quinta-feira, 11 de abril de 2013

Em 1921, o Papa Bento XV condenou o crucifixo retorcido!

Fonte: Domine Canes

Crucificação, da via-sacra de Servaes, 1919.
Há uma história conectada com a férula Scorzelli, a da cruz de Albert Servaes (1883-1966). Servaes tinha feito, em 1919, quatorze desenhos em carvão sobre papel branco que representam as estações da Via Crucis impregnados de um forte pathos e uma deformação constante dos corpos em sua expressão de dor extrema. Este é um claro exemplo de "expressionismo" aplicado ao sagrado.

Servaes é um dos artistas da Escola de Laethem, que se caracteriza por uma busca agressiva de um primitivismo "exótico" na escola de Laethem-Saint-Martin, em Flandes. O grupo Laethem, dos quais o expoente mais conhecido é Gustave de Smet, partiu de uma crítica ao Impressionismo, que sentia como demasiado próxima a sensibilidade positivista e incapazes de captar os contrastes e ebulições no caminho da Primeira Guerra Mundial.

Férula de Scorzelli.

O expressionismo do grupo Laethem se converteu assim numa rebelião contra as folhas de estilo, delicadas da língua francesa, através do descobrimento de uma realidade trágica na qual o artista é o intérprete.
A rebelião social e individual do artista, no caso de Laethem também ao mercantilismo típico dos círculos expressionistas em Paris.

A condenação da Via Crucis de Servaes por parte do Santo Ofício, depois da aprovação direta do Papa Bento XV, é um documento chave, já que não é uma simples condenação de um trabalho específico, senão a proibição de um estilo completo ou escola de arte: Albert de Servaes apresentou a mão de Jesus como uma garra...








Decreto que CONDENA as imagens sagradas de uma ESCOLA PICTÓRICA (publicado em 30 de março de 1921 pelo Santo Ofício).

Os eminentíssimos e reverendíssimos senhores cardeais reunidos com os inquisidores gerais em matéria de fé e moral, em sessão ordinária celebrada na segunda-feira, 23 de fevereiro de 1921, publicamente declararam censuradas as imagens sagradas da nova escola pictória que se exibe no folheto intitulado A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo de Cyril Vershaeve (imagens compostas por Albert Servaes. Bruxelas e Paris. Librairie National d'art e d'histoire et G. van Oest e editores, 1920), pela prescrição do cânon 1399, n.º 12, que as proibe pela lei e portanto devem ser retiradas imediatamente de igrejas, oratórios etc. e em todo lugar que forem expostas. Na quinta-feira seguinte, 24 do mesmo mês e ano, Sua Santidade, o Papa Bento XV, na Audiência CONSEJEROS, aprovou a resolução que se lhe havia mostrado, e ordenou-lhes que a partir desta, ficasse estabelecido e confirmado.

Dado em Roma, em São Pedro, escritório de imprensa, 30 de março de 1921.

A. Castellana

Notário.

DECRETUM DAMNANTUR SACRAE IMAGINES 
CUIUSDAM NOVAE SCHOLAE PICTORICAE


Emi ac Rmi Domini Cardinales in rebus fidei et morum Inquisitores Generales, in ordinario consessu habito feria iv, die 23 februarii 1921, publice declarandum censuerunt: Imagines sacras cuiusdam novae scholae pictoricae, quarum specimen exhibetur in opusculo cui titulus: La Passion de Notre-Seigneur Jésus-Christ par Cyril Verschaeve (ornée de compositions d'Albert Servaes. Bruxelles et Paris. Librairie Natio- nale d'art et d'histoire G. van Oest et Ci e Editeurs, 1920), ad praescriptum canonis 1399, n. 12,prohiberi ipso iure, ideoque statim removendas esse ab Ecclesiis, Oratoriis, etc., in quibus forte expositae inveniantur. Et insequenti feria v, die 24 eiusdem mensis et anni, Sanctissimus D. N. Benedictus divina Providentia Papa XV, in solita audientia R. P. D. Assessori S. Officii impertita, relatam sibi Emorum Patrum resolutionem approbavit, mandans ad quos spectat ut eam servent et servare faciant. Datum Romae, ex aedibus S. Officii, die 30 martii 1921. A. Castellano, Supremae S. C. S. Off. Notarius. 


A condenação de toda uma "nova escola de pintura" é singular quando lida à luz das mudanças que se introduziram no enfoque da arte da Igreja coma  Sacrosanctum Concilium, em 1963. O anúncio da ausência de "estilos próprios da Igreja" em S.C. 123, já que pode ser questionável, sublinha, contudo, que a Igreja recusou certos estilos em oposição à fé e a tradição. E o caso do expressionismo belga realista, emblemático neste sentido.

Papa Francisco retoma a férula de Paulo VI
A férula Scorzelli não é mais do que a repetição daquele expressionismo. E "a vinganza de Servaes proclamou-se ao mundo em 1965".

Certamente, a férula existiu por muitos anos, de alguma maneira perdeu seu significado original no imaginário coletivo e adotou o aspecto de um símbolo do pontificado de João Paulo II. Contudo, deve-se notar que o Papa Francisco escolheu um anel que pertencia ao arcebispo Pasquale Macchi, ex-secretário do Papa Paulo VI.

É um fato curioso que este anel tenha sido testemunha de uma saída repentina do sarcófago de outro cardeal mumificado: o cardeal Re. Ele, que foi prefeito da Congregação para os Bispos, sem ter sido nem bispo diocesano, sequer pároco, sugeriu ao Papa Francisco a escolha deste anel. Bergoglio e ele o escolheram devido a sua dimensão estética estar estreitamente relacionada com a época paulino. Época de subversão estética dirigida por LercarosFrancias Fallanis. Período iconoclasta por excelência.

Do original, em Fides et Forma.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

São Luís IX, Rei, estadista e cruzado


"Cada época histórica tem um homem que a representa. Luís IX é o homem modelo da Idade Média: é um legislador, um herói e um santo... Marco Aurélio [Imperador romano pagäo] mostrou o poder unido à filosofia; Luís IX, o poder unido à santidade. Avantajou-se o cristäo" (Chateaubriand, Estudos históricos).


