DESTAQUE
A história da perseguição e do
martírio romeno não encontra similares no século vinte ou em nenhum outro.
Enquanto os ataques anticatólicos se fortaleciam, o
mesmo se dava com a defesa dos leigos. Quando agentes da polícia secreta
romena, a securitate, pretendiam prender o monastério inteiro em bixad, a
população local forçou o destacamento a abortar a missão. Entretanto, poucos
dias depois, quinze caminhões cheios de agentes retornaram e levaram os monges
remanescentes enquanto cercavam as pessoas com suas armas. Os monges apanharam
e eram obrigados a renunciar ao papa. Eles se recusaram. Um membro do grupo
securitate gritou: “esses monges idiotas se importam mais com o papa do que com
deus e a igreja. Vamos ver se depois de calarmos suas bocas o papa virá
salvá-los” 10. Padres, monges e freiras ortodoxos foram instalados à força
nesse e em outros monastérios, conventos e igrejas. Onde houvesse resistência,
eram presos e mandados à cadeia. Mas o povo freqüentemente boicotava o novo
regime religioso.
As catedrais de blaj, oradea, cluj e lugoj foram
“reconsagradas” como ortodoxas por bispos ortodoxos colaboradores. Em lugoj, os
fiéis tiveram de ser expulsos. Um deles, observando que a polícia estava
lacrando as portas, gritou: “lacrem quantas quiserem, senhores; os judeus
também lacraram a tumba de cristo, mas ele ressuscitou no terceiro dia”
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Queridos irmãos em Cristo, estou postando um artigo de muita importância, referindo-se a perseguição sofrida pela Igreja Católica pelos comunistas, uma parte da história não divulgada pela mídia, não contada nas escolas e universidades, e omissa pela maioria dos Padres que deveriam divulgar, para que os fiéis católicos saibam o que ocorreu e ainda ocorre pelo mundo vitimando milhóes de cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes por todo o mundo. Nós, católicos, nunca ficamos sabendo sobre as perseguições que sofremos, como salientou o professor Alexandre del Valle, professor de Relações Internacionais na Universidade de Metz, França, e consultor de Geopolítica em diversas importantes instituições europeias, “as notícias divulgadas pela mídia são apenas a ponta do iceberg da perseguição que os cristão sofrem”. Por esse motivo, cabe a nós divulgarmos todas as atrocidades cometidas contra nós que professamos a fé em Jesus Cristo.
O Calvário da Romênia
O Cristianismo chegou primeiramente na Romênia em
106 a.C., quando os exércitos do imperador romano Trajano conquistaram a região
conhecida como Dacia, levando com eles a nova fé.
Embora a Romênia, situada na Europa oriental, sofresse naturalmente influência eslávica há muitos séculos — principalmente pelas invasões búlgaras nos séculos seis e sete — ela conservou uma profunda conexão com a civilização latina. E mesmo hoje, quase dois mil anos após a conquista romana, o Romeno é classificado por lingüistas como uma língua basicamente latina. No decurso da longa história do Cristianismo romeno, a população dividia-se entre os Ortodoxos, de longe a maior denominação, abrangendo cerca de 87 por cento da população, os Católicos somando 6 por cento, e os Protestantes com 5 por cento. Embora as cifras do censo não sejam inteiramente confiáveis, isso significa que, em termos concretos, havia cerca de 1.560.000 católicos na Romênia antes do advento do Comunismo em 1948. (Em contraste, o Partido Comunista na Romênia não possuía mais do que mil membros quando o regime Marxista foi imposto à Nação através de tramas internas e pressão soviética.) Porém, após cinqüenta anos de uma das piores perseguições do século, ainda existiam mais de meio milhão de católicos na Romênia1.
Os católicos romenos dividiam-se principalmente em
dois grandes grupos. A Igreja Católica Romana de rito latino situava-se
primeiramente em Timisoara (uma grande cidade de uma região cujos católicos
eram predominantemente de ascendência alemã) e na Transilvânia (uma área de
concentrações relativamente grandes de católicos húngaros). Essa Igreja Latina,
embora fortemente pressionada, provou-se surpreendentemente resistente às
perseguições do comunismo romeno, devido talvez à sua particular composição
étnica. Infelizmente isso não ocorreu com a Igreja Católica Grega romena.
