quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Calvário da Romênia


DESTAQUE


A história da perseguição e do martírio romeno não encontra similares no século vinte ou em nenhum outro.
Enquanto os ataques anticatólicos se fortaleciam, o mesmo se dava com a defesa dos leigos. Quando agentes da polícia secreta romena, a securitate, pretendiam prender o monastério inteiro em bixad, a população local forçou o destacamento a abortar a missão. Entretanto, poucos dias depois, quinze caminhões cheios de agentes retornaram e levaram os monges remanescentes enquanto cercavam as pessoas com suas armas. Os monges apanharam e eram obrigados a renunciar ao papa. Eles se recusaram. Um membro do grupo securitate gritou: “esses monges idiotas se importam mais com o papa do que com deus e a igreja. Vamos ver se depois de calarmos suas bocas o papa virá salvá-los” 10. Padres, monges e freiras ortodoxos foram instalados à força nesse e em outros monastérios, conventos e igrejas. Onde houvesse resistência, eram presos e mandados à cadeia. Mas o povo freqüentemente boicotava o novo regime religioso.

As catedrais de blaj, oradea, cluj e lugoj foram “reconsagradas” como ortodoxas por bispos ortodoxos colaboradores. Em lugoj, os fiéis tiveram de ser expulsos. Um deles, observando que a polícia estava lacrando as portas, gritou: “lacrem quantas quiserem, senhores; os judeus também lacraram a tumba de cristo, mas ele ressuscitou no terceiro dia”


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Queridos irmãos em Cristo, estou postando um artigo de muita importância, referindo-se a perseguição sofrida pela Igreja Católica pelos comunistas, uma parte da história não divulgada pela mídia, não contada nas escolas e universidades, e omissa pela maioria dos Padres que deveriam divulgar, para que os fiéis católicos saibam o que ocorreu e ainda ocorre pelo mundo vitimando milhóes de cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes por todo o mundo. Nós, católicos, nunca ficamos sabendo sobre as perseguições que sofremos, como salientou o professor Alexandre del Valle, professor de Relações Internacionais na Universidade de Metz, França, e consultor de Geopolítica em diversas importantes instituições europeias, “as notícias divulgadas pela mídia são apenas a ponta do iceberg da perseguição que os cristão sofrem”. Por esse motivo, cabe a nós divulgarmos todas as atrocidades cometidas contra nós que professamos a fé em Jesus Cristo.


O Calvário da Romênia


O Cristianismo chegou primeiramente na Romênia em 106 a.C., quando os exércitos do imperador romano Trajano conquistaram a região conhecida como Dacia, levando com eles a nova fé. 

Embora a Romênia, situada na Europa oriental, sofresse naturalmente influência eslávica há muitos séculos — principalmente pelas invasões búlgaras nos séculos seis e sete — ela conservou uma profunda conexão com a civilização latina. E mesmo hoje, quase dois mil anos após a conquista romana, o Romeno é classificado por lingüistas como uma língua basicamente latina. No decurso da longa história do Cristianismo romeno, a população dividia-se entre os Ortodoxos, de longe a maior denominação, abrangendo cerca de 87 por cento da população, os Católicos somando 6 por cento, e os Protestantes com 5 por cento. Embora as cifras do censo não sejam inteiramente confiáveis, isso significa que, em termos concretos, havia cerca de 1.560.000 católicos na Romênia antes do advento do Comunismo em 1948. (Em contraste, o Partido Comunista na Romênia não possuía mais do que mil membros quando o regime Marxista foi imposto à Nação através de tramas internas e pressão soviética.) Porém, após cinqüenta anos de uma das piores perseguições do século, ainda existiam mais de meio milhão de católicos na Romênia
1.

Os católicos romenos dividiam-se principalmente em dois grandes grupos. A Igreja Católica Romana de rito latino situava-se primeiramente em Timisoara (uma grande cidade de uma região cujos católicos eram predominantemente de ascendência alemã) e na Transilvânia (uma área de concentrações relativamente grandes de católicos húngaros). Essa Igreja Latina, embora fortemente pressionada, provou-se surpreendentemente resistente às perseguições do comunismo romeno, devido talvez à sua particular composição étnica. Infelizmente isso não ocorreu com a Igreja Católica Grega romena. Conforme ocorrido na Ucrânia liderada pelos soviéticos, as autoridades comunistas romenas organizaram um conselho ilegítimo de padres dessa igreja, o qual nenhum bispo católico romeno, mesmo sob tortura e outras pressões, concordou em participar. O conselho foi forçado a declarar que era desejo dos fiéis tornarem-se ortodoxos, embora a Ortodoxia romena estivesse disponível como opção para qualquer um que desejasse se converter há muitos séculos. Em outubro de 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, suas milhares de igrejas confiscadas e convertidas para o uso ortodoxo. A data foi escolhida para entrar em atrito, visto ser o 250º. Aniversário da Declaração de Unificação da Igreja com o Vaticano em 1698. A justificativa pelo ato foi propaganda pura: a de que os bispos católicos gregos “haviam se distanciado das pessoas para servir a interesses imperialistas, obedecendo ao Papa de Roma” 2. Havia seis bispos católicos gregos na Romênia nessa época. Todos foram presos no fim de 1948. Cinco morreram na prisão (IonSuciu, Valeriu Traian Frentiu, AlexandruRusu, Vasile Aftenie e IonBalan). O único sobrevivente, o bispo de Cluj-Gherla, IuliuHossu, ficou os próximos vinte dois anos na prisão e em prisão domiciliar antes de sua morte, ainda sob detenção3.

