domingo, 1 de dezembro de 2013

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 30 de Novembro: Meditação final (Parte XXXI)



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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre





30 de Novembro

MEDITAÇÃO FINAL


Lições do purgatório


Antes sofrer agora... depois... depois será terrível! Agora, nossas orações, sacrifícios esmolas têm um valor de certo modo infinito, pelos méritos do Sangue Preciosíssimo de Jesus Cristo. Podemos fazer por nós, isto é, ganhar para nossa alma aqui, e para as almas que sofrem no purgatório. Depois... ah!, quando nossa alma se separar do corpo, daremos con­tas até de uma palavra ociosa, como diz o Evangelho, e pagaremos até o último ceitil das nossas dívidas para com Deus. Agora quanto mérito e quanta rique­za para a vida eterna!

Aproveitemos o tesouro da misericórdia de Deus. Não abusemos da graça. Aproveitemos, sobretudo, o tesouro infinito da Santa Missa.

É o que melhor podemos dar às almas de nossos entes queridos. A Santa Missa é o primeiro e o maior dos sufrágios pelos mortos. Por ela se apagam nos­sos pecados e aliviadas são as almas do purgatório.

Afirma São Jerônimo, um dos grandes Doutores da Igreja: Enquanto a sacerdote celebra a Santa Mis­sa, muitas almas são libertadas do purgatório.

E São Leonardo de Porto Maurício, o grande Mis­sionário e apóstolo, fala indignado dos que se esque­cem dos seus mortos queridos e não lhes sufragam as almas, que talvez sofram nas chamas expiadoras: “Permiti que eu vos diga, fala o Santo, se há gente avara e sem coração é a que não serve nem manda celebrar uma só Missa pelos seus mortos e que até desvia legados e esmolas de sufrágios. Piores que os demônios. Os demônios atormentam os condenados e estes atormentam as almas santas do purgatório!”.

Oh! Não nos esqueçamos dos nossos graves de­veres para com nossos defuntos! Pelo amor de Deus, vamos: sufrágios, orações, sacrifícios, esmolas pelas almas benditas do purgatório!

Veremos quantas graças nos virão do céu por esta caridade! A ingratidão nunca entrou no purgatório, disse Santa Margarida Maria. O que fizermos pelas almas, receberemos cem por um e o reino dos céus.

O dogma do purgatório contém ensinamentos de uma verdadeira escola de perfeição. Quem pensa o que é e o que se padece, depois desta vida, para ex­piação e purificação da alma antes de ver a Deus, não teria o orgulho e o descuido da sua perfeição, como vemos hoje em tantas almas, mesmo piedosas, mas esquecidas da tremenda realidade do purgatório.

Quanto mais pensarmos no purgatório, mais o ha­vemos de procurar evitar ou atenuá-lo.

Descendamus in infernum viventes, ne descen­damus morientes, dizia São Bernardo. Isto é: desça­mos ao inferno pela meditação enquanto estamos vivos, para lá não irmos depois da nossa morte.

Assim também façamos com o pensamento do purgatório. Vamos, sim, vamos sempre meditar esta verdade, para que a impressão salutar que ela nos causa nos ajude a tender a perfeição, a procurar ter um pouco mais de zelo pela nossa santificação.

Dizia uma santa alma: Oh! Se os homens sou­bessem o que lhes custará, na outra vida, a vida de pecado que levam, mudariam o modo de proceder!


O Cristo de Bergoglio - sem doutrina nem verdade



(...)

A bisavó “Antonia” de Gnocchi e Palmaro me lembra a minha bisavó. Chamava-se Marietta e aos domingos ia a pé, sozinha, faça chuva ou faça sol, à Santa Missa das cinco da manhã, porque precisava, depois, ficar “livre” para preparar o almoço para sua família, aquela construída sobre a rocha e não sobre a areia. E a rocha era Cristo na Cruz... Santa Missa, Santo Rosário, orações, jaculatórias, procissões... eram a sua força, sua resistência, sua perseverança, sua coerência de vida, eram a Fé vivenciada, não um sentimento religioso que hoje existe e amanhã se vai... Podia desabar tudo ao redor da bisavó Marietta (e muito para ela desabou), mas ela permaneceria de pé, sem necessidade de psicanalistas e psicofármacos... porque sabia discernir entre o que é bem e o que é mal; e não com base em uma consciência “pessoal” (que muitas vezes é levada ao erro porque o homem, por causa do pecado original, é mais dirigido para o mal do que para o bem; ao pecado e ao vício do que à virtude), mas com base e graças a uma trama e urdido católicos.


