segunda-feira, 22 de setembro de 2014

INFORMAÇÃO SEM MORDAÇA



Nota do blogue: 

De uns tempos para cá, em alguns círculos que se afirmam partidários da tradição católica, a figura de Putin, supremo mandatário russo, tem aparecido cercada de uma inexplicável auréola.

Por razões até hoje ignoradas ou mal explicadas, fizeram-no passar, quase da noite para o dia, por um processo de 'blanchissage' (branqueamento, limpeza): patrono ilibado da derrubada da 'ordem mundial', patrocinador da restauração dos valores morais, e por aí afora.. De permeio, há quem afirme que seria oponente máximo do 'sionismo' mundial, razão pela qual deveríamos cerrar fileiras em torno de suas iniciativas, por mais atentatórias do direito natural e da moral que possam ser.

Em carta recente a este blog, um estimado missivista não hesitou em afirmar que não se deveria atacar a política de Putin, como não se deve atacar o que fez Hitler, que, segundo o mesmo leitor, teria sido -- tanto um, no passado, quanto o outro, no presente --, ardoroso combatente do 'anti-sionismo'.

Em face disso, pergunta-se: será que efetivamente foi assim no passado?

Uma breve incursão pela história da Segunda Guerra Mundial esclarece a realidade dos fatos.

Pode não ser 'politicamente correto' dizê-lo, mas é moralmente inexcusável ocultá-lo. Trata-se de umas breves pinceladas sobre a real atitude do nazismo em face do denominado 'sionismo'. O depoimento parte de uma pessoa insuspeita, por isso, o reproduzimos abaixo.

Matéria para reflexão: é muito fácil construir mitos -- mais difícil desmascará-los. Será, porém, sempre oportuno restabelecer a verdade dos fatos.







Por Raphael de la Trinité


Este blog consagra-se a reproduzir e a comentar matérias de palpitante atualidade, tendo em vista atender às naturais demandas da opinião pública católica.

Caso alguma das informações transmitidas não goze de real credibilidade, compete dirigir-se às agências noticiosas que difundiram a notícia.

Obviamente, se, em dado caso concreto, estivermos em presença de alguma informação errônea ou inidônea, desde que efetivamente comprovado o engano, será estampada aqui a indispensável retificação.

No entanto, será esse o caso? Recorramos os documentos históricos. Sem dúvida, contra fatos não há argumentos.


SOBRE A CONDENAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA AO NAZISMO

"Somente espíritos superficiais podem cair no erro de falar de um deus nacional, de uma religião nacional, e empreender a tola tentativa de captar nos limites de um só povo, na estreiteza de uma só raça, Deus, criador do mundo, Rei e legislador dos povos, diante de cuja grandeza as nações são pequenas como gotas d"água que caem de um balde".

Mais um texto de Pio XI refutando doutrinariamente a tese absurda de que o nazismo não teria sido contrário ao cristianismo:

"Se homens, que nem são unidos em sua fé em Cristo, vos seduzem e lisonjeiam com o fantasma de uma igreja nacional alemã, sabei que isto não é outra coisa senão renegar a única Igreja de Cristo, numa apostasia manifesta do mandado de Cristo de evangelizar todo o orbe, o que só uma Igreja universal pode realizar." (Pio XI, Mit brennender Sorge).


O QUE HITLER AFIRMAVA SOBRE A IGREJA CATÓLICA

"Para o nosso povo [alemão], ao contrário, a religião é um assunto capital. Tudo depende de saber se ele permanecerá fiel à religião judeu-cristã e à moral servil da piedade, ou se ele terá uma nova fé, forte, heroica, em um Deus imanente na natureza, em um Deus indiscernível de seu destino e de seu sangue" (H Rauschning, "Hitler m'a dit", p. 65).

A alusão de Hitler a um Deus imanente, inseparável do sangue, isto é, da raça alemã, coincide com a tese condenada pela Mit brennender Sorge, de Pio XI, referente a um ‘deus’ nacional.


SOBRE A REDENÇÃO DE CRISTO, Hitler dizia:

"À doutrina cristã do primado da consciência individual e da responsabilidade pessoal, eu oponho a doutrina da nulidade do indivíduo e de sua sobrevivência na imortalidade visível da nação. Eu suprimo o dogma da redenção dos homens pelo sofrimento e pela morte de um Salvador divino [Hitler, portanto, ataca, neste parágrafo, a fé na divindade de Cristo e nos méritos da Sua Morte de cruz], e proponho um dogma novo da substituição dos méritos: a redenção dos indivíduos pela vida e pela ação do novo Legislador-Führer, que vem aliviar as massas do fardo da liberdade". (H. Rauschning, op. cit. p. 254).

Esses dois movimentos - nazismo e sionismo -- têm origem semelhante. Ambos são nacionalistas. Ambos se julgam movimentos defensores de uma raça superior.

O Nazismo nasceu do nacionalismo liberal. Seu lema era "Ein Volk, ein Reich, ein Führer", lema oriundo do nacionalismo da Revolução Francesa. Foi o nacionalismo que fez Monroe declarar "A América para os americanos". Hitler, da mesma forma, poderia ter dito: "A Alemanha para os alemães".

