terça-feira, 29 de outubro de 2013

Era o monoteísmo a crença original da humanidade?




Por Roy L Hales



Os descrentes têm frequentemente ressalvado a exclusividade dos ensinamentos transmitidos pelo Povo Eleito e pelo Cristianismo, mas as Sagradas Escrituras indicam que, no princípio, toda a humanidade conhecia o Criador. Quando Noé levou a cabo o sacrifício em Génesis 8:20-9:17 (imediatamente após o Dilúvio), toda a sua família – os antecessores de toda a humanidade – foi abençoada. Mais tarde, a humanidade fixou-se na Suméria, onde construiu a Torre de Babel.

A tradição dos hebreus sustenta que Deus ordenou que as pessoas se dispersassem e colonizassem toda a Terra, mas a humanidade recusou-se. Como consequência, Deus dispersou-os. (1) Gerações posteriores do homem passaram a estar cada vez mais indiferentes ao Criador, tal como Romanos 1:21-24 descreve:
Porquanto, tendo conhecido a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível, em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Pelo que, também, Deus os entregou às concupiscências dos seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si.

O Criador escolheu uma só família para preservar a Sua adoração, mas mesmo quando esta família, mais tarde uma nação, veio a existir, ainda existiam profetas ao servio do monoteísmo original:
§  Quando Abraão se encontrava em Canaã, cruzou-se com Melquisedeque, o Sacerdote do Deus Altíssimo (Génesis 14:18-20);
§  Começando no capítulo 22 até ao capítulo 24, o Livro de Números descreve a forma como o profeta Balaão (da Síria ou do Irão (2)) foi consultado para amaldiçoar a descendência de Abraão pouco antes de estes conquistarem Canaã.

Um estudo das numerosas tradições mundiais ecoa a ideia Escritural mencionada em cima de que, originalmente, toda a humanidade seguia o Senhor antes de enveredarem por outros caminhos. Existem muitas evidências que demonstram a perda do monoteísmo original, e a queda para o paganismo. As primordiais e principais civilizações letradas da Suméria, Egito, Índia, China e México todas revelam sinais de haverem sido, no passado, monoteístas.
Algumas civilizações mais antigas de África, América do Norte e Japão exibiram a ideia dum Deus Criador Único, mas para todo o propósito prático, abandonaram a sua adoração em favor dos espíritos [entenda-se: demônios]. No caso da Suméria, do Egito, da Índia e do México, esta viagem do monoteísmo para a adoração dos espíritos levou à adoração de muitos deuses.

MONOTEÍSMO NA SUMÉRIA, EGIPTO E ÍNDIA

As evidências em favor do monoteísmo original na Suméria, no Egipto e na Índia há já muito tempo que são conhecidas. Os arqueólogos já apuraram que, quanto mais eles recuam na história da Suméria, mais proeminente o deus do céu An se torna: devido a isto, muitos são levados a acreditar que ele era o deus único da Suméria.
Evidências em favor da adoração do “Deus Único” no Egipto são mais abundantes mas, ao mesmo tempo, mais confusas. Os hinos, tais como aquele que se segue, são abundantes na literatura Egípcia:
Um, o criador de todas as coisas, o Espírito, o Espírito oculto, o criador dos Espíritos. Ele existia no princípio, quando nada mais existia. Tudo o que foi criado, Ele criou depois de começar a existir. Ninguém sabe como O encontrar; o Seu nome é um mistério e é oculto. Os seus nomes são inumeráveis. Ele é a verdade, Ele vive na verdade, Ele é o rei da verdade. Ele é vida; através dele o homem vive; Ele dá a vida ao homem, Ele assoprou vida para as suas narinas. . . Ele mesmo é a existência; Ele não aumenta nem diminui. Ele criou o universo, o mundo. o que era, o que é, e o que ainda será … Ele ouve todos os que clamam a Ele, ele recompensa os seus servos; todos os que o reconhecem são conhecidos por Ele. Ele protege os seus seguidores.(4)

