quinta-feira, 21 de agosto de 2014

"O PARAÍSO PERDIDO"



DESTAQUE


"A Teologia da Libertação é mais importante que o marxismo para a revolução latino-americana" Fidel Castro, citado por Frei Betto em "O Paraíso perdido", pag. 166.


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Frei Betto e Fidel Castro

por Percival Puggina

"A Teologia da Libertação é mais importante que o marxismo para a revolução latino-americana" Fidel Castro, citado por Frei Betto em "O Paraíso perdido", pag. 166.
Paraíso perdido é o título de uma obra poética de John Milton sobre a tentação e queda de Adão e Eva. E é, também, o título de um livro de memórias gastronômicas e de militância comunista em que Frei Betto descreve suas andanças pela América Latina e Leste Europeu nos anos 80.
São mais de 400 páginas relatando dezenas, talvez mais de uma centena de viagens e itinerários em contato com lideranças católicas e governos comunistas, cumprindo dois objetivos: aproximar os católicos do comunismo e apresentar a Teologia da Libertação (TL) às lideranças comunistas. Muitas dessas viagens tiveram Cuba como destino e Fidel como figura central. Ao longo dessa jornada em que o frei vendia mercadoria avariada para os dois lados, ele e Fidel se tornaram amigos.
O relato se encerra pouco após a queda do Muro de Berlim, com o desfazimento da União Soviética. As longas páginas finais em que discorre sobre a perda do "paraíso", podem ser resumidas nestas palavras do autor: "Mudar a sociedade é modificar também os valores que regem a vida social. Essa revolução cultural certamente é mais difícil que a primeira, a social. Talvez por isso o socialismo tenha desabado como um castelo de cartas no Leste Europeu. Saciou a fome de pão, mas não a de beleza. Erradicou-se a miséria, mas não se logrou que as pessoas cultivassem sentimentos altruístas, valores éticos, atitudes de compaixão e solidariedade”.
Ora, economias comunistas são estéreis. Não saciam a fome de pão. E a fome de beleza, a cultura de valores, compaixão e solidariedade, jamais foi gerada sob o materialismo de tal regime. Sem qualquer exceção, onde ele se instalou, avançou com ferocidade contra tudo que os poderia produzir. Família, liberdades, religiões e seus valores foram sempre espezinhados sob o tacão do Estado totalitário. Quem quiser detalhes, informe-se sobre o que aconteceu com padres, bispos, cardeais, instituições religiosas na Hungria do cardeal Jószef Mindzensty, na Tchecoeslováquia do cardeal Josef Beran, na Polônia do cardeal Wyszynski, na Ucrânia do arcebispo Josyf Slipyj, na Iugoslávia, do arcebispo Stepinac. O comunismo foi, sempre, uma usina de mártires.
Aliás, Nero, Décio, Diocleciano e Galério foram mais moderados e indulgentes com os cristãos do que os governantes comunistas. "Qual o produto de tantos anos de trabalho do frei?" indagará o leitor. Pois é. Ele foi razoavelmente bem sucedido em levar a desgraça do comunismo aos cristãos. E fracassou totalmente em levar o "cristianismo" da TL às elites do comunismo. Apesar disso, a Teologia da Libertação volta a ganhar vida e adeptos no ambiente católico.
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* Percival Puggina (69) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.

Fonte: Puggina

Intransigência política e fé religiosa


DESTAQUE

O ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista a este jornal declarou que nunca teria sido eleito sem o forte apoio da Igreja Católica.

