quarta-feira, 24 de abril de 2013

Clicar, em vez de viver, tornou-se norma

Por Marsílea Gombata
Fonte: Carta Capital

Em meio ao burburinho da sala onde fica o quadro Mona Lisa, no Museu do Louvre, em Paris, o fotógrafo Fabio Seixo percebeu algo não exatamente errado, mas exagerado. Os visitantes se espremiam para disparar os flashs da máquina e ter a foto de uma das imagens mais intrigantes e conhecidas do mundo. A guerra para fotografar a musa enigmática imortalizada por Leonardo da Vinci revelava, ali, algo maior: a necessidade de se vivenciar, por meio da foto, a experiência do presente.
“É uma imagem tão icônica quanto aquela de Che Guevara (feita por Alberto Korda em 1960). Pensei: ‘Nossa, que loucura. Será que as pessoas não conhecem a Mona Lisa?’ Então tive um estalo e vi que elas, na verdade, viajam muito mais para marcar território e dizer que estiveram lá do que para curtir a viagem”, reflete.



As redes sociais aumentaram a febre da fotografia. Fotos: Fábio Seixo
As redes sociais aumentaram a febre da fotografia. Fotos: Fábio Seixo


A experiência em 2005 fez germinar uma semente batizada de Photoland. O projeto, que tem pretensão de virar livro depois de ter ganho exposições no Rio de Janeiro e espaço no festival Paraty em Foco, busca refletir de que modo o ato de fotografar se tornou mais importante do que a vivência e como, em uma espécie de compulsão, ganha fôlego no fértil terreno da tecnologia digital. “Quando você está na Torre Eiffel, se fotografa ali e posta essa imagem, está afirmando sua presença nesse lugar, dizendo que esteve lá”, fala o autor sobre o que considera uma experiência narcisista. “A câmera é um anteparo entre você e as coisas. Então, quando se fotografa, deixa-se de viver o presente para vivenciar a experiência de estar fotografando.”
Foi a possibilidade de mergulhar no universo da escrita com luz que lhe permitiu a reflexão sobre essa dinâmica. O fotógrafo nascido no Rio de Janeiro tem contato com o ofício desde a infância, quando frequentava a redação da extinta Iris Foto, revista histórica com auge nos anos 1970 e 1980, cuja editora era da família de sua tia. Ao concluir a faculdade de jornalismo, não teve dúvida sobre qual caminho seguir e foi trabalhar como fotógrafo de jornal diário. A experiência durou cinco anos. Em 2004, tornou-se autônomo.
Ao refletir sobre a experiência do mundo da fotografia digital atrelada ao narcisismo, existe a intenção de transformar o ato de fotografar em paisagem. A fotografia passa a fazer o papel da natureza, instaurando-se como realidade física. Seixo observa que a intenção de debater os fotógrafos amadores em ação como se fossem paisagem vem da própria imagem autobiográfica. Até que ponto o autor da foto faz parte da cena? “Nesse ato, acabamos perdendo a paisagem. É como se ela não tivesse importância e nós nos tornássemos a própria.”


Metalinguagem. "Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para esquecer", afirma Fábio Seixo, do projeto Photoland
Metalinguagem. “Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para esquecer”, afirma Fábio Seixo, do projeto Photoland


Na fotografia da fotografia, os cartões-postais não são a Torre Eiffel, o Coliseu, o Empire State Building ou o Buckingham Palace. São, no lugar, quem ali esteve na busca por um arquivo fotográfico cada vez mais amplo. Os traços sobre a necessidade de ser visto são propositais na obra. “O projeto esbarra na questão da visibilidade. Não basta ser um bom médico, um bom professor ou um bom jornalista se você não estiver referendado pelos dispositivos de visibilidade, como mídia e redes sociais”, analisa. “Isso, paradoxalmente, denota o quanto estamos nos tornando uma fotografia de nós mesmos. Não sabemos mais quando estamos posando ou sendo natural. É como se estivéssemos o tempo todo representando um personagem.”
A ideia é refletida de forma parecida em projetos de outros artistas pelo mundo, como o Into The Light, do alemão Wolfram Hahn, que busca imortalizar o momento em que os indivíduos tiram fotos de si mesmos, ou o Too Much Photography, no qual o britânico Martin Parr retrata o frenesi de turistas em pontos conhecidos pelo mundo. Ambos são apreciados por Seixo.
Da observação na sala do Louvre até hoje, Seixo viajou a várias partes do mundo para realizar o projeto. Além da França, passou por Estados Unidos, México, Inglaterra, Itália, Peru, e, é claro, sua cidade natal. O próximo destino do Photoland é o Japão, país-chave do projeto cujo nome faz alusão à Disneyland.
“Hoje estamos todos virando meio japoneses, que têm uma semana de férias e viajam com a câmera fotografando tudo. É como se tivessem a experiência da viagem somente depois, vendo as fotos.”
Soma-se a isso a proporção alcançada graças às redes sociais, alimentadas pela necessidade de likes sobre comentários e fotografias postadas na internet. Uma febre ligada ao desejo de registrar tudo para todos que, ele confessa, cansa. “Quando você fotografa muito, o excesso de imagens gera um ruído e anula qualquer possibilidade de memória por causa da quantidade. Assim, quanto maior seu arquivo pessoal, menos sentido ele faz.”



Clicar, em vez de viver, tornou-se norma
Clicar, em vez de viver, tornou-se norma



Na busca pelo silêncio e pela distância dos ruídos, Seixo tenta formas de escapar desse ciclo, como correr e observar o raiar do dia. É o momento em que se permite desligar o celular e deixar o tempo passar, sem registro, horário ou compromisso. Além do trabalho com moda e publicidade, é professor de Fotografia e desenvolve outros trabalhos autorais, entre eles Marca-D’água, que mostra o impacto das chuvas de 2011 na região serrana do estado do Rio de Janeiro por meio das lonas utilizadas pelos moradores para cobrir as encostas e se proteger.
Segundo ele, o fato de a fotografia ser o maior hobby do mundo e estar, cada vez mais, facilitada pelo acesso à tecnologia enfraquece a ferramenta: “A fotografia, que sempre foi um instrumento de memória, passa a ser um dispositivo do esquecimento. Você fotografa não mais para guardar o momento, mas para poder esquecer. É como se cada vez que você apertasse o botão, aquela imagem fosse para um buraco negro”.

