domingo, 7 de abril de 2013

Dez estratégias de manipulação através da mídia


Nota do Blog Noam Chomsky é conhecido ativista de esquerda. Não surpreende, pois, que, lá e cá,  promova investidas ou invectivas contra o “sistema econômico”. Tampouco que formule apelos em favor da “revolução”.
Obviamente, o nosso blog (de orientação católico-tradicional) se desassocia dessas posições.
Não obstante, tais ressalvas não infirmam a credibilidade do artigo aqui transcrito. De fato, à margem dos reparos indicados, a interessantíssima denúncia de Chomsky (relativa à manipulação promovida pelo IV Poder) constitui matéria de indiscutível alcance e atualidade .





Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranqüilas”, ele faz referência a esse escrito em seu decálogo das “Estratégias de Manipulação”.




1 – A Estratégia da Distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças que são decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia ou cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais” (citação do texto ‘Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas’).

2 – Criar problemas e depois oferecer soluções.

Este método também se denomina “Problema-Reação-Solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A Estratégia da Gradualidade.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, com conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira as condições sócio-econômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego massivo, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que provocariam uma revolução se fossem aplicadas de uma vez só.

4 – A Estratégia de Diferir.

Outra maneira de fazer com que se aceite uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5 – Dirigir-se ao público como a criaturas de pouca idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se pretende enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

6 – Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional, e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

7 – Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância planejada entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada para as classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8 – Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Promover a crença do público de que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9 – Reforçar a auto-culpabilidade.

Fazer crer ao indivíduo que somente ele é culpado por sua própria desgraça devido à insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição da ação do indivíduo. E sem ação não há revolução!

10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles que possuem e utilizam as elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” desfrutou de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que este conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.  


Noam Chomsky. filósofo, ativista, autor e analista político estadunidense. É professor emérito de Linguística no MIT e uma das figuras mais destacadas desta ciência no século XX. Reconhecido na comunidade científica e acadêmica por seus importantes trabalhos em teoria lingüística e ciência cognitiva.

O absurdo da reencarnação: O que há de comum entre mim e uma barata?




Nota do Blog: Como a tradução do original não saiu a contento, foram introduzidas as alterações indispensáveis para a intelecção da matéria.





"Quando falam em ´renascer´ ou em ´preocupar-se com as vidas futuras´, os budistas procuram encobrir a realidade mais profunda da existência: que, após a morte, o meu corpo deixa de ter vida. Admitindo-se a hipótese de que pudesse ‘voltar’ reencarnado — assumindo a condição de uma barata, por exemplo —, de qualquer modo, já não se trataria de meu verdadeiro ser. Que sentido, então, haveria em ter a mente voltada para essas sucessivas reencarnações futuras?".



A metamorfose de Kafka






De budista a tomista: a conversão ao catolicismo do filósofo Paul Williams






Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Em 1999, porém, surpreendeu os seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais intransigente. Em 2002 publicou um livro com o seu testemunho de conversão e as suas reflexões.


No círculo da revista budista inglesa Dharmalife, reinava a perplexidade: "Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. O seu livro 'O Budismo Mahayana' é um primor de clarividência e iluminação. Que surpreendente foi saber, dois anos atrás, que ele decidira ficar católico. [...] Catolicismo! Sempre fui propenso a crer que, enquanto o budismo seria uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertencia ao rol das religiões ultrapassadas e obscuras.



Sob o influxo das opiniões de amigos que haviam sido católicos, sempre concebera essa religião como algo enfraquecedor, que leva o indivíduo a nutrir sentimentos de culpa, buscando um suporte emocional para a existência... Como poderia, pois, uma pessoa inteligente e bem informada tomar esse rumo?, pergunta-se o crítico da revista.



Foi justamente isso que Williams explicou no seu livro "Unexpected Way" (2002), e em algumas entrevistas e relatos escritos.




Juventude anglicana tíbia


Paul Williams nasceu em 1950. A família da sua mãe não era religiosa, mas depois da sua conversão, ele descobriu que tivera uma bisavó católica. A família do seu pai era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul juntou-se ao coro da paróquia anglicana, porque gostava de cantar. Foi crismado na sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover, e com 18 anos recorda que ia comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebera formação.

O seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams afeiçoou-se à cultura oriental, bem ao estilo alternativo em voga na década de 1950. "Estive implicado nesse estilo de vida e nas coisas que os adolescentes faziam. Ao se aproximarem os exames na faculdade, saí do coro, parei de ajudar na igreja, perdi o contato com a religião, deixei o cabelo comprido e comecei a vestir-me de maneira extravagante".



Meditação e budismo

Ao estudar na Universidade de Sussex, especializou-se em filosofia indiana e depois em budismo. "Durante algum tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém logo abandonei, porque não gostava da sua superficialidade e parecia-me que distorcia a tradição indiana", escreveu no seu livro.

Em 1973 tomara a sua decisão: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo sob a ótica dessa religião. Refugiou-se formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol, criou o seu próprio círculo de budistas.

Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.


O que o atraía no budismo

"Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e a nota de recusa às convenções ocidentais. Muitos de nós considerávamos o budismo interessante, porque parecia dar uma resposta mais satisfatória do que a das outras religiões, além de ser bem menos convencional. Os budistas não creem em Deus, ou melhor, simulam não ter razões para crer em Deus. Quanto a nós, buscávamos na insanável contingência do mal a nossa saída para justificar esse derivativo. Nós, que havíamos crescido como cristãos, estávamos saturados de defender a ideia de Deus num contexto hostil, crivados de ódio pelos inimigos. O budismo oferecia um sistema de moralidade, uma forma de espiritualidade e um plano filosófico de elaboração complexa, que permitia abdicar da necessidade de um Deus", explica Williams.

Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo escreveu: "Quando analisamos a versão ocidental do budismo, encontramos com frequência uma modalidade de cristianismo depurado de tudo aquilo que os fiéis 'pós-cristãos' encontrariam mais dificuldades em aceitar".

Williams conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a "blasfêmia terapêutica", para conseguir desapegar-se do seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta ideia parecia uma barbaridade.



O problema da reencarnação

O budismo no Ocidente apresenta-se, sobretudo, como uma técnica para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento... Entretanto, à medida que transcorria o tempo, Williams, como filósofo, não conseguia esquivar-se das perguntas fundamentais: o que acontece após a morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que a morte é "Mara", ou seja, uma "ilusão", um devaneio, um tema do qual sequer vale a pena cogitar. Contudo, uma pessoa que costuma refletir seria capaz de fugir dessa indagação capital?

"Os budistas creem num ressurgir, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não haveria início nem fim na série de vidas renovadas: cada um renasceria um número infindável de vezes, o que dispensaria um princípio e a ideia de Deus enquanto Motor imóvel, que dá origem ao movimento”, explica.

Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor da reencarnação estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. "E por boas razões: se a reencarnação é verdade, é melhor perder toda e qualquer razão de esperança".



‘O que há de comum entre mim e uma barata?’

Imaginemos que a nossa vida presente finda sem dor ao raiar da aurora e que, por alguma razão, estejamos cientes de que iremos renascer sob a forma de barata. "Você se acostumará, não há problema, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, continuarás vivo... Mas por que nada disso nos consola?", argumenta Williams.

Mais específico ainda: "Seria demais pedir a alguém que se imaginasse reencarnado no corpo de uma barata, como na Metamorfose de Kafka. De fato, passando a ser uma barata, quais poderiam ser as minhas cogitações e anseios sob a pele desse asqueroso animal?"

"O terror de ‘encerrar o meu ciclo’ na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria o meu fim. Não posso imaginar como seria o renascer como barata, porque nenhuma forma de imaginação caberia a respeito! Simplesmente, não haveria nada de mim presente nesse novo ser. Se existisse de fato a reencarnação, mesmo assim, nenhum de nós — tanto em meu caso como no de meus entes queridos — teria sobrevivido à passagem da morte. Isso porque a minha realidade enquanto indivíduo, a minha história pessoal simplesmente teria acabado.
Pouco me importa saber se haveria algum outro ser vivo mantendo algum tipo de conexão causal com a vida que eu tive — alguém teleguiado pelo meu karma [sic!]. De qualquer, já não seria eu mesmo".