Hélio Viana
Fonte: Catolicismo

Matéria de: Agosto de 1998
Não surpreende muito que um homem, retirado num claustro e separado das ocasiões de pecado, domine as inclinações desregradas da natureza e progrida na prática das mais belas virtudes do Cristianismo. Mas que um príncipe, ao qual não se tem a liberdade de repreender nem contradizer, e que vivendo em meio às honrarias e às mais perigosas volúpias, domine suas paixões, conservando a inocência e a pureza de coraçäo, é realmente admirável, podendo ser chamado um prodígio na ordem da graça.
Entretanto, aquilo que é impossível para as forças do homem, näo o é para Deus. E se a História do Antigo Testamento nos apresenta muitas cabeças coroadas que souberam aliar a santidade com a autoridade soberana, e a qualidade de profeta à de chefe, de juiz e de rei, a História do Novo Testamento nos fornece um número bem maior em quase todos os reinos cristäos.
Nesse mês, dia 25, a Igreja nos propöe um príncipe, que podemos chamar de pérola dos soberanos, glória da coroa da França, modelo de todos os príncipes cristäos; e para dizer tudo em duas palavras, um Monarca verdadeiramente segundo o coraçäo de Deus, da Igreja e do povo.
É o incomparável Säo Luís, quadragésimo Rei da França desde o início da monarquia, e o nono da terceira raça, da qual Hugo Capeto foi o tronco.
Seu pai foi Luís VIII, filho de Filipe Augusto, e sua mäe a princesa Branca, de quem os historiadores atribuem a glória de haver sido filha, sobrinha, esposa, irmä e tia de reis. Com efeito, seu pai foi Afonso IX, Rei de Castela, que infligiu aos mouros sério revés na batalha de Navas de Tolosa, quando mais de duzentos mil infiéis pereceram no campo de batalha; era sobrinha dos reis Ricardo e Joäo, da Inglaterra; esposa de Luís VIII, Rei da França; irmä de Henrique, Rei de Castela; mäe de Säo Luís IX e de Carlos, Rei de Nápoles e da Sicília; e tia, através de suas irmäs Urraca e Berengüela, de Sanches, Rei de Portugal, e de Säo Fernando III, Rei de Leäo.
Nasceu Säo Luís no Castelo de Poissy, a 30 quilômetros de Paris, no dia 25 de abril de 1215, quando em toda a Cristandade procissöes solenes comemoravam o dia de Säo Marcos. Vivia ainda seu avô, Filipe Augusto, o qual acabava de ganhar a célebre batalha de Bouvines, oito anos antes de lhe suceder seu filho, o futuro Luís VIII.
A infância de Säo Luís foi um espelho de honestidade e sabedoria. Seu pai, que unia virtude e zelo pela religiäo a uma bravura marcial que lhe valeu o nome de Leäo, foi particularmente zeloso na sua educaçäo. Deu-lhe bons preceptores e um sábio governante: Mateus II de Montmorency, primeiro baräo cristäo; Guilherme des Barres, Conde de Rochefort; e Clemente de Metz, marechal-da-França, que lhe inspiraram os sentimentos que deve ter um rei cristianíssimo e um filho primogênito da Igreja.
Sua mäe, Branca, näo poupou esforços para torná-lo um grande rei e um grande Santo, sobretudo após a morte de seu filho primogênito, Filipe. Ela lhe repetia com freqüência estas palavras, dignas de serem imitadas por toda mäe verdadeiramente católica: "Meu filho, eu gostaria muito mais ver-te na sepultura, do que maculado por um só pecado mortal".
Com a morte prematura do Rei aos 40 anos, em 1226, na cidade de Montpellier, quando voltava da guerra contra os hereges albigenses, nosso Santo subiu ao trono, sob a tutela da mäe, tendo sido sagrado na Catedral de Reims em 30 de novembro daquele mesmo ano.
Sua minoridade foi pródiga em guerras intestinas, causadas pela ambiçäo e orgulho de senhores feudais do reino, que desejavam valer-se da pouca idade do soberano para impor as suas pretensöes. Mas Deus dissipou todas as facçöes por uma proteçäo visível sobre a pessoa sagrada desse jovem Monarca.
Uma minoridade täo conturbada serviu de ocasiäo para fazer reluzir a prudência, o valor e a bondade daquele que se tornaria um protótipo do Rei Católico.

Matrimônio abençoado por Deus


Estátua eqüestre de São Luís IX em frente ao Museu de Arte da cidade de Saint Louis (EUA)
No dia 27 de maio de 1235, pouco depois de completar 20 anos, casou-se com Margarida, filha mais velha de Raimundo Béranger, Conde de Provence e de Forcalquier, e de Beatriz de Sabóia. Era uma princesa que a graça e a natureza haviam dotado de toda sorte de perfeiçöes, e que lhe daria, ao longo de uma santa e harmoniosa existência, 10 filhos, cinco homens e cinco mulheres. Acompanhou ela o jovem esposo na sua primeira expediçäo além-mar, e após a morte deste, retirou-se no Mosteiro de Santa Clara, onde terminou seus dias em 20 de dezembro de 1285. Seu corpo, precedido e seguido por pobres, que a chamavam de mäe, foi enterrado em Saint-Denis.
Luís IX procurava acima de tudo tributar a Deus o serviço e a honra que Lhe eram devidos. Este lhe retribuía assistindo-o em todas as necessidades, aconselhando-o nos empreendimentos, protegendo-o dos inimigos e conduzindo a bom termo todas as suas iniciativas.
O segundo de seus filhos varöes foi Filipe III, que lhe sucedeu no trono, e cujos filhos foram, por sua vez, Reis, até Henrique III. O caçula de Säo Luís foi Roberto de Bourbon, cuja descendência subiu ao trono francês durante nove geraçöes. Das filhas, com exceçäo de uma, falecida prematuramente, todas foram esposas de Reis.

Educação cristã dos filhos: modelo de pai
Ao contrário de outros Monarcas, que negligenciam a educaçäo dos filhos, ou os deixam, sem maior preocupaçäo, aos cuidados de governantes, Säo Luís chamava pessoalmente a si o cuidado de os instruir, imprimindo-lhes na alma o desprezo pelos prazeres e vaidades do mundo e o amor pelo soberano Criador. Ele os exercitava normalmente à noite, após as horas Completas, quando os fazia vir a seu quarto a fim de ouvir as suas piedosas exortaçöes. Ensinava-lhes, além disso, a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, obrigava-os a assistir às Missas de preceito, e incutia-lhes a necessidade da mortificaçäo e da penitência. ±s sextas-feiras, por exemplo, näo permitia que portassem qualquer ornamento na cabeça, porque foi o dia da coroaçäo de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ainda hoje existem os manuscritos das instruçöes por ele deixadas à sua filha Isabel, Rainha da Navarra: säo täo santas e cheias do espírito de Nosso Senhor, que nenhum diretor espiritual, por mais esclarecido que seja, seria capaz de apresentar outras mais excelentes.

O governante: justiceiro e moralizador dos costumes

São Luís IX

Se Säo Luís soube educar täo bem os filhos, foi entretanto ainda mais admirável em governar os negócios públicos. Nunca a França experimentou tanta paz e prosperidade como em sua época. Enquanto as outras naçöes, em todas as latitudes, estavam em convulsäo, os franceses por ele governados gozavam de uma feliz tranqüilidade, assegurada pela sabedoria do Monarca. Ele soube banir do Estado, através de sábias leis, todos os desregramentos entäo existentes. O primeiro deles foi a blasfêmia e os juramentos ímpios e execráveis. Foram täo rigorosas as puniçöes contra eles estipulados, que o Papa Clemente IV julgou dever atenuá-las.
Outros desregramentos que se esforçou em exterminar foram os duelos, os jogos de azar e a freqüentaçäo a lugares de tolerância. Antes de Säo Luís, nenhum Rei havia proibido os duelos: toleravam-no, e às vezes o ordenavam, a fim de se conhecer o direito das partes; o que importava meio enganoso e contrário aos preceitos da justiça.
Modelo em tudo para os homens públicos de todos os tempos e sobretudo de nossos dias, Luís IX o era de modo especial no tocante à boa administraçäo dos bens do Estado e ao exímio cumprimento da lei. Assim, por exemplo, quando enviava juízes, oficiais e outros emissários às províncias para ali exercerem durante algum tempo Justiça, proibia-lhes de adquirir bens e empregar seus filhos, com receio de que isso pudesse ensejar a que viessem cometer injustiças.
Nomeava, acima deles, juízes extraordinários para examinar sua conduta e rever seus julgamentos, a exemplo de Deus, que assegura que julgará a Justiça. E se por acaso encontrava que em algo haviam agido mal, impunha-se primeiramente a si mesmo uma severa penitência, como se tivesse sido o culpado pelo excesso praticado por eles, e em seguida ministrava-lhes severa puniçäo, obrigando-os a restituir o que haviam tomado do povo, se fosse esse o caso, ou a reparar aqueles que haviam sido condenados injustamente. Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e os fazia ascender a funçöes mais honrosas.
Além de administrar Justiça, näo negligenciava o Santo Monarca o cuidado dos pobres.