Conforme ocorrido na Ucrânia liderada pelos soviéticos, as autoridades
comunistas romenas organizaram um conselho ilegítimo de padres dessa igreja, o
qual nenhum bispo católico romeno, mesmo sob tortura e outras pressões,
concordou em participar. O conselho foi forçado a declarar que era desejo dos
fiéis tornarem-se ortodoxos, embora a Ortodoxia romena estivesse disponível
como opção para qualquer um que desejasse se converter há muitos séculos. Em
outubro de 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, suas milhares de
igrejas confiscadas e convertidas para o uso ortodoxo. A data foi escolhida
para entrar em atrito, visto ser o 250º. Aniversário da Declaração de
Unificação da Igreja com o Vaticano em 1698. A justificativa pelo ato foi
propaganda pura: a de que os bispos católicos gregos “haviam se distanciado das
pessoas para servir a interesses imperialistas, obedecendo ao Papa de
Roma” 2. Havia seis bispos católicos
gregos na Romênia nessa época. Todos foram presos no fim de 1948. Cinco
morreram na prisão (IonSuciu, Valeriu Traian Frentiu, AlexandruRusu, Vasile
Aftenie e IonBalan). O único sobrevivente, o bispo de Cluj-Gherla, IuliuHossu,
ficou os próximos vinte dois anos na prisão e em prisão domiciliar antes de sua
morte, ainda sob detenção3.
Os secretários de dois bispos também foram
aprisionados: os padres Alexander Rusu e Foisor. Mas a limpeza foi ainda maior:
forças de segurança apreenderam o Vigário Geral de Blaj Victor Macavei, cônegos
Victor e Nicholae Pop, IonMoldovan, DumitruNeda e IonFolea, juntamente com os
professores de Teologia SeptimiusTodoran e Eugen Popa. A Côrte de Bucareste
inteira foi presa: os padres LiviuChinezu, IonChertes e Mare Vasile, e muitos
outros. Em todos os lugares os detidos eram claramente escolhidos para
enfraquecer a liderança católica: na cidade de Cluj, o padre Joseph Bal e o cônego
Dumitru Manu; em Oradea, o cônego JuliuHirtea; e em Lugoj, o padre Vasile
Teglasiu4. IonPloscaru, consagrado
bispo em 1948, foi também aprisionado no ano seguinte.
No início, todos os bispos eram mantidos em
Dragoslavele, a residência de verão do patriarcado ortodoxo. O patriarca
Justinian visitava-os freqüentemente, insistindo para que se tornassem
ortodoxos. O Governo criara propaganda informando que os bispos estariam fora
devido a um “retiro espiritual” 5. O regime necessitava que
pelo menos um bispo cometesse apostasia para alegar a unificação da Igreja
Católica com a Ortodoxa como lícita. Nenhum bispo os favoreceu. Quando falhou a
persuasão por meios não violentos, os bispos foram então separados e mandados
para diferentes localidades. Em 10 de maio de 1950, Vasile Aftenie, após sofrer
terríveis torturas na prisão de Vacaresti, enlouqueceu e morreu, embora fosse
ainda relativamente jovem e gozasse de boa saúde6. Os destinos dos outros
bispos logo seguiram passos similares. Seiscentos membros do clero foram
presos, cerca de um terço deles na União Soviética; apenas a metade sobreviveu7. O papa Pio XII reagiu à esse
massacre com um tocante manifesto, na carta apostólica Veritatem Facientes, de
27 de março de 1952: “Desejamos beijar as correntes daqueles que, aprisionados
injustamente, choram e se afligem pelos ataques contra a Religião, a ruína das
instituições sagradas, pela salvação eterna de seu povo, agora correndo perigo,
mais do que pelos seus próprios sofrimentos e liberdade perdida”.
Infelizmente, mais ou menos um quarto do clero
católico grego romeno desistiu e se tornou formalmente ortodoxo durante a
perseguição, temendo as repercussões para si mesmos e suas famílias. Como,
antes do início do regime comunista, houvesse diversas oportunidades para que
esses homens se tornassem parte da majoritária Igreja Ortodoxa Romena caso o
desejassem, não há razão para acreditarmos que nenhuma dessas conversões
“voluntárias” fosse sincera. (Muitos se retrataram mais tarde8). Os meios necessários para
convencê-los são a prova: um padre foi atirado num esgoto cheio de ratos por
dois dias. Acabou cedendo. Outro foi lançado num pântano, com resultados
similares. Na cidade de Oradea, o padre Damian foi submetido à tortura por fogo
e eletricidade até que cedesse. Em Sibiu, padre Onofreiu sobreviveu
miraculosamente após ser pendurado, quando a corda arrebentou. Ele ainda se
recusava a aceitar a Ortodoxia, e foi então declarado como louco e liberado —
temporariamente. É fácil compreender porque um quarto do clero, sujeitado a
tratamento desse quilate em tantos lugares diferentes, não foi forte o suficiente
para opor-se a tudo isso.