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Na foto: Frei Betto, Lula e o cardeal Dom Cláudio Hummes

No Brasil, um país democrático onde existe separação entre Igreja e Estado, as crenças religiosas dos políticos não só não assustam, como rendem votos


JUAN ARIAS


É possível que, fora do Brasil, possa chocar o fato de a mais provável candidata à presidência da República, Marina Silva, pertença a uma igreja evangélica. Não aqui, porque este é um país com forte carga de misticismo e religiosidade, no qual há pouco espaço para o agnosticismo militante.
A ambientalista Silva, que hoje tem mais votos entre a classe média e intelectual do que entre as camadas mais pobres, poderia assustar mais por sua intransigência política e ambientalista do que por suas crenças religiosas. Uniu-se, na falta de um partido próprio que não teve tempo de formar (A Rede), ao líder socialista Eduardo Campos (Partido Socialista Brasileiro, PSB), morto tragicamente na quarta-feira passada em um acidente aéreo ainda sem explicação técnica, para defender juntos uma terceira via que terminaria com 20 anos de polarização política neste país entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social-democracia Brasileira (PSDB).
A ideia, que agora com a tragédia ficou órfã de um de seus impulsionadores, baseava-se na busca de um modo diferente de fazer política, menos pressionado pela corrupção, com um projeto de desenvolvimento econômico sustentável para fazer o país crescer, mas com uma forte ênfase na proteção do meio ambiente e que contemplasse as demandas das multitudinárias manifestações populares de junho de 2013.
Tratava-se de um projeto progressista cunhado por dois políticos com fortes convicções religiosas: Campos, um católico praticante, assim como toda a sua família [SIC! SIC! SIC!], e Silva, uma evangélica sem fanatismos que já havia militado no catolicismo e seus movimentos da Teologia da Libertação. Ambos, aliás, sem manchas de corrupção em suas biografias políticas.
No Brasil, um país democrático onde existe separação entre Igreja e Estado, as crenças religiosas dos políticos não só não assustam, como rendem votos. É o que revela o fato de que todos eles não só não desprezam, como até buscam com carinho os votos tanto da Igreja Católica, como dos templos evangélicos. O ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista a este jornal declarou que nunca teria sido eleito sem o forte apoio da Igreja Católica.
Dias antes do trágico desaparecimento de Campos, que colocou em primeiro plano da disputa eleitoral a evangélica Marina Silva, a também candidata à reeleição, presidente Dilma Rousseff, que se declara “católica não praticante” e que afirmou “recorrer a Nossa Senhora” em momentos difíceis, participou de um encontro com 5.000 pastores evangélicos.
Pediu a eles que a “abençoassem” e chegou a dizer em seu discurso, citando a Bíblia: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”.
Na inauguração, algumas semanas atrás em São Paulo, do faraônico Templo Salomão dos evangélicos, junto com dezenas de políticos e candidatos às eleições, estava presente, a presidente Dilma Rousseff. Mas Silva, a candidata evangélica, não apareceu.
Nas eleições de 2010 que a levaram à presidência, Dilma reuniu todas as denominações religiosas do país e, em um documento, comprometeu-se publicamente a não legislar sobre o aborto se chegasse ao Governo. Ganhou a eleição e foi fiel à sua promessa.
Mas a candidata Silva poderia ser até mais aberta, em certas questões de costumes, do que muitos políticos conservadores que não são religiosos, como me confirmou um dia o teólogo Leonardo Boff.
Mais que uma evangélica militante, o que dizem aqueles que a conhecem de perto é que a ambientalista é uma mulher de fé empenhada não só nas questões ambientais, como também na justiça social. Costuma-se criticar os políticos por não terem a generosidade do patriarca Abraão, que, segundo o Gênesis (21,33), já muito velho plantou uma árvore, uma tamargueira, que não veria crescer. Como me disse Marina Silva em uma entrevista quando era ministra do Meio Ambiente no primeiro mandato de Lula, muitos políticos não estão interessados em projetos de longo prazo, que normalmente não dão votos, mas nos imediatos que lhes rendem mais benefícios para a reeleição .
Tão ou mais forte do que sua fé religiosa é, dizem, sua capacidade de abrir caminhos na política, no que dizem parecer-se com Lula, com quem militou durante 30 anos antes de deixar o PT.