Os judeus sionistas pensavam que a Judéia devia ser dos judeus. O Sionismo intentava obter em favor dos judeus o mesmo que o nazismo pretendia [supostamente] em favor dos alemães.

Querendo a Alemanha só para os alemães, o nazismo pleiteava, de fato, que os judeus saíssem de seu país. Desejando um lar nacional, os judeus sionistas compeliam os judeus a sair da Alemanha e de toda a Europa.

Originou-se daí a organização da emigração dos judeus da Alemanha para a Palestina, algo que a maioria dos judeus alemães assimilados categoricamente recusava. Já teve oportunidade de ler o livro de Hannah Arendt, "Eichmann em Jerusalém"? As teses fundamentais desse livro de Hannah Arendt são muito ilustrativas do ponto de vista histórico:

1) OS SIONISTAS COOPERARAM COM OS NAZISTAS NO HOLOCAUSTO. (HANNAH ARENDT, OP. CIT , P. 15, 36, 53,70, 72, 74 ETC.)

2) O HOLOCAUSTO FEITO PELOS NAZISTAS E SIONISTAS ENTERROU, PROVAVELMENTE PARA SEMPRE, O ANTI-SEMITISMO. (HANNAH ARENDT, OP.CIT. P. 21).

Em conseqüência, pode-se dizer que foi o nazismo que permitiu o renascimento do Estado de Israel. Sem o Nazismo, o Estado de Israel, muito provavelmente, nem existiria hoje.

O nazismo, pela natureza da perseguição movida contra os judeus, forçou o êxodo maciço de judeus para a Palestina, o que permitiu o triunfo do Sionismo. A derrocada do nazismo, em 1945, e o renascimento do Estado de Israel, em 1948, são dois fatos que é impossível não relacionar como causa e efeito, pelo menos circunstancialmente.

Haja vista estes textos de Hannah Arendt sobre o denominado Holocausto, que reproduzo abaixo:

"... porque os sionistas, segundo os nazistas, eram ‘os judeus decentes’, porque eles também pensavam em termos nacionais" (H. Arendt, op. cit, p.73).

"Nesses primeiros anos, havia um acordo mútuo altamente satisfatório entre as autoridades nazistas e a Agência Judaica para a Palestina - um Há"avarah, um Acordo de Transporte, que permitia que um emigrante judeu para a Palestina pudesse transferir seu dinheiro para lá em bens alemães e trocá-los por libras ao chegar" (H. Arendt, op. cit., p. 73).

"Pois é indiscutível que durante os primeiros estágios de sua política judaica, os nacionais socialistas acharam adequado adotar uma atitude pró-sionista" (Hans Lamm, apud Hannah Arendt, op cit p. 72).

Hannah Arendt informa que o próprio Eichmann se "converteu ao sionismo, imediata e definitivamente", ao ler o "famoso clássico sionista Der Judenstaat de Theodor Herzl, o fundador do movimento sionista". (Cfr. H. Arendt, op. cit. p. 53).

"Seus [de Eichmann] primeiros contatos pessoais com funcionários judeus, todos eles bem conhecidos sionistas de longa data, foram inteiramente satisfatórios. A razão de tanto fascínio [de Eichmann] pela ‘questão judaica’, conforme ele próprio [Eichmann] explicou, era seu ‘idealismo’; esses judeus, ao contrário dos assimilacionistas, que sempre desprezou, e ao contrário dos judeus ortodoxos, que achava tediosos, eram ‘idealistas’ como ele próprio". (H. Arendt, op. cit. p.54).

"O maior ‘idealista’ que Eichmann encontrou entre os judeus foi o Dr. Rudolf Kastner, com quem negociou durante as deportações judaicas da Hungria e com quem firmou um acordo: Eichmann permitiria a partida ‘legal’ de alguns milhares de judeus para a Palestina (os trens eram, de fato, guardados pela polícia alemã) em troca de ‘ordem e tranqüilidade’ nos campos de onde centenas de milhares eram enviados a Auschwitz. Os poucos milhares, salvos por esse acordo, judeus importantes e membros das associações jovens de sionistas, eram, nas palavras de Eichmann, "o melhor material biológico". O Dr. Kastner, no entender de Eichmann, sacrificava seus irmãos judeus à sua ‘ideia’, e assim devia ser". (H. Arendt, op. cit. p. 54).

Se não fosse uma pensadora judia e de tanta autoridade como Hannah Arendt que escrevesse isso, não se acreditaria nesses fatos. Dir-se-ia invenção de nazistas ou de antissemitas. Entretanto, Hannah Arendt é judia, nada suspeita de antissemitismo.

O acordo entre o Nazismo e o Sionismo incluía até mesmo o treinamento de jovens judeus sionistas para irem para a Palestina!

Que tipo de treinamento seria oferecido a esses emigrantes judeus?