Os secretários de dois bispos também foram aprisionados: os padres Alexander Rusu e Foisor. Mas a limpeza foi ainda maior: forças de segurança apreenderam o Vigário Geral de Blaj Victor Macavei, cônegos Victor e Nicholae Pop, IonMoldovan, DumitruNeda e IonFolea, juntamente com os professores de Teologia SeptimiusTodoran e Eugen Popa. A Côrte de Bucareste inteira foi presa: os padres LiviuChinezu, IonChertes e Mare Vasile, e muitos outros. Em todos os lugares os detidos eram claramente escolhidos para enfraquecer a liderança católica: na cidade de Cluj, o padre Joseph Bal e o cônego Dumitru Manu; em Oradea, o cônego JuliuHirtea; e em Lugoj, o padre Vasile Teglasiu4. IonPloscaru, consagrado bispo em 1948, foi também aprisionado no ano seguinte.

No início, todos os bispos eram mantidos em Dragoslavele, a residência de verão do patriarcado ortodoxo. O patriarca Justinian visitava-os freqüentemente, insistindo para que se tornassem ortodoxos. O Governo criara propaganda informando que os bispos estariam fora devido a um “retiro espiritual” 5. O regime necessitava que pelo menos um bispo cometesse apostasia para alegar a unificação da Igreja Católica com a Ortodoxa como lícita. Nenhum bispo os favoreceu. Quando falhou a persuasão por meios não violentos, os bispos foram então separados e mandados para diferentes localidades. Em 10 de maio de 1950, Vasile Aftenie, após sofrer terríveis torturas na prisão de Vacaresti, enlouqueceu e morreu, embora fosse ainda relativamente jovem e gozasse de boa saúde6. Os destinos dos outros bispos logo seguiram passos similares. Seiscentos membros do clero foram presos, cerca de um terço deles na União Soviética; apenas a metade sobreviveu7. O papa Pio XII reagiu à esse massacre com um tocante manifesto, na carta apostólica Veritatem Facientes, de 27 de março de 1952: “Desejamos beijar as correntes daqueles que, aprisionados injustamente, choram e se afligem pelos ataques contra a Religião, a ruína das instituições sagradas, pela salvação eterna de seu povo, agora correndo perigo, mais do que pelos seus próprios sofrimentos e liberdade perdida”.

Infelizmente, mais ou menos um quarto do clero católico grego romeno desistiu e se tornou formalmente ortodoxo durante a perseguição, temendo as repercussões para si mesmos e suas famílias. Como, antes do início do regime comunista, houvesse diversas oportunidades para que esses homens se tornassem parte da majoritária Igreja Ortodoxa Romena caso o desejassem, não há razão para acreditarmos que nenhuma dessas conversões “voluntárias” fosse sincera. (Muitos se retrataram mais tarde8). Os meios necessários para convencê-los são a prova: um padre foi atirado num esgoto cheio de ratos por dois dias. Acabou cedendo. Outro foi lançado num pântano, com resultados similares. Na cidade de Oradea, o padre Damian foi submetido à tortura por fogo e eletricidade até que cedesse. Em Sibiu, padre Onofreiu sobreviveu miraculosamente após ser pendurado, quando a corda arrebentou. Ele ainda se recusava a aceitar a Ortodoxia, e foi então declarado como louco e liberado — temporariamente. É fácil compreender porque um quarto do clero, sujeitado a tratamento desse quilate em tantos lugares diferentes, não foi forte o suficiente para opor-se a tudo isso.

O povo católico grego, porém, não se sujeitou facilmente a essa mudança forçada. O bispo de Oradea, IonSuciu, antes de sua prisão, apelou ao seu povo por apoio financeiro após a suspensão do pagamento dos professores católicos pelo Governo. Os paroquianos responderam fervorosamente: o bispo recebeu mais do que o necessário para manter as escolas funcionando9. Enquanto os ataques anticatólicos se fortaleciam, o mesmo se dava com a defesa dos leigos. Quando agentes da polícia secreta romena, a Securitate, pretendiam prender o monastério inteiro em Bixad, a população local forçou o destacamento a abortar a missão. Entretanto, poucos dias depois, quinze caminhões cheios de agentes retornaram e levaram os monges remanescentes enquanto cercavam as pessoas com suas armas. Os monges apanharam e eram obrigados a renunciar ao Papa. Eles se recusaram. Um membro do grupo Securitate gritou: “Esses monges idiotas se importam mais com o papa do que com Deus e a Igreja. Vamos ver se depois de calarmos suas bocas o Papa virá salvá-los” 10. Padres, monges e freiras ortodoxos foram instalados à força nesse e em outros monastérios, conventos e igrejas. Onde houvesse resistência, eram presos e mandados à cadeia. Mas o povo freqüentemente boicotava o novo regime religioso.

As catedrais de Blaj, Oradea, Cluj e Lugoj foram “reconsagradas” como ortodoxas por bispos ortodoxos colaboradores. Em Lugoj, os fiéis tiveram de ser expulsos. Um deles, observando que a polícia estava lacrando as portas, gritou: “Lacrem quantas quiserem, senhores; os judeus também lacraram a tumba de Cristo, mas ele ressuscitou no terceiro dia” 11. Desnecessário dizer que a doutrina ortodoxa não permite conversão forçada ou o confisco de igrejas de seita diferenciada. Setenta e seis corajosos padres ortodoxos recusaram-se a se responsabilizar por igrejas confiscadas e participar desse abuso de poder político e religioso. Foram, então, encarcerados12. E pelo menos um bispo ortodoxo que se recusou a colaborar com os outros, Nicolas Popovici, foi preso e morreu — talvez por envenenamento — em 195813. Mas no geral a liderança ortodoxa foi responsável por grande injustiça contra os católicos.

