quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre o modo de estudar - o De Modo Studendi de Santo Tomás de Aquino








      
    Estudo Introdutório

    Jean Lauand

    (Estudo introdutório e tradução)
    (Orig. publ.: "Cadernos de História e Filosofia

    da Educação" EDF-FEUSP, vol. II, No.3, 1994)

    1. O De modo studendi de Tomás.


    O De modo studendi é uma carta de autoria de Tomás de Aquino [1] , aconselhando sobre o modo de estudar. Tomás dava muita importância à correspondência. Victor White observa que não é raro que Tomás deixe de lado seu trabalho em obras maiores para elaborar respostas a cartas, especialmente de seus irmãos dominicanos [2] .

    O destinatário da carta De modo studendi, um tal "irmão João", é um dominicano jovem [3] , iniciando seus estudos, e afoito por mergulhar no "oceano da sabedoria", resolveu escrever ao mestre consumado, perguntando sobre atalho Tomás, que - no Comentário à Ética de Aristóteles - afirma ser o tempo o grande colaborador (bonus cooperator), começa por responder ao impaciente Frei João que não há atalhos, mas caminhos: pelos riachos é que se chega ao mar e o "difícil deve ser atingido a partir do fácil" (DMS, intr.).

    Já no início da carta, Tomás, referindo-se à tarefa de obter o conhecimento, emprega sugestivamente o gerúndio - acquirendo, adquirindo - como que a indicar que a formação intelectual é mais um contínuo processo do que pacífica posse decorrente de uma ação que se perfaz de uma vez. Significativo, nesse sentido, é o uso do verbo incedere, caminhar, marchar. Com efeito, já na primeira questão da Summa, referindo-se à busca pela razão humana da verdade mais elevada, Tomás diz que "só poucos, depois de muito tempo e com mistura de muitos erros, podem chegar". O tempo é bonus cooperator, o grande aliado de quem almeja o "tesouro do conhecimento" (DMS, intr.).

    O De modo studendi é um espelho em que se reflete uma concepção de educação totalmente diferente da que prevalece em nosso tempo. Se um grande educador de hoje fosse consultado sobre "o modo de estudar" ou sobre como "adquirir conhecimentos", certamente sua reposta dirigir-se-ia a questões técnicas, programático-curriculares, motivacionais...: o conhecimento é, para nós, compartimentado, separado da existência. Já Tomás, que pensa no saber como algo integrado à existência, ante as mesmas perguntas, aconselha "sobre como deve ser tua vida" (DMS, intr.).

    Se o objetivo da escola, hoje, é formar o bom profissional, ou, quando muito, "educar para a cidadania" ou formar para uma análise crítica do mundo; os conselhos de Tomás, no século XIII, incidem sobre a própria estrutura nuclear íntima do ser humano.


    2. A educação para a sabedoria.


    Assim, já na primeira questão da Suma Teológica, ao procurar caracterizar o que é a sabedoria, Tomás explica que a sabedoria não deve ser entendida somente como conhecimento que advém do frio estudo, mas como um saber que se experimenta e saboreia. Tomás, sempre muito atento aos fenômenos da linguagem, à fala do povo, como fonte de profundas descobertas filosóficas, encanta-se com o fato - para ele experiência pessoal vivida - de que em sua língua latina sapere signifique tanto "saber" como "saborear". Esta coincidência de significados na linguagem do povo - Tomás bem o "sabe" - não é casual: se há quem saiba porque estudou, verdadeiramente sábio, porém, é aquele que sabe porque saboreou...

    Se a sabedoria não pressupõe só uma dimensão intelectual, mas está integrada ao todo da existência, não é de estranhar, que, dentre os conselhos dados por Tomás sobre o modo de estudar, encontremos a exortação ao silêncio, à vida de oração, à amabilidade, à humildade, à pureza de consciência, à santidade...

    Nesse sentido, deve-se observar também que o alcance semântico da própria palavra studium em latim é muito mais abrangente do que a nossaestudo. Studium significa amor, afeição, devotamento, a atitude de quem se aplica a algo porque ama e, não por acaso, esse vocábulo acabou especializando-se em dedicação aos estudos. Assim, o próprio título do opúsculo de Tomás Sobre o modo de estudar, sugere algo assim como: Sobre o modo de aplicar-se amorosamente...

    E, na verdade, o que Tomás propõe é nada menos do que uma dedicação integral, uma consagração à vida intelectual. Um estilo de vida muito exigente, que supõe uma ascese de relacionamento do homem com Deus (cfr. p. ex. DMS, 3), com os outros (cfr. p. ex. DMS, 5) e consigo mesmo (cfr. p. ex. DMS, 12).

    Na visão compartimentada do conhecimento que temos hoje, esperamos que nosso aluno demonstre teoremas, calcule empuxos, balanceie equações químicas, escreva redações sugestivas e conjugue corretamente os verbos; o que ele é enquanto homem, isto é lá com ele... Já para Tomás, como se vê no De modo studendi, alguém dedicado ao estudo deve, antes de mais nada, cuidar das atitudes da alma.


    3. O silêncio como pressuposto da vida intelectual.

    Talvez não haja nada mais oposto ao espírito de nosso tempo do que os conselhos de Tomás que recomendam o cultivo do silêncio. E, no entanto, trata-se, como explica, um dos principais filósofos da educação contemporâneos, Josef Pieper (Viver do Silêncio), de uma das regras fundamentais da vida intelectual e da vida do espírito.


    4. A descoberta da realidade como objetivo da vida intelectual.

    No que se refere à vida intelectual, Tomás afirma a existência de uma ordo, de uma dinâmica própria do conhecimento, daí que o Aquinate freqüentemente compare o sábio ao arquiteto. Certamente, essa ordo exige uma ordenação do próprio objeto de estudo: do mais fácil para o mais difícil; do riacho para o alto mar. Mas a aquisição do tesouro do saber exigirá também uma ordenação interior do sujeito que estuda. A essa ordo interius referem-se os conselhos do De modo studendi. Afinal, o conhecimento da realidade é, para Tomás, o objetivo da educação, e mais, a própria realização do homem.