"Para Eichmann, o que mais importava eram os emissários da Palestina. Estes procuravam a Gestapo e a SS por iniciativa própria, sem aceitar ordens, nem dos sionistas alemães, nem da Agência Judaica para a Palestina. Eles vinham a fim de convocar ajuda para a emigração ilegal de judeus para a Palestina governada pela Grã-Bretanha, e tanto a Gestapo como a SS ajudavam-nos. Eles negociaram com Eichmann em Viena e relataram que ele era ‘polido’, ‘não do tipo que grita’ e que chegou a lhes oferecer fazendas e instalações para o estabelecimento de campos de treinamento vocacional para possíveis emigrantes. (‘Em uma ocasião, ele expulsou um grupo de freiras de um convento para fornecer uma fazenda de treinamento para jovens judeus’, e, em outra, pôs à disposição ‘um trem especial e oficiais nazistas acompanharam’ um grupo de emigrantes que seguiam ostensivamente para fazendas de treinamento na Iugoslávia, para que atravessassem a fronteira em segurança.) (H. Arendt, op. cit. p. 74.).

O nazismo era tão cristão e tão anti-sionista [irridebit!], que expulsava freiras de um convento, só para treinar jovens sionistas que se preparavam para emigrar para a Palestina...

Essa aliança Nazista-Sionista não funcionou só antes da guerra. Mesmo em plena execução da "Solução Final" genocida, os emissários sionistas da Palestina tinham a permissão para ir até Auschwitz selecionar ‘material adequado’ judaico entre os prisioneiros do famoso Campo de extermínio:

"... esses judeus da Palestina (...) eram mandados para a Europa pelos assentamentos comunais da Palestina, e não estavam interessados em operações de salvamento: ‘Não era essa a sua função’. Eles queriam selecionar ‘material adequado’, e seu principal inimigo, antes do programa de extermínio, não eram aqueles que faziam da vida um inferno para os judeus nos velhos países, Alemanha ou Áustria, mas aqueles que barravam o acesso à nova pátria; esse inimigo era definitivamente a Grã-Bretanha, não a Alemanha. Na verdade, eles estavam em posição de negociar com as autoridades nazistas em bases que beiravam a igualdade, coisa que os judeus nativos não podiam fazer (...), estavam provavelmente entre os primeiros judeus a falar abertamente sobre interesses mútuos e foram certamente os primeiros a receber a permissão ‘para selecionar jovens pioneiros judeus’ entre os judeus dos campos de concentração". (H. Arendt, op. cit. p. 74-75.).

Não obstante, enquanto os membros dos governos de fachada [nos territórios ocupados pelos nazistas] eram de modo geral escolhidos entre os partidos de oposição, os membros dos Conselhos Judeus eram comumente os líderes reconhecidos em cada região. A estes, os nazistas outorgavam enormes poderes — até eles também serem deportados para Theresienstadt ou Bergen-Belsen, se fossem da Europa Central ou Oriental, ou para Auschwitz, se fossem da comunidade da Europa Ocidental". (H. Arendt, op cit, p. 134.).

Theresienstadt era um lugar para judeus "decentes" ou especiais, como dizia Eichmann: "Sabemos, de fontes melhores do que a memória deficiente de Eichmann, que desde o começo Heydrich planejara que Theresienstadt servisse como um gueto especial para certas categorias privilegiadas de judeus, principalmente, mas não exclusivamente da Alemanha". (H. Arendt. op. cit. p. 95).

O próprio Hitler selecionava alguns judeus privilegiados para serem poupados.

"Conta-se que o próprio Hitler conhecia 340 ‘judeus de primeira classe’ que ele fez assimilar ao status de alemães ou a quem concedeu privilégios de meio judeus. Milhares de meio judeus tinham sido eximidos de todas as restrições, o que pode explicar o papel de Heydrich na SS e o papel do Generalfeldmareschall Erhard Milch na Força Aérea de Goering, pois era de conhecimento geral que Heydrich e Goering eram meio judeus". (H. Arendt, op. cit. p. 150).


SOBRE A COOPERAÇÃO SIONISTA COM O NAZISMO E COM O HOLOCAUSTO, HANNAH ARENDT RELATA EPISÓDIOS DIGNOS DE NOTA, MOSTRANDO COMO O NAZISMO COOPEROU PARA O NASCIMENTO DO ESTADO DE ISRAEL, POR MEIO DO ANTI-SEMITISMO.

"Mas a verdade integral é que existiam organizações comunitárias judaicas e organizações recreativas e assistenciais tanto em nível local como internacional. Onde quer que vivessem judeus, havia líderes judeus reconhecidos, e essa liderança, quase sem exceção, cooperou com os nazistas de uma forma ou de outra, por uma ou outra razão". (H. Arendt, op. cit. p. 141).

Havia uma polícia judaica encarregada de procurar e prender judeus destinados à morte e que haviam fugido:

"Eichmann e seus homens informavam aos Conselhos de Anciãos Judeus quantos judeus eram necessários para encher cada trem, e eles elaboravam a lista de deportados. Os judeus se registravam, preenchiam inúmeros formulários, respondiam páginas e páginas de questionários referentes a suas propriedades, de forma que pudessem ser tomadas mais facilmente; depois se reuniam em pontos de coleta e embarcavam nos trens. Os poucos que conseguiam se esconder ou escapar eram recapturados por uma força policial judaica especial". (H. Arendt, op cit. p. 131).