Assim morreu Bayard, "o cavaleiro sem medo e sem mancha"






Bayard, estátua em St. Anne d'Auray, Bretanha, França
Pierre Terrail, senhor de Bayard (1476 – 30 de Abril 1524) foi um cavaleiro francês que nascido no fim da Idade Média levou o espírito medieval até a era seguinte, i. é, a decadente Renascença. Ele ficou geralmente conhecido como o Cavaleiro de Bayard. Desde sua morte é lembrado como "o cavaleiro sem medo e sem mancha", (le chevalier sans peur et sans reproche). Ele porém, preferia ser tratado apenas como "le bon chevalier", i. é, "o bom cavaleiro".
Faleceu na passagem alpina de Sesia protegendo a retaguarda do exército real francês, acossada por tropas espanholas comandadas pelo marqués de Pescara.



Os atiradores eram excelentes. Dois tiros simultâneos: um prostrou por terra mortalmente Jean de Chabannes, senhor de Valdenesse; o outro atingiu Bayard e lhe quebrou a espinha dorsal.




“Senhor Jesus!” — bradou, agarrando-se no arção de sua cela para não cair. Aqueles que o rodeavam ouviram-no ainda exclamar: “Senhor Deus, vou morrer!”



Correram para auxiliá-lo, mas todo socorro humano era impotente. Sentindo que suas forças o abandonavam, Bayard tirou sua espada, que havia tanto tempo o acompanhava em todas as pelejas, e que tão bem lutara pela França. Ergueu-a, contemplou-a, depois osculou a cruz que havia no punho, como se quisesse associar, neste gesto, a devoção pelo Redentor e o amor pela arma do cavaleiro.


“Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam” — escapa de seus lábios contritos. Repentinamente calou-se. Estava mortalmente pálido e oscilava na sela. Jean Joffrey, seu escudeiro, que havia muito tempo o servia fielmente e o escoltava em todas as suas proezas, ajudou seu senhor a descer do cavalo.


À sombra do carvalho


Bayard reabriu os olhos. Com um gesto mostrou um carvalho que havia por perto, e fez sinal de que queria repousar à sombra da árvore venerável. “Desejo esperar a morte vendo de frente meus inimigos — murmurou —. Eu nunca lhes voltei as costas. Pela honra de cavaleiro católico, não é agora que o farei”. Um nobre aliado seu aproximou-se, suplicando a Bayard que se deitasse na maca que os soldados haviam feito com suas lanças; mas ele recusou.

Bayard se aproximava de sua última proeza: o encontro face a face com Deus. Por entre seus últimos esforços, ouviram-se dele estes gemidos: “Em cada movimento sinto as dores da morte que me vem buscar”.

Seu escudeiro chorava, ajoelhado junto a seu senhor. Bayard, apesar de seu estado, demonstrando um afeto especial, afagou-lhe a cabeça: “Jacques, amigo, enxuga essas lágrimas. É vontade de Deus que eu deixe este mundo. Por Sua graça eu nele fiquei muito tempo, e recebi bens e honras imerecidos. A única coisa que lamento é não ter cumprido meu dever tão bem quanto deveria. Se tivesse mais tempo, corrigiria as faltas passadas; mas se Ele me quer chamar agora, suplico que Ele tenha piedade de mim, pela sua imensa misericórdia. Confio que, pela intercessão de sua Mãe Santíssima, ele olhará para sua misericórdia, e não para meus pecados, que pediriam Sua Justiça punitiva”.

Os inimigos assomam ao longe, dirigindo-se em carga de cavalaria a Bayard e seus companheiros. Querendo poupar sacrifícios a seus pares e súditos, Bayard logo pediu que o deixassem, mas eles com galhardia não acederam.

Então o nobre cavaleiro pediu a seu escudeiro que o ouvisse em confissão, pois ali não havia sacerdote que pudesse escutar suas faltas e lhe dar a absolvição. Ao preboste de Paris, Sr. d’Alègre, ele confiou seus últimos desejos.


Despedida dos seus



Bayard, estátua em Grenoble, detalhe
Depois disso ele suavemente afastou de si os que o rodeavam:


“Senhores, eu vos suplico, ide-vos. Do contrário, caireis nas mãos dos inimigos, e isto não me será de nenhum proveito, porque me sentirei culpado. Adeus, meus bons senhores e amigos. Recomendo às vossas orações minha alma pecadora. Eu vos suplico, senhor d’Alègre, que saudeis por mim o rei, nosso senhor. Dizei-lhe quanto lamento não ter podido servi-lo por mais tempo e como eu muito gostaria. Saudai também os senhores príncipes, todos os meus companheiros e todos os gentis-homens da doce França, quando os virdes”.


Eles insistiram em ficar, segurando mesmo suas vestes, mas ele os repeliu com uma afetuosa insistência; e como quisessem resistir, fez um gesto: “Eu ordeno!” Docilmente eles se despediram. Entre lágrimas, beijaram-lhes as mãos, enquanto crescia o grupo de cavaleiros inimigos. Via-se o brilho dos capacetes e o movimento dos estandartes.

Joffrey era o único junto dele. Bayard, exausto, fechara os olhos. O vento agitava os ramos do carvalho.


O inimigo espanhol



Quando Bayard, com dificuldade, reabriu os olhos, um cavaleiro coberto de esplêndida armadura, refulgente de sedas e penachos, estava diante dele. Bayard sorriu. Era um adversário digno dele, um bravo guerreiro: o marquês de Pescara. O general espanhol estava admirado de ver um homem reclinado num tronco, junto ao qual chorava o escudeiro. Quando reconheceu o “cavaleiro sem medo e sem mácula”, o marquês desmontou rapidamente e se aproximou, cheio de respeito e compaixão.

“Prouvesse a Deus, senhor de Bayard, que eu vos fizesse prisioneiro, mesmo que para isso derramasse a quarta parte do meu sangue. Nesse embate que teríamos, conheceríeis o grande apreço que tenho por vossas qualidades. Desde que empunhei armas, não ouvi falar de cavaleiro que, em virtudes, se aproximasse de vós!” Assim falava ele por causa da grande fama que Bayard tinha adquirido, pela sua vida de valor e devotamento, o que obrigava seus próprios inimigos a admirá-lo, respeitá-lo e temê-lo.