    DE MODO STUDENDI

    Quia quaesisti a me, in Christo mihi charissime frater Joannes, quomodo oportet incedere in thesauro scientiae acquirendo, tale a me tibi super hoc traditur consilium: ut per rivulos et non statim in mare, eligas introire, quia per facilia ad difficilia oportet devenire. Huiusmodi est ergo monitio mea de vita tua:

    1. Tardiloquum te esse iubeo, et tarde ad locutorium accedentem.

    2. Conscientiae puritatem amplecti.

    3. Orationi vacari non desinas.

    4. Cellam frequenter diligas, si vis in cellam vinariam introduci ( [4] ).

    5. Omnibus amabilem te exhibeas, vel exhibere studeas, sed nemini familiarem te multum ostendas; quia nimia familiaritas parit contemptum et retardationis materiam a studio subministrat.

    6. Et de factis et verbis saecularium nullatenus te intromittas.
    7. Discursum super omnia fugias.

    8. Sanctorum et proborum virorum imitari vestigia non omittas.

    9. Non respicias a quo, sed quod sane dicatur memoriae recommenda.

    10. Ea quae legis fac ut intelligas, de dubiis te certificans.

    11. Et quidquid poteris, in armariolo mentis reponere satage sicut cupiens vas implere.

    12. Altiora ne te quaeras.

    13. Illius beati Dominici sequere vestigia, qui frondes, flores et fructus, utiles ac mirabiles, in vinea Domini Sabaoth, dum vitam comitem habuit, protulit ac produxit.

    Haec si sectatus fueris, ad id attingere poteris, quidquid affectas.

    Vale.



    SOBRE O MODO DE ESTUDAR


    Tomás de Aquino


    Já que me pediste, frei João - irmão, para mim, caríssimo em Cristo -, que te indicasse o modo como se deve proceder para ir adquirindo o tesouro do conhecimento, devo dar-te a seguinte indicação: deves optar pelos riachos e não por entrar imediatamente no mar, pois o difícil deve ser atingido a partir do fácil. E, assim, eis o que te aconselho sobre como deve ser tua vida:

    1. Exorto-te a ser tardo para falar e lento para ir ao locutório.

    2. Abraça a pureza de consciência.

    3. Não deixes de aplicar-te à oração.

    4. Ama freqüentar tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho da sabedoria.

    5. Mostra-te amável com todos, ou, pelo menos, esforça-te nesse sentido; mas, com ninguém permitas excesso de familiaridades, pois a excessiva familiaridade produz o desprezo e suscita ocasiões de atraso no estudo.

    6. Não te metas em questões e ditos mundanos.

    7. Evita, sobretudo, a dispersão intelectual.

    8. Não descuides do seguimento do exemplo dos homens santos e honrados.

    9. Não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão e isto, confia-o à memória.

    10. Faz por entender o que lês e por certificar-te do que for duvidoso.

    11. Esforça-te por abastecer o depósito de tua mente, como quem anseia por encher o máximo possível um cântaro.

    12. Não busques o que está acima de teu alcance.

    13. Segue as pegadas daquele santo Domingos que, enquanto teve vida, produziu folhas, flores e frutos na vinha do Senhor dos exércitos.

    Se seguires estes conselhos, poderás atingir o que queres.

    Saudações.





    ( [1] ) Martin Grabmann - em seu Die Werke des Hl. Thomas von Aquin, Münster, Verlag der Aschendorffschen Verlagsbuchhandlung, 2a. ed., 1931, p. 372-373 - considera o De modo studendi um opúsculo autêntico. Contra as reservas (embora mínimas) que Mandonnet guarda a propósito da autoria do De modo studendi - incluído por ele entre os vix dubia de Tomás, Opusculum XLIV, opúsculos de que dificilmente se pode duvidar de que o autor seja o Aquinate (S. Thomae Aquinatis: Opuscula Omnia cura et studio R.P. Petri Mandonnet, vol. IV Paris, Lethielleux, 1927) -, Victor White, em seu How to study, 2a. ed., Oxford, Blackfriars, 1949, aponta razões intrínsecas que confirmam a tese da autenticidade desse opúsculo. Para a tradução, valemo-nos do texto latino apresentado por White.
    ( [2] ) Como é o caso de sua carta Resposta a Seis Questões do Ir. Gerardo de Soissons: "Embora esteja muito ocupado em diversos assuntos, cuidei de responder logo que me foi possível, para não desatender a vosso pedido". E o mesmo diz a um importuno veneziano que escreveu uma carta dirigindo-lhe 36 questões exigindo, como ironicamente frisa Tomás, "resposta em quatro dias".
    ( [3] ) White observa que S. Tomás, seguindo o uso do século XIII, sempre se vale do tratamento "vós" para superiores ou iguais; nesta carta, porém, emprega o "tu".
    ( [4] ) Citação implícita da Bíblia: "Introduxit me in cellam vinariam" Cant. 2, 4.


    Fonte: hotoppos

    quarta-feira, 24 de abril de 2013

    Clicar, em vez de viver, tornou-se norma

    Por Marsílea Gombata
    Fonte: Carta Capital

    Em meio ao burburinho da sala onde fica o quadro Mona Lisa, no Museu do Louvre, em Paris, o fotógrafo Fabio Seixo percebeu algo não exatamente errado, mas exagerado. Os visitantes se espremiam para disparar os flashs da máquina e ter a foto de uma das imagens mais intrigantes e conhecidas do mundo. A guerra para fotografar a musa enigmática imortalizada por Leonardo da Vinci revelava, ali, algo maior: a necessidade de se vivenciar, por meio da foto, a experiência do presente.
    “É uma imagem tão icônica quanto aquela de Che Guevara (feita por Alberto Korda em 1960). Pensei: ‘Nossa, que loucura. Será que as pessoas não conhecem a Mona Lisa?’ Então tive um estalo e vi que elas, na verdade, viajam muito mais para marcar território e dizer que estiveram lá do que para curtir a viagem”, reflete.