Entretanto, os próprios ortodoxos também sofreram. Os antigos metropolitanos ortodoxos, Mihalcescu e Criveanu, não sendo simpáticos ao Comunismo, foram trocados pelo Governo por “abades do povo”. Para atingir esse objetivo, os abades e o regime difamaram os antigos líderes e pressionaram as instituições religiosas a removê-los de seus cargos. O próprio Mihalcescu teve provavelmente uma morte digna de um mártir. Após sua substituição e exílio em um monastério, onde gozava somente de liberdade limitada, é provável que tenha sido envenenado14.

Ironicamente, algumas das personalidades católicas marcadas pelo sofrimento foram generosas com os ortodoxos quando a situação se reverteu. De 1940 a 1944, a Hungria ocupou parte da Romênia, e o bispo IuliuHossu defendeu os direitos dos judeus15 e também dos ortodoxos, particularmente o bispo de Cluj, NicolaeColan. Porém, quando o regime comunista ganhou poder, o mesmo bispo Colan confiscou e reconsagrou a catedral do bispo que havia sido seu benfeitor16. Compreensivelmente, eventos como esse e outros supracitados criaram um profundo racha entre ortodoxos e católicos durante todo os anos de governo comunista e nos anos pós-comunismo.

Em Paris, o superior de mosteiro Stefan Lucaciu escreveu ao Papa pedindo que rezasse para que fosse dada graça abundante aos católicos perseguidos. Em outra carta, ele lamentou o tratamento dado aos católicos gregos e romanos na Romênia, advertindo: “O oportunismo religioso que o regime comunista exibe hoje, amanhã se voltará furiosamente contra a Igreja Ortodoxa, pretendendo-se transformar lentamente numa plataforma política para alcançar objetivos políticos” 17. De fato, o governo romeno logo estaria perseguindo todos os grupos religiosos: Judeus, Ortodoxos, Católicos e Protestantes. Um dos mais emocionantes e aclamados relatos da perseguição nesse período é do pastor protestante Richard Wurmbrand, em seu Torturado por Cristo18. O rabino chefe da Romênia, Alexandru Safran foi sumariamente deposto e exilado. A campanha anti-católica, em razão da colocação religiosa e social especial dos católicos na Romênia, foi particularmente virulenta.

Ainda assim a cruel campanha não foi completamente bem sucedida. Em 1949, o ministro de cultos Stoian Stanciu, reclamou num discurso público dos sentimentos pró-catolicismo de alguns intelectuais19. “Pró-catolicismo” aqui pode significar tanto um apoio real à Igreja quanto uma simpatia generalizada pelos cristãos injustiçados. Em ambos os casos, porém, havia claramente uma séria oposição secular à política religiosa. Havia um precedente histórico para as inclinações pró-católicas entre os intelectuais romenos. I. C. Bratianu, figura de liderança político democrata no século dezenove, converteu-se ao Catolicismo em seu leito de morte. E IuliuManiu, líder do Partido Camponês Nacional, o mais importante político anti-fascista e democrata da nação, era um devotado católico grego (morreu nos anos 50 numa prisão comunista). Dentre a liderança ortodoxa, entretanto, a pressão governamental e a longa crença de que o catolicismo grego era ilegítimo na Romênia acabaram causando atos vergonhosos. O ilustre catedrático de religião Mircea Eliade externou a simpatia dos romenos pelos irmãos e irmãs católicos da época e lamentou que “não soubesse de um único bispo ortodoxo que tenha declarado publicamente seu desagravo à violência” 20.

O patriarca romeno Justinian teve um papel particularmente ruim nesse processo. Após a queda do Comunismo, seu nome foi lembrado com muita afeição pelos ortodoxos romenos pelos seus enérgicos esforços em favor da Igreja Ortodoxa21. Eliade, porém, pontificou que o patriarca brincava com fogo: “Hoje, em todo o mundo, o Cristianismo está sendo inteiramente atacado sem piedade, é atacado por aqueles que tempos atrás o condenaram à morte, e essas mesmas pessoas são as mesmas que acolheram Justinian... Hoje ou amanhã os bispos ortodoxos poderão estar junto aos seus irmãos na prisão e no exílio. Eles também serão mártires, mas após terem sido expostos e degradados sob os olhos dos fiéis”. Reconhecendo que ninguém tem o direito de exigir que outro se torne um mártir, Eliade apelou aos bispos que aceitassem que, sem o desejo de se tornar mártir pela verdade, os assessores do bispo tornam-se apenas madeira e metal.

Quaisquer que fossem as racionalizações históricas dos líderes ortodoxos contra a legitimidade da Igreja Católica Grega romena, elas não poderiam ser usadas também contra a Igreja católica Romana de rito latino. As igrejas romanas estavam, em sua maioria, localizadas na Transilvânia e na Moldavia e eram ligadas por etnias minoritárias historicamente conectadas à Roma desde os séculos XII e XIII. Essas igrejas estavam florescendo, e contavam com cerca de 1.200.000 adeptos antes do advento do Comunismo. Ainda assim, seus direitos plenos não poderiam ser reconhecidos sem o risco de reivindicações do reconhecimento do Estado das igrejas católicas gregas também. O reconhecimento de qualquer uma dessas igrejas nunca foi uma real possibilidade. Gheorghiu-Dej, Secretário do Partido Comunista, anunciou peremptoriamente em fevereiro de 1948 que o único obstáculo à “democracia” na Romênia era a Igreja Católica22. E continuou: “A nova Constituição romena não permitirá que os cidadãos católicos submetam-se às diretrizes de um mandante estrangeiro; não será permitido aos romenos serem tentados pelo filhote de ouro americano, em cujos pés o Vaticano deseja levar seus fiéis.” 23.