Zelo pela ortodoxia e piedade
A Santa Capela, parte superior, que São Luís IX mandou construir em Paris, para abrigar a Coroa de espinhos de nosso Redentor
Se foi notório seu zelo em extirpar a libertinagem no reino de França, o que dizer de seu empenho em relaçäo ao extermínio da heresia e ao estabelecimento da Fé e da disciplina cristä? Para isso tomou-se de grande afeiçäo pelos religiosos de Säo Domingos e de Säo Francisco, a quem ele via como instrumentos sagrados dos quais a Providência queria se servir para a salvaçäo de uma infinidade de almas resgatadas pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele os convidava com certa freqüência para jantar, sobretudo Säo Tomás de Aquino e Säo Boaventura, dois luzeiros a iluminar o firmamento da Santa Igreja a partir da Idade Média.
Um dos traços em que a religiosidade desse grande Monarca mais se manifestou foi a aquisiçäo, junto a Balduíno II, Imperador de Constantinopla, da Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a qual mandou edificar essa verdadeira maravilha da arquitetura gótica que é a Sainte-Chapelle, na Sle-de-la-Cité, no coraçäo de Paris.






Voto de cruzar-se: realiza-se a VI Cruzada
Deus, quando suscita numa alma um grande desejo, fá-la näo raro passar por uma grande provaçäo antes de atendê-la. Foi o que sucedeu com Säo Luís, que em 1245 caiu gravemente enfermo, a ponto de alguns terem como certa sua morte. Nessa contingência os franceses, que o amavam como a um pai, fizeram violência ao Céu, organizando vigílias, procissöes e outros atos de piedade pela sua convalescença. O Monarca fez entäo um voto: caso sobrevivesse, partiria para libertar o Santo Sepulcro.
Cumpriu-o três anos depois, ao partir para Lyon, onde se encontrou com o Papa Inocente IV, de quem recebeu a bênçäo apostólica. Dirigiu-se em seguida para Aigues-Mortes, onde o aguardavam as embarcaçöes que deveriam conduzi-lo com os cruzados ao Oriente. Era o dia 25 de agosto de 1248, data em que se iniciava a VI Cruzada da História.
As naus tocaram inicialmente a Ilha de Chipre, onde o Monarca se viu obrigado a permanecer durante o inverno, devido a uma peste que arrebatou a sexta parte de seu exército. Sua demora e essas perdas foram contudo de algum modo recompensadas pela conquista do Rei de Chipre, a quem Säo Luís conseguiu convencer de juntar-se à expediçäo.
Reencetou o Santo Cruzado a sua expediçäo no dia 13 de maio de 1249, à frente de uma formidável armada de 1800 embarcaçöes, grandes e pequenas. Entretanto, devido às tempestades, mais da metade delas desviou-se da rota. De sorte que, ao passar em revista suas tropas, encontrou apenas 700 cavaleiros, dos 2800 de que se compunha seu exército.
De batalha em batalha; vitorioso numas e com reveses em outras; passando por humilhaçöes pelos pecados de seus soldados ou por honrarias em pleno cativeiro (os emires do Egito quiseram elegê-lo Sultäo!); sendo informado do nascimento de um dos filhos em Damiette, em plena época de negociaçäo com os algozes, e do falecimento de sua bondosa mäe, a Rainha Branca, na França; enfrentando pestes e naufrágios, retomou o Rei-Cruzado, em 25 de abril de 1254, festa de Säo Marcos, o caminho da doce França, onde aportou no dia 19 de julho do mesmo ano. Em 5 de setembro encontrava-se no Castelo de Vincennes, e no dia seguinte entrava solenemente em Paris.
Seu regresso foi acolhido com eloqüentes manifestaçöes de dileçäo do Papa Clemente IV e de Henrique III, Rei da Inglaterra.

Provações e santa morte do Rei Cruzado
Decidiu entäo o Santo lançar uma VII Cruzada, a última da História, para a qual se apresentaram seus filhos e Ricardo, Rei da Inglaterra, além de numerosos príncipes e senhores. Após terem sido tomadas todas as providências, partiram em direçäo a Túnis, no dia 4 de julho de 1270.
Mais uma vez no mar, e eis que outra grande tempestade dispersa as embarcaçöes, fazendo com que muitas sejam impedidas de partir. Säo entretanto reparadas e chegam todas a Túnis. Mas o rei daquelas terras, bárbaro, traidor e infiel, que havia chamado Säo Luís à ≡frica dizendo que queria tornar-se cristäo, sequer permitiu que sua armada descesse. O embate começou entäo ali mesmo, com os franceses assediando vários pontos nevrálgicos dos infiéis e a própria capital. Como esta resistisse, decidiram dominá-la cortando os víveres.
Mas a decomposiçäo da cidade atingiu o exército francês, que foi logo empestado por todos os lados, ceifando inúmeras vidas. Säo Luís viu morrer seu filho Jean Tristan, nascido por ocasiäo do seu cativeiro no Egito, e pouco depois ele mesmo entregaria serena e santamente sua bela alma a Deus, o que se deu no dia 25 de agosto de 1270, precisamente 22 anos após sua partida para a VI Cruzada.
As relíquias de Säo Luís foram levadas para a França por seu filho Filipe, com exceçäo das entranhas, destinadas à Abadia de Montréal, na Sicília, a pedido do Rei Carlos, irmäo do Santo Monarca. O resto de seu corpo repousa na Abadia de Saint-Denis. Seu culto foi juridicamente examinado e aprovado pelo Papa Bonifácio VIII, que o canonizou em 1297.
Fonte de referência:
Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, Typographie des Célestins, ancienne Maison L. Guérin, 1874, t. V, p. 192 a 217, Bar-le-Duc.

terça-feira, 9 de abril de 2013

No Irã dos Aiatolás, ser Cristão é crime


El drama de ser un converso cristiano en Irán en dos escalofriantes ejemplos
7/4/2013
R. Cuevas-Mons 
La Gaceta



A Última Oração dos Mártires Cristãos , por Jean-Léon Gérôme (1883) - Tela retrata o martírio de cristãos nas arenas da antiga Roma.