Até mesmo o extermínio físico dos judeus nos campos de concentração era feito com a cooperação dos judeus:

"O fato bem conhecido de que o trabalho direto dos centros de extermínio ficava usualmente nas mãos de comandos judeus foi justa e cabalmente estabelecido pelas testemunhas de acusação -- como eles trabalhavam nas câmaras de gás e nos crematórios, como eles arrancavam os dentes de ouro e cortavam os cabelos dos mortos, como eles cavavam os túmulos e os desenterravam de novo para eliminar os traços de assassinato em massa; como técnicos judeus haviam construído as câmaras de gás em Theresienstadt, onde a ‘autonomia’ dos judeus havia sido levada tão longe, que até o carrasco era judeu". (H. Arendt., op cit. p. 139).

Seria preciso praticamente reproduzir todo o livro de Hannah Arendt, tantas informações interessantes ali estão contidas.

Para não estender demais esta missiva, detenho-me aqui.


SOBRE OS ‘EXPERIMENTOS’ NAZISTAS

"Mengele ordenara a execução de dois judeus, pai e filho. O pai era corcunda, e o filho tinha uma deformação em um pé. Para estudar a causa dessas deformidades, e usar os resultados para comprovar uma suposta degeneração da raça judaica, Mengele ordenou que se matassem os dois, que se cozinhassem os corpos e que se limpassem os seus esqueletos, para mandá-los para um museu racista em Berlim. Quando o Dr. Miklos teve que cozinhar os cadáveres desses pobres prisioneiros em um tonel de metal, enquanto o tonel esfriava, alguns prisioneiros famintos comeram a carne humana desses dois cadáveres fervidos". (Cf. Miklos Nyisli, Médico em Auschwitz, p. 218.)

E sobre a comida que normalmente era servida aos prisioneiros de Auschwitz, diz o Dr. Miklos:

"Como alimento, recebem pão bolorento. É fabricado com castanhas selvagens, margarina feita de linhite e trinta gramas de salsicha fabricada e com carne de cavalo sarnoso. O conjunto não ultrapassa setecentas calorias.

“Essa ‘refeição’ é regada com meio litro de sopa de urtigas ou de nabos suecos, sem gordura, sem farinha e sem sal. Após quatro ou cinco dias, a disenteria invariavelmente surge; depois de três ou quatro semanas, o indivíduo já não sofre — pois infalivelmente sucumbe, quaisquer que sejam os cuidados". (Miklos Nyisli, "Médico em Auschwitz", Otto Pierre editores, Rio de Janeiro, 1980, p. 119, p. 52 a 61).


À vista do que foi exposto, será necessário aduzir algo?

sábado, 20 de setembro de 2014

Putin ameaça invadir Polônia, Romênia e países bálticos, diz jornal alemão


DESTAQUE

Caso Putin avance com as ameaças, o Reino Unido pode entrar em guerra com a Rússia, avança o Telegraph. Todos os países nomeados por Putin estão cobertos pela garantia de segurança da NATO, que diz que “um ataque a um dos países é um ataque a todos”. No início do mês, o presidente dos Estados Unidos da América confirmou o compromisso com esta doutrina num discurso em Tallinn.


*** * ***


A notícia foi avançada pelo jornal alemão Suddeutsche Zeitung, que refere que a ameaça foi feita por Vladimir Putin ao presidente ucraniano PetroPoroshenko, numa conversa privada, pelo telefone.

É a primeira vez que Putin ameaça invadir países membros da NATO ou da União Europeia, diz o The Telegraph. AFP/Getty Images.




















Por Ana Pimentel

O presidente russo Vladimir Putin ameaçou invadir a Polónia, Roménia e os países bálticos numa conversa privada com o presidente ucraniano PetroPoroshenko, diz o The Telegraph. A notícia foi avançada pelo jornal alemão SuddeutscheZeitung esta quinta-feira e, a ser verdade, é a primeira vez que Putin ameaça invadir países membros da NATO ou da União Europeia.

“Se eu quiser, em dois dias tenho tropas russas não só em Kiev, como em Riga [Letónia], Vilnius [Lituânia], Tallin [Estónia], Varsóvia [Polónia] e Bucareste [Roménia]“, disse alegadamente Putin ao presidente ucraniano, segundo o jornal alemão.

Caso Putin avance com as ameaças, o Reino Unido pode entrar em guerra com a Rússia, avança o Telegraph. Todos os países nomeados por Putin estão cobertos pela garantia de segurança da NATO, que diz que “um ataque a um dos países é um ataque a todos”. No início do mês, o presidente dos Estados Unidos da América confirmou o compromisso com esta doutrina num discurso em Tallinn.

No início de setembro, Vladimir Putin também disse ao presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso que, se quisesse, poderia tomar a capital ucraniana em duas semanas, segundo o jornal italiano La Repubblica. Depois de Putin ter ameaçado divulgar a conversa toda, Durão Barroso veio a público lamentar que a conversa privada com o presidente russo tenha sido divulgada de forma “distorcida” e “fora do contexto”.

Segundo a publicação alemã, Durão Barroso ter-se-á encontrado com o presidente ucraniano Poroshenko na semana passada, onde terá surgido a divulgação sobre a ameaça decorrente das conversas que os líderes dos dois países tiveram durante o cessar-fogo. 