Bayard assiste o rei Francisco I na vitória de Marignano
“Eu deveria estar bem aliviado de vos ver assim — disse ainda o marquês — sabendo bem que nas guerras o Imperador, meu senhor, não tem maior nem mais feroz inimigo. Entretanto, quando considero a enorme perda que hoje sofre a Cavalaria, Deus é testemunha de que eu preferiria dar a metade do que possuo, para que tal não acontecesse. Mas como para a morte não há remédio, peço Àquele que nos criou à Sua Imagem que se digne levar vossa alma para junto d’Ele”.

Em seguida insistiu para que o deixasse levá-lo a seu castelo, assegurando-lhe que seus cirurgiões o curariam. Jamais um cavalheiro usou convites tão amáveis e insistentes para atrair a seu castelo um nobre hóspede.

Bayard sabia que Pescara era sincero, e que seria tratado como cavaleiro por esse inimigo honrado. Pressentindo que a morte lhe era certa, Bayard, apesar de seus ferimentos, declinou honrosamente o convite: “Prefiro a simplicidade do campo de batalha, pois desejo morrer como o guerreiro que sempre fui”.

Pescara acedeu. Para atender aos desejos do Cavaleiro, ele fez armar sua própria tenda ao redor da árvore, arrumou um leito e nele colocou, com suas próprias mãos, o inimigo ferido. Então, ali já não estavam dois guerreiros inimigos servindo causas opostas, mas dois cavaleiros, fraternalmente unidos pelo espírito da Cavalaria, animados do mesmo ideal, que as circunstâncias tinham colocado em campos opostos, embora nutrissem mutuamente uma admiração varonil.
Bayard não quis receber os médicos que se apresentaram para tratá-lo. Acolheu devotamente o capelão do marquês, ao qual renovou sua confissão feita minutos antes a Joffrey, seu escudeiro. Depois pediu que o deixassem sozinho.

Bayard, vitral na capela da Universidade de Princeton
Enquanto ele se recolhia, Pescara organizou seu exército em ordem de desfile. As ordens de comando ressoavam de uma extremidade a outra do esquadrão; ouvia-se o galope dos cavalos, o rufar dos tambores, o soar das trombetas. Todos esses sons familiares flutuavam ao redor do agonizante.

Irrompeu o som marcial de uma grande fanfarra, acompanhando o passo cadenciado dos cavalos e a marcha pesada dos inimigos de Bayard.

O exército espanhol desfilava ante o Cavaleiro moribundo, inclinando seus estandartes no momento em que passavam pelo carvalho. Assim era o último adeus de Pescara, a última homenagem de um bravo prestada a outro bravo.


“A França tem uma perda irreparável neste nobre Cavaleiro, dizia François d’Avalos, antes de se despedir dele”.

A noite caía. O rumor do exército em marcha se extinguia ao longe. Novamente a calma do crepúsculo e o silêncio rodeavam o carvalho. Bayard rezava.


Último encontro



Uma voz familiar o arrancou de sua meditação: “Ah! Senhor de Bayard, que sempre estimei por vossa bravura e lealdade, muito lamento ver-vos neste estado!”

O rosto de Bayard tornou-se grave e hostil. Por que ser perturbado por tal homem, em tal momento? O condestável de Bourbon estava à sua frente, e em seu olhar havia uma sincera compaixão e também uma admiração sincera; talvez remorso.

O momento não era para explicações. Bayard não queria saber as razões que haviam levado esse homem a combater num exército estrangeiro e contra seu rei. Sem dúvida, Bourbon viera para se justificar, para explicar, mas Bayard não queria ouvi-lo, não queria conhecer as explicações de um homem que havia cometido uma felonia em relação ao seu rei.

Bourbon esperava uma palavra: um julgamento ou um perdão. Queria partir absolvido por este homem de honra, mas Bayard desdenhou discutir.

“Senhor, eu vos agradeço. Não tenhais piedade de mim, que morro como homem de bem, servindo meu rei. Mas ai de vós, que empunhais armas contra vosso príncipe, vossa pátria e vossa Fé”.

Dito isto, calou-se. Já estava acima de vãs querelas humanas, de ambição e de interesse; de guerras absurdas, de intrigas mesquinhas, de matanças inúteis. Bayard pertencia agora a Deus, e para Ele dirigia seus últimos pensamentos. À medida que se afastava da terra, ele se aproximava da pura luz da suprema Verdade, das certezas definitivas. Rezava.

“Meu Deus, Vós que dissestes, eu o sei, que aquele que se voltasse para Vós, embora pecador, estaríeis sempre pronto a recebê-lo e perdoá-lo. Ah!, meu Deus, Criador e Redentor, eu vos ofendi gravemente durante minha vida. Peço-vos perdão, com o coração contrito. Reconheço que, se me retirasse por mil anos no deserto, vivendo a pão e água, isso ainda não seria bastante para entrar em vosso reino, se, por vossa grande e infinita bondade não vos dignásseis ali me receber, porque ninguém pode merecer neste mundo tão alta recompensa. Meu Pai e Salvador, eu vos suplico que não considereis as faltas que cometi. Julgai-me segundo vossa grande misericórdia, e não segundo os rigores de vossa justiça”.


O sol desaparecera. A noite caíra. A oração de Bayard interrompeu-se. O Cavaleiro estava na presença de Deus...




(Fonte: Marcel Brion, "Historia", nº 329, abril de 1974)

O MISTÉRIO NOS OLHOS DA VIRGEM DE GUADALUPE





Apareceu a Virgem Maria[1] ao índio Juan Diego na colina do Tepeyac, ao norte da Cidade do México em dezembro de 1531 e lhe pediu para que ali fosse construído um templo. Dirigiu-se o índio ao Bispo, Juan de Zumárraga, que cético solicitou uma prova efetiva de tal aparição. A Virgem Maria apareceu novamente ao índio e solicitou que colhesse as rosas e outras flores que estavam na colina, insólitas para o inverno e o solo árido, e as colocasse em seu tilma – o avental típico dos camponeses astecas, pedindo para que somente o abrisse diante do Bispo, como prova da aparição. Quando Juan Diego abriu o tilma, as rosas e as outras flores caíram e nele apareceu estampado a fulgurante imagem de Nossa Senhora, conservado intacto até hoje. O Bispo se ajoelhou maravilhado e arrependido, pediu perdão à Virgem Maria pela desconfiança e colocou-a na capela.