Fonte: El País

A conquista e a colonização da América Latina



DESTAQUE


A Recopilación de las Leyes de Indias confirma-o claramente:

“Os senhores reis, nossos progenitores, desde o descobrimento das nossas Índias Ocidentais, Ilhas e Terra Firme do Mar Oceano, ordenaram e mandaram aos nossos oficiais, descobridores, colonizadores e quaisquer outras pessoas, que, uma vez que chegassem àquelas províncias, procurassem logo dar a entender aos índios e aos moradores, através dos intérpretes, como tinham sido enviados para ensinar-lhes bons costumes, afastá-los dos vícios e de comer carne humana, instruí-los na nossa Santa fé católica para sua salvação” (Liv. I, Tít. I, Lei II).

A título de exemplo, basta lembrar que um dos infantes de Cortés quis estabelecer-se como eremita num antigo templo indígena destinado aos sacrifícios humanos, a fim de consagrar a sua vida à penitência pelos horrores que ali se tinham cometido.

(...)

Curiosamente, os ressentimentos entre colonizados e colonizadores na América são geralmente coisa recente, e apoiam-se menos em desmandos históricos do que em motivações políticas atuais.


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Por Rafael Ruiz
A versão mais em voga da história da conquista e colonização da América foi descrita e popularizada sobretudo por historiadores e jornalistas anglo-americanos e franceses dos séculos XVIII e XIX – precisamente os povos que assumiram a hegemonia cultural do Ocidente no momento em que a influência espanhola declinava –, imbuídos em geral de um vigoroso preconceito anticatólico e anti-ibérico.

leyenda negra que criaram deve-se em parte ao seu viés protestante ou iluminista, em parte à rixa que, durante os séculos XVI a XIX, opôs a Inglaterra e a França, por um lado, à Espanha e a Portugal pelo outro. Por intermédio dos enciclopedistas e dos historiadores agnósticos do século XIX (Michelet, Taine), essa versão reducionista e negativa impregnou as ciências humanas atuais, continuando a ser difundida sobretudo por servir de apoio a determinadas análises de tendência marxista. A sua fonte principal e quase única são os relatos de Bartolomé de las Casas, exagerados e passionais, embora inspirados por uma excelente intenção
.

Motivações misturadas

Herança cultural entre os índios guaranis das antigas reduções jesuíticas do Paraguai.

Do ponto de vista jurídico o primeiro motivo da conquista da América foi a evangelização. É o que distingue nitidamente o empreendimento português e espanhol de todos os colonialismos anteriores e posteriores, desde os egípcios até os impérios coloniais europeus do século XIX e, na verdade, de todas as guerras de conquista que houve ao longo da História. Recopilación de lasLeyes de Indias confirma-o claramente:

Os senhores reis, nossos progenitores, desde o descobrimento das nossas Índias Ocidentais, Ilhas e Terra Firme do Mar Oceano, ordenaram e mandaram aos nossos oficiais, descobridores, colonizadores e quaisquer outras pessoas, que, uma vez que chegassem àquelas províncias, procurassem logo dar a entender aos índios e aos moradores, através dos intérpretes, como tinham sido enviados para ensinar-lhes bons costumes, afastá-los dos vícios e de comer carne humana, instruí-los na nossa Santa fé católica para sua salvação(Liv. I, Tít. I, Lei II). Por outro lado, num só fôlego, a mesma lei acrescenta:“… e atraí-los ao nosso senhorio, para que sejam tratados, favorecidos, defendidos como nossos outros súditos e vassalos”. Os fins secundários e temporais – a grandeza da pátria, a glória pessoal e a riqueza – pareciam a todos indissoluvelmente vinculados ao fim principal. Os próprios soldados, em geral homens rudes e mais versados nas artes militares do que no catecismo, tinham consciência da prioridade do fim evangelizador sobre os outros; como diz ingenuamente Bernal Díaz delCastillo, soldado de Cortés e cronista da conquista do México, os motivos que os impeliam eram“… servir a Deus, a sua Majestade, e dar luz àqueles que estavam nas trevas:.. e também ganhar riquezas, que é o que todos os homens geralmente procuramos” (cit. por Francisco Morales Padrón, Fisionomía de la conquista indiana, Escuela de Estudios Hispano-Americanos, Sevilha, 1955).E o mesmo Cortês escreve num dos seus relatórios ao imperador:

Centro Histórico de Lima, no Peru

Estávamos na disposição de ganhar para Vossa Majestade os maiores reinos e domínios que havia no mundo. Além disso, ao fazer aquilo que, pelo fato de sermos cristãos, devíamos fazer, ganharíamos a glória no outro mundo, e, neste, conseguiríamos mais honra e renome que jamais uma nação conquistou até hoje” (ibid.).

Como ocorrera ao longo de toda a Idade Média, o temporal e o eterno estavam tão inextricavelmente entrelaçados na consciência de praticamente todos os protagonistas da conquista – soldados e sacerdotes, funcionários da coroa e simples desesperados fora-da-lei –, que não lhes era possível perceber a contradição que havia entre os meios empregados (a guerra de conquista, com todas as suas cruéis conseqüências) e o desejo de difundir a verdade de Cristo. Uma vez enfronhados em guerras e intrigas, e expostos a enormes tentações de cobiça, sob a forma dos fabulosos tesouros asteca e inca, não admira nada que perdessem de vista facilmente a devida ordem dos fins…


Universidade de Sucre – Bolívia


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

As Catacumbas de Roma – O culto dos santos


DESTAQUE

Sobre um cálice descoberto nas Catacumbas, se lê esta inscrição em letras douradas: “Vito, vive em nome de Lourenço”; em outro, no mesmo sentido, se lê: “Eliano, vive em Jesus Cristo e São Lourenço”, ou seja, vive na graça de Jesus Cristo, pela intercessão de São Lourenço.

O culto público dado aos santos está doravante provado pelo fato incontestável que davam aos mártires mais ilustres, por um tipo de canonização, títulos honoríficos em uso na Igreja, por exemplo: “Senhor, Poderoso intercessor diante do trono de Deus, DOMINVS, DOMNVS ou simplesmente D.”

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Os monumentos que possibilitarão que façamos uma ideia exata da Igreja primitiva são os monumentos fúnebres.

Esta circunstância vai determinar a direção de nossas pesquisas. Estas pesquisas estarão naturalmente circunscritas pelo dogma que tem maior relação com a destinação das Catacumbas, a saber, a comunhão dos santos, ou seja, a Igreja triunfante, a Igreja padecente e a Igreja militante.

As almas dos mortos que morreram na graça divina estão, segundo o ensino da Igreja católica, juntas de Deus; sua morada foi estabelecida na paz do céu; elas gozam da glória e da felicidade eternas. Os túmulos das Catacumbas nos oferecem os mesmos ensinos? Iremos interrogá-los, restaurar as inscrições sepulcrais e a iconografia dos três primeiros séculos, que poderá vir em nosso socorro. Como o nosso espaço é curto, faremos apenas as citações que se justificam por sua importância dogmática.

Percorramos então os seguintes epitáfios:

“Prima, você vive na glória de Deus e na paz de N.S.J.C. VIVIS IN GLORIA DEI ET IN PACE”.
“Cheio de graça e de inocência, Severiano repousa aqui no sono da paz; sua alma foi recebida na luz do Senhor. IN LVCE DOMINI SVSCEPTVS”.