Além de ameaçar com a invasão de mais países, Putin alertou o presidente ucraniano para que não tenha “muita fé” na União Europeia, porque a Rússia poderia exercer a sua influência e lançar uma “minoria de bloqueio” entre os Estados membros.

Os países bálticos estão particularmente nervosos com as intenções da Rússia, mas o presidente norte-americano Barck Obama tentou tranquilizá-los com o discurso que fez em Tallinn no início do mês, dizendo que a NATO “está com a Estónia, com a Letónia e com a Lituânia”.

A Comissão Europeia não confirmou nem negou se é verdade que Durão Barroso se reuniu com Poroshenko. “O que importa para a Comissão e para a União Europeia é contribuir para que haja uma paz duradoura, estabilidade e prosperidade na Ucrânia”, disse Pia Ahrenkilde Hansen, porta-voz da Comissão Europeia.

O presidente ucraniano PetroPoroshenko reuniu-se esta quinta-feira com Barack Obama na Sala Oval da Casa Branca, para pedir mais assistência militar norte-americana na luta contra os rebeldes russos, segundo a Fox News.

“A imagem do presidente Poroshenko sentado na Sala Oval vai valer mais do que mil palavras – em inglês e em russo”, disse Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca.



Fonte: Observador

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

‘Humanitarismo’ de Putin é pára-vento para a invasão da Ucrânia


DESTAQUE

A OTAN, por fim, reconheceu como indubitável a participação de unidades do exército russo em ações de guerra na Ucrânia.
Vladimir Putin revidou ameaçador: “Eu quero lembrar-vos que a Rússia é líder em poder nuclear”, segundo The Telegraph.
Pego numa série de imoralidades e falsos de envergadura, o líder da “nova-URSS” respondeu acenando com o crime máximo do extermínio nuclear.

Putin está se mostrando tão “sinceramente humanitário” quanto “autenticamente cristão” e “familiar”, enquanto é flagrado em manifestos embustes.


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Luis Dufaur



Vladimir Jirinovsky discursa sob o olhar aprobativo de Putin

“Temos de atacar a Polônia e os Estados bálticos nos lugares em que há mísseis e aeronaves da OTAN.
“Não podemos permitir que um avião decole e ataque a Rússia, por isso temos de atacar primeiro e impedir com meia hora de antecedência qualquer movimentação de aeronaves. E para certificarmo-nos, faremos bombardeio de saturação.
“A América não é uma ameaça, mas os estados anões da Europa cessarão de existir. Eles serão varridos.
“E então a OTAN terá de implorar a nós por negociações, caso contrário daremos a eles novamente um Maio de 45.”
Estas delirantes ameaças foram formuladas por Vladimir Jirinovsky vice-presidente da Duma, o Parlamento russo sempre submisso à vontade do chefe do Kremlin.
Elas foram emitidas durante uma entrevista a uma rede de televisão russa em 08/08/2014 e traduzidas pelo geopolítico americano Jeffrey Nyquist.

Vladimir Jirinovsky não pertence ao partido “Rússia Unida” de Vladimir Putin. Tem seu próprio partido que ostenta um nome de tapeação: Partido Liberal Democrata da Rússia (LDPR) e possui a terceira maior bancada da Duma.

Aperto de mãos de Putin na reunião de Minsk
não convenceu ninguém.

Na realidade é porta-voz das bravatas nacionalistas mais extremadas. Aquelas que por cautela o senhor do pensamento único da “nova-URSS” não pronuncia, mas que gosta ver que outros o façam.
Jirinovsky aquece o nacionalismo do qual vive Vladimir Putin. Mas, suas palavras são a tomar com cautela mas com desconfiança.
Enquanto escrevo as presentes linhas, diversas fontes informativas da Internet noticiam que o secretário geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen, em entrevista ao jornal alemão‘SüddeutscheZeitung’ fez uma clara advertência a Putin.
“Todo potencial agressor deve saber que pensando atacar a um aliado da OTAN não só encontrará os soldados do país em foco, mas também tropas da OTAN”, disse segundo El Mundo.

Segundo o mesmo jornal a OTAN prepara unidades de intervenção imediata na Polônia, Estônia, Lituânia e Letônia, para “possibilitar uma intervenção mais rápida em caso necessário”, considerando as ameaças da Rússia aos países vizinhos.

“Em caso de agressão, poderíamos intervir em questão de horas”, acrescentou Rasmussen.
A Lituânia tinha solicitado o incremento da presença da aliança atlântica em seu país considerando a provocativa movimentação de tropas russas perto de sua fronteira.
No sul, “duas naves da OTAN vão entrar no Mar Negro no dia 3 de setembro, o destrutor americano ‘USS Ross’ e a fragata francesa ‘CommandantBirot’”, noticiou contrariada a agência moscovita RiaNovosti.

O presidente Obama, por sua vez, responsabilizou a Rússia pela guerra na Ucrânia e acusou Putin de “mentir”, segundo 20minutes.fr.

No front ucraniano a hipocrisia deixou lugar ao cinismo. Após o “comboio humanitário” enviado por Putin como cortina de fumaça da invasão militar operada nos últimos dias; a negação da entrada de qualquer tropa russa violando a fronteira ucraniana seguida da prisão de mais de dez paraquedistas russos exibidos à imprensa mundial que Moscou qualificou de apenas um “equívoco”, tirou as últimas aparências de credibilidade dos líderes do Kremlin.