    As redes sociais aumentaram a febre da fotografia. Fotos: Fábio Seixo
    As redes sociais aumentaram a febre da fotografia. Fotos: Fábio Seixo


    A experiência em 2005 fez germinar uma semente batizada de Photoland. O projeto, que tem pretensão de virar livro depois de ter ganho exposições no Rio de Janeiro e espaço no festival Paraty em Foco, busca refletir de que modo o ato de fotografar se tornou mais importante do que a vivência e como, em uma espécie de compulsão, ganha fôlego no fértil terreno da tecnologia digital. “Quando você está na Torre Eiffel, se fotografa ali e posta essa imagem, está afirmando sua presença nesse lugar, dizendo que esteve lá”, fala o autor sobre o que considera uma experiência narcisista. “A câmera é um anteparo entre você e as coisas. Então, quando se fotografa, deixa-se de viver o presente para vivenciar a experiência de estar fotografando.”
    Foi a possibilidade de mergulhar no universo da escrita com luz que lhe permitiu a reflexão sobre essa dinâmica. O fotógrafo nascido no Rio de Janeiro tem contato com o ofício desde a infância, quando frequentava a redação da extinta Iris Foto, revista histórica com auge nos anos 1970 e 1980, cuja editora era da família de sua tia. Ao concluir a faculdade de jornalismo, não teve dúvida sobre qual caminho seguir e foi trabalhar como fotógrafo de jornal diário. A experiência durou cinco anos. Em 2004, tornou-se autônomo.
    Ao refletir sobre a experiência do mundo da fotografia digital atrelada ao narcisismo, existe a intenção de transformar o ato de fotografar em paisagem. A fotografia passa a fazer o papel da natureza, instaurando-se como realidade física. Seixo observa que a intenção de debater os fotógrafos amadores em ação como se fossem paisagem vem da própria imagem autobiográfica. Até que ponto o autor da foto faz parte da cena? “Nesse ato, acabamos perdendo a paisagem. É como se ela não tivesse importância e nós nos tornássemos a própria.”


    Metalinguagem. "Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para esquecer", afirma Fábio Seixo, do projeto Photoland
    Metalinguagem. “Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para esquecer”, afirma Fábio Seixo, do projeto Photoland


    Na fotografia da fotografia, os cartões-postais não são a Torre Eiffel, o Coliseu, o Empire State Building ou o Buckingham Palace. São, no lugar, quem ali esteve na busca por um arquivo fotográfico cada vez mais amplo. Os traços sobre a necessidade de ser visto são propositais na obra. “O projeto esbarra na questão da visibilidade. Não basta ser um bom médico, um bom professor ou um bom jornalista se você não estiver referendado pelos dispositivos de visibilidade, como mídia e redes sociais”, analisa. “Isso, paradoxalmente, denota o quanto estamos nos tornando uma fotografia de nós mesmos. Não sabemos mais quando estamos posando ou sendo natural. É como se estivéssemos o tempo todo representando um personagem.”
    A ideia é refletida de forma parecida em projetos de outros artistas pelo mundo, como o Into The Light, do alemão Wolfram Hahn, que busca imortalizar o momento em que os indivíduos tiram fotos de si mesmos, ou o Too Much Photography, no qual o britânico Martin Parr retrata o frenesi de turistas em pontos conhecidos pelo mundo. Ambos são apreciados por Seixo.
    Da observação na sala do Louvre até hoje, Seixo viajou a várias partes do mundo para realizar o projeto. Além da França, passou por Estados Unidos, México, Inglaterra, Itália, Peru, e, é claro, sua cidade natal. O próximo destino do Photoland é o Japão, país-chave do projeto cujo nome faz alusão à Disneyland.
    “Hoje estamos todos virando meio japoneses, que têm uma semana de férias e viajam com a câmera fotografando tudo. É como se tivessem a experiência da viagem somente depois, vendo as fotos.”
    Soma-se a isso a proporção alcançada graças às redes sociais, alimentadas pela necessidade de likes sobre comentários e fotografias postadas na internet. Uma febre ligada ao desejo de registrar tudo para todos que, ele confessa, cansa. “Quando você fotografa muito, o excesso de imagens gera um ruído e anula qualquer possibilidade de memória por causa da quantidade. Assim, quanto maior seu arquivo pessoal, menos sentido ele faz.”



    Clicar, em vez de viver, tornou-se norma
    Clicar, em vez de viver, tornou-se norma



    Na busca pelo silêncio e pela distância dos ruídos, Seixo tenta formas de escapar desse ciclo, como correr e observar o raiar do dia. É o momento em que se permite desligar o celular e deixar o tempo passar, sem registro, horário ou compromisso. Além do trabalho com moda e publicidade, é professor de Fotografia e desenvolve outros trabalhos autorais, entre eles Marca-D’água, que mostra o impacto das chuvas de 2011 na região serrana do estado do Rio de Janeiro por meio das lonas utilizadas pelos moradores para cobrir as encostas e se proteger.
    Segundo ele, o fato de a fotografia ser o maior hobby do mundo e estar, cada vez mais, facilitada pelo acesso à tecnologia enfraquece a ferramenta: “A fotografia, que sempre foi um instrumento de memória, passa a ser um dispositivo do esquecimento. Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para poder esquecer. É como se cada vez que você apertasse o botão, aquela imagem fosse para um buraco negro”.

    Assim morreu Bayard, "o cavaleiro sem medo e sem mancha"






    Bayard, estátua em St. Anne d'Auray, Bretanha, França
    Pierre Terrail, senhor de Bayard (1476 – 30 de Abril 1524) foi um cavaleiro francês que nascido no fim da Idade Média levou o espírito medieval até a era seguinte, i. é, a decadente Renascença. Ele ficou geralmente conhecido como o Cavaleiro de Bayard. Desde sua morte é lembrado como "o cavaleiro sem medo e sem mancha", (le chevalier sans peur et sans reproche). Ele porém, preferia ser tratado apenas como "le bon chevalier", i. é, "o bom cavaleiro".
    Faleceu na passagem alpina de Sesia protegendo a retaguarda do exército real francês, acossada por tropas espanholas comandadas pelo marqués de Pescara.



    Os atiradores eram excelentes. Dois tiros simultâneos: um prostrou por terra mortalmente Jean de Chabannes, senhor de Valdenesse; o outro atingiu Bayard e lhe quebrou a espinha dorsal.