Quando as igrejas católicas romanas insistiram no reconhecimento oficial, o Regime Comunista romeno adotou a dupla estratégia de tentar silenciá-los com uma mão enquanto, com a outra, encorajava uma Igreja Católica Romana dividida e subserviente ao Estado — tudo isso sob a cobertura legal de impedimento dos “agentes do imperialismo” e proteção da “segurança do Estado”. Dois bispos foram acusados em nome de atitudes anti-democráticas: Aron Marton de Alba Julia na Transilvânia e Anton Durcovici de Jassy na Moldavia. Atos secretos começaram a ser usados para extirpar o clero recalcitrante. Em junho de 1949, Anton Bisoc, o Superior franciscano, recebeu um telegrama, provavelmente do bispo Durcovici, pedindo que fosse vê-lo imediatamente. Bisoc partiu e nunca mais foi visto novamente. Seu assistente, padre Herciu, foi procurá-lo. Ele também desapareceu sem deixar vestígios24. A mensagem era clara: a insistência da Igreja Romana seria tratada da mesma forma que com os católicos gregos.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Talleyrand - Gastronomia e política


DESTAQUE


À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestigio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na plateia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo.


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Talleyrand - Gastronomia e política

J. A. Dias Lopes




O príncipe de Talleyrand, gastrônomo traquejado, político e diplomata francês, serviu a diferentes regimes e só se manteve fiel ao queijo brie


Nunca houve um vira-casaca tão assombroso quanto o príncipe de Talleyrand-Périgord, político e diplomata francês. Serviu aos diferentes regimes que governaram seu país entre 1789 e 1838, período assinalado pela tomada da Bastilha, a ascensão e queda de Napoleão e a restauração monárquica. Tirou proveito de todos, até mesmo financeiro, sem se conservar leal a nenhum. Também poucas vezes se viu um gastrônomo tão pródigo.

O escritor Eugène Sue, seu contemporâneo, inspirou-se em uma das predileções habituais de Talleyrand, como ficou conhecido, para afirmar que em toda a vida ele só se manteve fiel ao queijo brie. Saboreava essa iguaria diariamente, acompanhada de velhos tintos de Bourdeaux. Protagonista brilhante do Congresso de Viena — a assembléia que reuniu os paises europeus após a queda de Napoleão, entre os anos de 1814-15, a fim de restabelecer o equilíbrio continental de poderes e definir novas fronteiras nacionais — colocou a Inglaterra e a Áustria contra a Prússia e a Rússia. Ao mesmo tempo, fez com que a França saísse da reunião com o território intacto e, sobretudo, reconhecida como grande potência.

A tradição espalha que Talleyrand obteve do Congresso de Viena a proclamação do brie como “rei dos queijos”. No final de um dos banquetes que se sucederam, cada país inscreveu um ou mais candidatos. Eram 52 queijos, a maioria à base de leite de vaca. O príncipe de Metternich, representante da Áustria, renomado apóstolo da reação contra o liberalismo, apresentou um queijo da Boêmia; o conde Nesselrode, da Rússia, exibiu um em formato de salsicha; o duque de Wellington, futuro presidente do Conselho de Ministros da Inglaterra, ofereceu o ceshire, cujo sabor especial deriva do leite produzido por vacas que pastam nos capins ligeiramente salobros da fronteira com o País de Gales. O vencedor foi o brie levado pelo príncipe de Talleyrand, feito por certo Baulny, da região de Ile-de-France, perto de Paris, a mesma do Palácio de Versailles. Coincidentemente, era o queijo que proporcionara um dos últimos prazeres gustativos ao rei Luis XVI, antes de ser preso, conduzido à prisão e guilhotinado pela Revolução Francesa.

Talleyrand era gastrônomo traquejado. Onde estivesse, exigia cozinha e mesa impecáveis. Por 11 anos contou com os serviços de Antonin Carême, considerado o melhor chef de todos os tempos.

Talleyrand só fazia uma refeição por dia: a da noite. Seu desjejum era frugal. Ao meio dia, ele tomava apenas chá. Ainda de manhã, recebia o chef com as sugestões para a ceia. Discutia com ele as receitas e os pontos de cozimento, questionava molhos e acompanhamentos. O cardápio se compunha de diversas sopas, quatro entradas, dois pratos de mar, quatro intermediários, dois assados e vários doces, além do invariável queijo brie. À ceia sempre havia convidados ilustres. Freqüentá-la era sinal de prestígio, ocasião para comer bem e com fartura. Apesar dos inúmeros serviçais, o anfitrião trinchava pessoalmente os assados, com a destreza protocolar. Numa ceia, exibiu-se para um grupo formado por um cardeal, um príncipe, um marquês, um conde e um barão, usando uma enorme faca e um garfo, ambos de ouro maciço.

Descendente de antiga família nobre, ele dominava a arte de presidir a mesa. Além de gourmand, animava a conversa. Conseguia ser ao mesmo tempo teatral e lacônico. Entremeava as prosas com minutos de silêncio, provocando expectativa na platéia. Foi um dos maiores conversadores de seu tempo. Por um defeito físico, não deixaram que seguisse a carreira militar. Um acidente na infância o deixou coxo.

Mesmo não demonstrando vocação religiosa, a família o lançou na carreira eclesiástica. Ajudado por um tio arcebispo, escalou rapidamente a hierarquia da Igreja Católica e, apesar da vida devassa, foi nomeado arcebispo de Autun, na Borgonha. Além de culto e fluente, era bom orador. Pronunciou sermões empolgantes. Elegeu-se deputado à Assembléia Nacional e apresentou projeto colocando os bens do clero sob o controle da nação.

O Papa o condenou durante a Revolução Francesa e ele abandonou a Igreja, dedicando-se à diplomacia. Chegou a ocupar o Ministério do Exterior da França. A certa altura de suas Memórias, publicadas em cinco volumes, Talleyrand revela ter sido educado por preceptores. Jamais permaneceu uma semana inteira com os pais. Isso o marcou profundamente. O talento verbal vinha da mãe, com quem jamais se deu bem. Mesmo assim, procurava-a na adolescência, para assimilar seu modo diferente de falar.