A OTAN, por fim, reconheceu como indubitável a participação de unidades do exército russo em ações de guerra na Ucrânia.
Vladimir Putin revidou ameaçador: “Eu quero lembrar-vos que a Rússia é líder em poder nuclear”, segundo The Telegraph.

Pego numa série de imoralidades e falsos de envergadura, o líder da “nova-URSS” respondeu acenando com o crime máximo do extermínio nuclear.

Putin está se mostrando tão “sinceramente humanitário” quanto “autenticamente cristão” e “familiar” enquanto é flagrado em manifestos embustes.

Fonte: IPCO

domingo, 14 de setembro de 2014

Viva Putin 'cristão'
































Por Raphael de la Trinité



Repete-se todo o esquema da Segunda Guerra Mundial.


Como Hitler é contra as 'democracias liberais' e a 'ordem mundial capitalista', é preciso [SIC!] apoiá-lo, ainda que isso redunde num favorecimento do comunismo. Já naquela época, Hitler dizia (Goëring e outros, também) que o comunismo aplainara o caminho, fora uma preparação para o nazismo. Hitler foi muito claro a respeito: 'Para que precisamos nós socializar os bancos e as fábricas? Socializamos os homens’ (Adolfo Hitler, apud Hermann Rauschning, ‘Hitler m´a dit’, Coopération, Paris 1939, pp. 218-219). Mesmo assim, legiões de pessoas que se afirmavam anticomunistas, sem pestanejar, entoavam a cantilena suicida: Hitler é a solução!

Também o Führer, naqueles idos, era visto como uma espécie de ‘novo’ Carlos Magno. Afinal, defendia a 'ordem', falava em deus, reportava-se às religiões da suástica (alguns altos dignitários foram iniciados nos cultos tibetanos) e nos brumosos mitos pagãos do Valhalla (mais ou menos como, hoje, Putin dá a entender que pretende restaurar o 'passado mítico' russo). Mais. O Führer acenava para a volta da monarquia alemã, criticava a 'degeneração moral' do Ocidente (embora as SAsNazistas, de Ernst Röhm, fossem uma pepineira de arruaceiros homossexuais, que Hitler houve por bem, para efeito de propaganda, extinguir depois, via massacre programado) e tivesse assinado uma Concordata com a Igreja Católica (que, tão logo quanto possível, violaria de forma acintosa, perseguindo violentamente os católicos).

Inovando pouco em relação ao quadro da Segunda Guerra Mundial, também agora Putin se apresenta como um velho 'cristão', meio disfarçado nas ‘operosas’ fileiras da KGB... Aliado, pois, da 'renovada' Igreja autodenominada ortodoxa russa, que, sem muitos disfarces, fez aliança aberta com os comunistas, após a Revolução bolchevista de 1917, e que, servindo docilmente aos manejos publicitários de Moscou, durante décadas atou como força-auxiliar, quase um departamento de propaganda estatal do regime comunista...

A História se repete.

'Nada há de novo sob o sol' (Eclesiastes).

A História é 'mestra da vida'. Enquanto os inteligentes aprendem, os recalcitrantes reproduzem as mesmas lengalengas que já iludiram tantos.

Muito procedente, nessa direção, o comentário do conhecido pensador espanhol Donoso Cortéz: 'o espírito humano tem sede do absurdo e do ridículo'.

Quanto à surrada balela de que a Rússia soviética teria tido um papel heroico na celebrada resistência russa diante do avanço nazista, existe argumentação borbulhante em sentido contrário.

De fato, não fosse pelo apoio descarado do Ocidente, pela entrega de armas, dinheiro e toda espécie de apoio logístico do Ocidente aos ‘aliados’ comunistas (traição manifesta de Churchill, Roosevelt e outros), desde o início da Segunda Guerra, muito provavelmente, a URSS teria sido, sem muito tardar, carta fora do baralho. Manifestação inconfundível dessa inépcia do Exército Vermelho (que sofrera colossais expurgos de seus melhores quadros, por parte do Partido comunista): a imensa dificuldade que experimentara a URSS de Stalin, em 1939, para subjugar... a Finlândia do general Mannerheim!

O próprio tirano vermelho, anos depois, quando houve um avanço decisivo dos alemães, chegou a acreditar que seria deposto por outros comunistas, menos poltrões e fracassados do que ele. E, fazendo jus aos artifícios de sempre, quando as tropas alemãs estavam perto de Moscou, despudoradamente, foi à rádio e fez um apelo: 'Meus filhos, salvemos a SANTA Rússia!'

Nessa mesma ocasião e em circunstâncias sucessivas, lançou toda espécie de promessas lisonjeiras: liberdade, eleições, e assim por diante. Enquanto isso, as populações do Leste aclamavam as tropas alemãs como libertadoras do domínio comunista.

Entretanto, em face das atrocidades inomináveis perpetradas pelos nazistas — os quais intentavam uma espécie de extermínio dos eslavos, tidos por eles como 'raça inferior' —, que se poderia esperar da população, senão que resistisse? Entre dois fogos ou dois déspotas sanguinários, melhor ficar com o da própria raça, sem dúvida... Numa carta, Rosenberg denunciara a absurda política autodestrutiva adotada por Hitler.