Perante uma tal abundância de deuses egípcios, muitos peritos colocaram a hipótese deles todos serem aspectos distintos “Do Tal”, ou se as variadas divindades se encontravam em competição para serem “O Tal”. (5) Do ponto de vista Bíblico, o conceito da Unidade Divina muito provavelmente permaneceu na cultura mesmo depois de estarem passados vários séculos após o abandono da adoração ao Deus verdadeiro.
A herança monoteísta da Índia está claramente manifesta na sua escritura mais antiga, o Rig Veda:
No princípio, quem nasceu? O Senhor, o Senhor Único de todas as coisas que existem, Aquele que criou a Terra, formou o céu, que dá vida e força, a quem os deuses de petição reverenciam como o DEUS ÚNICO. (6)


MONOTEÍSMO CHINÊS

Originalmente, os Chineses adoravam uma divindade cujo nome, Shang Ti, traduzido para português significa “O Senhor Supremo” ou “O Senhor do Céu”. (7) Todas as coisas foram feitas por Ele, todos os castigos e recompensas eram, invariavelmente, rastreáveis até Ele. (6) Uma análise das tradições daqueles dias, quando Ele era adorado, revela uma mistura de adoração aos espíritos e um reconhecimento do Criador não muito diferente daquele encontrado nos reinos de Israel e Judá.
A história de um homem, o imperador Ch’eng Tang (~ 1760 B.C.), destaca-se como algo muito parecido com as histórias Bíblicas. Ch’eng Tang viveu durante os últimos dias do último imperador da dinastia Hsia. Tang encontrava-se visivelmente perturbado pelos actos do seu rei, mas não tentou corrigi-lo sem antes receber um comando expresso proveniente do Céu. Foi então que uma voz veio até ele num sonho:
Ataca. Dar-te-ei toda a força que precisas; porque eu recebi do céu um mandato para ti. (9)

Foi então que Ch’eng Tang destruiu a dinastia Hsia e instalou-se como imperador.
No entanto, a sua consciência não se encontrava totalmente descansada, e por muitos anos Tang questionou-se se ele havia agido da forma correcta. Finalmente, uma seca grave veio sobre a sua terra, e Tang vestiu-se como se fosse se sacrificar, ao mesmo tempo que clamava a Deus para que “não destruas o meu povo por causa dos meus pecadosl” (10) Segundo se sabe, chuva caiu do céu nesse momento.
Ch’eng Tang pode ter seguido a Deus, da forma como ele O entendia, mas o seu exemplo é único nas crónicas Chinesas. As gerações que se seguiram deram uma atenção crescente às leis de Deus, ao mesmo tempo que se esqueciam da Sua Personalidade.
Confúcio (511-479 BC) ressalvou que, quer Deus exista ou não, a Sua adoração é benéfica para as pessoas. Foi durante o seu tempo que o título mais pessoal “Shang Ti” foi abandonado pelo mais impessoal “Tien” (Céu). (11)

MONOTEÍSMO NO MÉXICO ANTIGO

Os povos originais do México podem ter tido Um só Deus Criador. (“Peritos” variados questionam-se se Ele e a sua esposa eram entidades diferentes ou aspectos distintos do mesmo ser). Uma lenda conta a forma como Ele fez um jardim (ou uma cidade) com um Verão perpétuo e rios que fluíam. Posteriormente, Deus instalou uma árvore bonita bem no meio do jardim e ordenou aos deuses menores para não a tocarem.
Estes deuses menores desobedeceram-No e rasgaram tiras enormes da árvore, em seu zelo de desflorá-la. Como resultado, Deus lançou estes “deuses” para fora do jardim e deu-lhes várias tarefas para eles levarem a cabo. O primeiro casal de humanos também vivia no jardim, e foram também expulsos juntamente com estes “deuses” menores. (12)