Dr. Adolfo Orozco [2]  , físico e pesquisador, assegura que não há explicações científicas para quase cinco séculos de alta qualidade de preservação da tilma ou para os milagres que ocorrerão garantindo a sua preservação.  Segundo ele: “Todos os tecidos semelhantes com a Tilma que foram submetidos a ambientes salinos e à umidade em torno da Basílica não duraram mais do que 10 anos”. Uma pintura da imagem miraculosa, criada em 1789, estava em exposição em uma igreja próxima da basilica onde a Tilma foi colocada. “Esta pintura foi feita com as melhores técnicas daquele tempo, a cópia é linda e feita com uma tela muito parecida com aquela da Tilma. A imagem também foi protegida com vidro desde a primeira vez que foi colocada lá.”. No entanto, oito anos depois, a cópia da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe foi descartada porque as cores estavam desbotando e os fios se rompendo. Em contraste, Dr. Orozco diz,“a Tilma original foi exposta por aproximadamente 116 anos sem nenhum tipo de proteção, recebendo todas as radiações infravermelhas e ultravioletas das dezenas de milhares de velas próximas dela e exposta à umidade e salinidade do ar ao redor do templo.” 

Em 1936, um professor alemão que vivia no México, Fritz Hahn, foi convidado pelo governo a assistir aos jogos olímpicos daquele ano em Berlin. Pouco antes de partir para a Europa, recebeu do Dr. Ernesto Pallanes duas fibras da imagem sagrada, uma vermelha e outra amarela. Ele havia recebidos as mesmas do Bispo de Saltillo, que por sua vez foi presenteado com elas pelo padre da Basilica, Don Feliciano Echavarria, diretamente do relicário dos bispos. Juntamente com as duas fibras, o Professor Hahn levou uma carta de recomendação de Marcelino Junco, professor aposentado de química orgânica na Universidade Nacional do México, para o alemão vencedor do Prêmio Nobel em Química, Richard Kuhn, diretor do departamento de química na Intituição de Kaiser Wilhelm, em Heidelberg.

Kuhn examinou as fibras com a sua meticulosidade de costume e então fez um anúncio inacreditável. Não havia nenhum tipo de corante nas fibras. Os materiais utilizados para produzir o que se parecia com as cores eram desconhecidos pela ciência, não sendo de origem vegetal ou animal, nem corantes minerais. A utilização de corantes sintéticos foi descartada, visto que foram desenvolvidos três séculos após a criação da imagem sagrada.

A hipótese de que a imagem sagrada é uma pintura foi posteriormente desacreditada em 1946 quando uma análise microscópica revelou não haverem traços de pincel. Também não havia qualquer sinal da assinatura do artista no canto inferior da imagem. Em 1954 e novamente em 1966, o professor mexicano Francisco Camps Ribera realizou um estudo exaustivo da Imagem Sagrada e chegou à mesma conclusão. Se, então, a imagem não foi uma pintura, o que é? Sua composição material tinha que ser algo definível, uma vez que foi observado e, na verdade tangível. Mas se ele era de origem sobrenatural, como isso poderia ser equiparado com o mundo material, em termos de ciência física? [3]

Não é uma imagem produzida por mãos humanas, demonstraram os cientistas Jody Brant Smith e Philip Serna Callahan que a analisaram com raios infravermelhos e afirmaram: “A origem da imagem de Guadalupe é inexplicável.”

Dr. Callahan, no fim de seu detalhado estudo, chega a seguinte conclusão:

"A pintura original – incluindo a túnica rosa, o manto azul, as mãos e a face é inexplicável. Em termos deste estudo por infravermelho, não há como explicar, seja o tipo de pigmentos de cor utilizados, seja a preservação da luminosidade da cor e o brilho dos pigmentos através dos séculos. Além disso, quando se considera o fato de que não existe esboço e dimensionamento (...), e que a própria trama do tecido é utilizada para dar profundidade ao retrato, nenhuma explicação do retrato é possível por meio de técnicas de infravermelho. É notável que depois de mais de quatro séculos não haja desbotamento ou rachaduras da pintura original em nenhuma porção do tilma, o qual - sendo de tamanho menor - deveria ter se deteriorado séculos atrás." [4]

Há um Mistério nos Olhos da Virgem Maria.  Seus olhos, na imagem, apresentam uma córnea curva, além de apresentar o fenômeno de Sanson-Purkinje[5], tal qual olho humano, fato este corroborado por uma série de renomados cientistas e oftalmologistas que estudaram o tilma, entre eles: Dr. Javier Torroela-Bueno, Dr. Rafael Torija-Lavoignet, Dr. Enrique Graue, Dr. Jorge A. Escalante Padilla e Dr. Aste-Tonsmann.

Em 1975, após analisar a imagem, afirmou Dr. Enrique Graue: “A sensação é de estar vendo um ‘olho vivo’ e realmente não pode ser pensado em algo menos do que sobrenatural.” [6]

Dr. Jorge A. Escalante Padilla também relatou a descoberta de pequenas veias em ambas as pálpebras da Imagem. Na década de 1970, um oftalmologista japonês que estava examinando os olhos desmaiou. Quando se recuperou,  afirmou que os olhos estavam vivos e olhando para ele! [7]

Em 1979, Dr. Jose Aste TonsmannPhD, graduado em engenharia pela Universidade de Cornell (EUA), enquanto trabalhava no Centro Científico da IBM, no processamento por computador de imagens transmitidas por satélites artificiais passou a estudar o manto de Guadalupe, usando uma fotografia de alta resolução do original – após filtrar e digitalizar a imagem, publicou seus magníficos resultados em 1981[8]. Os olhos da Imagem medem de 2 a 5mm de altura por 3 a 7mm de comprimento. Em seu computador, dividiu nas fotografias, cada milímetro quadrado em 1.600 até 27.770 micro-quadrados, e amplicou, de 30 a cerca de 2.000 vezes cada micro-quadrado, confirmando não só a existência do fenômeno de Sanson-Purkinje mas percebeu que haviam várias figuras humanas refletidas em ambos os olhos. E no centro da pupila da Virgem de Guadalupe uma família indígena, uma jovem índia carregando um bebê amarrado nas costas e duas crianças. Mero acaso?

 



A família, dizia o grande escritor inglês G.K. Chesterton, é uma célula de resistência à opressão. Ela é a célula-mater da sociedade e como afirmou Bento XVI é um dos tesouros mais importantes da sociedade humana.