O povo católico grego, porém, não se sujeitou
facilmente a essa mudança forçada. O bispo de Oradea, IonSuciu, antes de sua
prisão, apelou ao seu povo por apoio financeiro após a suspensão do pagamento
dos professores católicos pelo Governo. Os paroquianos responderam
fervorosamente: o bispo recebeu mais do que o necessário para manter as escolas
funcionando9. Enquanto os ataques
anticatólicos se fortaleciam, o mesmo se dava com a defesa dos leigos. Quando
agentes da polícia secreta romena, a Securitate, pretendiam prender o
monastério inteiro em Bixad, a população local forçou o destacamento a abortar
a missão. Entretanto, poucos dias depois, quinze caminhões cheios de agentes
retornaram e levaram os monges remanescentes enquanto cercavam as pessoas com
suas armas. Os monges apanharam e eram obrigados a renunciar ao Papa. Eles se
recusaram. Um membro do grupo Securitate gritou: “Esses monges idiotas se
importam mais com o papa do que com Deus e a Igreja. Vamos ver se depois de
calarmos suas bocas o Papa virá salvá-los” 10. Padres, monges e freiras
ortodoxos foram instalados à força nesse e em outros monastérios, conventos e
igrejas. Onde houvesse resistência, eram presos e mandados à cadeia. Mas o povo
freqüentemente boicotava o novo regime religioso.
As catedrais de Blaj, Oradea, Cluj e Lugoj foram
“reconsagradas” como ortodoxas por bispos ortodoxos colaboradores. Em Lugoj, os
fiéis tiveram de ser expulsos. Um deles, observando que a polícia estava
lacrando as portas, gritou: “Lacrem quantas quiserem, senhores; os judeus
também lacraram a tumba de Cristo, mas ele ressuscitou no terceiro dia” 11. Desnecessário dizer que a doutrina ortodoxa não permite
conversão forçada ou o confisco de igrejas de seita diferenciada. Setenta e
seis corajosos padres ortodoxos recusaram-se a se responsabilizar por igrejas
confiscadas e participar desse abuso de poder político e religioso. Foram,
então, encarcerados12. E pelo menos um bispo
ortodoxo que se recusou a colaborar com os outros, Nicolas Popovici, foi preso
e morreu — talvez por envenenamento — em 195813. Mas no geral a liderança
ortodoxa foi responsável por grande injustiça contra os católicos.
Entretanto, os próprios ortodoxos também sofreram.
Os antigos metropolitanos ortodoxos, Mihalcescu e Criveanu, não sendo
simpáticos ao Comunismo, foram trocados pelo Governo por “abades do povo”. Para
atingir esse objetivo, os abades e o regime difamaram os antigos líderes e
pressionaram as instituições religiosas a removê-los de seus cargos. O próprio
Mihalcescu teve provavelmente uma morte digna de um mártir. Após sua
substituição e exílio em um monastério, onde gozava somente de liberdade
limitada, é provável que tenha sido envenenado14.
Ironicamente, algumas das personalidades católicas
marcadas pelo sofrimento foram generosas com os ortodoxos quando a situação se
reverteu. De 1940 a 1944, a Hungria ocupou parte da Romênia, e o bispo
IuliuHossu defendeu os direitos dos judeus15 e também dos ortodoxos,
particularmente o bispo de Cluj, NicolaeColan. Porém, quando o regime comunista
ganhou poder, o mesmo bispo Colan confiscou e reconsagrou a catedral do bispo
que havia sido seu benfeitor16. Compreensivelmente, eventos
como esse e outros supracitados criaram um profundo racha entre ortodoxos e
católicos durante todo os anos de governo comunista e nos anos pós-comunismo.
Em Paris, o superior de mosteiro Stefan Lucaciu
escreveu ao Papa pedindo que rezasse para que fosse dada graça abundante aos
católicos perseguidos. Em outra carta, ele lamentou o tratamento dado aos
católicos gregos e romanos na Romênia, advertindo: “O oportunismo religioso que
o regime comunista exibe hoje, amanhã se voltará furiosamente contra a Igreja
Ortodoxa, pretendendo-se transformar lentamente numa plataforma política para
alcançar objetivos políticos” 17. De fato, o governo romeno
logo estaria perseguindo todos os grupos religiosos: Judeus, Ortodoxos,
Católicos e Protestantes. Um dos mais emocionantes e aclamados relatos da
perseguição nesse período é do pastor protestante Richard Wurmbrand, em seu
Torturado por Cristo18. O rabino chefe da Romênia,
Alexandru Safran foi sumariamente deposto e exilado. A campanha anti-católica,
em razão da colocação religiosa e social especial dos católicos na Romênia, foi
particularmente virulenta.
