso.

A publicação da entrevista de três páginas concedida a um jornal de esquerda, antes da abertura do "G8" para reavivar a Igreja Católica, é em si uma revolução.
Para isso, Francisco recebeu na semana passada na residência Santa Marta o fundador ateu do jornal, Eugenio Scalfari, com quem já havia dialogado em colunas interpostas no "La Repubblica", em setembro.

Nesta entrevista, o Papa e o jornalista discutiram a fé e a descrença, os valores éticos, do clericalismo e do espírito, o marxismo, com espantosa liberdade de tom.

Outras passagens marcantes desta entrevista são a crítica virulenta aos "cortesões da Igreja", e a denúncia do "liberalismo social".

"Os maiores males que afligem o mundo são o desemprego dos jovens e a solidão em que os idosos são deixados", disse Francisco, incorporando questões sociais que são queridas para ele. [SIC! SIC! SIC! SIC! SIC! SIC! SIC!]

O "liberalismo selvagem" resulta em "tornar o forte mais forte, os fracos mais fracos e os excluídos mais excluídos", denunciou.

O pontífice pediu à Igreja que se comprometa mais com o mundo moderno e afirmou que "os chefes da Igreja geralmente têm sido narcisistas, amantes da adulação e excitados de forma negativa por seus cortesões".

"A corte é a lepra do papado", declarou Francisco.


O pontificado de Francisco, conservador em relação a obediência à Igreja e a moral, mas radical sobre o desenvolvimento social, continua a ser paradoxal.


Fonte: G1

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

VATICANISTA REVELA RUPTURA DA 'CONTINUIDADE' COM BERGOGLIO


“Sua missão [do Papa Francisco] contém duas novidades escandalosas: a Igreja pobre de Francisco, a Igreja horizontal de Martini. E ainda uma terceira: a de um Deus que não julga, mas que perdoa. Ninguém mais é condenado, já não há inferno”. 
É assim que Scalfari, ateu professo e fundador de LA REPPUBLICA, define o Papa Francisco, após o intercâmbio epistolar e a sequência de colóquios que teve com o Pontífice. 
“Até agora, na cátedra de Pedro, jamais houve uma abertura tão ampla em relação à cultura laica moderna, nem uma visão tão profunda sobre a consciência e a sua autonomia”.Ao afirmá-lo, Scalfari referia-se de modo particular àquilo que o Papa Francisco escrevera sobre o primado da consciência. 
Contudo, na sequência de colóquios que mantiveram, o Papa Francisco foi ainda mais drástico, reduzindo a consciência a um ato subjetivo:“Cada um de nós tem a sua própria visão de bem e de mal, e deve decidir-se por seguir o bem e lutar contra o mal, conforme cada um de nós concebe. Isso seria suficiente para mudar o mundo”. NO QUE DIZ RESPEITO À MISSA TRIDENTINA, soube-se que, em conversas com visitantes, o próprio Ratzinger considerou a restrição à Missa Tridentina[episódio dos Frades da Imaculada] um “vulnus”[fenda, rachadura] no Motu Proprio publicado em 2007.


*** * ***


El cambio de Francisco

Ha desvelado el verdadero programa de su pontificado en dos entrevistas y una carta a un intelectual ateo. Respecto a los Papas que le han precedido, la separación es cada vez más neta, tanto en las palabras como en los hechos


ROMA, 3 de octubre de 2013 – La primera reunión en estos días de los ocho cardenales llamados a consulta por el Papa Francisco, y su visita mañana a Asís, la ciudad del Santo del que ha tomado el nombre, son actos que, ciertamente, caracterizan este inicio de pontificado.
Pero lo que más ha caracterizado la definición de su línea han sido cuatro acontecimientos mediáticos del mes pasado:
- la entrevista del Papa Jorge Mario Bergoglio  en “La Civiltà Cattolica”,
- su carta de respuesta a las preguntas que le ha dirigido públicamente Eugenio Scalfari (en la foto), fundador del principal periódico laico italiano, “la Repubblica”,
- el sucesivo coloquio-entrevista con el mismo Scalfari
- y la otra carta, respuesta a otro campeón del ateísmo militante, el matemático Piergiorgio Odifreddi, escrita no por el Papa actual sino por su predecesor, el Papa emérito.
La persona interesada en entender qué dirección quiere tomar Francisco y en que se distancia de Benedicto XVI y de los otros Papas que le han precedido, sólo tiene que estudiar y confrontar estos cuatro textos. 