O DEUS CRIADOR E OS VARIADOS ESPÍRITOS

A transição da sociedade monoteísta para uma que adora espíritos é ilustrada pelos variados povos antigos, que ainda existem actualmente. O Povo Japonês de pele branca com o nome de Ainu, por exemplo, ainda adora o Deus Criador Único mas pensa que Ele está demasiado afastado para se interessar no ser humano; devido a isso, o povo Ainu lida com espíritos. (13)
Muitas tribos Índias Norte-Americanas acreditam que o Criador designou espíritos como intermediários entre o homem e Deus (14). As tribos Algonquin no Este do Canadá foram mais longe ao declarar que o Próprio Deus disse aos Índios para buscarem os espíritos. Esta alienação é provavelmente melhor expressa por um nativo da África Ocidental que descreve o Deus Criador da sua cultura:
Sim, Ele criou-nos, mas depois de nos ter criado, Ele abandonou-nos e não Se preocupa connosco. Porque é que nós nos preocuparíamos com Ele? Ele não nos ajuda nem nos prejudica. São os espíritos que nos podem prejudicar, e são eles quem nós tememos e com quem nós nos preocupamos.(15)


A ASCENSÃO DO PANTEÍSMO

Desde a adoração de muitos espíritos até a adoração de muitos deuses é um pequeno passo. Os Cananeus parece que estavam a meio deste processo com a sua adoração ao deus supremo El, ao lado de inúmeros deuses menores. O Egipto, a Suméria e a Índia, todas se tornaram culturas com muitos deuses. Os deuses do México são, aparentemente, incontáveis e são encontrados sob muitas formas e em muitas culturas. Os Chineses retiveram a ideia do Céu Único mas a vida da sua espiritualidade encontra-se no seu espiritismo e no seu ocultismo.

CONCLUSÃO:

Antigamente, todos os povos da Terra conheciam o Verdadeiro Deus, mas não O adoravam nos seus corações porque não O obedeciam. Tudo o que sobrou da sua crença ancestral são lendas. A verdadeira adoração foi transmitida até aos tempos modernos pelos descendentes de Abraão.

No entanto, mesmo quando Deus preservou a Sua adoração numa única família, em vias de se tornar numa nação, Ele não se esqueceu do resto da humanidade. Ele mesmo disse a Abraão, “na tua semente serão benditas todas as nações da Terra, porque obedeceste à Minha Voz” (Génesis 22:18). Dois mil anos mais tarde, o Próprio Deus andou na Terra sob a Forma dum Homem. Um dos seus mandamentos finais dados aos Seus discípulos centra-se nos descendentes daqueles que se desviaram Dele há imensas gerações atrás, “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura.” (Marcos 16:15)



NOTAS DE RODAPÉ.

1 Josephus, Antiquities of the Jews I. iv. 1.
2 The Companion Bible (KJV), (London: Samuel Bagster & Sons 1970) fn p. 212 re the whereabouts of Balaam’s hometown Pethor.
3 Rev. Wilhelm Schmitt, Primitive Revelation (St. Louis, Missouri, & London, England: Herder Book Co., 1939) pp.236-237.
4 E.A. Wallis Budge, Osiris (New Hyde Park, N.Y: University Books, 1961) p. 357.
5 Dr. Brugsch & Maspero as cited by Budge, p.140.
6 Rig Veda excerpt from Selwyn Gurney Champion & Dorothy Short, Readings from World Religions (Greenwhich, Conn., Fawcett Publ., 1951) pp. 26-27.
7 E. Allie and M. Frazer, Chinese and Japanese Religion (Philadelphia, Westminster Press, 1969) p.268.
8 Wing Tsit Chan, A Source Book in Chinese Philosophy (Princeton University Press, 1970) p.16.
S Joseph Campbell, The Masks of God: Oriental Mythology (Viking/Compass, N.Y., 1974) p.396.
10 Li Ung Be ng, Outlines of Chinese history (Peking, 1914) p.15.
11 Wing Tsit Chan, p.16.
12 Irene Nicholson, Mexican and Central American mythology (London, N.Y., Sydney, Toronto: Hamlynn Publications, 1967) pp.20,21 & Burr Cartwright Brundage, The Fifth Sun (Austin, Texas & London: University of Texas, 1979) pp.47, 48.
13 Rev. John Batchelor, The Ainu of Japan (London: The Religious Tract Society) p.252.
14 Schmitt pp.171-174 & Cottie Burland, North American Indian Anthology (London, N.Y., Sydney, Toronto: Hamlvnn Publ., 1965) pp.73, 103-106 & Diamond Jenness, The Faith of a Coast Salish Indian (B.C. Provincial Museum: Anthropology in B.C., Memoir 131 pp.35, 36.
15 Schmitt pp.171-174.
16 Nassau, Fetishism in West Africa pp. 36-37 as cited Budge p.369.