"Quando falam em ´renascer´ ou em ´preocupar-se com as vidas futuras´, os budistas procuram encobrir a realidade mais profunda da existência: que, após a morte, o meu corpo deixa de ter vida. Admitindo-se a hipótese de que pudesse ‘voltar’ reencarnado — assumindo a condição de uma barata, por exemplo —, de qualquer modo, já não se trataria de meu verdadeiro ser. Que sentido, então, haveria em ter a mente voltada para essas sucessivas reencarnações futuras?".



Iluminação, sim... mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana — um ponto de  perfeição absoluta, em que há desapego total em relação a esta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que, com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, já com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa, chegara à seguinte conclusão: "É evidente que não conseguirei a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim eu, e os meus amigos e familiares, não temos esperança".



Karma
: pagar pelas vidas pregressas, antes mesmo de começar a existir?!

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens por que passa cada um, tudo isso seria mera consequência do que a pessoa fez em uma vida passada. "Mas que espécie de sinistro algoz teria sido a pessoa na outra vida? A ideia de que uma inocente criança possa ficar doente em razão de algo errado feito por outra pessoa, isso não convence a ninguém. Não se pode admitir que algo feito por alguém, numa imaginária vida pretérita, possa ser a resposta mais razoável para o problema da existência do mal. Assim como não foi o recém-nascido quem praticou os atos condenáveis, também não concebo que eu possa renascer como barata após a minha morte".



O cristianismo difunde esperança

"O budismo não transmite nenhuma forma de esperança. Os cristãos, sim, têm esperança, por isso quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta de que é racional crer em Deus, mais racional do que crer, como os budistas, que não há Deus".

Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado. "Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas. E, como cristão, considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica".

"O cristianismo é a religião que atribui um valor inextinguível a cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e, como tal, Deus ama a cada um e valoriza cada indivíduo desmedidamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o sentido da família, passando pela imolação e sacrifício dos santos. Se não fôssemos indivíduos inconfundíveis, com um valor pessoal e intransferível, Jesus não Se teria imolado por nós, para salvar a cada um. Cada um jamais deixará de ser o que é, com sua respectiva existência, parentes e relacionamentos. O que nos sustenta é a nossa certeza de que, em Deus, a morte terá um significado especial para cada um, um alcance que excede o nosso poder de compreensão e que, desde agora, suscita a nossa confiança e dá alento à nossa vida".

Hoje, Paul Williams é terceiro dominicano; um grande admirador de Santo Tomás de Aquino. Lamenta que, algumas vezes, em encontros ecumênicos ou em estudos de religião comparada, se tenha tornado hábito cotejar os místicos cristãos de linguajar mais didático (como, por exemplo, São João da Cruz) com teóricos budistas de expressão elaborada — por isso, apresentados como intelectualmente mais preparados. Em consequência dessa forma distorcida de comparação, muitos grandes mestres da vida espiritual católica tomam o aspecto de simples divulgadores de uma filosofia bem mais complexa.

Na opinião de Paulo William, os budistas seriam facilmente refutados se contrapostos ao pensamento límpido, metódico e sistemático de Santo Tomás.




Fonte: ReligionenLibertad.com

31/8/2012

Autor: João Silveira


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Carta Encíclica - PASCENDI DOMINICI GREGIS




CARTA ENCÍCLICA

PASCENDI DOMINICI GREGIS
DO SUMO PONTÍFICE PIO X
AOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS EM PAZ
E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE

AS DOUTRINAS MODERNISTAS


Veneráveis Irmãos,

saúde e bênção apostólica

INTRODUÇÃO

A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.

E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do êrro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.

Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.

Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que  meneiam eles o machado.

Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias:  porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.

Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.

Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.

E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, afim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que de fato estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.


Considerações sobre a Luxúria


Nota do Blog: Transcrevemos diretamente a orientação dada a respeito pelo teólogo dominicano Padre Royo Marin, O. P. no livro Teologia Moral para seglares. Fazemos via: A vida Sacerdotal. Como o estudo foi escrito em espanhol, a tradução do blog acima saiu imperfeita. Por isso, consertamos os erros de português. Se não o fizéssemos, talvez faltasse clareza ao texto.