En la entrevista del Papa Bergoglio en “La Civiltà Cattolica” hay un pasaje que ha sido percibido universalmente como un claro cambio de línea, no sólo respecto a Benedicto XVI, sino también a Juan Pablo II:
“No podemos seguir insistiendo solo en cuestiones referentes al aborto, al matrimonio homosexual o al uso de anticonceptivos. Es imposible. Yo no he hablado mucho de estas cuestiones y he recibido reproches por ello. Pero si se habla de estas cosas hay que hacerlo en un contexto. Por lo demás, ya conocemos la opinión de la Iglesia y yo soy hijo de la Iglesia, pero no es necesario estar hablando de estas cosas sin cesar. Las enseñanzas de la Iglesia, sean dogmáticas o morales, no son todas equivalentes. Una pastoral misionera no se obsesiona por transmitir de modo desestructurado un conjunto de doctrinas para imponerlas insistentemente. El anuncio misionero se concentra en lo esencial, en lo necesario, que, por otra parte es lo que más apasiona y atrae, es lo que hace arder el corazón, como a los discípulos de Emaús. Tenemos, por tanto, que encontrar un nuevo equilibrio, porque de otra manera el edificio moral de la Iglesia corre peligro de caer como un castillo de naipes, de perder la frescura y el perfume del Evangelio”.
Sin duda, el Papa Francisco es muy consciente de que también para los dos Papas que le han precedido la prioridad absoluta era el anuncio del Evangelio; que para Juan Pablo II la misericordia de Dios era tan esencial que le dedicaba un domingo del año litúrgico; que Benedicto XVI escribió precisamente sobre Jesús, verdadero Dios y verdadero hombre, el libro de su vida como teólogo y pastor; que, en resumen, nada de todo esto le divide de ellos.
Francisco sabe también que la misma consideración vale para esos obispos que, más que otros, han actuado en sintonía con los dos Papas que le han precedido. En Italia, por ejemplo, el cardenal Camillo Ruini, cuyo “proyecto cultural” se ha desarrollado con eventos fundados en Dios y en Jesús.
Sin embargo, tanto para Karol Wojtyla y Joseph Ratzinger, como para pastores como Ruini o en los Estados Unidos los cardenales Francis George y Timothy Dolan, existía la intuición de que el anuncio del Evangelio, hoy, no podía separarse de una lectura crítica acerca de la nueva visión del hombre que se estaba desarrollando, – en radical contraste con el hombre creado por Dios a su imagen y semejanza – y, por tanto, de la consiguiente acción de guía pastoral
Es aquí donde el Papa Francisco se separa. En su entrevista en “La Civiltà Cattolica” hay otro pasaje clave. Cuando el padre Antonio Spadaro le pregunta sobre el actual “desafío antropológico”, él responde de manera elusiva. Muestra no aferrar la gravedad histórica del cambio de civilización analizado y contestado con fuerza por Benedicto XVI y, antes, por Juan Pablo II. Muestra su convencimiento de que vale más responder a los desafíos del presente con el simple anuncio del Dios misericordioso, ese Dios “que hace surgir su sol sobre los malos y los buenos, y que hace llover sobre los justos y los injustos”.
En Italia, pero no sólo en este país, fue el cardenal y jesuita Carlo Maria Martini  la persona que representaba esta tendencia alternativa a Juan Pablo II, a Benedicto XVI y al cardenal Ruini.
En los Estados Unidos esta tendencia la representaba el cardenal Joseph L. Bernardin, antes de que el liderazgo de la conferencia episcopal pasara a los cardenales George y Dolan, muy fieles a Wojtyla y Ratzinger.
Los seguidores y animadores de Martini y Bernardin ven hoy en Francisco al Papa que da cuerpo a sus expectativas de revancha.
Y del mismo modo que el cardenal Martini era y sigue siendo muy popular también entre la opinión pública externa y hostil a la Iglesia, asimismo sucede con el Papa actual.
*
El intercambio epistolar y el sucesivo coloquio entre Francisco y el ateo profeso Scalfari ayudan a explicar esta popularidad del Papa también “in partibus infidelium”.
Un pasaje del artículo del 7 de agosto pasado, en el cual Scalfari le dirigía unas preguntas, nos muestra la idea positiva que el fundador de “la Repubblica” se había hecho del Papa actual:
“Su misión contiene dos novedades escandalosas: la Iglesia pobre de Francisco, la Iglesia horizontal de Martini. Y una tercera: un Dios que no juzga, sino que perdona. No hay condena, no hay infierno”.
La carta de respuesta del Papa Bergoglio, recibida y publicada, ha sido comentada por Scalfari, quien ha añadido esta otra consideración grata:
“No se había visto nunca hasta ahora, en la cátedra de Pedro, una apertura hacia la cultura moderna y laica de esta amplitud, una visión tan profunda entre la conciencia y su autonomía”.