Fonte: Creationism
Tirado de: Darwinismo

domingo, 27 de outubro de 2013

Os padres precisam de nossas orações, e nós precisamos das suas






Beato Martin Martinez Pascual, padre executado durante a Guerra Civil Espanhola aos 25 anos de idade.

Ordenado em 15 de junho de 1935, ao eclodir a perseguição religiosa pelos comunistas, Martinez Pascual viveu escondido em casa de amigos e até em uma caverna. Ao saber que seu pai havia sido preso, apresentou-se voluntariamente aos algozes em agosto de 1936, com pouco mais de um ano de sacerdócio. Foi preso e, a caminho do cemitério em um caminhão, morto juntamente com 5 sacerdotes e 9 leigos.

Enquanto todos foram mortos pelas costas, quando lhe perguntaram se gostaria de não olhar para os rifles durante a sua execução, respondeu que não. Tudo o que ele queria era abençoar aqueles que o matariam e rezar a Deus para que os perdoassem pela sua morte. Seu único crime era o de ser sacerdote do Altíssimo. Então, perguntaram-lhe se gostaria de dizer algo. Martín respondeu: “Quero somente dar-vos a minha benção para que Deus não leve em conta a loucura que cometereis”.
E então bradou: “Viva Cristo Rei!”

Instantes antes de ser morto, ele sorriu para o fotógrafo que tirou esta última foto. Em seus olhos, se pode ver a coragem e a alegria de um padre fiel.


*** * ***


Oração pelos Sacerdotes


Onipotente e Eterno Deus, voltai o vosso olhar ao Vosso Filho, e por amor Dele, Sumo e Eterno Sacerdote, tende misericórdia dos vossos sacerdotes. Lembrai-vos, ó Deus misericordiosíssimo, que eles não são mais que homens fracos e frágeis. Acendei neles a graça de sua vocação, infundida pela imposição das mãos episcopais. Mantende-os próximos a Vós, a fim de que o inimigo não prevaleça sobre eles e a fim de que nunca cometam o mínimo ato indigno de sua sublime vocação.
Ó Jesus, peço-Vos pelos Vossos sacerdotes fiéis e fervorosos; pelos Vossos sacerdotes infiéis e mornos; pelos Vossos sacerdotes que labutam em sua pátria ou no exterior, em distantes campos de missão; pelos Vossos sacerdotes tentados; pelos Vossos sacerdotes solitários e desolados; pelos Vossos sacerdotes jovens; pelos Vossos sacerdotes moribundos; pelas almas dos Vossos sacerdotes no purgatório.
Mas, sobretudo, recomendo a Vós aqueles sacerdotes que me são caros; o padre que me batizou; os padres que me absolveram de meus pecados; os padres cujas Missas assisti e que me deram o Vosso Corpo e Sangue na Sagrada Comunhão; os padres que me ensinaram e instruíram, me ajudaram e encorajaram; todos os sacerdotes de quem sou, de alguma forma, devedor, particularmente o Padre … (mencione o nome). Ó Jesus, guardai-os abundantemente no tempo e na eternidade.