Se, pelo contrário, nas regiões da URSS que estavam sendo 'libertadas', Hitler tivesse formado governos provisórios e tratado bem as populações locais, é inconteste que teria levado de roldão Stalin e apaniguados. Mormente, ao que se crê, caso tivesse desferido desde logo ataque decisivo contra Moscou, não se deixando envolver nas malhas de Stalingrado (conforme opinam não poucos estrategistas e estudiosos do assunto).

Stalin chegou a pensar em fugir de Moscou, e criar um governo fantoche num local remoto da Rússia. Por um triz não se concretizou o plano, que poderia haver determinado a debacle do colosso soviético.

TUDO ISSO APARECE DOCUMENTADO, PROCEDENTE ATÉ DOS ARQUIVOS QUE VIERAM A LUME DEPOIS DA IMPLOSÃO DA RÚSSIA SOVIÉTICA (1989). Há uma literatura tão farta sobre isso, que nem haveria tempo para transcrever aqui.

De forma exemplificativa, citemos um livro, dentre dezenas de outros, que demonstram à saciedade o que está referido acima: 'Stálin, os Nazistas e o Ocidente — a Segunda Guerra entre duas paredes', Laurence REES, Larousse do Brasil, São Paulo, 2009.

Apesar disso, eximindo-se da responsabilidade de se informar, estudar e analisar os acontecimentos, adeptos da hilariante (tragicômica) ‘mise-en-scène’ Viva Putin 'cristão' irrompem desinibidos. Simplesmente difundem chavões, ditos primários e grosseiros, fazem propaganda tosca e inconsequente do que apregoam ser a nova 'anti' ordem mundial — algo que, reduzido a miúdos, não é muito diverso do mesmo conluio de sempre, em prol da república universal, talvez com tintura ou verniz um pouco diverso daquilo que é propalado sob a expressão de 'homem pardo da ONU', conforme o figurino traçado e até aqui vigente.

É possível não perceber que, fundamentalmente, caminham em direção ao mesmo objetivo, apenas com um ziguezague pelo misticismo 'esotérico' de Hitler e apaniguados — desta feita, sob uma exuberante roupagem, colhida talvez das estepes russas? Dugin, Soral, e outros, sem pejo nem meias-medidas, chegam a falar em 'nacional-comunismo'...

Também na época de Hitler dicotomia análoga estava na ordem do dia: enquanto os comunistas falavam em 'luta de classes', os alemães do Terceiro Reich trombeteavam em favor da 'luta de raças'... ‘Grande’ diferença!...

Agora, tendo o comunismo caído de podre, os mentores do chamado pós-comunismo resolveram caiar a parede da casa: que tal uma pitada de religiosidade pelo meio?

Por que, afinal, não trocar o grosseiro materialismo das origens — seco, árido, espinhoso, cruel e assassino —, por uma demão de 'tradicionalismo esotérico'? Não ficaria, assim, mais ‘palatável’ (como se diz comumente), bem mais fácil de digerir, uma pílula furta-cor, qual seja a de um remanejado‘comunismo-religioso’?

Nada do que se afirma aqui é elaboração fátua ou conjetura em torcicolo. Basta pesquisar e confrontar documentos com as realidades de ontem e de hoje — desde que esse cotejo seja feito sem facciosismos nem preconceitos, é claro.

Onde buscar a fórmula? No Ocidente, ninguém duvida de que a Teologia da Libertação (a qual, conforme definiu o ex-frei Boff, é ‘marxismo na Teologia’) constitui o modelo ou parâmetro ideal para isso. Por que não estender aos Urais essa convidativa e desconcertante simbiose comunista-cristã?

No dolorosíssimo caso da Rússia, tendo sido a população aparvalhada e robotizada por décadas de doutrinação ateia, que de melhor do que lhes proporcionar alguma ilusão de ordem mística, dado que o povo é altamente sentimental e fatalista? Sim, no fundo, anseiam por um Czar, isto é, por alguém que simbolize aquela legitimidade que lhes foi roubada após o satânico massacre da Família Imperial russa.

Por que, então, não excogitar uma figurinha da KGB travestida de 'czar pós-moderno', arauto das 'antigas tradições’, cultivadas com esmero pelos velhos camponeses russos? Nada como um bom tempero para uma comida requentada há décadas, que já ninguém conseguia deglutir...

Dado que, obviamente, os arautos da hilariante (tragicômica) ‘mise-en-scène’ Viva Putin 'cristão' se acham desprovidos de argumentos concludentes, pois diametralmente oposto à evidência dos fatos, como respondem ao serem interpelados? Ficam apenas em acrobacias ou piruetas de linguagem, que a ninguém convence.

A isso se circunscreve o ‘debate'.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Escrever bem é ter o que dizer. E vice-versa


DESTAQUE


A própria facilidade com que mimetizava tantos estilos parecia então uma prova de que eu não tinha “nada a dizer”. Dominava o como – os muitos comos! –, mas era tudo oco, casca vazia. E por que não seria? Minha vida, em termos objetivos, era comum, razoavelmente feliz, e naquilo que não era feliz vinha a ser mais comum ainda. Claro que, se um dia eu chegasse a publicar alguma coisa, não faltariam críticos para apontar o vácuo gritante: “Ele escreve bem, mas não tem o que dizer!”.