Viven su particular calvario por haber renunciado a la fe de Mahoma. Para los cristianos perseguidos, abrazar la cruz de Cristo cuesta un precio muy alto.


Parvaneh Sarabadi se convirtió al cristianismo junto a su marido hace ahora dos años. Nada anormal si no fuera porque Sarabadi y su marido eran iraníes. Él está muerto - lo asesinó un pariente que descubrió que la pareja había abandonado la fe del Islam - y ella refugiada en Suecia, hasta donde consiguió llegar después de salir clandestinamente de Irán.

Sabía que en la república islámica que preside Ahmadineyah su testimonio ante la justicia valdría bien poco. Además, el Islam es la religión oficial del Estado y abandonarlo por el cristianismo supone cometer delito de apostasía penado en ocasiones con la muerte. Tras varios meses de abusos sexuales y psicológicos por parte de su entorno, Sarabadi emprendió un largo y difícil viaje hasta el país europeo, donde pidió asilo político y comenzó una nueva vida.

Acogida por los fieles de la iglesia de Falun, el lugar en el que reside, se sentía más o menos segura hasta que, a principios de este año, supo que su solicitud de asilo había sido denegada. Suecia quiere enviarla de nuevo a Irán.

La denuncia llega a través de la agencia de noticias Mohabat News, integrada por periodistas cristianos que desean denunciar las situaciones que viven fieles de todo el mundo: si no se evita la deportación de Sarabadi, su vida corre serio peligro. Para proteger a la joven numerosas organizaciones de derechos humanos se han movilizado en Suecia, concentrándose frente a la oficina de inmigración, frente a la comisaría de Policía de Falun e incluso recogiendo firmas para que se respete su condición de refugiada por cuestiones de libertad política y religiosa.


Avión con destino Irán

Cuenta con todo el apoyo de su iglesia, que envió a la Oficina de Inmigración la información necesaria para acreditar la veracidad de su testimonio. Aún así, el pasado 15 de enero las autoridades subieron a Sarabadi a un avión dirección Irán. No despegó. El piloto se negó a realizar el viaje cuando conoció la historia de la mujer y el destino que le esperaba en Irán. Salió del avión detenida.

Ahora su abogado lucha por conseguir la nulidad de su expediente de asilo y para que la Oficina de Inmigración estudie de nuevo el caso de Sarabadi, cuya vida peligra sólo por no querer negar a Jesucristo.

No es la única. Abbas Sarjalou-Nejad, también iraní, se convirtió al cristianismo en 2008, un par de años después de la conversión de su mujer. Junto a su hijo de nueve años, vivían una vida normal y acudían a una iglesia; todo, claro, de forma clandestina. Así fue hasta que un día el pequeño enseñó orgulloso a sus tíos y abuelos paternos el regalo que le habían dado “en la iglesia”. La familia de Sarjalou-Nejad, que ya sospechaba una posible conversión por la ausencia de su hijo y hermano en las fiestas musulmanas, confirmó entonces la noticia. Estaban ante dos traidores conversos. Les instaron a regresar al Islam y, ante la negativa del matrimonio, les amenazaron: “Espero que seas capaz de soportar el dolor”, dijo a Sarjalou su hermano.

-No me preocupé. ¿Cómo iba a pensar que mi propio hermano, con quien he vivido una infancia maravillosa, me iba a traicionar?- contaba a Mohabat News el cristiano. Con lo que no contaba era con el fanatismo que sus padres y hermanos profesan al líder supremo iraní, Ali Khamenei, y con los amigos que habían hecho en la Guardia Revolucionaria.


´Te vigilamos´

Sólo habían pasado unos días cuando se oyeron golpes en la puerta del domicilio. Cuatro agentes uniformados esperaban al otro lado. Se llevaron a Sarjalou, le cubrieron la cabeza con una bolsa y condujeron durante más de 30 minutos. Cuando pudo ver, Sarjalou se encontró en una celda. Después llegó el interrogatorio. Golpes e insultos durante varias horas. Preguntas sobre el nombre de su iglesia y los fieles que la frecuentan. Sarjalou no responde. Más golpes. Al final lo dejan libre con, eso sí, una advertencia. “Te vigilamos”.

Apenas un mes y medio después llega la segunda detención. Esta vez de cinco días y con torturas físicas más agudas - quemaduras de cigarrillos, latigazos - y amenazas verbales: tenemos a tu mujer y a tu hijo. Sarjalou firma un papel en el que se muestra dispuesto a colaborar con el régimen iraní [SIC!], se reúne con su familia y se refugia en casa de un amigo. Unos días después, cuando las autoridades indican a él y su mujer una dirección y una hora para una charla, deciden dejar su tierra y escapar de la intolerancia religiosa. No han podido regresar a Irán. Es el precio de creer en Cristo.



Fonte: ReligionenLibertad

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Reencarnação Espírita - Pura Fantasia









METAPSÍQUICA
E
ESPIRITISMO

F. M. Palmés, S.J.
Decano e Professor de Psicologia na Faculdade Filosófica da Companhia de Jesus em San Cugat del Vallés (Barcelona).

Diretor Geral de “Balmesiana”, Codiretor de “Pensamento”
Editora Vozes Limitada - 1957

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO É UMA PURA FANTASIA DESTITUÍDA DE TODA PROVA

Capítulo XXXVI


Apesar de não ser aceita de bom grado por todos os espíritas, contudo a doutrina da reencarnação é uma das mais frequentes entre eles, principalmente entre os franceses, e conseguintemente entre os espanhóis e os da América Latina, que mais ou menos se inspiraram sempre nos dogmas do Espiritismo francês e aprenderam as doutrinas deste nas obras de Allan Kardec. Este se declara partidário decidido da reencarnação, a qual é por ele proposta como um dogma revelado pelos espíritos. Como se fossem necessárias revelações para se vir ao conhecimento de uma doutrina que, antes de o Espiritismo aparecer no mundo, já fora professada por povos em massa, principalmente antes do aparecimento do Cristianismo! Mas, embora esta doutrina não seja original, nem exclusiva e característica do Espiritismo, nem seja professada por todos os espíritas, não parece tarefa inútil dedicarmos ao estudo dela o presente Capítulo e o seguinte, demonstrando ser ela uma doutrina não somente arbitrária, por carecer de toda espécie de provas, como também contrária à razão e, em si mesma, absurda.

A doutrina da reencarnação não se demonstra.

E, antes de tudo, quais são os argumentos em que se apóia a crença nessa peregrinação contínua, ou ao menos muito porlongada, das almas através de muitos corpos? Desse tornar a submergir-se em organismos materiais depois de os haver abandonado por força da morte? De qualquer maneira que seja proposta, esta asserção é tão estupenda e tão exorbitante, e toca-nos tão de perto, que temos direito a que nos digam quais as razões em que ela se apóia; razões que, aliás, deveriam ser não já meras conjecturas, porém argumentos apodícticos, aos quais nada pudesse racionalmente resistir.