    “Senhor Jesus!” — bradou, agarrando-se no arção de sua cela para não cair. Aqueles que o rodeavam ouviram-no ainda exclamar: “Senhor Deus, vou morrer!”



    Correram para auxiliá-lo, mas todo socorro humano era impotente. Sentindo que suas forças o abandonavam, Bayard tirou sua espada, que havia tanto tempo o acompanhava em todas as pelejas, e que tão bem lutara pela França. Ergueu-a, contemplou-a, depois osculou a cruz que havia no punho, como se quisesse associar, neste gesto, a devoção pelo Redentor e o amor pela arma do cavaleiro.


    “Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam” — escapa de seus lábios contritos. Repentinamente calou-se. Estava mortalmente pálido e oscilava na sela. Jean Joffrey, seu escudeiro, que havia muito tempo o servia fielmente e o escoltava em todas as suas proezas, ajudou seu senhor a descer do cavalo.


    À sombra do carvalho


    Bayard reabriu os olhos. Com um gesto mostrou um carvalho que havia por perto, e fez sinal de que queria repousar à sombra da árvore venerável. “Desejo esperar a morte vendo de frente meus inimigos — murmurou —. Eu nunca lhes voltei as costas. Pela honra de cavaleiro católico, não é agora que o farei”. Um nobre aliado seu aproximou-se, suplicando a Bayard que se deitasse na maca que os soldados haviam feito com suas lanças; mas ele recusou.

    Bayard se aproximava de sua última proeza: o encontro face a face com Deus. Por entre seus últimos esforços, ouviram-se dele estes gemidos: “Em cada movimento sinto as dores da morte que me vem buscar”.

    Seu escudeiro chorava, ajoelhado junto a seu senhor. Bayard, apesar de seu estado, demonstrando um afeto especial, afagou-lhe a cabeça: “Jacques, amigo, enxuga essas lágrimas. É vontade de Deus que eu deixe este mundo. Por Sua graça eu nele fiquei muito tempo, e recebi bens e honras imerecidos. A única coisa que lamento é não ter cumprido meu dever tão bem quanto deveria. Se tivesse mais tempo, corrigiria as faltas passadas; mas se Ele me quer chamar agora, suplico que Ele tenha piedade de mim, pela sua imensa misericórdia. Confio que, pela intercessão de sua Mãe Santíssima, ele olhará para sua misericórdia, e não para meus pecados, que pediriam Sua Justiça punitiva”.

    Os inimigos assomam ao longe, dirigindo-se em carga de cavalaria a Bayard e seus companheiros. Querendo poupar sacrifícios a seus pares e súditos, Bayard logo pediu que o deixassem, mas eles com galhardia não acederam.

    Então o nobre cavaleiro pediu a seu escudeiro que o ouvisse em confissão, pois ali não havia sacerdote que pudesse escutar suas faltas e lhe dar a absolvição. Ao preboste de Paris, Sr. d’Alègre, ele confiou seus últimos desejos.


    Despedida dos seus



    Bayard, estátua em Grenoble, detalhe
    Depois disso ele suavemente afastou de si os que o rodeavam:


    “Senhores, eu vos suplico, ide-vos. Do contrário, caireis nas mãos dos inimigos, e isto não me será de nenhum proveito, porque me sentirei culpado. Adeus, meus bons senhores e amigos. Recomendo às vossas orações minha alma pecadora. Eu vos suplico, senhor d’Alègre, que saudeis por mim o rei, nosso senhor. Dizei-lhe quanto lamento não ter podido servi-lo por mais tempo e como eu muito gostaria. Saudai também os senhores príncipes, todos os meus companheiros e todos os gentis-homens da doce França, quando os virdes”.


    Eles insistiram em ficar, segurando mesmo suas vestes, mas ele os repeliu com uma afetuosa insistência; e como quisessem resistir, fez um gesto: “Eu ordeno!” Docilmente eles se despediram. Entre lágrimas, beijaram-lhes as mãos, enquanto crescia o grupo de cavaleiros inimigos. Via-se o brilho dos capacetes e o movimento dos estandartes.

    Joffrey era o único junto dele. Bayard, exausto, fechara os olhos. O vento agitava os ramos do carvalho.


    O inimigo espanhol



    Quando Bayard, com dificuldade, reabriu os olhos, um cavaleiro coberto de esplêndida armadura, refulgente de sedas e penachos, estava diante dele. Bayard sorriu. Era um adversário digno dele, um bravo guerreiro: o marquês de Pescara. O general espanhol estava admirado de ver um homem reclinado num tronco, junto ao qual chorava o escudeiro. Quando reconheceu o “cavaleiro sem medo e sem mácula”, o marquês desmontou rapidamente e se aproximou, cheio de respeito e compaixão.

    “Prouvesse a Deus, senhor de Bayard, que eu vos fizesse prisioneiro, mesmo que para isso derramasse a quarta parte do meu sangue. Nesse embate que teríamos, conheceríeis o grande apreço que tenho por vossas qualidades. Desde que empunhei armas, não ouvi falar de cavaleiro que, em virtudes, se aproximasse de vós!” Assim falava ele por causa da grande fama que Bayard tinha adquirido, pela sua vida de valor e devotamento, o que obrigava seus próprios inimigos a admirá-lo, respeitá-lo e temê-lo.


    Bayard assiste o rei Francisco I na vitória de Marignano
    “Eu deveria estar bem aliviado de vos ver assim — disse ainda o marquês — sabendo bem que nas guerras o Imperador, meu senhor, não tem maior nem mais feroz inimigo. Entretanto, quando considero a enorme perda que hoje sofre a Cavalaria, Deus é testemunha de que eu preferiria dar a metade do que possuo, para que tal não acontecesse. Mas como para a morte não há remédio, peço Àquele que nos criou à Sua Imagem que se digne levar vossa alma para junto d’Ele”.

    Em seguida insistiu para que o deixasse levá-lo a seu castelo, assegurando-lhe que seus cirurgiões o curariam. Jamais um cavalheiro usou convites tão amáveis e insistentes para atrair a seu castelo um nobre hóspede.