Ordenemos as considerações acerca do tema:



1.ª  É PECADO MORTAL realizar, sem motivo grave, uma ação boa ou indiferente que influa próxima e gravemente no prazer venéreo, que é a luxúria (seja pela ação em si mesma ou pela psicologia específica de uma pessoa determinada), mesmo que, num ou noutro caso concreto, essa pessoa não venha a sentir de fato aquele prazer. A razão é esta: a ninguém é lícito, sem justa causa (razão de necessidade ou motivo grave), expor-se a perigo próximo de pecar gravemente (cf. n.256).



O que é justa causa?


Entende-se por justa causa o dever de ofício. Exemplos concretos: trabalho do médico cuja obrigação é examinar o doente; labor do estudante de medicina, que deve aprender anatomia ou obstetrícia; exercício do ministério pelo sacerdote, a quem incumbe estudar a moral ou ouvir confissões cruas e delicadas dos penitentes, etc.. Nenhuma dessas pessoas peca quando, ao realizar esses estudos ou desempenhar suas funções profissionais, sente algum prazer desordenado, desde que recuse por inteiro dar consentimento à solicitação que tiver sentido nessa direção.

Na mesma direção, tampouco pecaria alguém que, que por uma larga experiência, soubesse com toda certeza que não lhe excita carnalmente alguma ação, de si boa ou indiferente, a qual, entretanto, para outros, teria um efeito gravemente provocador. Entretanto, essa frieza subjetiva não pode ser invocada para legitimar uma ação de si mesma má (por exemplo, presenciar um espetáculo imoral), porque, ao fazê-lo, a pessoa pecaria em razão do escândalo e da cooperação em face do mal.



2.ª É PECADO VENIAL realizar, sem motivo grave, uma ação que influi tão somente per accidens, ou de maneira leve e remota, no prazer venéreo, quando este não é procurado nem almejado, direta nem indiretamente (exemplo:  excessos eventuais no comer ou no beber, deter-se longamente na conversação com pessoa muito bela, fixando olhar no olhar por período considerável, etc.). A razão é esta: embora tais ações só influam remotamente no prazer venéreo (que, além do mais, não foi o que a pessoa, de si, pretendia buscar), devemos evitar, por puro capricho e sem razão, o envolvimento nessa forma (ainda que leve) de desordem. Seria imprudência e temeridade. Entretanto, visto que tal desordem não conduz diretamente à luxúria (se conduzisse, seria grave, porque toda busca da luxúria, como intenção direta e clara, constitui PECADO GRAVE), trata-se tão somente pecado venial, desde que a pessoa recuse o consentimento ao prazer desordenado que possa produzir-se inesperadamente.



3.ª NÃO É PECADO NENHUM realizar com justa causa (isto é, por necessidade, educação, utilidade ou conveniência) as ações que acabamos de indicar no parágrafo anterior (ou seja, as que influem só per accidens, ou leve e remotamente, no deleite ou prazer venéreo). Essa observação se refere também ao MOTIVO GRAVE (por exemplo, é o caso do exercício profissional de médicos, enfermeiros, etc.), inclusive com relação ao que foi mencionado no primeiro parágrafo (ou seja, relativamente às ações que influem próxima e gravemente no deleite ou prazer venéreo), desde que se tome todo o cuidado devido, recusando no ato dar consentimento ao prazer que daí possa derivar. Uma ressalva: nas situações em que a causa é por demais excitante e a debilidade pessoal muito grande, tendo a pessoa certeza moral de que sentirá esse prazer e que não terá suficiente energia para recusar o consentimento, seria absolutamente ilícito expor-se àquilo, mesmo que o interessado, por essa razão, se veja na necessidade de abandonar a própria profissão ou emprego. Motivo: nunca é lícito expor-se voluntariamente a perigo certo, ou virtualmente inevitável, de pecado, mesmo que seja para salvar a própria vida ou a do próximo.