Por que no centro dos olhos da Virgem de Guadalupe se encontra uma família? Por que Deus, em seus desígnios, permitiu que esta descoberta fosse feita diante da loucura insana hedonista hodierna? Seria mais uma coincidência ou tem a Virgem algo a nos dizer perante tantas leis iníquas que visam perverter princípios morais básicos, destruir os lares e sucumbir o ordenamento jurídico?

Quando o ser humano perde a sensibilidade diante da vida e trata os seus como um amontoado de células, mero lixo descartável e chega ao ponto de defender o assassinato de um inocente, a Virgem Maria tem algo a nos dizer. Nos seus olhos, há um grito de desespero e de dor.

Já dizia São Luiz Maria Grignion de Montfort, que foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo. Que Nossa Senhora de Guadalupe, Imperatriz da América, triunfe e proteja os lares do Brasil e livre esta nação da maldição do aborto!




Rafael Volpato

 “Minha certeza de que houve milagres na História humana não é em absoluto uma crença mística. Acredito neles pela evidência humana, do mesmo modo que faço com respeito à descoberta da América (...). De algum modo surgiu a peregrina idéia de que aqueles que acreditam nos milagres aceitam-nos unicamente por força de um dogma. A verdade é totalmente o contrário: os que acreditam em milagres, reconhecem-nos (...) unicamente por que apresentam alguma evidência. Aqueles que não acreditam em milagres, rejeitam-nos (...) inspirados por alguma doutrina contrária."
G.K.Chesterton, Orthodoxy, 1959


[1] A história aqui apresentada compacta encontra-se detalhada nos livros A Handbook On Guadalupe e The Wonder of Guadalupe, cuja leitura recomendo.
[2] Entrevista concedida à CNA: http://www.catholicnewsagency.com/news/our_lady_of_guadalupe_completely_beyond_scientific_explanation_says_researcher/
[3] Francis Johnston, The Wonder of Guadalupe, 1981, pg. 121
[4] Philip Serna Callahan, The Tilma Under Infra-Red Radiation: An infrared and artistic analysis of the image of the Virgin Mary in the Basilica of Guadalupe, 1981, pg.18
[5] Jody Brant Smith, The Image of Guadalupe, 1994, pg. 54
[6] Jody Brant Smith, The Image of Guadalupe, 1994, pg. 55
[7] A Handbook on Guadalupe, Franciscan Friars of the Immaculate,1996, pg. 90
[8] Dr. José Aste Tonsmann, Los ojos de la Virgen de Guadalupe - Un estudio por computadora electrónica, Editorial Diana, 1981

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Da pornografia para a pureza - um testemunho, um caminho…




"Houck pede ao clero para que seja mais pró-ativo em confrontar o mal da pornografia. “Nunca ouvi uma homilia sobre pornografia ou sobre anticoncepcionais. Essas são as principais frentes de batalha na Igreja hoje em dia, e não vemos nenhum combate por parte de quem ocupa o púlpito”, ele diz."





Mark Houck ao lado do Pe. Richard Gray, da Universidade Católica de Maryland

  

Mark Houck era jogador de futebol americano na Universidade Católica. Ele era também viciado em pornografia. “A primeira vez que vi pornografia tinha 10 anos de idade”, confessou Houck em sua palestra proferida no Centro Cultural João Paulo II, em Washington, Estados Unidos. “Meu problema com a pornografia se tornou sério quando entrei na universidade. Era um problema crônico para mim”. Mark não é o único a ter esse problema. O vício em pornografia, uma adicção psicológica caracterizada pela obsessão em ver, ler e pensar sobre pornografia em detrimento de outras áreas da vida, é o vício mais comum no mundo de hoje, ele garante.

Em 2006, as receitas gerais da indústria pornográfica chegaram a estimados 97 bilhões de dólares – um montante maior que o das maiores companhias de tecnologia juntas: Macintosh, Google, eBay, Yahoo, Netflix e Earthlink. Com ganhos anuais de 13,3 bilhões de dólares, os Estados Unidos são o país onde há mais ganhos com pornografia: 89% de todos os sites pornográficos são dos Estados Unidos. A faixa etária que mais consome pornografia online é formada por adolescentes de 12 a 17 anos. Um estudo descobriu que 5 de cada 10 homens fiéis de igreja (praticantes de religião) vêem pornografia na Internet.

Houck, apesar de ter tido 22 anos de educação em colégio católico, incluindo a faculdade, tornou-se viciado em pornografia. Ele diz: “Eu não sabia o que era pecado mortal, não conhecia minha fé católica”. Mas na idade de 26 anos, ele se lembra que algo aconteceu. “Comecei a me preocupar com esse problema, e assumi um compromisso diante de Deus de que pararia de olhar para a pornografia. Fiquei livre somente por causa da graça de Deus”. Houck tornou-se um palestrante, divulgando a castidade, na organização “Generation Life”. Em 2006 ele fundou “The King’s Men”, um apostolado masculino que ensina os homens a cumprirem seu papel diante de Deus, de líderes, protetores e responsáveis pela família.

Segundo Houck, os homens não devem ficar na defensiva diante do monstro da pornografia. “A natureza do homem é a de um guerreiro. Você é chamado a estar na batalha, a liderar”. Como parte de sua posição agressiva contra a pornografia, a organização “The King’s Men” regularmente organiza manifestações em áreas próximas a lojas de material pornográfico. Mas Houck alerta que o vício em pornografia pede compaixão, e não condenação para suas vítimas.

O Dr. Mark Laaser, em seu livro, “Healing the Wounds of Sexual Addiction” (Curando as feridas da adicção sexual) aponta para o fato de que a pornografia é um sintoma de um problema bem maior. “O vício (adicção) é uma auto-medicação para tentar curar alguma ferida séria em sua vida”, explica Houck. “Se quisermos ajudar as pessoas, precisamos chegar até a ferida”. Dr. Mark acredita que sua própria ferida psicológica foi a morte de seu pai, quando ele tinha apenas 11 anos. “Para muitos homens, a ‘ferida do pai’ é um problema-chave. Provavelmente é pior para um rapaz cujo pai está fisicamente presente, mas espiritualmente ausente”.
Essas feridas levam a quatro crenças básicas: (1) Eu não sirvo para nada, ninguém me ama. (2) Se as pessoas realmente me conhecessem, me rejeitariam. (3) Não posso ficar dependendo de ninguém para satisfazer minhas necessidades; portanto, minha melhor amiga é a pornografia em revistas, vídeos ou na Internet. (4) O sexo ou a pornografia é minha maior necessidade.