A mãe empregava a linguagem engenhosa das reuniões elegantes do século 18, a mesma que o filho usou no salão de madame de Genlis, impressionando a aristocracia parisiense.

Certa vez, Napoleão perguntou a Talleyrand como havia se transformado em brilhante conversador. Ele respondeu: “Bem, da mesma maneira que sua majestade escolhe o campo de batalha para combater, só aceito falar quando tenho alguma coisa a dizer. Nunca respondo perguntas inesperadas. Em geral, não me deixo questionar por ninguém, exceto por vós. E, caso me indaguem alguma coisa e eu respondo, é porque sugeri a pergunta”.

Não por acaso, Talleyrand foi um dos maiores diplomatas do passado. A gastronomia funcionou como seu instrumento político. Amigos e inimigos o descreveram como “uma pessoa irresistível à mesa”. É célebre sua resposta ao rei Luis XVIII, que insistia em lhe dar recomendações na partida para o Congresso de Viena. “Majestade, perdoe-me, mas necessito mais de panelas do que instruções. Consiga-me um bom cozinheiro e bastante queijo brie que eu me arranjo com o resto”.


O queijo aclamado


O brie se tornou conhecido mundialmente no Congresso de Viena, realizado no século 19, quando Talleyrand conseguiu aclamá-lo “rei dos queijos”. Mas os franceses, seu criadores, conhecem-no há muito mais tempo. Surgiu na pequena cidade de Melun, a 40 quilômetros de Paris, na região de Ile-de-France, quando ainda existia a Gália Transalpina, que abrangia a França e a Bélgica. Entre os anos 58 e 50 a.C., esse território foi conquistado pelo romano Julio César, após extensa campanha bélica. Carlos Magno, rei dos francos e imperador do Ocidente (742-814), provou o brie ao passar por ali e se encantou, introduzindo-o no seu palácio. Ao contrário do que alguns acreditam, o camembert descende do brie. É queijo muito mais novo: só apareceu no século 18, durante a Revolução Francesa. Um padre foragido, vindo da terra do brie, revelou seu segredo a uma fazendeira chamada Marie Harel – e ela o reproduziu na Normandia.

O queijo predileto de Talleyrand usa leite de vaca. São necessários 23 litros para fazer uma unidade. Apresenta-se redondo e achatado. Mede entre 20 e 35 centímetros de diâmetro e possui cerca de 3 centímetros de altura. A crosta é enrugada, ligeiramente avermelhada, com bolor branco. A pasta se mostra alva quando fresca, tornando-se amarelada após 6 a 8 semanas de cura. A textura é suave e cremosa. O sabor, leve e delicado. Com o tempo, a pasta amolece. O queijo vai adquirindo cor amarelo-palha e sabor a noz. Os tradicionalistas preferem o “fermier” ou colono, artesanal. O outro, industrial, é chamado de “laitier”. Mas ambos podem exibir qualidade.

O brie procede de quatro localidades, todas na região de Ile-de-France. Os mais famosos vêm de Melun e Meaux. O primeiro possui tamanho menor e produção idem: são 190 toneladas anuais contra 5650 do outro. A maturação, porém, é mais demorada e ocorre em caves mais frias. Também existe o brie de Melun sem cura, conhecido como bleu. O de Meaux já foi maior. Antigamente, ultrapassava os 50 centímetros de diâmetro. Constituía um problema para os fabricantes, porque é preciso virar o queijo diversas vezes durante a cura, numa operação delicada. Qualquer descuido pode rachá-lo.

Para homenagear o gosto de Talleyrand ou por compatibilidade natural, o queijo de Melun combina com os tintos de Bordeaux, enquanto os de Meaux vão bem com os da Borgonha. O ideal é saboreá-los puros, acompanhados ou não de pão. Come-se o brie com a casca, que esconde sabores deliciosos e faz bem à saúde. É queijo ainda usado em cozinha. As famosas bombinhas de massa folhada denominadas “bouchées à la reine”, criadas em homenagem à polonesa Maria Leszczynski, mulher de Luis XV, costumam ser recheadas com brie. Os italianos, que a exemplo dos brasileiros imitam com perfeição o produto original, usam-no nos crostini.


(Cf. O Estado de São Paulo, 17-5-2002 – Caderno 2 – pagina 18)

Sorteio em comemoração de 1 ano do Core Catholica: caderno em encadernação copta com estampa do blogue.



Para participar basta seguir esses 4 passos:

1 - "Curta" a página no facebook do Core Catholica.
2 - Clique em "Obter Notificações".
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Em comemoração de 1 ano da criação do blogue Core Catholica sortearemos esse caderno em encadernação copta com estampa em veludo estilo medieval feito por nós mesmos! Isso mesmo, o caderno é 100% artesanal, desde a sua estampa (elaborada pelo nosso designer) até a sua construção.


Copta era o nome como eram chamados os nativos cristãos do Egito. No terceiro ou segundo século D.C., os cristãos que viviam no Egito desenvolveram a técnica que consistia em unir páginas de pergaminho dobrado, que eram costurados, adaptando a técnica que tinham em entrelaçamentos de fios e tecelagem de tapetes. O trabalho final era protegido por placas de madeira (capa dura) e coberto com peles de animais.



Uma ligação copta é capaz de ser aberta em 360°!

Embora as técnicas e os materiais tenham mudado consideravelmente ao longo dos últimos dois milênios, a prática de vincular páginas soltas entre capas de proteção em um livro encadernado continua a florescer.


Os primeiros exemplos de ligação copta foram encontrados no Egito, em vários locais diferentes incluindo antigos mosteiros e no deserto. O mais conhecido e mais bem preservado exemplo de vinculação copta é uma cópia do livro Atos dos Apóstolos, datado do século V.