A gaivota e a pomba





Apontamentos sobre os sentimentos de apreensão após o conclave de 2013
Por Hermes Rodrigues Nery


Extratos do artigo
Fonte: Fratres in Unum


Explica o Prof. Roberto de Mattei que “o termo ‘modernismo’ aparece oficialmente pela primeira vez na encíclica Pascendi, de São Pio X, reconduzindo a um mesmo movimento um complexo de erros em todos os domínios da doutrina católica (Sagrada Escritura, teologia, filosofia, culto). As raízes e as razões deste movimento residem na tentativa de estabelecer um ‘diálogo’ entre a Igreja e o processo de secularização que se seguiu à Revolução Francesa.” (7) A Igreja resistiu, em altos graus de heroicidade, tendo os Papas como baluartes seguros na defesa da sã doutrina. “No século XIX , Pio IX tinha posto travão a este processo revolucionário em três momentos solenes do seu pontificado: a definição do dogma da Imaculada Conceição (1854); a condenação dos erros modernos com a encíclica Quanta Cura e com o Syllabus (1864); a proclamação dos dogmas do primado de jurisdição e da infalibilidade do Romano Pontífice, no Concílio Vaticano I (1870). Qualquer destes atos constituiu um bastião teológico que dificultou ataques frontais. A ‘reforma’ da Igreja, que fora o objetivo das principais correntes heterodoxas dos séculos XVIII e XIX, teria de seguir por outros caminhos”. (8)

Foi preciso então inocular o germe da revolução por dentro da instituição.

Em 1907, Ernesto Buonaiuti apresentou o seu “Programa dos Modernistas”, desejoso que o método histórico se tornasse “o verdadeiro locus theologicus  da Revolução cristã”. (9) Mas foi o jesuíta George Tyrrel quem identificou ”a Revelação com a experiência vital (religious experience) que tem lugar na consciência do homem, razão pela qual deve ser a lex orandi a ditar as normas da lex credendi, e não o contrário”. (10) Maurice Blondel propôs “uma nova forma de apologética, através do método da imanência, que permitiria acolher a Revelação a partir das exigências do espírito do homem. A apologética de Blondel que pretendia evitar o ‘intelectualismo’, assentava numa religião do coração com um pano de fundo subjetivista e imanentista”. (11) São Pio X condenou “o princípio de imanência que constituía o núcleo do modernismo”, (12) a partir do qual veio depois o relativismo. Daí, emergiram correntes de pensamento no seio da Igreja que irão agudizar-se ao longo do século XX, especialmente no Vaticano II: dos que vivem a fé no Cristo Ressuscitado, com verdadeiro assentimento, e dos que assumiram o caminho da hesitação.

O modernismo infiltrou-se através de vários movimentos (o ‘movimento bíblico’, o “movimento litúrgico”, o “movimento filosófico-teológico” – de modo especial a nouvelle théologie– , o “movimento ecumênico” e outros. Pouco a pouco, os que assumiram o caminho da hesitação foram voltando as costas para as advertências e apelos de São Pio X, ávidos de agradar ao mundo, no afã do aggiornamento, que será a palavra de ordem do Vaticano II. São Pio X havia feito o diagnóstico preciso dos erros da época e apresentado soluções. Mas os hesitantes entenderam logo que crer na Verdade revelada significa lutar por ela, e num mundo com atrativos mais sedutores, em decorrência dos avanços tecnológicos, era melhor “uma ‘reinterpretação’ da doutrina e da estrutura da Igreja, com o objetivo de a adaptar ao espírito moderno”. (13) Das ordens religiosas mais abertas a esta adaptação, destacaram-se os franciscanos, os dominicanos e os jesuítas. Não por acaso são as que hoje, passados 50 anos do evento conciliar, estão mais desmanteladas. Leão XIII, ainda no século XIX, já havia traçado “as linhas do processo revolucionário que, tendo-se iniciado no protestantismo e passado pela Revolução Francesa, desembocava no comunismo” (14), doutrina esta que, em maior ou menor extensão, foi adotada por quase todas as ordens religiosas no pós-concílio.