Se você quer curar-se do vício da pornografia, Houck avisa que é necessário primeiro perguntar a si mesmo: “Eu realmente quero ficar bem?” Nós ‘gostamos’ do nosso pecado; por isso, nos tornamos ligados a ele, segundo Houck. Santo Agostinho certa vez falou para Deus: “Dai-me continência e castidade, mas não agora”. Do que você tem mais sede, das coisas da terra, ou das coisas do céu? As coisas dessa terra nunca irão satisfazê-lo completamente. Pelo que você estaria disposto a morrer? Você preferiria morrer a cometer um pecado mortal? Houck acredita que, como Santa Maria Goretti, devemos ter essa determinação.

No livro “Pornografia, qual o problema?”, que escreveu para a Conferência Católica dos Bispos dos Estados Unidos, Houck oferece dez passos para superar o vício da pornografia:



1. Decida ficar bem e se determine a parar de ver qualquer forma de pornografia que seja.


2. Retire de sua casa tudo que possa ser ocasião de pecado. Houck teve que tirar a sua TV de casa. “O conteúdo da TV muitas vezes é só pornografia mesmo”, ele diz.



3. Tenha força de vontade para fazer sacrifícios, que podem envolver mudanças de hábitos e compromissos. Talvez você precise mudar o caminho ao ir para o trabalho para evitar lugares provocativos, ou mesmo desligar a Internet – ou ao menos instalar um filtro no browser.


4. Conheça os rituais ou processos através dos quais você costumava cair.

5. Encontre uma rede de apoio, que pode ser um grupo de outros homens, ou um grupo de oração. “Se você quer superar os vícios sexuais, precisa de apoio”, diz Houck. Ele formou um grupo de homens há 5 anos atrás, que se encontra semanalmente para suporte mútuo.

6. Reze diariamente.

7. Procure se fortalecer nas virtudes, especialmente na justiça,  prudência, temperança e fortaleza.

8. Pratique a paciência e a perseverança. Se você cair, não se deixe vencer – vá para a confissão o mais rápido possível.

9. Faça jejum: “Se você pode controlar seu apetite por comida, o apetite sexual será mais fácil de ser controlado”.

10. Vá para a confissão. Comungue diariamente, se possível.


Houck pede ao clero para que seja mais pró-ativo em confrontar o mal da pornografia. “Nunca ouvi uma homilia sobre pornografia ou sobre anticoncepcionais. Essas são as principais frentes de batalha na Igreja hoje em dia, e não vemos nenhum combate por parte de quem ocupa o púlpito”, ele diz.


Fonte: Homem Casto

O rabino francês prestigiado por Ratzinger é acusado de plágio








Desatou-se uma polêmica na França e que envolve o rabino de Paris, Gilles Bernheim, de 60 anos, e a quem Bento XVI havia citado há alguns meses por seu ensaio “O que muitas vezes esquecemos de dizer”, dedicado aos temas do casamento e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Bernheim teve que reconhecer, agora, que eram fundadas as acusações de plágio, pois teria copiado de outros autores parágrafos inteiros publicados em seus livros. E, além disso, acrescentou-se uma circunstância pouco edificante. Ao constatar os fatos, descobriu-se que o doutorado em Filosofia que aparece em todos os seus currículos, na realidade, não existe: Bernheim nunca esteve inscrito em nenhuma prova de exame para obter esse título acadêmico na França.


A reportagem é de Giorgio Bernardelli e publicada no sítio Vatican Insider, 10-04-2013. A tradução é do Cepat.




A acusação de plágio surgiu com a denúncia de um blogueiro, que descobriu que em seu livro de 2011 “Quarenta meditações hebraicas” havia passagens inteiras, sem indicação da fonte, do livro/entrevista do filósofo Jean-François Lyotard. Depois de tê-lo negado em um primeiro momento, Bernheim havia se justificado dizendo que, por falta de tempo, havia encarregado, “apenas desta vez”, a tarefa de redigir o livro a um de seus colaboradores. O problema é que não parece tratar-se de um episódio isolado: com o passar do tempo descobriu-se que inclusive algumas partes do ensaio sobre o argumento dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo teriam sido copiadas de reflexões de alguns escritores católicos, entre as quais figura um livro do padre Joseph-Marie Verlinde. O que piorou ainda mais a situação foi a notícia do doutorado em Filosofia inexistente, como confirmou o próprio ministro da Instrução.


Originário da Savoia, guia da comunidade judaica europeia mais importante desde 1º de janeiro de 2009 e nomeado Cavaleiro da Legião de Honra por Nikolas SarkozyGilles Bernheim foi “descoberto” no mundo católico quando Ratzinger – no discurso que pronunciou na Cúria Romana em 21 de dezembro passado – citou seu ensaio e o definiu como “um tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovedor” sobre os problemas antropológicos postos pela “ideologia de gênero”.


Agora, Bernheim terá que ajustar as costas com fortes pressões na comunidade judaica francesa e poderá inclusive ter que deixar o posto (1). Contudo, por enquanto, não parece ter a intenção de renunciar, como ele mesmo explicou em uma entrevista à Rádio Shalom, da comunidade judaica francesa: “Renunciar por uma questão pessoal seria uma deserção – declarou. Na minha vida privada, assim como na vida pública, sempre fui um homem que assumiu suas responsabilidades. Tenho algumas culpas. A história do doutorado, os plágios nos livros são fatos importantes e graves. Mas não cometi nenhuma culpa no cumprimento das minhas funções de rabino. E isto, espero, ajudará a restabelecer a confiança na minha pessoa”. [SIC! SIC! SIC!]


Nota:


1.- Gilles Bernheim deixou o posto ao renunciar. (Nota da IHU On-Line)

Fonte: Unisinos

domingo, 21 de abril de 2013

A mulher e as calças nos anos 40









Você provavelmente já ouviu esta história: “As mulheres não usavam calças, até que veio a guerra e as obrigou a ocupar os postos de trabalho nas fábricas. Foi um caso de necessidade. Não foi nada muito revolucionário”.