“À merecedora Saxonia: ela repousa em paz na casa eterna de Deus”.
“Lourenço nasceu para a eternidade com a idade de vinte anos; ele descansa em paz. NATVS EST IN ETERNVM”.
“Ursina – Agape – Alogia – Felicíssima – Fortunada, etc.., vivem na paz – em Deus – sempre – eternamente”.
“Hermaniscus, minha luz, vives em nosso Deus e Senhor J.C.”.
“Marciano, neófito, os céus estão abertos para ti, tu viverás na paz. CELI. TIBI. PATENT. BIBES. IN. PACE”.
Enfim:

“Alexandre não morreu; mas ele vive além dos astros; após uma brevíssima vida, ele brilha no céu. IN COELO CORVSCAT”.
Assim, aqueles que dormiram na paz de Deus, os justos repatriados, vivem eternamente. Eles foram admitidos na plenitude da luz de Deus, na casa do Senhor, na glória do Cristo. Eles nasceram para a eternidade; os céus se abriram diante deles; eles brilham aí com uma luminosidade parecida àquela dos astros. Eis a melodia ao mesmo tempo doce e forte que escapa, com um perfeito acordo, do meio dos túmulos subterrâneos, e que traz a consolação nos corações daqueles que esperam ainda o fim de seu exílio. Que protestação solene não há nesta alegre e triunfante harmonia, nesta santa confiança da Igreja apostólica, contra estas opiniões lamentáveis e pretensamente primitivas do século XVII, que não querem saber de nada da Igreja triunfante, que só admitem a entrada no céu para Jesus Cristo, e que declaram que é temerário examinar se as almas dos justos estão na felicidade; que condenam mesmo os mortos a uma espécie de dormição invencível da inteligência e da vontade, a um exílio de vários milhares de anos no vestíbulo do céu, onde eles esperam até o julgamento último a felicidade prometida!

A fé católica não se limita a esta doutrina consoladora que abre o céu às almas dos justos. Ela admite também entre o mundo terreno e o outro mundo, entre a Igreja militante e a Igreja triunfante, uma troca de relações. Todos os homens resgatados são membros de um único corpo em Jesus Cristo, formam uma sociedade, uma família imensa, unida pelo laço da caridade. Esta união espiritual ocorre por meio da oração. Os bem-aventurados nos prestam o socorro de sua intercessão e de sua assistência; do nosso lado, nós lhes pedimos este socorro na veneração e na afeição.




Tal é a doutrina da Comunhão dos santos. Examinemos se ela se revela nas Catacumbas. Aqui, o olhar encontra, sobretudo, acima dos arcosolia, um grande número de imagens de mártires ou de fiéis mortos. Elas estão frequentemente cercadas de símbolos do paraíso, flores, aves, palmas, e sempre na atitude da oração. Estes braços elevados, esta relação cheia de fervor diz em demasia que, lá no alto, os eleitos não são simples espectadores que se contentam em gozar, mas fiéis associados de seus irmãos ainda em luta sobre a terra.

E esta fé, que expressão poderosa não encontra nas inscrições!

“Sutius, reze por nós, afim que sejamos salvos. PETE PRO NOS (sic) VT SALVI SIMVS”.
“Augenda, vive no Senhor e intercede por nós. EPΩTA”.
“Anatolius, ore por nós. EYXOY”.
“Filho, que teu espírito descanse em Deus; interceda por tua irmã. PETAS”.
“Matronata Matrona, ore por teus pais Ela viveu um ano e cinquenta e dois dias. PETE”.
“Atticus, teu espírito vive no Bem: implore por teus pais”.
“Joviano, viva em Deus e seja nosso intercessor”.
“Sabatius, doce coração, ore e implore por teus irmãos e teus companheiros. PETE ET ROGA”.
“Aqui descansa Ancilladei. Ore pelo único filho que te sobreviveu, porque tua morada está na paz e na felicidade eternas”.
“À minha digníssima filha adotiva Felicidade, que viveu trinta e seis anos”. “Dignai-se em orar por teu esposo Celsiniano”.
“Gentiano, o fiel, em paz. Ele viveu 21 anos… em tuas orações interceda por nós, porque sabemos que está em J.C.”.
Enfim, para concluir a série dos exemplos que citamos:

“À nossa dulcíssima e trabalhadora mãe Catianilla: que ela reze por nós EYXOITO”.
É assim que os olhos e o coração dos sobreviventes atravessam o sepulcro e penetram até ao céu. É assim que o olhar e o amor procuram e encontram os eleitos, os assaltam com orações ferventes, lhes fazem participantes de suas penas com uma confiança infantil e lhes fazem piedosas recomendações. Não está aí a verdadeiro espírito católico na plenitude da caridade e na infalibilidade da certeza?