EXPLICAÇÃO COMPLEMENTAR



A LUXÚRIA ou DELEITE VENÉREO é a ação própria e específica da geração humana. Distingue-se:


A. Do deleite puramente sensível, que é o produzido por um ato ou objeto prazeroso em si mesmo, mas não apto em si para excitar o prazer venéreo (v.gr., o aroma de uma rosa, a suavidade do veludo, o aprimoramento de um manjar, etc.).


B. Do deleite sensual, que é o produzido por um ato ou objeto que, embora não seja propriamente venéreo em si mesmo, é apto, entretanto, para excitar a concupiscência da carne (v.gr., um beijo, um abraço, etc.). Nestes casos haverá, ou não, pecado segundo a intenção ou finalidade com que se façam.


TANTO A CONSUMADA ou PERFEITA, ou seja, a que chega a seu término natural pelo orgasmo e efusão seminal no varão ou de humores vaginais na mulher.


ASSIM COMO A NÃO CONSUMADA ou IMPERFEITA, que se reduz a pensamentos, olhares, toques, etc., com intenção ou finalidade desonesta.


DIRETAMENTE PROCURADA, já seja por ter tentado voluntariamente obter o prazer venéreo completo ou incompleto, ou por ter consentido nessa fruição, mesmo quando esta se produziu sem buscá-lo.


FORA DO LEGÍTIMO MATRIMÔNIO, ou seja, fora dos atos ordenados por si mesmo à geração humana dentro do legítimo matrimônio.


É SEMPRE PECADO MORTAL, não só por estar grave e expressamente proibida Por Deus, mas sim por ser uma coisa de sua natureza intrinsecamente má.


E NÃO ADMITE DIMINUIÇÃO DE MATÉRIA.

Significa que, por menor que seja o ato desordenado (por exemplo, um simples movimento carnal), é sempre pecado mortal quando através dele se busca diretamente o prazer venéreo. O pecado será venial quando por imperfeição do ato humano, ou seja, por falta da suficiente advertência ou de pleno consentimento.


Vejamos agora a prova teológica do princípio:

a) PELA SAGRADA ESCRITURA. São inumeráveis os textos. Eis aqui alguns dos mais conhecidos:


«Não adulterará» (Ex. 20,14).


«Todo aquele que olha a uma mulher desejando-a, já adulterou com ela em seu coração» (MT. 5,28).


«Não lhes enganem: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas... possuirão o reino de Deus» (1 Cor. 6,9-1o).


«Agora bem: as obras da carne são manifestas, ou seja: fornicação, impureza, lascívia... e outras como estas, das quais lhes previno, como antes o fiz, que aqueles que tais coisas fazem não herdarão o reino de Deus» (Gal. 5,19-21).


«Pois têm que saber que nenhum fornicador ou impuro... terá parte na herdade do reino de Cristo e de Deus» (Eph. 5,5).


Como se vê, os textos não podem ser mais claros e categóricos. trata-se da exclusão do reino dos céus, que corresponde ao pecado grave ou mortal. Isso abrange não só os atos consumados ou perfeitos (fornicação, adultério), mas inclusive os não consumados ou imperfeitos. De fato, basta um simples olhar mal intencionado, como declara o mesmo Cristo, no Evangelho (MT. 5,z8).


b) PELO MAGISTÉRIO DA IGREJA. A Igreja (Alexandre VII) condenou, ao menos como escandalosa, a seguinte proposição:


«É opinião provável a que diz ser somente pecado venial o beijo que se dá buscando o deleite carnal e sensível que do beijo se origina, excluído o perigo de ulterior consentimento e poluição» (D I140).