Outra estratégia dos modernistas foi a da dissimulação, conforme observou Jean Rivière: “saber dissimular as próprias armas é um dos princípios essenciais da guerra moderna. Foi também uma das características distintivas do movimento modernista associar o ataque direto aos dogmas com a mais extrema variedade de subterfúgios”. (15) Com a resistência dos Papas, já ao tempo de [São] Pio X, Ernesto Buonaiuti  concluiu que “até hoje pretendeu-se reformar Roma sem Roma, ou talvez até contra Roma. Ora, é necessário reformar Roma com Roma: fazer com que a reforma passe pelas mãos daqueles que tem de ser reformados. É este o método verdadeiro e infalível; mas é difícil. Hic opus, hic labor“. (16) De Mattei ressalta então que “o modernismo propunha-se, pois, transformar o catolicismo a partir de dentro, deixando intacto, nos limites do possível, o invólucro exterior da Igreja”. (17) E destaca ainda o propósito de Buonaiuti: “O culto exterior permanacerá para sempre, tal como a herarquia, mas a Igreja, enquanto mestra dos sacramentos e da respectiva ordem, modificará a hierarquia e o culto de acordo com os tempos: aquela tornar-se-á mais simples, mais liberal, e este tornar-se-á mais espiritual. Por esta via, a Igreja transformar-se-á num protestantismo, mas será um protestantismo ortodoxo e gradual, e já não um protestantismo violento, agressivo, revolucionário, insubordinado; será um protestantismo que não destruirá a continuidade apostólica do ministério eclesiástico, nem a própria essência do culto”. (18) O jesuíta George Tyrrel vai mais longe: “Roma não pode ser destruída num dia, tem de se dissolver em pó e cinzas de forma gradual e inofensiva. Teremos então uma nova religião e um novo decálogo”. (19) Outro ponto estratégico: “a reforma ‘terá de ser dos ritos, e não abertamente dos dogmas’”. (20) O alvo principal é atingir a realeza de Cristo, feito isto, o resto fica tudo pulverizado. Para São Pio X a autêntica reforma “tinha a sua base na preservação e transmissão da verdade católica” (21), mas os hesitantes optaram pelo relativismo.

Com tudo isso, é de ficarmos apreensivos quando Bergoglio, jesuíta e latino-americano, se apresenta exclusivamente como bispo de Roma e, de cara, desfere golpes contra a sacralidade do papado, fazendo questão de evidenciar o seu distanciamento de seu precedessor — ainda vivo e exilado em Castel Gandfolfo!

Atordoados com tudo isso, orantes e vigiliantes, tentamos entender o que está acontecendo. E os sentimentos são de prudência e apreensão. De Fé na promessa de Nosso Senhor, que dá legitimidade ao ministério petrino. Por que temos agora duas “Suas Santidades”? Por que os Cardeais escolheram justamente o oponente de Ratzinger do conclave de 2005? Por que o raio na Basílica de São Pedro no dia da renúncia de Bento XVI? Por que o penitente peregrino descalso na tarde fria e chuvosa de 13 de março, na praça de São Pedro? Por que a gaivota na chaminé? A gaivota que atacou a pomba antes da renúncia de Bento XVI?  


Hermes Rodrigues Nery é coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté. Especialista em Bioética, é pós-graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. E-mail: hrneryprovida@gmail.com


*** * ***


7. Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II – Uma História nunca escrita, p. 33, Caminhos Romanos – Unipessoal Ltda, porto – Portugal, 2012.

8. Ib. PP.33-34.

9. Ib. p. 36

10. Ib. p. 37.

11. Ibidem.

12. Ib. p. 38.

13. Ib. p. 50.

14. Ib. p. 58.

15. Pio XI, Encíclica Quas Prima – Sobre a Instituição da Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, p. 66, Edições Cristo Rei, Belo Horizonte, 2011.

16. Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II – Uma História nunca escrita, p. 67, Caminhos Romanos – Unipessoal Ltda, Porto – Portugal, 2012.

17. Ibidem.

18. Ibidem.

19. Ib. p. 68.

20. Ib. p. 69.

21. Ib. p. 89.



Viva Cristo Rei!