Chesterton[1] escrevia: “O mundo moderno, com os seus movimentos modernos, vive graças ao capital católico que possui. Usa e abusa das verdades que lhe restavam daquele antigo tesouro que é a Cristandade”. Hoje, esta Cristandade está à beira do precipício.

Os católicos não podem aceitar que se abuse da Verdade (única Verdade) trazida pelo Salvador para o verdadeiro bem terreno e eterno de cada um de nós; não podem aceitar, por amor de seu Senhor e da Igreja, que se ultraje a Fé, a única que permite seguir em frente apesar dos problemas, das angústias, das doenças, dos lutos... Aquela Fé que faz descer o Pai do Céu sobre as chagas causadas pelos pecados, e por causa dos quais Ele morreu na Cruz.

As ponderadas e profundas reflexões deste artigo que apresentamos, a assinatura dos corajosos Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, não são Amarcord[2] estéreis, mas o antídoto ao que está acontecendo na Inglaterra, em cuja direção, se Papa Francesco não levar em conta a Tradição da Igreja, toda a Europa se dirige. O relatório anual da agência estatal britânica, que controla os padrões da educação e dos serviços sociais, declarou como“se estão fragmentando os níveis básicos da sociedade [...] na sua tradicional hierarquia: a família que forma a sociedade e a sociedade que sustenta [...], faltam pais que assumam a responsabilidade de criá-los. As crianças sofrem porque não se lhes dão regras claras ou limites. Ninguém lhes ensina a diferença entre um comportamento certo e um errado [...]. Se não voltarmos a reconhecer a importância de famílias estáveis, continuaremos usando o Estado para recolher os cacos” (“Pais, não sabeis educar os filhos”, em “La Stampa”, 17 de outubro de 2013). Quem decide o que é certo e o que é errado? Para “Antonia” e “Marietta” era a Tradição da Igreja, aquela sobre a qual foi construído o Mundo Ocidental. Nós católicos queremos (é nosso direito, porque direito que vem de Deus) um Vigário de Cristo que saiba educar seu rebanho; que indique a verdade e indique o erro; que nos abra, portanto, a porta estreita (Mt. 7,13-14), a que leva para o Céu.

Cristina Siccardi



CRISTO, SEM DOUTRINA NEM VERDADE

Reduzidos a “sans papiers”[3] da Igreja, lembremos o que o Cardeal Biffi[4] lembrou: “Jesus é, por vezes, um pretexto para falar de outra coisa”.
Uma pastoral do íntimo, sem mediação racional do dogma? Não.


Por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro – 22-10-2013, Il Foglio.







Pobre bisavó Antonia, que viveu uma vida feita por pateravegloria[5], rosários, Missas às cinco da manhã, sinais da cruz em cada “santella”[6], catecismo aprendido de cor e preceitos morais praticados escrupulosamente e ensinados com zelo. Pobre bisavó Antonia, e pobres seus oitenta e quatro anos passados a “dizer orações” e a observar “prescrições” na esperança de um dia abraçar Jesus, com quem utilizava o “Vós”, como usavam as gerações respeitáveis. Pobre bisavó Antonia, e pobre sua fé que, não fosse pela pureza ingênua e inerme típica das velhinhas do campo, poderia hoje ser tomada por uma cristã ideológica, moralista, farisaica, sem coração. Contudo, aquela senhorinha sempre vestida de negro, que só falava o dialeto e um latim todo seu, havia mostrado quanto amor por Deus e pelos homens jorra de uma vida passada a “dizer orações”. Ao marido, que em seu leito de morte lhe pediu perdão por tudo o que ele lhe havia feito e que ela havia suportado em silêncio e na paciência, a pobre bisavó Antonia havia respondido que não tivesse medo: “Quando chegardes do lado de lá, vereis quanto bem fizeram as orações que vossa esposa recitou por vós”.