 Por esta visão romântica, a moda nada teve a ver com a introdução desta peça no guarda-roupa feminino - quase como se todas as mulheres da época houvessem pensado juntas: “vamos usar as calças de nossos maridos para assim trabalharmos melhor”. Além de romântica, é uma visão marxista da história, que tem por método explicar as mudanças como consequências diretas de fatores econômicos e/ou materiais. Cria-se a errônea impressão de que ninguém havia pensado no assunto antes, e apenas depois que as mulheres foram para as fábricas é que as primeiras calças femininas foram lançadas no mercado.

A calça no guarda-roupa feminino: mudança de mentalidade


Felizmente, alguns estudos sobre moda nos mostram que a introdução da calça no guardar-roupa da mulher possui uma trajetória complexa, que vem desde o século XIX (mais expressivamente) [1]. De fato, houveram alguns esforços bastante pontuais neste quesito, e se a mulher não usa, digamos, uma calça desde há muito tempo, é porque as mentalidades ainda não estavam preparadas para isso. A calça se estabeleceu – é difícil precisar quando – como uma roupa de homem – e durante muito tempo seu uso esteve atrelado à alguma outra indumentária que caía por cima das coxas [2]. 



No caso do homem, porém, há uma grande diferença no uso, pois a calça não é capaz de delinear suas partes desonestas [região íntima], enquanto na mulher é precisamente isto o que acontece: a peça encaixa-se perfeitamente nas suas vergonhas. A calça é igualmente aderente aos quadris e coxas, que são consideradas partes sexualmente atraentes. Uma parte significativa das culturas orientais, por exemplo, em que se costuma dizer pretensamente que a mulher usa “calças” -como a cultura japonesa ou indiana – admitiu o uso desta peça para as mulheres apenas por baixo de longas túnicas ou vestidos, de modo que grande parte da calça fica, na verdade, oculta.



Olhando a história da calça para a mulher, na cultura ocidental, vemos que sua origem está na cultura protestante, que por sua vez, buscou inspiração numa peça turca – em outras palavras, muçulmana [3]. Engraçado é que hoje, quando a mulher católica defende o uso somente de saias, é acusada de “protestante” ou de estar promovendo a “burka” [sic]. Na verdade, a história e a verdade estão ao nosso favor: quem primeiro promoveu a calça foram mulheres protestantes e feministas [da Inglaterra e dos Eua], que estavam propondo uma vestimenta de muçulmanas! Infelizmente, pessoas sem qualquer conhecimento, saem por aí repetindo mantras semelhantes quando na verdade, se trata de uma manobra da Revolução para esconder a real origem das coisas [é só lembrar da "ofensa" de puritanos: primeiro usada pelos nazistas para denegrir católicos que eram contra a roupa de banho imoral dos alemães!]. Entra aí um pecado de espírito… pois, embora ninguém saiba ao certo destas informações, sabem acusar perfeitamente de modo que continuam colaborando com o mal. [Sobre este assunto, estou preparando uma análise mais completa e ilustrada, mas confiram a nota para ver imagens].



Mais relevante seria uma abordagem deste assunto  que tomasse como ponto de partida a mudança nas mentalidades e costumes, para assim compreendermos melhor como a mulher ocidental – que passou quase 20 séculos sem usar calças – aderiu à esta peça, a  ponto da calça ocupar o lugar central no seu guarda-roupa nos nossos dias.  Neste curto artigo não teremos a pretensão de cumprir com o desafio de desenvolver um estudo sobre a introdução da calça no guarda-roupa feminino, mas apenas pontuar alguns aspectos relevantes do tema na década de 40. Com isto, procuramos, contudo, privilegiar o que nos interessa para a modéstia cristã.

A mulher e as calças nos anos 40

 


No início dos anos 40, calças e macacões para mulheres

  Uma das perguntas que as mulheres costumam fazer quando são confrontadas com o tema da calça feminina X modéstia, é “quando foi que as calças começaram a ser confeccionadas realmente para as mulheres”. Elas são movidas em direção a este questionamento devido a um terrível mito que têm se espalhando, cuja autoria não é possível determinar, mas que consiste basicamente no seguinte: se alguns padres ou pessoas dignas falaram mal das calças nos anos 40, 50, 60, é porque “naquela época ainda não havia calças femininas [sic], razão pela qual a mulher realmente ficava masculinizada, gerando a crítica dos sacerdotes”.

Os modelos femininos de calças: uma investida da moda moderna, desde a primeira década do século XX

 Na verdade, costuma-se dizer que o primeiro modelo de “calças femininas” foi lançado em 1909, por Paul Poiret, conhecido como “calça odalisca”. [4]   Antes disso, porém – por volta de 1890 – já se tem conhecimento de mulheres no campo que usavam calças, para pedalar bicicletas. De qualquer forma, falemos dos esforços da moda que desde o início do século XX – e portanto, de acordo com seus próprios interesses – procurava lançar a “calça feminina”. Com a Primeira Guerra Mundial, algumas mulheres já começavam a ocupar os postos das fábricas – algo que se intensificou na Segunda Guerra – , mas ao contrário do que se poderia  pensar, os modelos de calças para mulheres lançados nesta época eram, na sua maioria, calças de passeio, visando atender uma vida feminina mais livre: a mulher agora tinha “uma dose maior de independência, liberdade para circular sozinha pelas ruas e participar de atividades esportivas”.[5] Nos anos 20, ninguém traduziu melhor este sentimento do que a estilista Coco Chanel.


Mais do que um pretenso caso de necessidade por conta do trabalho, a calça no guarda-roupa feminino começou a se estabelecer graças a um novo espírito de se pensar na mulher; graças a uma nova concepção do que a mulher poderia fazer com o tempo que tinha disponível – festas, passeios, clubes, esportes… as roupas, então, visavam estimular este novo estilo de vida, bem diferente do que sempre se concebeu para a mulher, cuja ocupação central era ser mãe, esposa e dona-de-casa. Nos anos 20, a calça de Chanel para passeio, inspirada nos marinheiros, foi aderida por muitas mulheres influenciadas pelas atrizes famosas. O livro “Fashion of a decade: the 1930′s ” [6], traz: Pants had been worn by the more avant-garde fashion-conscious woman in the late 1920s, but by the thirties, they were more acceptable and more widelyadopted.” [Calças haviam sido usadas pelas mulheres mais "antenadas e conscientes da moda" nos anos 20, mas nos anos 30 elas eram mais aceitáveis e mais amplatemente adotadas.]