Cuando afirmaba esto, Scalfari se refería en particular a lo que el Papa Francisco le había escrito sobre el primado de la conciencia:
“La cuestión está en obedecer a la propia conciencia. El pecado, también para quien no tiene fe, existe cuando se actúa contra la conciencia. Escuchar y obedecer a la conciencia significa, de hecho, decidirse frente a lo que es percibido como bien o como mal. Y sobre esta decisión se juega la bondad o la maldad de nuestro actuar”.
El Papa Francisco no había añadido nada más. Y algunos lectores astutos se preguntaron cómo se podía unir esta definición tan subjetiva de la conciencia, -según la cual el individuo aparece como la única instancia de la decisión -, con la idea de conciencia como camino del hombre hacia la verdad, idea profundizada durante siglos de reflexión teológica, desde Agustín a Newman, y confirmada con fuerza por Benedicto XVI.
Pero en el sucesivo coloquio con Scalfari, el Papa Francisco ha sido aún más drástico reduciendo la conciencia a un acto subjetivo:
“Cada uno de nosotros tiene su propia visión del bien y del mal, y debe elegir seguir el bien y combatir el mal como él mismo conciba. Bastaría esto para cambiar el mundo”.
No sorprende, por tanto, que el ilustrado ateo Scalfari haya escrito que “compartía perfectamente” estas palabras de Bergoglio sobre la conciencia.
Como tampoco nos sorprende su acogida complacida de estas otras palabras del Papa, casi un programa del nuevo pontificado, o sea, “el problema más urgente que la Iglesia tiene ante sí”:
“Nuestro objetivo no es el proselitismo, sino escuchar a los necesitados, a los deseosos, las desilusiones, la desesperación, la esperanza. Tenemos que devolver la esperanza a los jóvenes, ayudar a los ancianos, abrir al futuro, difundir el amor. Pobres entre los pobres. Tenemos que incluir a los excluidos y predicar la paz. El Vaticano II, inspirado por el Papa Juan y por Pablo VI, decidió mirar al futuro con espíritu moderno y abrirse a la cultura moderna. Los padres conciliares sabían que abrirse a la cultura moderna significaba ecumenismo religioso y dialogo con los no creyentes. Se hizo muy poco después en esta dirección. Yo tengo la humildad y la ambición de querer hacerlo”.
No hay nada en este programa de pontificado que no sea aceptado por la opinión laica dominante. También el juicio de que Juan Pablo II y Benedicto XVI han hecho “muy poco” para abrir al espíritu moderno está en línea con dicha opinión. El secreto de la popularidad de Francisco está en la generosidad con la que se concede a las expectativas de la “cultura moderna”, y en la astucia con la que evita aquello que puede convertirse en signo de contradicción.
También en esto él se separa decididamente de sus predecesores, incluido Pablo VI. Hay un pasaje en la homilía del que era entonces arzobispo de Múnich, Ratzinger, y que pronunció a la muerte del Papa Giovanni Battista Montini, el 10 de agosto de 1978, que es extraordinariamente esclarecedor, también por su llamamiento a la conciencia “que se mide sobre la verdad”:
“Un Papa que hoy no sufriera críticas fracasaría en su tarea ante este tiempo. Pablo VI ha resistido a la telecracia y a la demoscopia, las dos potencias dictatoriales del presente. Pudo hacerlo porque no tomaba como parámetro el éxito y la aprobación, sino la conciencia, que se mide según la verdad, según la fe. Es por esto que en muchas ocasiones buscó el acuerdo: la fe deja mucho abierto, ofrece un amplio espectro de decisiones, impone como parámetro el amor, que se siente en obligación hacia el todo y, por tanto, impone mucho respeto. Por ello pudo ser inflexible y decidido cuando lo que se ponía en juego era la tradición esencial de la Iglesia. En él, esta dureza no se derivaba de la insensibilidad de aquellos cuyo camino lo dicta el placer del poder y el desprecio de las personas, sino de la profundidad de la fe, que le hizo capaz de soportar las oposiciones”.
*
Confirmando lo que separa al Papa Francisco de sus predecesores ha llegado la carta con la que Ratzinger-Benedicto XVI – rompiendo su silencio tras la dimisión – ha respondido al libro “Caro papa, ti scrivo” (“Estimado Papa, te escribo”) publicado en 2011 por el matemático Piergiorgio Odifreddi.
Los dos últimos Papa dialogan gustosamente con ateos profesos y líderes laicos de opinión, pero lo hacen de forma muy distinta. Si por su parte Francisco esquiva las piedras del escándalo, Ratzinger, en cambio, las resalta.
Basta leer este pasaje de su carta a Odifreddi:
“Lo que Usted dice sobre la figura de Jesús no es digno de su rango científico.  Si Usted plantea la cuestión como si de Jesús, en fondo, no se supiera nada y de Él, como figura histórica, nada fuese comprobable, entonces sólo puedo invitarle, de modo decidido, a que se vuelva Usted un poco más competente desde el punto de vista histórico. Para esto le recomiendo, sobre todo, los cuatro volúmenes que Martin Hengel (exegeta de la Facultad Teológica Protestante de Tübingen) ha publicado junto a Maria Schwemer: es un excelente ejemplo de precisión y de amplísima información histórica. Frente a esto, lo que Usted dice sobre Jesús es un hablar irreflexivo que no debería repetir. Que en la exegesis se hayan escrito también muchas cosas poco serias es, desgraciadamente, un hecho incontestable. El seminario americano sobre Jesús que Usted cita en las páginas 105 y siguientes confirman, de nuevo, lo que Albert Schweitzer había observado sobre la Leben-Jesu-Forschung (investigación sobre la vida de Jesús), es decir, que el llamado ‘Jesús histórico’ es generalmente el espejo de las ideas de los autores. Dichas formas fallidas de trabajo histórico no comprometen, sin embargo, la importancia de la investigación histórica seria, que nos ha llevado a conocimientos verdaderos y seguros sobre el anuncio y la figura de Jesús”.
Y más adelante:
“Si Usted quiere sustituir a Dios con ‘La Naturaleza’, queda la pregunta quién o qué es esta naturaleza. En ningún sitio Usted la define y parece, por tanto, como una divinidad irracional que no explica nada. Sin embargo, quisiera sobre todo señalar que en su religión de la matemática no se consideran tres temas fundamentales de la existencia humana: la libertad, el amor y el mal. Me maravillo que Usted, con un solo gesto, liquide la libertad que, sin embargo, ha sido y es el valor portante de la época moderna. El amor, en su libro, no aparece y tampoco sobre el mal hay ninguna información. Cualquier cosa que la neurobiología diga o no diga sobre la libertad, en el drama real de nuestra historia ella está presente como realidad determinante, y debe ser tomada en consideración. Pero su religión matemática no conoce ninguna información sobre el mal. Una religión que deja de lado estás preguntas fundamentales se queda vacía”.
“Mi crítica a su libro en parte es dura. Pero la franqueza forma parte del diálogo; sólo así puede crecer el conocimiento. Usted ha sido muy franco y aceptará que yo también lo sea. No obstante, en cualquier caso, valoro de manera muy positiva el hecho de que Usted, mediante su confrontación con mi ‘Introducción al cristianismo’, haya buscado un diálogo tan abierto con la fe de la Iglesia católica y que, a pesar de todos los contrastes, en el ámbito central, no falten del todo las convergencias”.
*
Hasta aquí las palabras. Pero lo que distancia entre ellos a los dos Papas son también los hechos.
La prohibición conminada por el Papa Bergoglio a la congregación de los frailes franciscanos de la Inmaculada de celebrar la misa en rito antiguo ha sido una efectiva restricción de esa libertad de celebrar en dicho rito que Benedicto XVI había asegurado a todos.
Por conversaciones con sus visitantes, resulta que el mismo Ratzinger ha visto en dicha restricción un “vulnus” a su motu proprio del 2007 “Summorum pontificum”.
En la entrevista a “La Civiltà Cattolica”, Francisco ha liquidado la liberalización del rito antiguo decidida por Benedicto XVI como una simple “elección prudencial ligada a la ayuda hacia algunas personas que tienen esta sensibilidad”, cuando en cambio la intención explícita de Ratzinger – expresada a su tiempo en una carta a los obispos de todo el mundo – era que “las dos formas de uso del rito romano puedan enriquecerse mutuamente”.
En la misma entrevista Francisco ha definido la reforma litúrgica postconciliar “un servicio al pueblo como relectura del Evangelio a partir de una situación histórica concreta”. Definición fuertemente reductiva respecto a la visión de la liturgia que era propia de Ratzinger teólogo y Papa.
Además, siempre en este campo, Francisco ha sustituido en bloque, el pasado 26 de septiembre, los cinco consultores de la oficina de las celebraciones litúrgicas papales.
Entre los sustituidos está, por ejemplo, el padre Uwe Michael Lang, un liturgista a quien el mismo Ratzinger escribió el prólogo del libro más importante, dedicado a la orientación “al Señor” de la oración litúrgica.

En cambio, entre los liturgistas promovidos hay figuras mucho más inclines a secundar el estilo celebrativo del Papa Francisco, también éste visiblemente alejado de la inspirada “ars celebrandi” de Benedicto XVI.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...