A dureza da homilia de Santa Marta, onde Papa Francisco estigmatiza uma fé que passa “por um alambique e se torna ideologia”[7], e na qual julga as consciências daqueles que, hoje, se obstinam a viver um Cristianismo como o de seus antepassados, acaba por atropelar o passado que continua a viver no presente. É difícil supor que o alvo não seja aquele sentir tradicional que se pretende impedir que se torne um movimento capaz de agregar pessoas e ideias. Isso foi festivamente explicado pela jubilosa máquina de guerra dos hermeneutas do dia seguinte. Mas o havia inequivocamente antecipado o próprio papa, na entrevista a “Civiltà Cattolica”, condenando duramente um “uso ideológico” do rito tradicional restaurado por Papa Bento XVI[8], um “especialista do Logos” definitivamente arquivado pelos hermeneutas do seu sucessor.

sábado, 30 de novembro de 2013

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 29 de Novembro: As últimas vontades dos mortos (Parte XXX)



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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre





29 de Novembro

AS ÚLTIMAS VONTADES DOS MORTOS


                                         
Somos obrigados a executar com justiça e cons­ciência as últimas vontades dos nossos mortos. O que no leito de morte nos pediram, o que deixaram em testamento seja respeitado, porque daremos contas severas a Deus desta tremenda injustiça se lesarmos os direitos dos mortos e não cumprirmos suas últi­mas vontades.

As pobres almas do purgatório são vítimas da Justiça de Deus, porque devem expiar seus pecados, e muitas vezes também vítimas das injustiças dos homens. Herdeiros que defraudam os bens dos mor­tos e nem se lembram de lhes sufragar a pobre alma com uma só Missa! Filhos que discutem e se odeiam por uma miserável herança e cometem toda sorte de injustiças, lesando-se mutuamente numa louca ambi­ção, ao invés de em paz honrarem a memória dos pais e cumprirem as cláusulas dos testamentos. É uma das mais tremendas injustiças. Lesar os vivos é um pecado, mas lesar os mortos tirando-lhes os sufrá­gios por injustiça, é um pecado que só pode atrair a vingança de Deus. Diz o Espírito Santo que haverá um juízo sem misericórdia para quem não usou de misericórdia. “Que juízo tremendo e duro não há de ser o de quem defraudou os direitos dos mortos ? Lesar um pobre, disse o Quarto Concilio de Cartago, é se fazer assassino do pobre”. Que não será o que lesa o direito das pobres almas?

Cumpramos as últimas vontades de nossos mor­tos com muito escrúpulo e cuidado, porque, ai de nós se não o fizermos! Têm-se visto castigos tremendos pesar sobre os que roubam os direitos dos defuntos. Se deixaram legados para Missas, dinheiros para obras de caridade, propriedades para determinados fins, respeitemos estas vontades! Façamos executar o mais depressa possível os testamentos. Principalmente não retardemos as Missas que deixaram para serem ce­lebradas. É um perigo! Tomemos bem nota das úl­timas recomendações dos agonizantes. O Concilio de Trento recomenda aos Bispos que velem atentamen­te o cumprimento dos legados feitos pelos fiéis de­funtos. Vários concílios chegam a lançar excomu­nhão sobre os que cometem injustiças e fraudes nos legados, sobretudo de Missas. É preciso cumprir com fidelidade os testamentos o mais depressa que for possível. As demoras muita vez importam em grande sofrimento no purgatório para os defuntos e prejuízo para os vivos.

Muito cuidado com os testamentos! Procurai não entregar, a não ser em mãos seguras, os legados de Missas. São os mais sérios e importantes. Segundo muitas revelações particulares, estas injustiças têm custado anos e até séculos de purgatório a muitos! Não se roube o que é do direito dos fiéis defuntos!

Lembremo-nos das expressões severas do Conci­lio de Cartago: “Egentium necatores” — são assassi­nos das almas necessitadas, os que lesam os testa­mentos e não cumprem as últimas vontades dos mor­tos. Depressa, sem hesitação sejamos fidelíssimos e pressurosos em cumprir as últimas vontades dos mortos. Com isto nos livraremos de muitos castigos. Não se brinca com o severo juízo de Deus na defesa dos direitos dos mortos!