Em certo sentido, costuma-se também dizer que a calça no guarda-roupa feminino se estabeleceu graças à “pressão feminista”, mas precisamos ter em mente que este não é o movimento feminista que tendemos a pensar, com mulheres saindo nas ruas, com placas nas mãos, completamente panfletárias. É claro que há muitas coisas em comum entre Coco Chanel e Margareth Sanger, mas não se trata de dizer que as mulheres na primeira metade do  século XX estavam todas divididas em feministas e não-feministas, cabendo às primeiras o uso de calças. Como foi dito, era uma questão de mentalidade – uma questão profunda, que pode começar nos meios ideologizados e acadêmicos, mas que termina por afetar toda a sociedade.


Mulheres e o uso de calças na década de 40


 É através de todo este panorama que procuramos responder a pergunta inicial [quando as calças femininas começaram a surgir?], unicamente porque desejamos difundir esta verdade: em certo sentido, as tais ”calças femininas” (se entendemos com isto a peça feita especialmente para a mulher) estiveram por aqui desde que as mulheres começaram a usá-las. Não, não foram preciso décadas até que algum modista tivesse a ideia de lançar uma calça no formato do corpo feminino. Seria justo dizer que a calça masculiniza não porque algumas mulheres na década de 40 de fato usavam as peças de seus maridos, mas sim porque a calça, numa mulher, não pode ser dissociada do fato de que culturalmente foi uma peça estabelecida para o homem. Mais do que isso: ela retira de cena o formato que sempre – apesar das variações de tamanho, forma, volume – esteve atrelado à mulher, que seria a saia ou vestido. 



A calça para mulher é masculinizante por sua própria concepção




É bastante comum encontrar, entre os textos de bispos, padres e pessoas piedosas do século XX [especialmente até meados da década de 70], a referência à calça para mulher como sendo uma “roupa de homem”. O Cardeal Siri, nos anos 60, escreveu um documento sobre o assunto [7], em que condena as mulheres que usam tais “roupas de homens”, esclarecendo que estas são as calças masculinas.


Esta crítica não significa que as mulheres, e ainda mais nos anos 60 [quase 20 anos depois do fim da Guerra], usavam literalmente as calças da seção masculina. “Calças masculinas, traje de homem“: são maneiras de se referir ao uso da calça – independente de como ela fosse – por parte da mulher. Nos anos 40, de fato as mulheres fizeram uso do uniforme masculino nas fábricas – mas como vimos, esta não foi a única realidade. A moda, que vinha desde os anos 20 lançando calças “despojadas” para as mulheres usarem no dia-a-dia, ofereceu uma infinidade de modelos de calças “femininas” nos anos 40, para diversas ocasiões. Haviam calças de noite, de festa, de clube, de jogar tênis, de trabalho…

 Acima, vestidos típicos dos anos 40. Abaixo, calças do mesmo período. Comparem e percebam como a calça delineia o corpo da mulher, mesmo sendo um modelo relativamente “folgado”.
Percebam também como a calça, para ser coerente, precisa dispensar todos os adereços que completam a mulher em sua feminilidade: acessórios para o cabelo, luvas, etc.



 O livro “Fashion by Decade: The 1940′s [8] traz que [por volta de 1941], “a calça já havia se tornado uma peça aceitável para a mulher“. Era aceitável do ponto de vista da sociedade em geral, o que não significa que não houve críticas e resistência. Muitas foram as mulheres que se recusaram a usar calças, e que faziam campanha para evitar seu uso… mas do ponto de vista da mentalidade da época, já estava estabelecido. No entanto, os sacerdotes continuaram a condenar o uso da calça para a mulher… basta lembrar de São Pio de Pietrelcina, que faleceu em 1968: ele negava comunhão à mulheres de calças, e as expulsou sistematicamente de seu confessionário. O que ele diria do nosso atual uso de calças, que piorou bastante e está cada vez mais imoral?


A separação entre os ditos “modelos masculinos e femininos” de calças sempre foram uma linha tênue.


As pessoas costumam usar o argumento de que os modelos de calças masculinos são rigorosamente distintos dos modelos femininos. Hoje, quando vemos que tantos homens e mulheres usam skinny, saruel, cargo, etc., temos de reconhecer que se trata da mesma calça – mas como não se trata do mesmo corpo, há mudanças pouco significativas no que diz respeito ao ajuste à forma.  Abaixo, a chamada pantalona, bastante popular na década de 40:




E abaixo, o mesmo modelo de pantalona, nos anos 40, para homens.




Como puderam ver, basta se debruçar de fato em como as coisas se deram, para derrubar alguns mitos envolvendo este costume para a mulher: eis a importância de saber a origem das coisas… 

Fiquem com Deus e continuem acompanhando a Semana Especial!

P.S.:Vida Real

Durante as minhas pesquisas, encontrei um flickr onde uma moça disponibilizou uma foto de sua mãe de calças em 1947, com a seguinte nota:
“Nos anos 50, minha mãe não gostava de me pegar na escola; ela esperava-me a um quarteirão de distância. Por que? Porque ela insistia em usar calças, e as boas freiras do São Francisco Xavier a desencorajavam a esperar na porta da escola.”

Notas

[1] 
Conferir: Enciclopédia da Moda.  por Georgina O’Hara Callan, 2007.

[2] 
Exemplo de idumentária masculina, do século XVIII, com Luís XV, Rei da França, usando calças:


[3]  
Elizabeth Smith Miller e Amelia BloomerSufragistas e feministas que defendiam voto para mulher e coisas do gênero. A primeira criou a peça [a calça bloomer, que deveria ficar embaixo de uma saia]; a segunda é a que de fato fez a introdução do uso, daí o nome ser atribuído à ela.



A proposta da “calça” feminista e protestante começou assim. Mas como a “Guru” não estipulou a medida mínima da saia, obviamente [como acontece onde a imodéstia reina], a saia foi subindo, subindo… acompanhe um pouco da evolução:

Até, que descambou no traje ainda mais masculino, abaixo [Acreditem: é uma mulher, e protestante]:
.

[4] 
Por favor, lembrem-se do que é uma “odalisca” e da carga de sensualidade que envolve o imaginário de uma. Eis o modelo da calça:



[6] 
Fashion of a decade: the 1930′s. Maria Constantino.

[7]
 Cardeal Siri. Notificação concernente às mulheres que vestem roupas de homem. 1960.

[8] Fashion By Decade: The 1940′s. Patricia Baker

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