FESTIVIDADE DE CRISTO REI

Pequeno Devocionário de Cristo Rei

Consagração a Cristo Rei
Cristo Jesus, reconheço-vos como Rei do universo. Vós criastes tudo quanto existe. Usais plenamente de vossos direitos sobre mim. Renovo minhas promessas de Batismo, pelas quais renunciei a Satanás, a todas as suas seduções e a todas as suas obras. Prometo-vos viver como bom cristão. Comprometo-me especialmente a colaborar para o triunfo dos direitos de Deus e de sua Igreja e para dilatá-los e assegurá-los por todos os meios.
Divino Coração de Jesus, em vossas mãos ponho meus insignificantes esforços para que todos os corações reconheçam vossa sagrada Realeza e se estabeleça vosso reino de paz em todo o mundo.

Oração a Cristo Rei
Deus onipotente e misericordioso. Vós quebrais o poder do mal e renovais tudo em vosso Filho Jesus Cristo, Rei do Universo. Que todos no Céu e na terra aclamem vossa glória e nunca cessem de louvar-vos.
Pai Todo-Poderoso, guia de amor, Vós fizestes passar Jesus Cristo Nosso Senhor da morte à vida, resplandecente em glória como Rei da criação. Abri nossos corações; libertai a todos para que gozem de Sua paz, glorifiquem Sua justiça e vivam em Seu amor. Que toda a humanidade se unifique em Jesus Cristo, Vosso Filho, que reina convosco e com o Espírito Santo, Deus eterno. Amém.

Hino a Cristo Rei
Glória, louvor e honra Vos sejam dadas, ó Cristo Rei, Redentor: A quem o coro juvenil cantou devotamente: Hosana.
R. Glória, louvor.

Vós sois o Rei de Israel, o nobre Filho de Davi. * Ó Rei bendito, que vindes em Nome do Senhor.
R. Glória, louvor.

Toda milícia Angélica no alto dos céus, * O homem mortal e todas as criaturas celebram em uníssono o vosso louvor.
R. Glória, louvor.

O povo hebreu sai a vosso encontro com palmas. * E nós vimos diante de Vós com súplicas, votos e hinos.
R. Glória, louvor.

Eles Vos ofereciam o tributo de suas homenagens, quando íeis sofrer: * Nós Vos oferecemos estes cânticos, agora que reinais no céu.
R. Glória, louvor.

Seus votos foram aceitos que os nossos o sejam também. * Ó Rei de bondade, Rei de clemência, a quem agrada tudo quanto é bom.
R. Glória, louvor







'Nem todos precisam da escola', diz jovem que criou programa para autodidatas


Ele chocou a família ao deixar a escola aos 12 anos de idade. Agora, quer reunir talentos no Vale do Silício e ajudá-los a aprender por conta própria