Agora bem: se um simples beijo dado com intenção carnal (luxúria imperfeita ou não consumada) é pecado grave, também o serão outros atos de luxúria imperfeita e, a fortiori, os de luxúria consumada ou perfeita.


c) PELA RAZÃO TEOLÓGICA. Todos os teólogos católicos estão de acordo em proclamar que a luxúria perfeita ou imperfeita é em si intrinsecamente má. Portanto, não só em razão de estar proibida por Deus. O motivo fundamental é este: o prazer venéreo foi estabelecido por Deus no ato da geração como estímulo para a mesma, dada a sua necessidade imprescindível para a propagação do gênero humano. É, pois, um prazer cuja única e exclusiva razão de ser é o bem da espécie, e não do indivíduo em particular. Aqui está o ponto: utilizar esse deleite em proveito e utilidade própria, fora de sua ordenação natural à geração em legítimo matrimônio, é subverter a ordem natural das coisas, o que é sempre intrinsecamente mal. — Por quê? Pelo fato de que contraria o que Deus dispôs, não só por efeito de uma lei positiva, mas também pela própria natureza das coisas. Como se trata de uma desordem grave, que tem nexo com o bem de toda a sociedade humana, essa infração voluntária e direta forçosamente constitui um pecado mortal.


A esta razão fundamental podem acrescentar-se outras, principalmente para tornar manifesta a ilegitimidade inclusive dos atos imperfeitos. Motivos:


1.° Tratando-se de matéria tão escorregadia, é quase impossível realizar o ato imperfeito de luxúria sem expor-se a grave perigo de chegar até o perfeito. Como sabemos, é pecado grave expor-se sem causa justificada — O DESEJO DE SATISFAZER A PRÓPRIA SENSUALIDADE NUNCA SERÁ UMA CAUSA QUE JUSTIFIQUE A PRÁTICA DA LUXÚRIA — a perigo próximo de pecado grave.


2.º É virtualmente impossível procurar o deleite venéreo incompleto sem que implicitamente estejamos buscando o gozo completo da luxúria. Isso porque, como adverte com fundamento Santo Tomás, ‘a incógnita (ou incerteza) de uma coisa se ordena sempre em ordem à sua consumação’.  Depreende-se daí o seguinte: a incógnita (ou incerteza) necessariamente deseja, por um movimento natural, ainda que implícito, a consumação daquilo que foi começado e que ainda não se finalizou. O princípio é o mesmo quando alguém busca um bem imperfeito, pois, também neste caso, o que deseja, no fundo, é o bem perfeito, para o qual tende, mesmo que forma implícita.


3.º Também o prazer venéreo que se obtém com a luxúria imperfeita está ordenado, de si, para o bem da espécie, por constituir parte integrante do estímulo natural para a geração da prole, o qual foi colocado no organismo humano pelo mesmo Autor da natureza. Logo, utilizá-lo em proveito próprio, isto é, fora dessa altíssima finalidade, equivale a subverter a ordem natural das coisas, e, pelo mesmo motivo, será sempre intrinsecamente mau.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quando um Santo Vigário condenava os bailes










Por: Raphael de la Trinité


Há tantos aspectos para comentar que quase tropeço nas palavras, antes mesmo de fazer alguma consideração... Começo pela presumível opinião dos adversários.

Número 1 - Hoje se diria (
sobre o texto do Cura d’Ars), que se trata de trecho “fundamentalista, mórbido e faccioso”. O Santo não seria “arejado” nem compreensivo em relação às “fraquezas humanas”.


Número 2 - Comparemos as danças de uma aldeia francesa do início do século XIX (época do Cura d’Ars) com as “baladas” contemporâneas! Hoje é tudo tão lúbrico, que nem de longe haveria termos de comparação. Em nossos dias afigura-se público e notório que, em tais recintos, campeia toda forma de depravação moral, sem esquecer o recurso frequente às drogas. Tais “estabelecimentos de diversão compulsória” são tão fesceninos, que, não raro, a conjunção carnal é ali diretamente almejada pelos jovens de ambos os sexos, que se reúnem para o gozo indiscriminado das apetências carnais. Costumam mesmo designá-lo por termos abjetos (estou usando uma palavra mais comedida, como “friccionar” os corpos, mas eles utilizam outras, bem mais vulgares, para indicar “apertão”, “agarramento”; falam em “almondegar”, indicando mesclar, misturar as pessoas...).

Quando vivia São João Maria Vianney, supérfluo dizer, nem se concebia uma degringolada dessa natureza.