Tem-se tornado mais arraigada do que nunca a ideia de que a arte é apenas um veículo, entre outros, de significados sociais preexistentes. Em vez de reconhecer seu núcleo irredutível, tratando-a como um valor em si...

Tal ideia contém o germe da negação da arte, do obscurantismo absoluto, mas cada vez mais tem passado por avançada e chique.

Ocorre que o conteúdo, pouco importa se vivido, imaginado, sonhado ou lido, só existe através da forma e como expressão dela. Se alguém não sabe escrever, não tem o que dizer, e vice-versa. O quê da literatura é fundamentalmente literário.


*** * ***






“Fulano escreve bem, mas não tem o que dizer.” Não lembro onde li essa frase, muito tempo atrás – provavelmente numa resenha ou quem sabe em duas ou três, pois a verdade é que se trata de um semiclichê crítico. Junto com seu autor ou autores, minha memória deixou de registrar também o alvo ou os alvos da diatribe. Foi a frase em si que passou a me assombrar de tempos em tempos em meus primeiros anos de escritor tateante, como se expressasse uma advertência severa e uma verdade terrível.

Então não bastava aprender a escrever? Era preciso também ser possuidor de uma qualidade mais misteriosa, talvez inata, certamente existencial, quem sabe política, que parecia tão fugidia quanto assustadora? Eu acreditava levar jeito para aquela coisa de fazer literatura, sentia que as palavras me mostravam alguma obediência, mas… teria o que dizer? E como uma pessoa que não tem o que dizer descobre, inventa, encomenda, pega emprestado, vai à luta de algo para dizer?

Levou tempo para que eu descobrisse estar diante de uma questão falsa. Saber escrever e ter o que dizer são rigorosamente a mesma coisa, ou melhor, não existe na literatura – ou em arte alguma – a possibilidade de separar “como dizer” e “o que dizer”. Ou se tem o pacote completo ou não se tem nada. Mas essa sabedoria ainda estava distante para quem, batendo cabeça entre admirações contraditórias, passava pela fase da imitação.


Enquanto eu tentava tomar posse do estilo deste ou daquele autor admirado, hoje seco feito Hemingway e Hammett, amanhã barroco e rosiano, uma semana às voltas com doudos pontos-e-vírgulas colhidos em Machado, na outra cuspindo gírias e palavrões coletados em João Antônio e Rubem Fonseca, um dia cronista cômico, no outro mais pesado que um Dostoievski de ressaca – enquanto eu brincava assim, com a maior seriedade, era talvez inevitável que me assaltasse de vez em quando uma dúvida aterradora.


Quando a insegurança batia mais forte, eu era dominado pela suspeita de ser um Zelig* das letras. A própria facilidade com que mimetizava tantos estilos parecia então uma prova de que eu não tinha “nada a dizer”. Dominava o como – os muitos comos! –, mas era tudo oco, casca vazia. E por que não seria? Minha vida, em termos objetivos, era comum, razoavelmente feliz, e naquilo que não era feliz vinha a ser mais comum ainda. Claro que, se um dia eu chegasse a publicar alguma coisa, não faltariam críticos para apontar o vácuo gritante: “Ele escreve bem, mas não tem o que dizer!”.


Devo ter perdido um bom punhado de horas de sono com isso. Sim, eu sei: é ridículo. Mas não me parecia ridículo na época e duvido que pareça ridículo hoje a muitos jovens que decidem se aventurar na literatura.
Tem-se tornado mais arraigada do que nunca a ideia de que a arte é apenas um veículo, entre outros, de significados sociais preexistentes. Em vez de reconhecer seu núcleo irredutível, tratando-a como um valor em si, preferimos admitir que sua linguagem pode até ser sofisticada, para não dizer elitista, mas acreditamos que o que importa mesmo é seu conteúdo, sua “mensagem”. E que aquilo que ela diz poderia ser expresso de outras formas – sociológica, política, crítica, panfletária, jornalística, histórica – sem perda de valor. Tal ideia contém o germe da negação da arte, do obscurantismo absoluto, mas cada vez mais tem passado por avançada e chique. O século XX nos conduziu do pântano do esteticismo ao abismo do filistinismo.

Até conselhos bem intencionados como “Escreva sobre o que você conhece bem” e “Viva primeiro, escreva depois” reforçam a ideia de que para escrever literatura que preste é preciso desembarcar nela, como um viajante consumista voltando de Nova York, com uma bagagem recheada de valiosas “mensagens”. Tais conselhos podem ter sua utilidade, pois viver é sempre bom, mas artisticamente são furados. Fundam-se na supervalorização de um certo conteúdo – no caso, a experiência vivida – sobre a forma.
Ocorre que o conteúdo, pouco importa se vivido, imaginado, sonhado ou lido, só existe através da forma e como expressão dela. Se alguém não sabe escrever, não tem o que dizer, e vice-versa. O quê da literatura é fundamentalmente literário.


*Zelig é um filme de Wood Allen de 1983

Fonte: Todo Prosa
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