    Bayard sabia que Pescara era sincero, e que seria tratado como cavaleiro por esse inimigo honrado. Pressentindo que a morte lhe era certa, Bayard, apesar de seus ferimentos, declinou honrosamente o convite: “Prefiro a simplicidade do campo de batalha, pois desejo morrer como o guerreiro que sempre fui”.

    Pescara acedeu. Para atender aos desejos do Cavaleiro, ele fez armar sua própria tenda ao redor da árvore, arrumou um leito e nele colocou, com suas próprias mãos, o inimigo ferido. Então, ali já não estavam dois guerreiros inimigos servindo causas opostas, mas dois cavaleiros, fraternalmente unidos pelo espírito da Cavalaria, animados do mesmo ideal, que as circunstâncias tinham colocado em campos opostos, embora nutrissem mutuamente uma admiração varonil.
    Bayard não quis receber os médicos que se apresentaram para tratá-lo. Acolheu devotamente o capelão do marquês, ao qual renovou sua confissão feita minutos antes a Joffrey, seu escudeiro. Depois pediu que o deixassem sozinho.

    Bayard, vitral na capela da Universidade de Princeton
    Enquanto ele se recolhia, Pescara organizou seu exército em ordem de desfile. As ordens de comando ressoavam de uma extremidade a outra do esquadrão; ouvia-se o galope dos cavalos, o rufar dos tambores, o soar das trombetas. Todos esses sons familiares flutuavam ao redor do agonizante.

    Irrompeu o som marcial de uma grande fanfarra, acompanhando o passo cadenciado dos cavalos e a marcha pesada dos inimigos de Bayard.

    O exército espanhol desfilava ante o Cavaleiro moribundo, inclinando seus estandartes no momento em que passavam pelo carvalho. Assim era o último adeus de Pescara, a última homenagem de um bravo prestada a outro bravo.


    “A França tem uma perda irreparável neste nobre Cavaleiro, dizia François d’Avalos, antes de se despedir dele”.

    A noite caía. O rumor do exército em marcha se extinguia ao longe. Novamente a calma do crepúsculo e o silêncio rodeavam o carvalho. Bayard rezava.


    Último encontro



    Uma voz familiar o arrancou de sua meditação: “Ah! Senhor de Bayard, que sempre estimei por vossa bravura e lealdade, muito lamento ver-vos neste estado!”

    O rosto de Bayard tornou-se grave e hostil. Por que ser perturbado por tal homem, em tal momento? O condestável de Bourbon estava à sua frente, e em seu olhar havia uma sincera compaixão e também uma admiração sincera; talvez remorso.

    O momento não era para explicações. Bayard não queria saber as razões que haviam levado esse homem a combater num exército estrangeiro e contra seu rei. Sem dúvida, Bourbon viera para se justificar, para explicar, mas Bayard não queria ouvi-lo, não queria conhecer as explicações de um homem que havia cometido uma felonia em relação ao seu rei.

    Bourbon esperava uma palavra: um julgamento ou um perdão. Queria partir absolvido por este homem de honra, mas Bayard desdenhou discutir.

    “Senhor, eu vos agradeço. Não tenhais piedade de mim, que morro como homem de bem, servindo meu rei. Mas ai de vós, que empunhais armas contra vosso príncipe, vossa pátria e vossa Fé”.

    Dito isto, calou-se. Já estava acima de vãs querelas humanas, de ambição e de interesse; de guerras absurdas, de intrigas mesquinhas, de matanças inúteis. Bayard pertencia agora a Deus, e para Ele dirigia seus últimos pensamentos. À medida que se afastava da terra, ele se aproximava da pura luz da suprema Verdade, das certezas definitivas. Rezava.

    “Meu Deus, Vós que dissestes, eu o sei, que aquele que se voltasse para Vós, embora pecador, estaríeis sempre pronto a recebê-lo e perdoá-lo. Ah!, meu Deus, Criador e Redentor, eu vos ofendi gravemente durante minha vida. Peço-vos perdão, com o coração contrito. Reconheço que, se me retirasse por mil anos no deserto, vivendo a pão e água, isso ainda não seria bastante para entrar em vosso reino, se, por vossa grande e infinita bondade não vos dignásseis ali me receber, porque ninguém pode merecer neste mundo tão alta recompensa. Meu Pai e Salvador, eu vos suplico que não considereis as faltas que cometi. Julgai-me segundo vossa grande misericórdia, e não segundo os rigores de vossa justiça”.


    O sol desaparecera. A noite caíra. A oração de Bayard interrompeu-se. O Cavaleiro estava na presença de Deus...




    (Fonte: Marcel Brion, "Historia", nº 329, abril de 1974)

    O MISTÉRIO NOS OLHOS DA VIRGEM DE GUADALUPE





    Apareceu a Virgem Maria[1] ao índio Juan Diego na colina do Tepeyac, ao norte da Cidade do México em dezembro de 1531 e lhe pediu para que ali fosse construído um templo. Dirigiu-se o índio ao Bispo, Juan de Zumárraga, que cético solicitou uma prova efetiva de tal aparição. A Virgem Maria apareceu novamente ao índio e solicitou que colhesse as rosas e outras flores que estavam na colina, insólitas para o inverno e o solo árido, e as colocasse em seu tilma – o avental típico dos camponeses astecas, pedindo para que somente o abrisse diante do Bispo, como prova da aparição. Quando Juan Diego abriu o tilma, as rosas e as outras flores caíram e nele apareceu estampado a fulgurante imagem de Nossa Senhora, conservado intacto até hoje. O Bispo se ajoelhou maravilhado e arrependido, pediu perdão à Virgem Maria pela desconfiança e colocou-a na capela.