Número 3 - Como, naqueles tempos (quando se preservavam certas formas de recato e pundonor), não se concebia esse desatar ébrio de paixões amorosas, num sex appeal infrene, feito de sensualidade à flor da pele e “experiências” lascivas, sob o signo do universal “é proibido reprimir” (“glorioso” lema do século XXI), entende-se que o Cura d’Arns teve em vista, nesses comentários, sobretudo os pecados internos contra a castidade (desejos, pensamentos), sem descurar, é claro, de tudo o mais que aparece depois em cascata. Claro que entrava, de chofre ou de forma premeditada, desde logo, gravíssimo problema dos olhares. Talvez, de início, sentimentais apenas, ociosos, imprudentes e indiscretos, logo resvalando, como sói acontecer, para os paroxismos da sensualidade mais declarada.

Número 4 - Consideremos, também, a questão dos trajes. Ao que me consta, as pessoas daquele tempo comumente não se despiam (quase que por inteiro, como hoje) para incitar aos olhares, desejos e atos libidinosos. Via de regra, os trajes eram pudicos. Contudo, isso não impedia que as solicitações impuras “chovessem”, pois a natureza humana, após o pecado original, jamais deixará de ser facilmente arrastada pelo que tem de mais baixo.  

Número 5 – Convém ressaltar que, em linhas gerais, os referidos bailes (mesmo na primeira metade do século XIX) eram realizados, assim como acontece em qualquer época, sob o signo do “largar o corpo” (o que costumava incluir, além dos perigosos namoricos e assemelhados, bebedeira nas tavernas, incontinência verbal, blasfêmias, ou seja, palavrões, esconjuros, impropérios e formas de comportamento vulgar de toda natureza). — O que era a pequena cidade de Ars, naquela conjuntura histórica? Uma quase aldeia, habitada no geral por pessoas muito simples, camponeses ou trabalhadores manuais. Esse prurido de prazer e gozo embriagante, acalentado pelos bailes, portanto, certamente correspondia a um como que “momento de alívio”, a um “soltar dos freios”, por parte dos rústicos aldeões. Concedendo nessa matéria, muitas outras, bem mais graves, viriam de roldão.

Número 6 – O problema de fundo, no meu entender, estava (e está) no EXPOR-SE À OCASIÃO PRÓXIMA DE FALTA. QUEM O FAZ VOLUNTARIAMENTE, JÁ PECA.

Número 7 – Não existia, então, cinema, TV, Internet. Significa que, “sair da rotina”, naqueles idos, deveria corresponder a buscar cançonetas e danças (mais ou menos) obscenas ou “pegajosas”, que induziam a pessoa a um estado de espírito de gozo da vida, consubstanciado no que esta tem de menos edificante. Em suma, um desatar dos instintos inferiores do homem, que é sempre o mesmo, em qualquer época, conforme já referi.

Número 8 – Uma objeção que caberia. Usando palavras sem meias medidas, o Cura d’Ars parecia desaprovar e proscrever todo gênero de diversões, ou seja, estaria quase pleiteando que todos vivessem uma vida de convento. Aqui a questão é outra. O Cura D’Ars desejava tirar aquelas pessoas do atoleiro de vida sensual e das torpezas da carne. Discernia, desse ponto de vista, que os bailes representavam a grande alavanca mediante a qual o demônio arrancava os indivíduos dos bons pensamentos, bons propósitos e prática do dever. Numa palavra, era o que primordialmente arruinava os lares e a sociedade, além de ofender gravemente a Deus — de longe, o mais importante.

Em resumo, via tudo de uma perspectiva bem mais nobre e mais santa do que o comum dos mortais, considerando, com precisão de análise, que os bailes de qualquer espécie põem em grave risco a salvação eterna das pessoas.

Por esse firme e inabalável princípio, pautava a sua conduta.

Consequência: em razão dos ensinamentos e dos exemplos vividos na presença de seu grande vigário, sem contar os mais portentosos milagres que operava diante de todos, Ars transformou-se num luzeiro para a vida em sociedade e São João Maria Vianney modelo de todos os párocos.