Mas, dirão alguns, estas invocações piedosas, estas orações dirigidas aos santos, não são, talvez, apenas homenagens privadas, que não supõem nem determinam um culto público, oficial, litúrgico?
A isto responderemos: A partir do momento em que se trata de uma prática litúrgica, relativa ao culto dos santos, trata-se de um princípio católico que não é legado ao arbítrio individual; não obstante, não faltam monumentos que testemunham as homenagens dadas pela Igreja aos bem-aventurados. Há nas Catacumbas dois tipos de inscrições que tem feição com o culto, ambas caracterizadas liturgicamente pela expressão ainda em uso: Em nome de… IN NOMINE.

Elas compreendem: 1º votos suplicativos em nome de Deus, do Cristo ou de Deus Cristo. Por exemplo:

“Zózimo, vive em nome do Cristo”.
“À SeliaVictorina, que descansa na paz em nome do Cristo”.
Nestes casos, a invocação se dirige diretamente a Deus, único adorável, único onipotente, único dispensador das graças. Mas há também em segundo outras invocações em nome de um santo; e então a oração se dirige indiretamente a Deus, diretamente ao poder de intercessão do santo. Um túmulo, entre outros, fala assim:
“Rufa, viverá na paz do Cristo, em nome de São Pedro”.
Ou seja, por meio de sua intercessão. Sobre um cálice descoberto nas Catacumbas, se lê esta inscrição em letras douradas: “Vito, vive em nome de Lourenço”; em outro, no mesmo sentido, se lê: “Eliano, vive em Jesus Cristo e São Lourenço”, ou seja, vive na graça de Jesus Cristo, pela intercessão de São Lourenço.

O culto público dado aos santos está doravante provado pelo fato incontestável que davam aos mártires mais ilustres, por um tipo de canonização, títulos honoríficos em uso na Igreja, por exemplo: “Senhor, Poderoso intercessor diante do trono de Deus, DOMINVS, DOMNVS ou simplesmente D.”

A partir do século III já se observa o título de Santo (dominus), Sanctus. É assim que encontramos saudações no gênero destas aqui: “Senhor Pedro, Paulo, Estevão, Sisto, etc.; Senhora, DominaBasila”, etc.. Mais tarde lemos: “Ao santo mártir Máximo”; “Ao Pai onipotente, ao seu Cristo e aos santos mártires Taurinus e Herculanus, eternas ações de graças da parte de Nevius, Diaristus e Constantino”.

Não pretendemos acumular as provas epigráficas, mas buscar a luz ainda em outras partes, nas pinturas e nas imagens.



Dom MaurusWolter. Les Catacombes de Rome et la doctrine catholique. Paris, G. Téqui, 1872.

Tradução: Robson Carvalho

INCOERÊNCIAS E CONVERGÊNCIAS




DESTAQUE

O falecido Eduardo Campos era dirigente do Partido Socialista Brasileiro. Ora, católico não pode ser socialista, segundo o magistério tradicional dos Papas. Entre a longa série de ensinamentos pontifícios a respeito, salienta-se o da encíclica Quadragesimo Anno’, de Pio XI, que diz textualmente: ‘Socialismo religioso, socialismo cristão exprimem conceitos contraditórios; ninguém pode, ao mesmo tempo, ser bom católico e usar com veracidade o nome de socialista’ (A.A.S., vol. 23, p. 216). Ao longo do texto, o Pontífice faz ver que o socialismo concebe a sociedade de um modo completamente avesso às verdades cristãs.