    Dr. Adolfo Orozco [2]  , físico e pesquisador, assegura que não há explicações científicas para quase cinco séculos de alta qualidade de preservação da tilma ou para os milagres que ocorrerão garantindo a sua preservação.  Segundo ele: “Todos os tecidos semelhantes com a Tilma que foram submetidos a ambientes salinos e à umidade em torno da Basílica não duraram mais do que 10 anos”. Uma pintura da imagem miraculosa, criada em 1789, estava em exposição em uma igreja próxima da basilica onde a Tilma foi colocada. “Esta pintura foi feita com as melhores técnicas daquele tempo, a cópia é linda e feita com uma tela muito parecida com aquela da Tilma. A imagem também foi protegida com vidro desde a primeira vez que foi colocada lá.”. No entanto, oito anos depois, a cópia da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe foi descartada porque as cores estavam desbotando e os fios se rompendo. Em contraste, Dr. Orozco diz,“a Tilma original foi exposta por aproximadamente 116 anos sem nenhum tipo de proteção, recebendo todas as radiações infravermelhas e ultravioletas das dezenas de milhares de velas próximas dela e exposta à umidade e salinidade do ar ao redor do templo.” 

    Em 1936, um professor alemão que vivia no México, Fritz Hahn, foi convidado pelo governo a assistir aos jogos olímpicos daquele ano em Berlin. Pouco antes de partir para a Europa, recebeu do Dr. Ernesto Pallanes duas fibras da imagem sagrada, uma vermelha e outra amarela. Ele havia recebidos as mesmas do Bispo de Saltillo, que por sua vez foi presenteado com elas pelo padre da Basilica, Don Feliciano Echavarria, diretamente do relicário dos bispos. Juntamente com as duas fibras, o Professor Hahn levou uma carta de recomendação de Marcelino Junco, professor aposentado de química orgânica na Universidade Nacional do México, para o alemão vencedor do Prêmio Nobel em Química, Richard Kuhn, diretor do departamento de química na Intituição de Kaiser Wilhelm, em Heidelberg.

    Kuhn examinou as fibras com a sua meticulosidade de costume e então fez um anúncio inacreditável. Não havia nenhum tipo de corante nas fibras. Os materiais utilizados para produzir o que se parecia com as cores eram desconhecidos pela ciência, não sendo de origem vegetal ou animal, nem corantes minerais. A utilização de corantes sintéticos foi descartada, visto que foram desenvolvidos três séculos após a criação da imagem sagrada.

    A hipótese de que a imagem sagrada é uma pintura foi posteriormente desacreditada em 1946 quando uma análise microscópica revelou não haverem traços de pincel. Também não havia qualquer sinal da assinatura do artista no canto inferior da imagem. Em 1954 e novamente em 1966, o professor mexicano Francisco Camps Ribera realizou um estudo exaustivo da Imagem Sagrada e chegou à mesma conclusão. Se, então, a imagem não foi uma pintura, o que é? Sua composição material tinha que ser algo definível, uma vez que foi observado e, na verdade tangível. Mas se ele era de origem sobrenatural, como isso poderia ser equiparado com o mundo material, em termos de ciência física? [3]

    Não é uma imagem produzida por mãos humanas, demonstraram os cientistas Jody Brant Smith e Philip Serna Callahan que a analisaram com raios infravermelhos e afirmaram: “A origem da imagem de Guadalupe é inexplicável.”

    Dr. Callahan, no fim de seu detalhado estudo, chega a seguinte conclusão:

    "A pintura original – incluindo a túnica rosa, o manto azul, as mãos e a face é inexplicável. Em termos deste estudo por infravermelho, não há como explicar, seja o tipo de pigmentos de cor utilizados, seja a preservação da luminosidade da cor e o brilho dos pigmentos através dos séculos. Além disso, quando se considera o fato de que não existe esboço e dimensionamento (...), e que a própria trama do tecido é utilizada para dar profundidade ao retrato, nenhuma explicação do retrato é possível por meio de técnicas de infravermelho. É notável que depois de mais de quatro séculos não haja desbotamento ou rachaduras da pintura original em nenhuma porção do tilma, o qual - sendo de tamanho menor - deveria ter se deteriorado séculos atrás." [4]

    Há um Mistério nos Olhos da Virgem Maria.  Seus olhos, na imagem, apresentam uma córnea curva, além de apresentar o fenômeno de Sanson-Purkinje[5], tal qual olho humano, fato este corroborado por uma série de renomados cientistas e oftalmologistas que estudaram o tilma, entre eles: Dr. Javier Torroela-Bueno, Dr. Rafael Torija-Lavoignet, Dr. Enrique Graue, Dr. Jorge A. Escalante Padilla e Dr. Aste-Tonsmann.

    Em 1975, após analisar a imagem, afirmou Dr. Enrique Graue: “A sensação é de estar vendo um ‘olho vivo’ e realmente não pode ser pensado em algo menos do que sobrenatural.” [6]

    Dr. Jorge A. Escalante Padilla também relatou a descoberta de pequenas veias em ambas as pálpebras da Imagem. Na década de 1970, um oftalmologista japonês que estava examinando os olhos desmaiou. Quando se recuperou,  afirmou que os olhos estavam vivos e olhando para ele! [7]

    Em 1979, Dr. Jose Aste Tonsmann, PhD, graduado em engenharia pela Universidade de Cornell (EUA), enquanto trabalhava no Centro Científico da IBM, no processamento por computador de imagens transmitidas por satélites artificiais passou a estudar o manto de Guadalupe, usando uma fotografia de alta resolução do original – após filtrar e digitalizar a imagem, publicou seus magníficos resultados em 1981[8]. Os olhos da Imagem medem de 2 a 5mm de altura por 3 a 7mm de comprimento. Em seu computador, dividiu nas fotografias, cada milímetro quadrado em 1.600 até 27.770 micro-quadrados, e amplicou, de 30 a cerca de 2.000 vezes cada micro-quadrado, confirmando não só a existência do fenômeno de Sanson-Purkinje mas percebeu que haviam várias figuras humanas refletidas em ambos os olhos. E no centro da pupila da Virgem de Guadalupe uma família indígena, uma jovem índia carregando um bebê amarrado nas costas e duas crianças. Mero acaso?

     



    A família, dizia o grande escritor inglês G.K. Chesterton, é uma célula de resistência à opressão. Ela é a célula-mater da sociedade e como afirmou Bento XVI é um dos tesouros mais importantes da sociedade humana.