*** * ***






Seguem alguns episódios que comprovam como o demônio se enfurecia com o Santo e como este o subjugava com destemor e galhardia:

Depoimento de Dionísio Chaland, de Bouligneux, jovem estudante de filosofia, num dia de junho de 1838: ‘Ajoelhei-me no seu genuflexório, para confessar-me, no quarto do próprio santo. Quase pela metade da confissão, um tremor geral agitou toda a peça; o genuflexório se moveu. Levantei-me aterrorizado. O Sr. Cura agarrou-me por um braço.- Não é nada, disse ele. É o demônio.


A quatro de fevereiro de 1857 o santo se pusera a ouvir confissões. Pouco antes das sete, as pessoas que passavam diante da casa paroquial viram que saíam chamas do quarto do padre Vianney. Foram avisá-lo: “Sr. Cura, parece que há fogo no seu quarto”. Enquanto lhes entregava a chave para que fossem apagá-lo, observou, sem muita preocupação: “Esse vilão do demônio, não podendo pegar o pássaro, queima-lhe a gaiola”.

Em 1826, durante uma missão em Montmerle. Era noite, ouviu-se um barulho de carro que fazia estremecer o chão. Parecia que a casa vinha abaixo. Produziu-se no quarto do Cura d´Ars, uma tal algazarra que o Pe. Benoit gritou: “Estão matando o padre Vianney”. Todos correram para lá. Mas o que viram? O santo estava deitado tranquilamente no seu leito, que mãos invisíveis tinham arrastado para o meio do quarto. “Foi o demônio, disse ele, sorrindo. Não é nada. Sinto muito não vos ter prevenido. É bom sinal… Amanhã cairá um peixe graúdo” [para ele ouvir em confissão e converter para Deus].

O Cura tivera na juventude aspecto vigoroso, mas, pelos jejuns, seus membros se foram adelgaçando. As mãos descarnadas, com as veias salientes.

Todo o seu prazer, conta Padre Luís Beau, confessor do cura d´ Ars era falar em assuntos espirituais. Encantado com os modos sublimes do Cura d´Árs, um poeta francês assim o definiu: – Nunca vi Deus assim tão de perto!

No último ano de sua vida, o cura d´Ars viu passar por sua igreja, pelo menos uns cem mil peregrinos.

O mês de julho de 1859 foi verdadeiramente abrasador. Fora das casas parecia-se respirar fogo. Prostrado já mortalmente em seu leito, ainda pode pressentir seu momento derradeiro e pediu que lhe chamassem seu confessor, o Cura de Jassans. Chamado também o médico, este constatou que o enfermo tinha chegado a uma debilidade extrema. E ainda declarou: se o calor diminuir ainda haverá alguma esperança.

Muitos dos seus queridos paroquianos, movidos de terna compaixão pelo seu santo cura, chegaram a estender sobre o telhado grandes toalhas que, trepados em escadas molhavam de quando em quando para mitigar a penúria de seu querido pároco. Era um testemunho silencioso de devotamento pelo amoroso pastor que não vacilou em dar toda sua vida pelo amado rebanho.

Finalmente, no dia 4 de agosto de 1859, às duas da madrugada, enquanto nos céus de Ars se desencadeava violenta tempestade, João Maria Batista Vianney, sem agonia, entregou sua alma ao seu Bom Deus. Contava então, setenta e três anos, dez meses e vinte e sete dias e fazia quarenta e um anos, cinco meses e vinte e três dias que era cura de Ars.

A 14 de agosto de 1859 o corpo foi depositado numa sepultura aberta no centro da nave. Sobre ela foi colocada uma lápide de mármore preto em que se gravaram em forma de cruz um cálice e esta simples inscrição: Aqui jaz João Maria Batista Vianney, Cura d´Ars.

A 8 de janeiro de 1905, o papa Pio X assinou o decreto de beatificação do cura d´Ars. No dia 12 de abril de 1905, São Pio X declarou-o Patrono de todos os sacerdotes que têm cura de almas na França e nos territórios de seu domínio. E a 28 de setembro de 1925, quinze dias depois da canonização de Terezinha do Menino Jesus, o humilde pároco de Ars era canonizado pela Papa Pio XI.

Havendo quem deseje aprofundar-se no assunto, é recomendável ler a obra do Cônego Trochu, “O Santo Cura D’Ars”, de onde são extraídas as passagens acima. 
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