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Raphael de la Trinité



A imprensa deu conta de que o candidato Eduardo Campos, pouco antes do terrível acidente de avião que o vitimou, estaria portando a Medalha de Nossa Senhora das Graças, além de outras medalhas, que, segundo se diz, trazia junto a si presas a um cordão.

Na impossibilidade de aferir a realidade dos fatos, ou efetivamente saber se as citadas medalhas estariam com o mesmo no momento em que expirou, é inconteste que, do fundo de algumas mentalidades, poderá facilmente emergir, como fruto dessa inserção noticiosa, uma equivocada associação entre catolicismo e socialismo.

Se assim for, é de presumir que, mediante mais um ardil bem arquitetado, a chamada esquerda “católica” possa tirar evidente proveito da circunstância presente.

No intento de coactar uma investida dessa natureza, convém frisar alguns pontos, que jamais será supérfluo repisar:

a) O falecido Eduardo Campos era dirigente do Partido Socialista Brasileiro. Ora, católico não pode ser socialista, segundo o magistério tradicional dos Papas. Entre a longa série de ensinamentos pontifícios a respeito, salienta-se o da encíclica Quadragesimo Anno’, de Pio XI, que diz textualmente: ‘Socialismo religioso, socialismo cristão exprimem conceitos contraditórios; ninguém pode, ao mesmo tempo, ser bom católico e usar com veracidade o nome de socialista’ (A.A.S., vol. 23, p. 216). Ao longo do texto, o Pontífice faz ver que o socialismo concebe a sociedade de um modo completamente avesso às verdades cristãs.

b) Conforme Comunicado oficial da Direção Nacional do MST, "Campos foi um grande amigo do MST e apoiador da luta pela terra e pela Reforma Agrária, fato que o fez ganhar notável confiança dos trabalhadores rurais do estado de Pernambuco". http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/eleicoes/2014/conteudo.phtml?id=1490990

“Dize-me quem te elogias, e te direi quem és”. O velho adágio não induz a erro: na mais benigna das hipóteses, Eduardo Campos terá sido um cobiçado “companheiro de viagem” das hostes dos agitadores rurais, que timbram em violar sistematicamente, além das leis civis, dois preceitos do Decálogo (“Não furtarás” e “Não cobiçarás as coisas alheias”) promovendo invasões de terras pelo Brasil afora. Seria uma injúria à inteligência do falecido candidato conceber que não tivesse esse quadro bem delineado em sua mente.

c) À vista disso, não parece difícil supor que, iludidos pela miragem de um falacioso ‘socialismo-católico’, haja quem, muito simploriamente — seja por razões de ordem sentimental ou outras quaisquer —, em face do quadro político que se descortina, esteja propenso a sufragar nas urnas uma chapa politica atentatória da doutrina social da Igreja.

d) Falecido o candidato titular, que dizer, então, sobre a trajetória política de Marina da Silva, agora candidata oficial da coligação encabeçada pelo Partido Socialista Brasileiro?

e) Sobre o currículo da candidata, importa referir que, ainda jovem, foi aspirante a freira em um convento da capital acriana. Participou das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). http://eleicoes.uol.com.br/2010/pre-candidatos/conheca-a-trajetoria-de-marina-silva-pre-candidata-a-presidencia-pelo-pv.jhtm

Merecem realce, nessa visão panorâmica, as palavras do jornalista Percival Puggina (arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+):

“A fala mansa da ex-vice de Eduardo Campos não se harmoniza com a rigidez e o radicalismo de suas posições. O dever cívico de conhecê-las não se cumprirá ouvindo o meigo discurso eleitoral que vem por aí. Há informações muito mais precisas e irrefutáveis na biografia da candidata.