REGULAMENTO:


- O sorteio será realizado dia 26/9/2014.

- O ganhador será divulgado na página e caso não entre em contato em até 3 dias, será desclassificado, e um novo sorteio será feito com data a ser definida. Por isso a importância de clicar em "Obter Notificações".


- O caderno sorteado é igual ao da imagem.


Para concorrer você deverá estar "curtindo" a página  https://www.facebook.com/corecatholica, clicar em "Obter Notificações", ter compartilhado a foto da promoção e ter clicado em "Quero Participar" no aplicativo sorteie.me https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/378874.

- O sorteio será feito pelo 'Sorteie.me', aplicativo seguro do Facebook.


- Caso "descurta" a Página ou retire de "Obter Notificações" seus cupons serão desconsiderados.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Palavra do Sacerdote: Mentalidade racionalista levou ao protestantismo



DESTAQUE


 O protestantismo nasceu sob o signo do racionalismo, que, principalmente a partir do teólogo franciscano inglês Guilherme de Occam (1300 – 1350), vicejou então nos meios católicos, e foi fazendo o seu caminho até ser mais tarde, por assim dizer, codificado pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650) em seu tristemente célebre Discurso sobre o método.

A fé em Jesus Cristo é necessária à salvação, é claro! Mas se eu tenho fé em Cristo Jesus, devo ser coerente em seguir os seus mandamentos, e, portanto, praticar as boas obras que ele mandou! Que sentido faz ter fé em Jesus Cristo e não conformar a vida aos seus ensinamentos? Por isso disse Jesus aos fariseus: “E vós também, por que transgredis o mandamento de Deus? [...] Hipócritas, bem profetizou de vós Isaías, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15, 3 e 7-8). E no Evangelho de São João (14, 15): “Se me amais, observai os meus mandamentos”. De onde conclui São João: “Quem diz que O conhece [a Deus], e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está nele”(I Jo 2, 4).
[...] o homem é justificado pelas obras, e não pela fé somente [...] Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2, 14-26).
É que as boas obras são dispostas por Deus no nosso caminho, isto é, Ele é Quem nos dá o impulso (a graça) para as praticarmos, de modo que a fonte delas vem toda da graça de Deus. Nem por isso Deus dispensa a nossa predisposição à cooperação, sem a qual Ele não nos salva. Essa cooperação –– portanto, fruto da graça –– é necessária, e conseqüentemente meritória para alcançarmos a salvação. Daí a frase lapidar do grande Santo Agostinho: "Qui creavit te sine te, non salvabit te sine te" (Aquele que te criou sem tua cooperação, não te salvará sem tua cooperação) (Serm. 169, XI; PL 38, 923).


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A Palavra do Sacerdote


Cônego José Luiz Villac

Pergunta — A paz de Cristo. Gostaria de expressar através destas linhas minha discordância quanto às explicações referentes às perguntas feitas quanto às passagens que se referem ao ladrão na cruz e à parábola do rico e de Lázaro. O Apóstolo São Paulo, um dos formadores da espinha dorsal da doutrina do Novo Testamento, é bem nítido em suas palavras em Efésios (cap. 2, vers. 8 e 9: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe”. Fica claro, neste e em muitos outros textos do Novo Testamento, que o único elemento necessário à salvação do homem é a fé em Cristo Jesus. “Mas a todos quantos o receberam, aos que Crêem [sic, em maiúscula] no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Evangelho de João, cap. 1, vers. 12). Vale ainda mencionar as palavras de Paulo em Romanos cap. 3, vers. 16: “Sabemos, contudo, que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim pela fé em Jesus Cristo. Nós também temos crido em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei, pois pelas obras da lei ninguém será justificado”. Desde já agradeço a atenção. Na graça de Cristo Jesus.

Resposta — A presente seção de Catolicismo tem por finalidade a orientação e formação dos católicos; portanto, é a eles primordialmente dirigida. Curiosamente, ela tem sido lida também por protestantes, que têm manifestado frequentemente sua discordância, às vezes em termos agressivos, outras vezes em termos cordatos, como é o caso da presente missiva. Pareceu-nos conveniente, como exceção, aproveitar o ensejo para apontar aos que nos leem um dos equívocos fundamentais da exegese protestante, que os leva a não aceitar a interpretação católica das Sagradas Escrituras. Quiçá isso possa ajudar as almas retas que entre eles existam a reencontrar o caminho da verdade e aceitar o ensinamento da Igreja.

Mentalidade racionalista levou ao protestantismo

Lutero, para salvar a doutrina que inventara, teve a desfaçatez de excluir a Epístola de São Tiago da lista dos livros canônicos...

O protestantismo nasceu sob o signo do racionalismo, que, principalmente a partir do teólogo franciscano inglês Guilherme de Occam (1300 – 1350), vicejou então nos meios católicos, e foi fazendo o seu caminho até ser mais tarde, por assim dizer, codificado pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650) em seu tristemente célebre Discurso sobre o método. A meio caminho, o racionalismo infectou o frade agostiniano Martinho Lutero (1483-1546), que criou o protestantismo.
O racionalismo se caracteriza por uma simplificação artificial do raciocínio, que o inabilita a perceber a realidade em toda sua complexidade, cheia de nuances e matizes. Como alguém que quisesse desenhar uma curva com uma sequência de segmentos retos... Não sem razão, Pascal comparou-o ao raciocínio geométrico (esprit geométrique), em oposição ao espírito de finura (esprit de finesse), que sabe captar e se conformar à multiplicidade de aspectos dos entes, fatos e situações.
A carta que estamos analisando está voltada a defender a conhecida tese protestante da sola fide, que tínhamos impugnado nesta seção no nº 655 de Catolicismo (em julho do ano passado). Isto é, a falsa tese de que “o único elemento necessário à salvação do homem é a fé em Cristo Jesus”, como afirma o missivista. Consequentemente, para ele, como para os protestantes em geral, não há necessidade das boas obras para alcançar a salvação: o indivíduo pode pecar à vontade, cometer os maiores crimes; se tiver fé, se salvará. É uma doutrina muito cômoda, mas falsa, e evidentemente não leva à salvação. O missivista aduz em sua defesa dois textos de São Paulo, que analisaremos em seguida.