'Fora da consciência... ainda há salvação?'




Até o Concílio Vaticano II, dizia-se: extra ecclesiam nulla salus (“Fora da Igreja, não há salvação”).  
Ao que parece, essa verdade inconteste vem cedendo lugar a outra afirmação (será este o único dogma da Igreja nova?): Fora da fidelidade à consciência,  não há salvação!  
Não é essa a mais perfeita “revivescência” do modernismo, condenado por São Pio X há mais de um século?






Raphael de la Trinité


‘A reta razão’

A capacidade de conhecer o bem objetivo mediante a consciência subjetiva é expressa pelo catolicismo com o conceito clássico de sindérese, definido pelo Catecismo como "a percepção dos princípios da moralidade" (art. 1780; cf. também Santo Tomás de Aquino, Summa theologiae, I, q. 79, a. 12). O termo vem do latim, synderesis, que reproduz o grego syneidesis, isto é, precisamente "consciência". A sindérese expressa a capacidade luminosa de cada consciência humana de reconhecer o bem, mesmo prescindindo do próprio interesse e das diversas circunstâncias históricas e geográficas — a capacidade de saber se se está fazendo o bem ou não, ou seja, a capacidade de juízo responsável, a qual é fundada na liberdade efetiva de que gozamos. Normalmente, segundo essa acepção, fala-se em "luz da consciência" ou “voz da consciência". As expressões “consciência pesada” ou “remorso de consciência”, por exemplo, são empregadas em sentido afim. Noutros termos, visto que a nossa consciência conhece os princípios básicos da Lei Natural, sempre que nos desviamos da observância dos mesmos, o “tribunal” da consciência (ou seja, “a reta razão”) nos acusa. A isso Nosso Senhor se refere quando afirma: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça”. (Jo, 7, 19 a 30).

A tradição católica é clara a esse respeito. Assim diz a Bíblia: "A consciência de um homem às vezes costuma perceber melhor do que sete sentinelas colocadas no alto para espiar" (Eclesiástico, 37, 14). Na mesma direção afirma São Paulo: "Tudo o que não vem da consciência é pecado" (Romanos 14, 23). Nosso Senhor, igualmente, disse: "Por que não julgam por si o que é certo?" (Lucas 12, 57).

Contudo, uma objeção primeira se levanta: pode ocorrer que acha um choque entre o que diz a consciência, de um lado, e o que preceitua a Fé, de outro?


Há incompatibilidade entre razão e fé?


A fé e razão não se opõem entre si, porque ambas procedem de Deus; são como que dois raios que têm um só foco de luz. Ensina o Concílio Vaticano I (Sessão III, capítulo IV): o mesmo Deus, que revelou os mistérios e nos comunica a fé, infundiu no espírito humano a luz da razão. Ora, Deus não pode negar-se a si mesmo; sendo a própria verdade, não pode contradizer-Se. Aquilo que é verdadeiro nunca poderá entrar em contradição com a mesma verdade.

A razão natural é uma luz que Deus nos concedeu para adquirir os conhecimentos abarcados pela ordem natural, e, como lampejo da luz divina, descortina, de forma prodigiosa, as verdades naturais mais recônditas.

A fé, por sua vez, é também uma luz; porém, luz superior, sobrenatural, a qual nos desvenda as coisas que, embora se achando fora de Deus e pertencentes à ordem natural, Deus Se dignou revelar-nos. Dentre estas, muitas não podemos conhecer; relativamente a outras, estribados tão-só com nossas forças naturais, nem mesmo somos capazes de suspeitar de sua existência.

Certas realidades estão muito acima de nossa razão, mas não são contrárias à mesma. Podemos exemplificar com o seguinte paralelo: são como o telescópio para os olhos — ou seja, aquilo que a olho nu não se pode ver nem alcançar, graças ao telescópio torna-se acessível à nossa visão.