    Por que no centro dos olhos da Virgem de Guadalupe se encontra uma família? Por que Deus, em seus desígnios, permitiu que esta descoberta fosse feita diante da loucura insana hedonista hodierna? Seria mais uma coincidência ou tem a Virgem algo a nos dizer perante tantas leis iníquas que visam perverter princípios morais básicos, destruir os lares e sucumbir o ordenamento jurídico?

    Quando o ser humano perde a sensibilidade diante da vida e trata os seus como um amontoado de células, mero lixo descartável e chega ao ponto de defender o assassinato de um inocente, a Virgem Maria tem algo a nos dizer. Nos seus olhos, há um grito de desespero e de dor.

    Já dizia São Luiz Maria Grignion de Montfort, que foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo. Que Nossa Senhora de Guadalupe, Imperatriz da América, triunfe e proteja os lares do Brasil e livre esta nação da maldição do aborto!




    Rafael Volpato

     “Minha certeza de que houve milagres na História humana não é em absoluto uma crença mística. Acredito neles pela evidência humana, do mesmo modo que faço com respeito à descoberta da América (...). De algum modo surgiu a peregrina idéia de que aqueles que acreditam nos milagres aceitam-nos unicamente por força de um dogma. A verdade é totalmente o contrário: os que acreditam em milagres, reconhecem-nos (...) unicamente por que apresentam alguma evidência. Aqueles que não acreditam em milagres, rejeitam-nos (...) inspirados por alguma doutrina contrária."
    G.K.Chesterton, Orthodoxy, 1959


    [1] A história aqui apresentada compacta encontra-se detalhada nos livros A Handbook On Guadalupe e The Wonder of Guadalupe, cuja leitura recomendo.
    [2] Entrevista concedida à CNA: http://www.catholicnewsagency.com/news/our_lady_of_guadalupe_completely_beyond_scientific_explanation_says_researcher/
    [3] Francis Johnston, The Wonder of Guadalupe, 1981, pg. 121
    [4] Philip Serna Callahan, The Tilma Under Infra-Red Radiation: An infrared and artistic analysis of the image of the Virgin Mary in the Basilica of Guadalupe, 1981, pg.18
    [5] Jody Brant Smith, The Image of Guadalupe, 1994, pg. 54
    [6] Jody Brant Smith, The Image of Guadalupe, 1994, pg. 55
    [7] A Handbook on Guadalupe, Franciscan Friars of the Immaculate,1996, pg. 90
    [8] Dr. José Aste Tonsmann, Los ojos de la Virgen de Guadalupe - Un estudio por computadora electrónica, Editorial Diana, 1981

    segunda-feira, 22 de abril de 2013

    Da pornografia para a pureza - um testemunho, um caminho…




    "Houck pede ao clero para que seja mais pró-ativo em confrontar o mal da pornografia. “Nunca ouvi uma homilia sobre pornografia ou sobre anticoncepcionais. Essas são as principais frentes de batalha na Igreja hoje em dia, e não vemos nenhum combate por parte de quem ocupa o púlpito”, ele diz."





    Mark Houck ao lado do Pe. Richard Gray, da Universidade Católica de Maryland

      

    Mark Houck era jogador de futebol americano na Universidade Católica. Ele era também viciado em pornografia. “A primeira vez que vi pornografia tinha 10 anos de idade”, confessou Houck em sua palestra proferida no Centro Cultural João Paulo II, em Washington, Estados Unidos. “Meu problema com a pornografia se tornou sério quando entrei na universidade. Era um problema crônico para mim”. Mark não é o único a ter esse problema. O vício em pornografia, uma adicção psicológica caracterizada pela obsessão em ver, ler e pensar sobre pornografia em detrimento de outras áreas da vida, é o vício mais comum no mundo de hoje, ele garante.

    Em 2006, as receitas gerais da indústria pornográfica chegaram a estimados 97 bilhões de dólares – um montante maior que o das maiores companhias de tecnologia juntas: Macintosh, Google, eBay, Yahoo, Netflix e Earthlink. Com ganhos anuais de 13,3 bilhões de dólares, os Estados Unidos são o país onde há mais ganhos com pornografia: 89% de todos os sites pornográficos são dos Estados Unidos. A faixa etária que mais consome pornografia online é formada por adolescentes de 12 a 17 anos. Um estudo descobriu que 5 de cada 10 homens fiéis de igreja (praticantes de religião) vêem pornografia na Internet.

    Houck, apesar de ter tido 22 anos de educação em colégio católico, incluindo a faculdade, tornou-se viciado em pornografia. Ele diz: “Eu não sabia o que era pecado mortal, não conhecia minha fé católica”. Mas na idade de 26 anos, ele se lembra que algo aconteceu. “Comecei a me preocupar com esse problema, e assumi um compromisso diante de Deus de que pararia de olhar para a pornografia. Fiquei livre somente por causa da graça de Deus”. Houck tornou-se um palestrante, divulgando a castidade, na organização “Generation Life”. Em 2006 ele fundou “The King’s Men”, um apostolado masculino que ensina os homens a cumprirem seu papel diante de Deus, de líderes, protetores e responsáveis pela família.

    Segundo Houck, os homens não devem ficar na defensiva diante do monstro da pornografia. “A natureza do homem é a de um guerreiro. Você é chamado a estar na batalha, a liderar”. Como parte de sua posição agressiva contra a pornografia, a organização “The King’s Men” regularmente organiza manifestações em áreas próximas a lojas de material pornográfico. Mas Houck alerta que o vício em pornografia pede compaixão, e não condenação para suas vítimas.

    O Dr. Mark Laaser, em seu livro, “Healing the Wounds of Sexual Addiction” (Curando as feridas da adicção sexual) aponta para o fato de que a pornografia é um sintoma de um problema bem maior. “O vício (adicção) é uma auto-medicação para tentar curar alguma ferida séria em sua vida”, explica Houck. “Se quisermos ajudar as pessoas, precisamos chegar até a ferida”. Dr. Mark acredita que sua própria ferida psicológica foi a morte de seu pai, quando ele tinha apenas 11 anos. “Para muitos homens, a ‘ferida do pai’ é um problema-chave. Provavelmente é pior para um rapaz cujo pai está fisicamente presente, mas espiritualmente ausente”.
    Essas feridas levam a quatro crenças básicas: (1) Eu não sirvo para nada, ninguém me ama. (2) Se as pessoas realmente me conhecessem, me rejeitariam. (3) Não posso ficar dependendo de ninguém para satisfazer minhas necessidades; portanto, minha melhor amiga é a pornografia em revistas, vídeos ou na Internet. (4) O sexo ou a pornografia é minha maior necessidade.