A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma

Antes de fazê-lo, porém, convém apontar desde logo a falta de bom senso do raciocínio, característico da mentalidade racionalista. A fé em Jesus Cristo é necessária à salvação, é claro! Mas se eu tenho fé em Cristo Jesus, devo ser coerente em seguir os seus mandamentos, e, portanto, praticar as boas obras que ele mandou! Que sentido faz ter fé em Jesus Cristo e não conformar a vida aos seus ensinamentos? Por isso disse Jesus aos fariseus: “E vós também, por que transgredis o mandamento de Deus? [...] Hipócritas, bem profetizou de vós Isaías, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15, 3 e 7-8). E no Evangelho de São João (14, 15): “Se me amais, observai os meus mandamentos”. De onde conclui São João: “Quem diz que O conhece [a Deus], e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está nele”(I Jo 2, 4).
O Apóstolo São Tiago resume toda essa doutrina de modo lapidar: “Que aproveitará, irmãos meus, se alguém diz que tem fé e não tem obras? Porventura poderá salvá-lo tal fé? [...] Assim, também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. [...] Mas queres tu saber, ó homem vão, como a fé sem obras é morta? Abraão, nosso pai, não foi ele justificado pelas obras, oferecendo seu filho Isaac sobre o altar? Tu vês que a fé cooperava com as suas obras; e que a fé foi consumada por meio das obras. [...] Vedes, pois, que o homem é justificado pelas obras, e não pela fé somente? [...] Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2, 14-26).
O trecho é tão concludente, que Lutero, para salvar a doutrina que inventara, teve a desfaçatez de excluir a Epístola de São Tiago da lista dos livros canônicos... Exclusão inútil, pois, como vimos, ela nada mais é do que a conclusão lógica das palavras de Nosso Senhor relatadas por São Mateus e São João, que citamos no parágrafo anterior.

De que obras fala o Apóstolo São Paulo?
Não obstante, São Paulo afirma taxativamente que “pelas obras da lei não será justificado nenhum homem diante dele [de Deus] (Rom. 3, 20). E mais adiante: “Porquanto sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (Rom 3, 28). [Nossas referências à Sagrada Escritura diferem das do missivista, pois naturalmente ele utilizou uma versão protestante, com outra numeração dos versículos].
“Aí está –– bradará o missivista –– a doutrina de Paulo contradiz a de Tiago!”.
A exegese católica, diante dessa aparente contradição, analisa profundamente o texto em questão, para ver exatamente em que contexto se encaixam as palavras de um e outro Apóstolo, pois não há contradição na doutrina revelada.
Ora, lendo o trecho todo de São Paulo, vê-se que ele não está falando das boas obras de modo geral, mas sim de certos preceitos da lei mosaica que cabia aos judeus observar, e que alguns destes, já convertidos ao cristianismo, queriam que os gentios também convertidos observassem — como a circuncisão, por exemplo —, ao que São Paulo se opunha. Essa questão foi levada a São Pedro e demais Apóstolos reunidos em Jerusalém, os quais, no chamado Concílio de Jerusalém, o primeiro concílio da Igreja, resolveram de acordo com o parecer de São Paulo (cfr. Act 15, 1-34).
À luz destes esclarecimentos, releiamos São Paulo: “Onde está pois, [ó judeu] a tua glória? Foi excluída. E por que lei? Pela das obras? Não; mas pela lei da fé. Porquanto sustentamos que o homem é justificado pela lei da fé, sem as obras da lei. Porventura Deus só o é dos judeus? Não o é ele também dos gentios? Sim, certamente ele o é também dos gentios; porque há um só Deus, que justifica pela fé os circuncidados, e que também pela fé justifica os incircuncisos. Destruímos nós, pois, a lei com a fé? Longe disso; antes confirmamos a lei” (Rom 3, 27-31).
Mais adiante, prossegue São Paulo: “Também David proclama bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça sem obras [...]. Ora, esta bem-aventurança é somente para os circuncidados, ou também para os incircuncisos? Porquanto dizemos que a fé foi imputada a Abraão como justiça. Como lhe foi ela, pois, imputada? Depois da circuncisão ou antes da circuncisão? Não foi depois da circuncisão, mas antes dela. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça, recebida pela fé antes da circuncisão, a fim de que fosse pai de todos os crentes incircuncisos, para que também a eles lhes seja imputada a justiça” (Rom. 4, 6 e 9-11).
Fica claro que as obras, às quais São Paulo se refere, são aqueles preceitos legais (cerimoniais) que os judeus deviam observar como ratificação de sua Aliança com Deus, como a circuncisão, repetidamente mencionada, a qual não havia necessidade de impor aos gentios convertidos. Quanto aos Dez Mandamentos da Lei de Deus, dados a Moisés no Monte Sinai, constituem uma síntese da Lei Moral, que tanto circuncisos quanto incircuncisos devem observar. O que resulta na prática de boas obras. Não há, pois, contradição entre São Paulo e São Tiago.
O outro trecho alegado pelo missivista é da Epístola de São Paulo aos Efésios: “Porque é pela graça que fostes salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das vossas obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2, 8-9).
Aqui temos um exemplo típico do vezo protestante de isolar uma frase da Escritura e começar a raciocinar a partir dela, sem verificar o contexto. Ora, bastaria que o missivista tivesse lido o versículo seguinte, para perceber que Deus não dispensa a prática das boas obras: “Porque somos obra sua, criados em Jesus Cristo para boas obras, que Deus preparou para caminharmos nelas” (Ef 2, 10).
Qual é a interpretação autêntica deste versículo, dada pela Igreja Católica? É que as boas obras são dispostas por Deus no nosso caminho, isto é, Ele é Quem nos dá o impulso (a graça) para as praticarmos, de modo que a fonte delas vem toda da graça de Deus. Nem por isso Deus dispensa a nossa predisposição à cooperação, sem a qual Ele não nos salva. Essa cooperação –– portanto, fruto da graça –– é necessária, e consequentemente meritória para alcançarmos a salvação. Daí a frase lapidar do grande Santo Agostinho: "Qui creavit te sine te, non salvabit te sine te" (Aquele que te criou sem tua cooperação, não te salvará sem tua cooperação) (Serm. 169, XI; PL 38, 923).
Como se vê, estamos diante de raciocínios um tanto complexos, pouco ao gosto da mentalidade racionalista, mas nem por isso deixam de ser inteiramente verdadeiros!