Ainda assim a cruel campanha não foi completamente
bem sucedida. Em 1949, o ministro de cultos Stoian Stanciu, reclamou num
discurso público dos sentimentos pró-catolicismo de alguns intelectuais19. “Pró-catolicismo” aqui pode
significar tanto um apoio real à Igreja quanto uma simpatia generalizada pelos
cristãos injustiçados. Em ambos os casos, porém, havia claramente uma séria
oposição secular à política religiosa. Havia um precedente histórico para as
inclinações pró-católicas entre os intelectuais romenos. I. C. Bratianu, figura
de liderança político democrata no século dezenove, converteu-se ao Catolicismo
em seu leito de morte. E IuliuManiu, líder do Partido Camponês Nacional, o mais
importante político anti-fascista e democrata da nação, era um devotado católico
grego (morreu nos anos 50 numa prisão comunista). Dentre a liderança ortodoxa,
entretanto, a pressão governamental e a longa crença de que o catolicismo grego
era ilegítimo na Romênia acabaram causando atos vergonhosos. O ilustre
catedrático de religião Mircea Eliade externou a simpatia dos romenos pelos
irmãos e irmãs católicos da época e lamentou que “não soubesse de um único
bispo ortodoxo que tenha declarado publicamente seu desagravo à
violência” 20.
O patriarca romeno Justinian teve um papel
particularmente ruim nesse processo. Após a queda do Comunismo, seu nome foi
lembrado com muita afeição pelos ortodoxos romenos pelos seus enérgicos
esforços em favor da Igreja Ortodoxa21. Eliade, porém, pontificou
que o patriarca brincava com fogo: “Hoje, em todo o mundo, o Cristianismo está
sendo inteiramente atacado sem piedade, é atacado por aqueles que tempos atrás
o condenaram à morte, e essas mesmas pessoas são as mesmas que acolheram
Justinian... Hoje ou amanhã os bispos ortodoxos poderão estar junto aos seus
irmãos na prisão e no exílio. Eles também serão mártires, mas após terem sido
expostos e degradados sob os olhos dos fiéis”. Reconhecendo que ninguém tem o
direito de exigir que outro se torne um mártir, Eliade apelou aos bispos que
aceitassem que, sem o desejo de se tornar mártir pela verdade, os assessores do
bispo tornam-se apenas madeira e metal.
Quaisquer que fossem as racionalizações históricas
dos líderes ortodoxos contra a legitimidade da Igreja Católica Grega romena,
elas não poderiam ser usadas também contra a Igreja católica Romana de rito
latino. As igrejas romanas estavam, em sua maioria, localizadas na Transilvânia
e na Moldavia e eram ligadas por etnias minoritárias historicamente conectadas
à Roma desde os séculos XII e XIII. Essas igrejas estavam florescendo, e
contavam com cerca de 1.200.000 adeptos antes do advento do Comunismo. Ainda
assim, seus direitos plenos não poderiam ser reconhecidos sem o risco de
reivindicações do reconhecimento do Estado das igrejas católicas gregas também.
O reconhecimento de qualquer uma dessas igrejas nunca foi uma real
possibilidade. Gheorghiu-Dej, Secretário do Partido Comunista, anunciou
peremptoriamente em fevereiro de 1948 que o único obstáculo à “democracia” na
Romênia era a Igreja Católica22. E continuou: “A nova
Constituição romena não permitirá que os cidadãos católicos submetam-se às
diretrizes de um mandante estrangeiro; não será permitido aos romenos serem
tentados pelo filhote de ouro americano, em cujos pés o Vaticano deseja levar
seus fiéis.” 23.
Quando as igrejas católicas romanas insistiram no
reconhecimento oficial, o Regime Comunista romeno adotou a dupla estratégia de
tentar silenciá-los com uma mão enquanto, com a outra, encorajava uma Igreja
Católica Romana dividida e subserviente ao Estado — tudo isso sob a cobertura
legal de impedimento dos “agentes do imperialismo” e proteção da “segurança do
Estado”. Dois bispos foram acusados em nome de atitudes anti-democráticas: Aron
Marton de Alba Julia na Transilvânia e Anton Durcovici de Jassy na Moldavia.
Atos secretos começaram a ser usados para extirpar o clero recalcitrante. Em
junho de 1949, Anton Bisoc, o Superior franciscano, recebeu um telegrama,
provavelmente do bispo Durcovici, pedindo que fosse vê-lo imediatamente. Bisoc
partiu e nunca mais foi visto novamente. Seu assistente, padre Herciu, foi
procurá-lo. Ele também desapareceu sem deixar vestígios24. A mensagem era clara: a
insistência da Igreja Romana seria tratada da mesma forma que com os católicos
gregos.