Não obstante, quem folhear as revistas e os folhetos de propaganda da seita ou das seitas que expõem como certas semelhantes fantasias, encontrará, sim, muitas afirmações, lerá a asserção frequente de que tal espírito se reencarnou em tal lugar, que tal indivíduo em outra existência foi tal outro, e quejandas, as quais servem maravilhosamente para excitar as fantasias exaltadas e o interesse mórbido de mentalidade que ofereceriam magnífica ocasião para ser estudadas pelos psiquiatras e alienistas; porém argumentos de razão, fatos bem comprovados, nem sequer provavelmente comprovados, isto não é possível descobrir em nenhuma parte.

Faltam argumentos experimentais.

E a primeira coisa que falta é a demonstração experimental, que temos o direito de exigir, dados os alardes de ciência por parte do Espiritismo, e frequentes e contínuos como seriam os fatos se fossem verdadeiros. Porque, se fosse verdadeira a doutrina da reencarnação, todos os seres humanos que atualmente vivem na terra, todos os que nela viveram desde que no mundo existe a doutrina reencarnacionista, seriam espíritos reencarnados. E, entre tantos seres reencarnados, será possível não haja muitas mais provas da reencarnação do que os casos afirmados pelos espíritas? Mas, afinal de contas, se ao menos se tivesse podido demonstrar esses poucos casos aduzidos pelos espíritas, menos mal; mas, infelizmente para eles, não há sequer um só que tenha sido cientificamente comprovado. Porquanto esta comprovação ter-se-ia feito ou pelo testemunho dos pretendidos espíritos que se comunicam pela intervenção dos médiuns e por meio dos quais viríamos ao conhecimento do fato da reencarnação, como pretende tê-lo sabido Allan Kardec; ou pelo testemunho de homens deste mundo que nos assegurariam já ter vivido antes com outros corpos, como também nos diriam as circunstâncias de suas passadas existências. Não parece que haja outro caminho para vir ao conhecimento do fato da reencarnação, dado que ele seja real.

Não se prova pela experiência dos mortos.


Pois bem: pelo que se refere ao primeiro desse pontos, o leitor já sabe o caso que deve fazer das pretensas comunicações dos espíritos através dos médiuns. Porque, de um lado, estes testemunhos são entre si contraditórios com relação não só aos pormenores como também à realidade da reencarnação, como acabamos de expor no Capítulo anterior; e, de outro lado, para que eles tivessem algum valor seria mister soubéssemos de quem são, isto é, seria mister que a chamada “identificação espírita” fosse um fato cientificamente comprovado, coisa que, como demonstramos nos Capítulos XXV, XXVI e XXVII deste livro, ela não foi até o presente, nem leva caminho de o ser jamais.

Nem se prova pela existência dos vivos.

Porém muito menos pode provar-se experimentalmente por meio do testemunho dos homens atualmente viventes. Porque, se perguntardes a qualquer homem, mesmo espírita, que experiência ele tem daquilo que ele foi em existências anteriores, e quais foram essas existências e as vicissitudes por que ele passou, se for sincero, se não estiver louco, necessariamente ele vos dirá que o ignora por completo. Ninguém tem a menor experiência daquilo que foi em outra existência. Como há de, pois, ser possível formular um argumento experimental à base do testemunho de nenhum dos seres viventes neste mundo? Não se nos oculta não faltar que, mentindo descaradamente, ou alucinado pela sua imaginação impregnada das fantasias das doutrinas espíritas, pretenda recordar-se de alguma coisa do que foi nas suas existências passadas. Porém estes testemunhos sem provas quaisquer, sem fatos com que os controlar, que podem valer perante qualquer homem de bom-senso que não tenha perdido todo o senso crítico? Tanto assim é que até os próprios espíritas exigem, ao menos de palavra, algum gênero de prova; mas não se sabe que jamais a tenham conseguido. Porque, ou elas são em si mesmas completamente impossíveis, como acontece em não poucos casos; ou então, no caso de serem possíveis, não foram levadas a efeito com o menor senso crítico, ou então deram resultados inteiramente contraproducentes, e bastantes, por si mesmos, para desacreditar todo intento de demonstração. Consideradas em si mesmas, essas provas são inteiramente impossíveis quando aquele que afirma ter vivido em outra existência diz haver sido nela um personagem, vulgar ou importante, mas desconhecido pela história; porque neste caso, por hipótese, faltam documentos para a comprovação do testemunho. Tal seria, por exemplo, o caso de quem dissesse, como o dizia Hipólito Denizart-Rivail, que noutra existência fora um sacerdote drúida chamado Allan Kardec; ou o de quem pretendesse, por exemplo, ter sido ama de leite de um sultão de Túnis que viveu na Idade Média, ou palafreneiro de Alexandre Magno. E, nos casos em que essa comprovação resultasse, de algum modo, possível, por se tratar de personagens históricos, como são aqueles casos em que a pessoa afirma ter sido em outra existência Napoleão, Carlos Magno, Aristóteles, de fato já sabemos os resultados que deram semelhantes comprovações, que não têm mais garantias do que as pretendidas “identificações espíritas”. Porquanto, nestes casos, como ficou demonstrado nos Capítulos antes citados, aquele que afirma tamanha baboseira dá como provas somente os conhecimentos que pode adquirir, na existência atual, do personagem pretérito; conhecimentos  que quase sempre são aduzidos com tanta imprecisão e vagueza, e com tantos anacronismos e impropriedades, que não há ninguém  que possa tomar a sério semelhantes intentos de demonstração. O fracasso destes evidencia-se no fato de que, apesar de se haverem reencarnado tantos sábios pretéritos, tantos homens ilustres que intervieram ativamente em acontecimentos do seu tempo que são enigmas para a história, tantos artistas e tantos sábios que levaram  consigo para o túmulo o segredo dos seus inventos e processos para a obtenção de resultados que agora nos seria sumamente útil conhecer, apesar disso não tenha havido um só caso que esse personagens que se dizem reencarnados tenham revelado à humanidade presente o que tanto se deseja saber e que tão útil seria averiguar.

Dir-se-á que isso se explica perfeitamente pelo fato de, ao se reencarnarem perderem os espíritos absolutamente a lembrança dos conhecimentos que tiveram em suas existências passadas. Que eles não os têm é muito verdade; mas não o é que os hajam perdido, porque não se perde aquilo que se não teve; e é isto precisamente o que antes de tudo se trata de provar, e não se prova, a saber: que eles os tiveram em outra existência.

Mui significativa é esta falta de memória daquilo que lhes teria acontecido em anteriores existências. À base dela havemos de formular contra a reencarnação um argumento que não tem réplica. Mas antes vejamos se porventura, na ordem filosófica, a doutrina da reencarnação tem algumas razões em que se fundar, já que a sua argumentação experimental é tão pobre e insuficiente como acabamos de ver.

Intentos de demonstração filosófica da doutrina reencarnacionista.


Não há dúvida de que não só os espíritas, como também os reencarnacionistas em geral, pretendem aduzir razões em favor da sua doutrina, mas estas são em si mesmas tão fúteis que quase não valeria a pena mencioná-las. Há-as de ordem que poderíamos chamar moral, e há-as também de ordem física ou psicológica; e todas elas se reduzem à pretensão de que, para explicar certos fatos, seria preciso recorrer à hipótese da reencarnação. A insuficiência destas razões é claríssima para quem quer que discorra serenamente; porque nem comumente é verdade que na hipótese da reencarnação se encontre uma explicação dos fatos mencionados, a não ser dando de mão àquilo que sabemos com certeza pela ciência moral ou psicológica; e nem tampouco, mesmo que a hipótese reencarnacionista pudesse dar dos referidos fatos alguma explicação, seria este um título suficiente para impô-la logicamente, enquanto, além disso, não se demonstrar não existirem hipóteses melhores e mais coerentes com as doutrinas e fatos cientificamente demonstrados.