As contradições que os inimigos da Religião Católica afirmam haver entre a fé e a ciência, ou entre a fé e a razão, são apenas aparentes. Com efeito, eis a lição que nos proporciona o supracitado Concílio Vaticano I: essa (falsa) oposição só se verifica quando os dogmas da fé não são compreendidos e expostos de acordo com a doutrina e o espírito da Igreja, ou, quando os caprichos da imaginação humana são tidos como axiomas pela razão.

Ao contrário do que afirmam pessoas mal intencionadas ou mal informadas, a razão jamais será compelida — nem por Deus, nem pela Igreja — a aceitar sem provas a Revelação, como se a inteligência devesse curvar-se à força aos ditames de uma fé nebulosa ou enigmática.

Ao contrário, a Sagrada Escritura nos admoesta a “não crer em qualquer espírito sem provar que vem de Deus” (1ª João, IV, 1).

Fiel à máxima de São Paulo, segundo o qual todos os nossos atos de culto devem ser feitos em conformidade com a razão (Rom. XII, 1), a Igreja ensina que o ato de fé é obséquio razoável. Significa: a) um ato de culto em serviço ou louvor à Divindade; b) realizado em concordância com a razão.

Para isso, não é indispensável que as verdades da fé sejam evidentes por si (evidência da verdade); basta que estejamos seguros quanto à autoridade da pessoa que as formula (evidência da credibilidade da verdade). Sábios ou ignorantes a todo instante acreditamos cegamente em muitas realidades da ordem natural que não compreendemos, ou não somos capazes de demonstrar. Contudo, ao admitirmos tais realidades, fazemo-lo porque temos a convicção segura de que outros homens já as comprovaram. Eis o que pede a razão.

Um exemplo característico é a fé de Abraão. Deus lhe prometera numerosa descendência. Mais tarde, porém, mandou-lhe imolar o seu filho único. Como explicar esse paradoxo? Abraão não hesitou, pondo-se logo a executar a ordem divina, pois estava convicto acerca da veracidade de Deus, isto é, tinha plena certeza de que Ele manteria a palavra, como de fato sucedeu. Conforme sabemos, no último momento, o anjo enviado por Deus reteve o cutelo de Abraão, impedindo-o de imolar Isaac.

Como atuam os modernistas em face disso?

Eis como o Papa São Pio X relata o quadro:

Diante deste incognoscível, seja que ele se ache fora do homem e fora de todas as coisas visíveis, seja que ele se ache oculto na subconsciência do homem, a necessidade de um quê divino, sem nenhum ato prévio da inteligência, como o quer o fideísmo, gera no ânimo já inclinado certo sentimento particular, e este, seja como objeto seja como causa interna, tem envolvida em si a mesma realidade divina e assim, de certa maneira, une o homem com Deus. É precisamente a este sentimento que os modernistas dão o nome de fé e tem-no como princípio de religião. http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis_po.html  [grifos nossos]

A Igreja Católica sempre rejeitou o fideísmo, isto é, a vontade de acreditar contra a razão.

Santo Agostinho, junto com muitos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste caminho, Santo Anselmo dirá, em seu Proslogion, que a fé católica é fides quaerens intellectum, e que a busca da inteligência é um ato interior do acreditar. Será especialmente São Tomás de Aquino quem lidará com a razão dos filósofos, mostrando a força fecunda e sempre nova do empenho racional que inunda o pensamento humano a partir dos princípios e das verdades da fé cristã.

A fé católica é razoável e tem confiança na razão humana. O concílio Vaticano I, na constituição dogmática Dei Filius, disse que a razão é capaz de conhecer com certeza a existência de Deus através da criação, e que apenas a fé tem a oportunidade de conhecer “facilmente, com certeza absoluta e sem erro “(DS 3005) as verdades sobre Deus, à luz da graça. O conhecimento da fé, pois, não é contrário à razão.


O Papa Francisco e a “consciência”


Em face disso, pergunta-se: será que cada um pode seguir a sua concepção do bem e do mal, firmando-se em sua própria consciência?