Seu primeiro alinhamento político deu-se com filiação ao Partido Comunista Revolucionário (PCR), célula marxista-leninista albergada no PT onde militou durante uma década. Foi fundadora da CUT do Acre e lá, filiada ao PT, conseguiu o primeiro de uma série de mandatos legislativos: vereadora em Rio Branco, deputada estadual, senadora em dois mandatos consecutivos. Em 2003, no primeiro mandato de Lula, assumiu a pasta do Meio Ambiente, onde agiu como adversária do agronegócio. Sua gestão deu-lhe notoriedade internacional e conquistou ampla simpatia de organizações ambientalistas europeias que agem com fanatismo anti-progressista em todo mundo, menos na Europa...

Foram cinco anos terríveis para o desenvolvimento nacional. No ministério, Marina travava projetos de infraestrutura, impedia ou retardava empreendimentos públicos e privados, aplicava a torto e a direito um receituário avesso às usinas, aos transgênicos, ao agronegócio, principal motor do desenvolvimento nacional e responsável pela quase totalidade dos superávits de nossa balança comercial. Os pedidos de licenças ambientais empilhavam-se, relegados ao descaso. Empreendimentos eram cancelados por exaustão e desistência dos investidores. Sempre irredutível, Marina incompatibilizou-se com governadores, com os setores empresariais e com a então ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Foram cinco anos terríveis!

Quando se sentiu politicamente firme, largou a Igreja Católica, mudou-se para a Assembleia de Deus e para o PV. Depois, largou não sei que mais e se mudou para o projeto da Rede. Mas isso não a fez menos alinhada com as trincheiras de combate às economias livres, ao agronegócio, e ao evangélico domínio do homem sobre os bens da Criação. A ecomania de Marina Silva inverte a ordem natural nesse convívio, submetendo os interesses da humanidade às determinações que diz extrair do mundo natural. No fundo, vestido com floreios ecológicos, é o velho ódio marxista à propriedade privada dos bens da natureza.

De um leitor, a respeito da animosidade de Marina Silva para com o agronegócio: ‘Ela é uma praga de gafanhotos stalinistas reunidos numa pessoa só’”. http://www.puggina.org/artigo/puggina/marina-silva-cuidado/1721

f) Entretanto, na esteira dessas propostas de conciliar o inconciliável, não é de hoje que existem as mais inauditas propostas de simbiose ou convergência entre catolicismo e socialismo.

Em particular, sobreleva o papel de Antonio Gramsci, célebre pensador e co-fundador do Partido Comunista Italiano, o qual, já nas primeiras décadas do século XX, afirmava que, ao invés de enfrentar de rijo a Igreja Católica, mais valia a pena criar enfrentamentos no interior do catolicismo.  Com efeito, Gramsci chegara à conclusão de que uma das chaves da sobrevivência do catolicismo ao longo dos séculos foi o fato de que em seu seio conviveram harmonicamente humildes e elites, sentenciando que “a Igreja romana sempre foi a mais tenaz em impedir que oficialmente se formem duas religiões: a dos intelectuais e a das almas simples”. [grifos meus]

Ao mesmo tempo em que proclamava “odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes” (Antonio Gramsci, “indifférent”, Février 11, 1917, apud "La Città futura", pp. 1-1 Raccolto in SG, 78-80, http://bellaciao.org/it/spip.php?ar...),  o pensador comunista definia o socialismo como “uma religião, no sentido em que também possui um conjunto de crenças, uma mística, fieis seguidores; é uma religião porque substituiu, na consciência [de cada indivíduo], o Deus transcendental dos católicos pela confiança no homem e em suas melhores energias como sendo a única realidade espiritual existente”. [A. Gramsci, “Audacia e fede”, Sottola Mole, 22.6.1916, cité par Rafael Diaz-Salazar, El proyecto de Gramsci, Barcelona, Ed. Anthropos, 1991, p. 47.]. [grifos meus]

Ora, para sem número de adeptos do aggiornamento pós-Vaticano II, afirmações como estas não estão longe de ser admitidas, por muitos até, como verdades de... fé!

g) Na turbulenta conjuntura histórica em que vivemos, será que o maquiavélico plano de Gramsci virá à tona?

Só o tempo dirá.
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