Argumentos filosóficos de ordem moral em favor da reencarnação.

Entre os argumentos que se aduzem de ordem moral, os principais são os que se fundam no fato evidentíssimo da desigual sorte que os homens têm neste mundo, pela desigual repartição de dotes e bens naturais; e no fato, não menos evidente, das diferenças que se observam na conduta moral deles, pois os há bons e perfeitos, e também os há criminosos, viciosos e perversos. O fato é certíssimo; mas que tem este fato a ver com a hipótese da reencarnação? Segundo os espíritas, muito teria a ver, porque, dada a hipótese da reencarnação, essas diferenças podem ser atribuídas aos méritos granjeados em existências anteriores, e assim cada um e em cada existência iria, com suas obras, construindo aquilo que ele haveria de ser depois da sua morte, numa nova vida corporal. De onde resultaria que o fato da desigual distribuição de bens de toda espécie, a qual de outra sorte deveria ser atribuída a Deus com menoscabo da sua justiça, explicar-se-ia perfeitamente pela ação da cada homem, que em cada existência lavraria a sua felicidade ou infelicidade para uma vida posterior. Eis aí, em substância e brevemente exposto, o argumento que os espíritas intentam formular, partindo do fato das diversidades existentes entre os homens quanto às suas qualidades tanto físicas como morais. A inconsistência deste argumento, e a sua falta de valor lógico, é evidente. Porquanto, dado que esta hipótese explique o fato das diversidades dos homens, acaso será esta a única hipótese capaz de explicá-los? Evidentemente que não, a não ser que se diga jamais ter existido outra filosofia que a dos que professam a doutrina da reencarnação, e que a Filosofia cristã é incapaz de explicar o fato mencionado. Porém a doutrina reencarnacionista não só não é a única hipótese, nem mesmo a melhor, como também é uma suposição absurda, e portanto incapaz de explicar o quer que seja. Com efeito, a primeira coisa que se necessita para a admissão de uma hipótese é não ser ela absurda. Que a hipótese em questão é absurda e impossível, demonstrá-lo-ermos depois; aqui, contentemo-nos com fazer ver que, mesmo prescindindo de ser ela absurda, ela não é a única, nem sequer a mais satisfatória, como deveria sê-lo para que logicamente se impusesse ao filósofo.

A reencarnação não é a única hipótese para explicar o fato das diversidades dos homens.

Que, para explicar as diversidades que se notam entre os homens, não há necessidade nenhuma de recorrer à hipótese da reencarnação, ou, o que dá no mesmo, que esta explicação não é a única que de tais diversidades relativas às qualidades corporais e psicofisiológicas dos homens podem muito bem, e certamente com maior facilidade e de modo mais conforme com o que nos dizem as ciências biológicas modernas, explicar-se pela herança fisiológica; e as de ordem moral, consistentes na diversa conduta boa ou má, e nas virtudes ou vícios, explicam-se também de maneria mais natural e mais satisfatória pelo exercício do livre arbítrio de cada homem, que, por meio dele e unicamente por meio dele, é capaz de exercer domínio psicológico sobre as próprias atividades, e, portanto, de escolher entre o bem e o mal moral, de empreender uma vida virtuosa ou criminosa, contraindo a responsabilidade, o mérito ou o demérito, consequente às suas livres determinações. Nem se diga que desta doutrina, que é a da Filosofia cristã, se segue algo que seja, no mais mínimo, contrário à justiça e à bondade de Deus. Porque , sejam quais forem os seus bens e males físicos e as suas qualidades de ordem fisiológica ou psicológica, quer sejam excelentes, quer sejam minguadas, todo homem pode sempre e em qualquer caso chegar a alcançar a sua felicidade eterna para a qual foi por Deus criado. Deus quer seriamente levar todos os homens à suprema perfeição e felicidade; e, para esse fim, dá a todos e a cada um dos homens os meios e auxílios que eles necessitam para alcançá-la. E, conquanto, nos imperscrutáveis desígnios da sua providência santíssima, Ele não dê esses meios a todos em igual medida e abundância, ninguém pode com razão queixar-se d'Ele nem o ter por injusto; porque aquele que a todos dá suficientemente e, em qualquer caso, tudo quanto eles necessitam, e mais do que em justiça e pelos seus méritos podem eles exigir, nunca comete injustiça alguma dando mais a uns do que a outros. Se, pois, o homem incorre na maldade e se perde, só a si mesmo, e não a Deus, pode imputar a sua desgraça; e na sua mão está, com a graça de Deus e enquanto viver neste mundo, o pôr-se em bom caminho. Pois Deus respeita a liberdade do homem mesmo para o levar à suprema felicidade.

A hipótese da reencarnação não é, pois, a única a poder-se alegar para explicar a diversa maneira de ser dos homens sob o ponto de vista físico ou moral. Que essa também não é a melhor hipótese, isto se segue evidentemente dos argumentos com que, nos Capítulos XXXVIII e XXXIX, havemos de demonstrar a impossibilidade de o aperfeiçoamento da vida presente provir da conduta moral e segue-se também do que depois diremos diretamente contra a física que em favor dela propõem os reencarnacionistas. São, pois, ineficazes para provar a reencarnação os argumentos de ordem moral aduzidos.

Os argumentos filosóficos de ordem física em favor da reencarnação também são ineficazes.


Menos ineficazes, não são, porém, os argumentos que chamamos de ordem física ou psicológica. A estes podem reduzir-se os que os reencarncionistas formulam quando recorrem à pretensa existência de ideias inatas, e quando aduzem os casos de precocidade psicológica que de vez em quando se observam nos chamados meninos-prodígios. No tocante ao primeiro destes argumentos, o fato em que ele pretende fundar-se não se demonstrou até agora; antes, demonstra-se com certeza que no homem não ocorrem de fato ideias inatas, seja lá o que for da questão da sua possibilidade, que não temos empenho nenhum em negar. A experiência quotidiana credencia, sim que no homem, já desde os seus tenros anos, existe uma ideia de Deus causa suprema, e a ideia de moralidade consequentemente à ideia de Deus. Mas é absurdo confundir a facilidade para a aquisição de certas ideias, com as próprias ideias; as quais, se facilmente surgem na alma da criança e do homem, nela jamais brotam senão partindo dos conhecimentos experimentais dos sentidos. Agora, tal como em tempos de Aristóteles, é uma verdade claramente demonstrada que nada há no entendimento que de algum modo não tenha entrado pelos sentidos, isto é, que não seja devido a uma elaboração intelectual feita sobre elementos de conhecimentos subministrados pela experiência sensível. Não vamos entrar aqui na demonstração desta tese, que o leitor pode ver exposta e provada em qualquer manual de Filosofia cristã; nem seria conveniente alongarmo-nos aqui mais sobre este ponto, que já expusemos suficientemente em outras publicações. Porque, mesmo dado, mas não concedido, que se verificassem ideias inatas, daí ainda não se seguiria que essas ideias houvessem disso adquiridas em outra existência; já que, por uma parte, e como dissemos anteriormente e como nisso insistiremos depois, em nenhum caso ocorre qualquer lembrança de semelhante aquisição; e, por parte, se ocorressem, poderiam as ideias inatas brotar da própria natureza do ser que as tem, mesmo que ele não tenha tido mais do que a existência atual.