"A questão para quem não crê em Deus está obedecer à própria consciência", escreveu o papa a Scalfari. E aqui a acusação é de subjetivismo, porque, se cada um deve fazer o que a sua consciência lhe dita como bem e combater o que ela lhe aponta como mal, desapareceria o bem entendido como valor objetivo, haveria uma espécie de imunidade e de impenetrabilidade em relação ao juízo da consciência, a Igreja perderia a sua função de guia e de controle das almas, não haveria mais bem graça nem pecado, e não restaria nada mais do que uma "luta de todos contra todos, uma luta estrênua, por ser realizada pelo bem e não pelo ganho ou por outro contingente". Segundo De Marco, é por isso que as visões particulares "devem ser reguladas por um soberano", isto é, por uma autoridade externa, sejam as leis humanas, ou a lei de Cristo, que "não tem nenhuma nuance concessiva em termos individualistas".

Reiterando o mesmo pensamento, o Papa Francisco, em seu documento recém-lançado, afirma:  Os não-cristãos fiéis à sua consciência podem, por gratuita iniciativa divina, viver “justificados por meio da graça de Deus” e, assim, “associados ao mistério pascal de Jesus Cristo”. http://www.vatican.va/holy_father/francesco/encyclicals/documents/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei_po.html


Pergunta-se: Quem decide o que é certo e o que é errado?

A Igreja deixou de ser mestra infalível da verdade?

Até o Concílio Vaticano II, dizia-se: extra ecclesiam nulla salus (“Fora da Igreja, não há salvação”).

Ao que parece, essa verdade inconteste vem cedendo lugar a outra afirmação (será o único dogma da Igreja nova?): Fora da fidelidade à consciência,  não há salvação!

Não é essa a mais perfeita “revivescência” do modernismo, condenado por São Pio X há mais de um século?

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 28 de Novembro: Como evitar o purgatório? (Parte XXIX)



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por Monsenhor Ascânio Brandão

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28 de Novembro

COMO EVITAR O PURGATÓRIO?


Pode-se evitar o purgatório?


Há em geral entre muitos a idéia de que é im­possível entrar no céu logo depois da morte, princi­palmente quando se pensa na Justiça de Deus, na San­tidade Divina e a miséria humana. O purgatório não é sempre inevitável. Pode-se evitar o purgatório e é vontade de Deus que façamos tudo neste mundo para merecer logo o céu. É impossível! É dificílimo!... Sim, difícil, não há dúvida, mas impossível, nunca! Não digamos como tantos: contanto que eu arranje um lugar no purgatório... Por humildade, e em ver­dade, podemos falar assim, mas por covardia e para afrouxarmos no trabalho da nossa perfeição, nunca o podemos dizer, nem proceder assim. Havemos de fazer tudo para evitar o purgatório. “Aqui, disse Santa Catarina de Genova, pagamos com um, a dívi­da de mil, e na outra vida precisamos de mil para pa­gar um... Está em nossas mãos ganhar muito e pre­parar a entrada do céu logo depois da morte”.

Santa Teresa viu almas entrarem no céu sem terem passado pelo purgatório. Procurar evitar o purgatório é o melhor meio de se livrar dele. Evite­mos o pecado venial, sejamos fiéis ao nosso dever, tenhamos uma grande pureza de intenção em nossos atos. Façamos muitas obras de caridade, fujamos de toda vaidade e hipocrisia em nossas ações, sejamos sinceros, humildes, simples, tenhamos paciência em nossos sofrimentos, sejamos resignados à vontade de Deus em todas as coisas. Quantos meios ao nosso alcance para evitarmos o purgatório! Zelemos a pu­reza de consciência e a pureza de intenção. Não é im­possível escapar do purgatório. Está em nossas mãos. Uma alma fervorosa se abrasa neste mundo nas cha­mas do Divino Amor que purifica cada dia mais e se santifica de tal modo, que logo se lhes abram as por­tas do céu.

Fazer esforços para evitar o purgatório não é, como dizem alguns, uma covardia. É glorificar a Deus, é estimular a nossa perfeição, é corresponder à graça com generosidade, enfim, é um dos meios mais poderosos e eficazes de santificação. Temos mui­ta miséria e fraqueza. Vivamos num estado de compunção, contritos e humildes. Não tenhamos a pre­sunção que perde tantas almas e as leva a esperar o céu com tão pouco sacrifício!