    Se você quer curar-se do vício da pornografia, Houck avisa que é necessário primeiro perguntar a si mesmo: “Eu realmente quero ficar bem?” Nós ‘gostamos’ do nosso pecado; por isso, nos tornamos ligados a ele, segundo Houck. Santo Agostinho certa vez falou para Deus: “Dai-me continência e castidade, mas não agora”. Do que você tem mais sede, das coisas da terra, ou das coisas do céu? As coisas dessa terra nunca irão satisfazê-lo completamente. Pelo que você estaria disposto a morrer? Você preferiria morrer a cometer um pecado mortal? Houck acredita que, como Santa Maria Goretti, devemos ter essa determinação.

    No livro “Pornografia, qual o problema?”, que escreveu para a Conferência Católica dos Bispos dos Estados Unidos, Houck oferece dez passos para superar o vício da pornografia:



    1. Decida ficar bem e se determine a parar de ver qualquer forma de pornografia que seja.


    2. Retire de sua casa tudo que possa ser ocasião de pecado. Houck teve que tirar a sua TV de casa. “O conteúdo da TV muitas vezes é só pornografia mesmo”, ele diz.



    3. Tenha força de vontade para fazer sacrifícios, que podem envolver mudanças de hábitos e compromissos. Talvez você precise mudar o caminho ao ir para o trabalho para evitar lugares provocativos, ou mesmo desligar a Internet – ou ao menos instalar um filtro no browser.


    4. Conheça os rituais ou processos através dos quais você costumava cair.

    5. Encontre uma rede de apoio, que pode ser um grupo de outros homens, ou um grupo de oração. “Se você quer superar os vícios sexuais, precisa de apoio”, diz Houck. Ele formou um grupo de homens há 5 anos atrás, que se encontra semanalmente para suporte mútuo.

    6. Reze diariamente.

    7. Procure se fortalecer nas virtudes, especialmente na justiça,  prudência, temperança e fortaleza.

    8. Pratique a paciência e a perseverança. Se você cair, não se deixe vencer – vá para a confissão o mais rápido possível.

    9. Faça jejum: “Se você pode controlar seu apetite por comida, o apetite sexual será mais fácil de ser controlado”.

    10. Vá para a confissão. Comungue diariamente, se possível.


    Houck pede ao clero para que seja mais pró-ativo em confrontar o mal da pornografia. “Nunca ouvi uma homilia sobre pornografia ou sobre anticoncepcionais. Essas são as principais frentes de batalha na Igreja hoje em dia, e não vemos nenhum combate por parte de quem ocupa o púlpito”, ele diz.


    Fonte: Homem Casto

    O rabino francês prestigiado por Ratzinger é acusado de plágio








    Desatou-se uma polêmica na França e que envolve o rabino de Paris, Gilles Bernheim, de 60 anos, e a quem Bento XVI havia citado há alguns meses por seu ensaio “O que muitas vezes esquecemos de dizer”, dedicado aos temas do casamento e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Bernheim teve que reconhecer, agora, que eram fundadas as acusações de plágio, pois teria copiado de outros autores parágrafos inteiros publicados em seus livros. E, além disso, acrescentou-se uma circunstância pouco edificante. Ao constatar os fatos, descobriu-se que o doutorado em Filosofia que aparece em todos os seus currículos, na realidade, não existe: Bernheim nunca esteve inscrito em nenhuma prova de exame para obter esse título acadêmico na França.


    A reportagem é de Giorgio Bernardelli e publicada no sítio Vatican Insider, 10-04-2013. A tradução é do Cepat.




    A acusação de plágio surgiu com a denúncia de um blogueiro, que descobriu que em seu livro de 2011 “Quarenta meditações hebraicas” havia passagens inteiras, sem indicação da fonte, do livro/entrevista do filósofo Jean-François Lyotard. Depois de tê-lo negado em um primeiro momento, Bernheim havia se justificado dizendo que, por falta de tempo, havia encarregado, “apenas desta vez”, a tarefa de redigir o livro a um de seus colaboradores. O problema é que não parece tratar-se de um episódio isolado: com o passar do tempo descobriu-se que inclusive algumas partes do ensaio sobre o argumento dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo teriam sido copiadas de reflexões de alguns escritores católicos, entre as quais figura um livro do padre Joseph-Marie Verlinde. O que piorou ainda mais a situação foi a notícia do doutorado em Filosofia inexistente, como confirmou o próprio ministro da Instrução.


    Originário da Savoia, guia da comunidade judaica europeia mais importante desde 1º de janeiro de 2009 e nomeado Cavaleiro da Legião de Honra por Nikolas Sarkozy, Gilles Bernheim foi “descoberto” no mundo católico quando Ratzinger – no discurso que pronunciou na Cúria Romana em 21 de dezembro passado – citou seu ensaio e o definiu como “um tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovedor” sobre os problemas antropológicos postos pela “ideologia de gênero”.


    Agora, Bernheim terá que ajustar as costas com fortes pressões na comunidade judaica francesa e poderá inclusive ter que deixar o posto (1). Contudo, por enquanto, não parece ter a intenção de renunciar, como ele mesmo explicou em uma entrevista à Rádio Shalom, da comunidade judaica francesa: “Renunciar por uma questão pessoal seria uma deserção – declarou. Na minha vida privada, assim como na vida pública, sempre fui um homem que assumiu suas responsabilidades. Tenho algumas culpas. A história do doutorado, os plágios nos livros são fatos importantes e graves. Mas não cometi nenhuma culpa no cumprimento das minhas funções de rabino. E isto, espero, ajudará a restabelecer a confiança na minha pessoa”. [SIC! SIC! SIC!]


    Nota:


    1.- Gilles Bernheim deixou o posto ao renunciar. (Nota da IHU On-Line)

    Fonte: Unisinos
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