domingo, 24 de agosto de 2014

Governo chinês intensifica esforços para estabelecer ‘cristianismo nacionalista’


DESTAQUE


"É um sinal muito negativo que mostra realmente que o governo chinês quer controlar ambas as construções físicas e a doutrina cristã que se ensina nesses lugares", indicou Sooyoung Kim, diretora regional do International Christian Concern para o sudeste asiático em Washington, ao grupo ACI em 12 de agosto.

"Sinto-me muito esperançada pelos fiéis desta terra. Eles dizem que querem lutar, lutar até o final", afirmou Kim. "Eles não estão seguros de poder manter elevada a cruz física, mas estão convencidos de que têm que ser fiéis e não ter medo da injustiça".


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Partido comunista da China retira cruz de Igreja. 



BEIJING, 21 Ago. 14  (ACI/EWTN Noticias).- O governo chinês anunciou que aumentará seus esforços para promover e desenvolver uma teologia cristã nacionalista, para exercer um maior controle sobre a população.

Em 7 de agosto, o jornal People Daily informou que o diretor da Administração Estatal de Assuntos Religiosos da China, Wang Zuoan, anunciou que as autoridades locais trabalharão mais para promover a teologia cristã Chinesa que está de acordo com a "condição nacional da China".


Soldados do partido comunista sendo doutrinados, desde cedo, pela pior das doutrinas: o marxismo. Imagem meramente ilustrativa.


"É um sinal muito negativo que mostra realmente que o governo chinês quer controlar ambas as construções físicas e a doutrina cristã que se ensina nesses lugares", indicou Sooyoung Kim, diretora regional do International Christian Concern para o sudeste asiático em Washington, ao grupo 
ACI em 12 de agosto.

Este anúncio surge como resultado de uma campanha "anti-
igreja" realizada na província de Zhejiang, zona conhecida como a "Jerusalém da China", onde mais de 360 templos foram parcial ou totalmente demolidos, incluindo a igreja cristã de Sanjiang cujas obras de construção terminaram no ano passado.

Em 13 de agosto, a cruz da igreja da Salvação de Shuitou, localizada na cidade de Wenzhou, foi arrancada após quase dois meses de vigília na qual os cristãos se mantiveram no lugar para protegê-la. Em uma tentativa anterior de tirar a cruz, conhecida como a Cruz JuiEn, a polícia agrediu os cristãos com barras de ferro, deixando pelo menos quatro deles com ferimentos graves.

Kim assegurou que estes ataques foram feitos com a desculpa de ser um projeto de embelezamento urbano mediante a destruição ou modificação de edifícios considerados como estruturas ilegais. Entretanto, muitas destas Igrejas estavam aprovadas pelo estado e não existe uma lei que proíba as cruzes nos edifícios.

Os funcionários do governo "já realizaram algo parecido em edifícios seculares, mas existe uma grande desigualdade na quantidade de Igrejas e cruzes que foram eliminadas em comparação aos edifícios seculares", expressou Kim.

Enquanto as Igrejas construídas em casas ou as Igrejas não registradas, registraram um aumento na perseguição desde 2008, os atuais ataques contra as Igrejas aprovadas pelo governo não têm precedentes.

"O governo quis repreender às Igrejas subterrâneas porque é consciente do rápido crescimento do cristianismo e que isso está saindo do controle", assinalou Kim. O "governo chinês sempre é muito sensível ante qualquer percepção de ameaça a seu poderio, seja ela ideológica ou de outra índole".

"Esta é a primeira vez que vimos uma ofensiva massiva contra as Igrejas por parte do governo e muitas pessoas se perguntam o que está acontecendo".

É muito difícil que a destruição das Igrejas e a eliminação das cruzes na província de Zhejiang terminem em curto prazo, advertiu Kim. "Estamos acompanhando muito de perto este assunto e até agora todos nossos contatos disseram que não há sinal algum de um cesse imediato".

International Christian Concern lançou uma petição ao governo chinês para que coloque fim à eliminação das cruzes e à demolição das Igrejas, posto que estas ações são ilegais segundo a Constituição da China. A organização planeja entregar a petição ao embaixador CuiTiankai.

Apesar da perseguição religiosa que enfrentam muitos cristãos chineses, Kim expressou sua esperança e fé, inclusive quando a cruz física está sendo arrebatada.

"Sinto-me muito esperançada pelos fiéis desta terra. Eles dizem que querem lutar, lutar até o final", afirmou Kim. "Eles não estão seguros de poder manter elevada a cruz física, mas estão convencidos de que têm que ser fiéis e não ter medo da injustiça".


Fonte: ACI Digital
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