Enquanto estamos neste mundo, somos os milio­nários da graça e dos tesouros da Redenção. Somos mais felizes do que os Santos do céu e as almas do purgatório. Eles não podem mais merecer, nem tra­balhar para a salvação e para a glória do céu, como nós agora. Então, por que não aproveitarmos estas riquezas de valor infinito? Um dos maiores tormentos das pobres almas é o remorso. Que verme roedor! Pensarem elas que poderiam ter sofrido tão pouco e trabalhado um pouco mais, e já estariam no céu e te­riam salvo tantas almas e feito tanto bem quando estavam neste mundo, e desperdiçaram os tesouros do Sangue Precioso de Jesus e agora padecem tanto! Poderiam ter evitado o purgatório... E nós?

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 27 de Novembro: As aparições de almas do purgatório (Parte XXVIII)



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27 de Novembro

AS APARIÇÕES DE ALMAS DO PURGATÓRIO


Que são as aparições?


Contam-se fatos prodigiosos e muitas aparições de almas do purgatório. Isto poderia talvez impres­sionar a alguns e julgarem que podemos desejar ou procurar, com certa curiosidade, indagar a sorte dos mortos ou facilmente ter comunicação com as almas do purgatório. Quanta ilusão perigosa e quanta su­perstição e crendice em torno disto! É mister discer­nirmos bem as verdadeiras das falsas aparições, e mostrarmos o pensamento da Igreja e dos Santos Doutores para que se evitem confusões e ilusões nu­ma matéria tão grave e delicada, porque tão sujeita a enganos e erros.

Que é uma aparição? É uma manifestação do outro mundo, de alguém que nos vem dizer o que lá se passa. Podemos acreditar nas aparições?

Há dois extremos igualmente prejudiciais. Um dos que facilmente aceitam toda sorte de aparições sem exame e não têm a prudência de estudar e esperar a opinião de pessoas criteriosas, teólogos ou autoridades eclesiásticas e superiores, que possam dis­cernir com segurança a verdade de tais aparições. É uma leviandade. Assim o diz a Escritura: “Qui cito credit, levis est corde”[1], quem facilmente em tudo crê, é leviano de coração, é um espírito leviano. Todavia, rejeitar sistematicamente e obstinadamente toda aparição, todos os fatos sobrenaturais, mesmo que tenham os sinais de verdadeiros, é prova de mui­to ceticismo, de orgulho, e pode levar à infidelidade a graça, como insinua a Escritura: “Qui incredulus est infideliter agit”[2], quem é duro em acreditar, procede contra a piedade.

É mister um equilíbrio neste caso entre os dois extremos. Uma alma verdadeiramente humilde e obe­diente nunca poderá se enganar. Outra questão é se as almas do outro mundo podem se comunicar com os vivos. Podem voltar à terra quando queiram ou quando desejem os vivos? Respondemos sem hesitar, com a boa doutrina da Igreja e dos teólogos: — não e não! Isto só se dá por uma especialíssima permis­são de Deus, raras vezes, e por milagre, para ensina­mento e confirmação da imortalidade da alma, para lição dos vivos ou para pedir socorro e sufrágios.

Desde que nossa alma se separou do corpo pela morte, não tem mais órgãos para se comunicar com os homens, é puro espírito, e só por milagre se pode tornar sensível. E demais, quando a alma deixou o corpo, já foi entregue à Divina Justiça, e está no lu­gar que mereceu: o céu, o inferno ou o purgatório. Não pode, sem milagre, entrar em comunicação com os homens. Este milagre das aparições nós os encontramos na Sagrada Escritura. Samuel apareceu à Pitonisa de Endor e repreendeu a Saul porque havia perturbado o repouso dos mortos. Mostrou o castigo que lhe estava reservado por esta curiosidade vã. Na morte de Nosso Senhor, conta São Mateus que os túmulos se abriram e muitos mortos apareceram e foram vistos em Jerusalém. Nas vidas dos Santos encontramos inúmeras aparições, e a Santa Igreja, ao elevar à honra dos altares os servos de Deus, sub­mete a um rigoroso processo todos os fatos e prodí­gios que deles narraram, embora não se pronuncie sobre eles. Portanto, há verdadeiras aparições.

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