Até aqui o tocante ao argumento que se pretende fundar nas supostas ideias inatas. Pois para quem parte da existência de meninos precoces, como parece terem-no sido, por exemplo, Pascal, Mozart, Rembrandt e tantos outros, por mais maravilhosos que pareçam estes casos de precocidade nada se encontra neles que não possa explicar-se também pela herança fisiológica, juntamente com uma educação acertada. Aduzir estes casos como um argumento em favor da preexistência das almas é coisa que só pode ocorrer a homens que não sabem nada de Psicologia.

Muitos foram já os filósofos escolásticos que admitiram que ao serem criadas por Deus, as almas são todas de uma mesma perfeição; e consequentemente, atribuíam as grandes diversidades de qualidades, talentos e aptidões naturais dos homens à constituição e maneira de ser do organismo que a alma informa e do qual há de ele servir-se como instrumento para se aperfeiçoar na ordem intelectual. Pois, se isto já se admitia na Idade Média, que ignorância não supõe da Psicologia experimental e da Fisiologia modernas o intento de formular à base desses fatos um argumento em favor da preexistência e transmigração das almas?

Não é mister insistirmos mais sobre isto, pois a doutrina daqueles escolásticos sobre este ponto é coisa comumente admitida nos nossos dias por todos os homens de ciência, de vez que nenhum deles põe em dúvida que não só as diversas aptidões e a própria inteligência, mas também a maneira de ser de cada um, o seu caráter e fisionomia mental, dependem principalmente, senão totalmente, das propriedades do organismo, e principalmente dos seus sistemas nervosos e humoral, que todo homem recebe hereditariamente por via de geração.

Tais são as principais razões que se costuma aduzir em favor da doutrina da reencarnação em geral. Não cremos tenham elas por si sós a menor eficácia para convencer quem quer que seja de uma doutrina tão fantástica, mesmo que nada tivéssemos a alegar contra ela.

Mas, afortunadamente, são muitos, e muitos eficazes, os argumentos que contra esta doutrina podem ser formulados, mesmo prescindindo dos de ordem teológica, que, embora sejam de todo convincentes, nos propusemos não aduzir aqui, para circunscrever o nosso estudo à ciência positiva e filosófica puramente racional. Exporemos alguns desse argumentos filósoficos no Capítulo seguinte.

domingo, 7 de abril de 2013

Dez estratégias de manipulação através da mídia


Nota do Blog Noam Chomsky é conhecido ativista de esquerda. Não surpreende, pois, que, lá e cá,  promova investidas ou invectivas contra o “sistema econômico”. Tampouco que formule apelos em favor da “revolução”.
Obviamente, o nosso blog (de orientação católico-tradicional) se desassocia dessas posições.
Não obstante, tais ressalvas não infirmam a credibilidade do artigo aqui transcrito. De fato, à margem dos reparos indicados, a interessantíssima denúncia de Chomsky (relativa à manipulação promovida pelo IV Poder) constitui matéria de indiscutível alcance e atualidade .





Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranqüilas”, ele faz referência a esse escrito em seu decálogo das “Estratégias de Manipulação”.




1 – A Estratégia da Distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças que são decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia ou cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais” (citação do texto ‘Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas’).

2 – Criar problemas e depois oferecer soluções.

Este método também se denomina “Problema-Reação-Solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A Estratégia da Gradualidade.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, com conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira as condições sócio-econômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego massivo, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que provocariam uma revolução se fossem aplicadas de uma vez só.

4 – A Estratégia de Diferir.

Outra maneira de fazer com que se aceite uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5 – Dirigir-se ao público como a criaturas de pouca idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se pretende enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

6 – Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional, e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

7 – Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância planejada entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada para as classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8 – Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Promover a crença do público de que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9 – Reforçar a auto-culpabilidade.

Fazer crer ao indivíduo que somente ele é culpado por sua própria desgraça devido à insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição da ação do indivíduo. E sem ação não há revolução!

10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles que possuem e utilizam as elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” desfrutou de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que este conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.  


Noam Chomsky. filósofo, ativista, autor e analista político estadunidense. É professor emérito de Linguística no MIT e uma das figuras mais destacadas desta ciência no século XX. Reconhecido na comunidade científica e acadêmica por seus importantes trabalhos em teoria lingüística e ciência cognitiva.

O absurdo da reencarnação: O que há de comum entre mim e uma barata?




Nota do Blog: Como a tradução do original não saiu a contento, foram introduzidas as alterações indispensáveis para a intelecção da matéria.





"Quando falam em ´renascer´ ou em ´preocupar-se com as vidas futuras´, os budistas procuram encobrir a realidade mais profunda da existência: que, após a morte, o meu corpo deixa de ter vida. Admitindo-se a hipótese de que pudesse ‘voltar’ reencarnado — assumindo a condição de uma barata, por exemplo —, de qualquer modo, já não se trataria de meu verdadeiro ser. Que sentido, então, haveria em ter a mente voltada para essas sucessivas reencarnações futuras?".



A metamorfose de Kafka






De budista a tomista: a conversão ao catolicismo do filósofo Paul Williams






Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Em 1999, porém, surpreendeu os seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais intransigente. Em 2002 publicou um livro com o seu testemunho de conversão e as suas reflexões.


No círculo da revista budista inglesa Dharmalife, reinava a perplexidade: "Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. O seu livro 'O Budismo Mahayana' é um primor de clarividência e iluminação. Que surpreendente foi saber, dois anos atrás, que ele decidira ficar católico. [...] Catolicismo! Sempre fui propenso a crer que, enquanto o budismo seria uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertencia ao rol das religiões ultrapassadas e obscuras.



Sob o influxo das opiniões de amigos que haviam sido católicos, sempre concebera essa religião como algo enfraquecedor, que leva o indivíduo a nutrir sentimentos de culpa, buscando um suporte emocional para a existência... Como poderia, pois, uma pessoa inteligente e bem informada tomar esse rumo?, pergunta-se o crítico da revista.



Foi justamente isso que Williams explicou no seu livro "Unexpected Way" (2002), e em algumas entrevistas e relatos escritos.




Juventude anglicana tíbia


Paul Williams nasceu em 1950. A família da sua mãe não era religiosa, mas depois da sua conversão, ele descobriu que tivera uma bisavó católica. A família do seu pai era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul juntou-se ao coro da paróquia anglicana, porque gostava de cantar. Foi crismado na sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover, e com 18 anos recorda que ia comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebera formação.

O seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams afeiçoou-se à cultura oriental, bem ao estilo alternativo em voga na década de 1950. "Estive implicado nesse estilo de vida e nas coisas que os adolescentes faziam. Ao se aproximarem os exames na faculdade, saí do coro, parei de ajudar na igreja, perdi o contato com a religião, deixei o cabelo comprido e comecei a vestir-me de maneira extravagante".



Meditação e budismo

Ao estudar na Universidade de Sussex, especializou-se em filosofia indiana e depois em budismo. "Durante algum tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém logo abandonei, porque não gostava da sua superficialidade e parecia-me que distorcia a tradição indiana", escreveu no seu livro.

Em 1973 tomara a sua decisão: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo sob a ótica dessa religião. Refugiou-se formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol, criou o seu próprio círculo de budistas.

Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.


O que o atraía no budismo

"Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e a nota de recusa às convenções ocidentais. Muitos de nós considerávamos o budismo interessante, porque parecia dar uma resposta mais satisfatória do que a das outras religiões, além de ser bem menos convencional. Os budistas não creem em Deus, ou melhor, simulam não ter razões para crer em Deus. Quanto a nós, buscávamos na insanável contingência do mal a nossa saída para justificar esse derivativo. Nós, que havíamos crescido como cristãos, estávamos saturados de defender a ideia de Deus num contexto hostil, crivados de ódio pelos inimigos. O budismo oferecia um sistema de moralidade, uma forma de espiritualidade e um plano filosófico de elaboração complexa, que permitia abdicar da necessidade de um Deus", explica Williams.

Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo escreveu: "Quando analisamos a versão ocidental do budismo, encontramos com frequência uma modalidade de cristianismo depurado de tudo aquilo que os fiéis 'pós-cristãos' encontrariam mais dificuldades em aceitar".

Williams conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a "blasfêmia terapêutica", para conseguir desapegar-se do seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta ideia parecia uma barbaridade.



O problema da reencarnação

O budismo no Ocidente apresenta-se, sobretudo, como uma técnica para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento... Entretanto, à medida que transcorria o tempo, Williams, como filósofo, não conseguia esquivar-se das perguntas fundamentais: o que acontece após a morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que a morte é "Mara", ou seja, uma "ilusão", um devaneio, um tema do qual sequer vale a pena cogitar. Contudo, uma pessoa que costuma refletir seria capaz de fugir dessa indagação capital?

"Os budistas creem num ressurgir, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não haveria início nem fim na série de vidas renovadas: cada um renasceria um número infindável de vezes, o que dispensaria um princípio e a ideia de Deus enquanto Motor imóvel, que dá origem ao movimento”, explica.

Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor da reencarnação estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. "E por boas razões: se a reencarnação é verdade, é melhor perder toda e qualquer razão de esperança".



‘O que há de comum entre mim e uma barata?’

Imaginemos que a nossa vida presente finda sem dor ao raiar da aurora e que, por alguma razão, estejamos cientes de que iremos renascer sob a forma de barata. "Você se acostumará, não há problema, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, continuarás vivo... Mas por que nada disso nos consola?", argumenta Williams.

Mais específico ainda: "Seria demais pedir a alguém que se imaginasse reencarnado no corpo de uma barata, como na Metamorfose de Kafka. De fato, passando a ser uma barata, quais poderiam ser as minhas cogitações e anseios sob a pele desse asqueroso animal?"

"O terror de ‘encerrar o meu ciclo’ na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria o meu fim. Não posso imaginar como seria o renascer como barata, porque nenhuma forma de imaginação caberia a respeito! Simplesmente, não haveria nada de mim presente nesse novo ser. Se existisse de fato a reencarnação, mesmo assim, nenhum de nós — tanto em meu caso como no de meus entes queridos — teria sobrevivido à passagem da morte. Isso porque a minha realidade enquanto indivíduo, a minha história pessoal simplesmente teria acabado.
Pouco me importa saber se haveria algum outro ser vivo mantendo algum tipo de conexão causal com a vida que eu tive — alguém teleguiado pelo meu karma [sic!]. De qualquer, já não seria eu mesmo".

"Quando falam em ´renascer´ ou em ´preocupar-se com as vidas futuras´, os budistas procuram encobrir a realidade mais profunda da existência: que, após a morte, o meu corpo deixa de ter vida. Admitindo-se a hipótese de que pudesse ‘voltar’ reencarnado — assumindo a condição de uma barata, por exemplo —, de qualquer modo, já não se trataria de meu verdadeiro ser. Que sentido, então, haveria em ter a mente voltada para essas sucessivas reencarnações futuras?".



Iluminação, sim... mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana — um ponto de  perfeição absoluta, em que há desapego total em relação a esta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que, com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, já com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa, chegara à seguinte conclusão: "É evidente que não conseguirei a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim eu, e os meus amigos e familiares, não temos esperança".



Karma
: pagar pelas vidas pregressas, antes mesmo de começar a existir?!

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens por que passa cada um, tudo isso seria mera consequência do que a pessoa fez em uma vida passada. "Mas que espécie de sinistro algoz teria sido a pessoa na outra vida? A ideia de que uma inocente criança possa ficar doente em razão de algo errado feito por outra pessoa, isso não convence a ninguém. Não se pode admitir que algo feito por alguém, numa imaginária vida pretérita, possa ser a resposta mais razoável para o problema da existência do mal. Assim como não foi o recém-nascido quem praticou os atos condenáveis, também não concebo que eu possa renascer como barata após a minha morte".



O cristianismo difunde esperança

"O budismo não transmite nenhuma forma de esperança. Os cristãos, sim, têm esperança, por isso quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta de que é racional crer em Deus, mais racional do que crer, como os budistas, que não há Deus".

Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado. "Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas. E, como cristão, considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica".

"O cristianismo é a religião que atribui um valor inextinguível a cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e, como tal, Deus ama a cada um e valoriza cada indivíduo desmedidamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o sentido da família, passando pela imolação e sacrifício dos santos. Se não fôssemos indivíduos inconfundíveis, com um valor pessoal e intransferível, Jesus não Se teria imolado por nós, para salvar a cada um. Cada um jamais deixará de ser o que é, com sua respectiva existência, parentes e relacionamentos. O que nos sustenta é a nossa certeza de que, em Deus, a morte terá um significado especial para cada um, um alcance que excede o nosso poder de compreensão e que, desde agora, suscita a nossa confiança e dá alento à nossa vida".

Hoje, Paul Williams é terceiro dominicano; um grande admirador de Santo Tomás de Aquino. Lamenta que, algumas vezes, em encontros ecumênicos ou em estudos de religião comparada, se tenha tornado hábito cotejar os místicos cristãos de linguajar mais didático (como, por exemplo, São João da Cruz) com teóricos budistas de expressão elaborada — por isso, apresentados como intelectualmente mais preparados. Em consequência dessa forma distorcida de comparação, muitos grandes mestres da vida espiritual católica tomam o aspecto de simples divulgadores de uma filosofia bem mais complexa.

Na opinião de Paulo William, os budistas seriam facilmente refutados se contrapostos ao pensamento límpido, metódico e sistemático de Santo Tomás.




Fonte: ReligionenLibertad.com

31/8/2012

Autor: João Silveira


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