Renata Honorato
Dale J. Stephens, fundador do UnCollege
Dale J. Stephens, fundador do UnCollege (Heitor Feitosa)
Com apenas 12 anos, Dale J. Stephens chocou os pais certo dia, ao informá-los que deixaria os estudos. "Decidi abandonar a escola porque queria começar a aprender", lembra o americano, nascido na região californiana de São Francisco. Passado o susto, ele recebeu apoio dos familiares e iniciou uma jornada sem volta — especialmente aos bancos escolares, exceto por uma breve passagem universitária que não durou um semestre. Hoje, aos 21 anos, ele é um autodidata convicto, além de um entusiasta da causa. Apoiado na convicção de quem aprende por si só vai mais longe, lançou um livro, Hacking Your Education (algo como "Hackeando sua educação"), e fundou o UnCollege (que, com o prefixo inglês "un", ostenta a própria negação da escola), site dedicado a pesquisar a autoaprendizagem. Stephens encontrou ainda uma forma inusitada de testar o conceito. A partir de setembro, o UnCollege promoverá um programa chamado Gap Year, que reunirá dez jovens com idades entre 18 e 28 anos em um intensivão sobre como aprender por conta própria. Ao longo de doze meses, eles dividirão o mesmo teto em São Francisco, farão um intercâmbio a outros países, terão de desenvolver um projeto inovador em qualquer área e ao fim serão enviados para o Vale do Silício, centro de inovação americana, para cumprir um estágio. O objetivo do programa é um só: colocar os participantes em condições de aprender a aprender. Apesar da fé no autoaprendizado, Stephens reconhece que a modalidade não é indicada a qualquer um. "Acredito que todo mundo é capaz de aprender de forma independente, mas sei que nem todos conseguem fazer isso." Às vésperas de chegar ao Brasil, onde participa na próxima semana da edição da Campus Party em Recife, ele conversou com o site de VEJA sobre suas ideias e feitos. Confira os principais trechos a seguir:
Por que você largou a escola tão cedo, aos 12 anos? Decidi abandonar a escola porque queria começar a aprender. No colégio, na maioria das vezes, ficava à toa e não aprendia nada.
Como sua família reagiu à sua decisão? Eles ficaram chocados, mas acabaram me apoiando. Eles me deram a oportunidade de decidir por mim mesmo.
Você diz que não acredita no currículo escolar. Na sua opinião, o que poderia ser feito para mudar o sistema educacional nos Estados Unidos? A primeira coisa a fazer é mudar a noção de que todo mundo pode aprender as mesmas coisas, no mesmo tempo e de forma linear.
O mesmo vale para outros países? A maioria das escolas se baseia no sistema educacional prussiano — frequência obrigatória, formação específica para os professores, currículo unificado e testes nacionais. Isso funciona bem para treinar pessoas para seguir uma direção, mas nós não precisamos de trabalhadores em série.
Em que a proposta do UnCollege difere da oferecida por universidades tradicionais? Os benefícios em participar do programa Gap Year são inúmeros. Nosso currículo único de autoaprendizado ensina técnicas de como aprender. Reunimos autodidatas em uma mesma comunidade. Conectamos nossos seguidores a mentores que os guiam em um processo de autoaprendizado.
Como são selecionados os mentores? Os mentores do programa são pessoas muito diferentes entre si. Fazem parte desse grupo desde investidores até executivos da Fundação Gates, passando por empreendedores e empresários listados pela Fortune. Escolhemos essas pessoas porque elas acreditam no valor de aprender por conta e desenvolvem coisas interessantes.
Você acredita que qualquer pessoa pode aprender sem ajuda da escola? Eu acredito que todo mundo é capaz de aprender de forma independente, mas sei que nem todos conseguem fazer isso. Defender essa premissa seria tão tolo quanto dizer que todas as pessoas devem ir à escola.
Quais são seus planos para o futuro? Vamos expandir o UnCollege para outras cidades. Nova York e Chicago são as primeiras da lista.
Por que decidiu escrever um livro? Escrevi um livro para explicar de forma sucinta o que é autoaprendizado. Trata-se de um assunto difícil. É muito importante para os jovens não se sentirem isolados e saber que não estão sozinhos.
Você voltaria a estudar em uma universidade em alguns anos? De forma alguma.
Quem são as suas inspirações? Eu me inspiro em pessoas como John Holt e Alexander Sutherland Neill.  Eles foram os primeiros a disseminar essas ideias.
Você tem planos de expandir o UnCollege para outros países? Sim, com certeza. Por ora, estamos pensando em levar o projeto para Londres, na Grã-Bretanha, e Berlim, na Alemanha.

Fonte: VEJA

sábado, 26 de outubro de 2013

QUEM FOI LUTERO: SEGUNDO SÃO JOÃO BOSCO






Nota do Blog: Os santos falam a verdade: SIM SIM, NÃO NÃO. Fizeram o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez e ensinou. "A verdade vos libertará". Leiamos, então, a verdade sobre quem foi Lutero. Leiamos o que o grande São João Bosco escreveu no seu livro "COMPÊNDIO DE HISTÓRIA ECLESIÁSTICA" falando da:

"QUINTA ÉPOCA: de 1517 até 1579: 

"Nesta época foi a Igreja tão fortemente combatida, que parecia já tivesse chegado o tempo do Anticristo; porém, não obstante isto, conseguiu novos triunfos. Acometeu-a um dilúvio de hereges, e muitos de seus ministros, em vez de defendê-la, se rebelam contra ela e abrem-lhe profundas feridas. Unem-se a estes os príncipes seculares que a oprimem com o ferro, com a devastação e o sangue. O demônio se esconde debaixo do manto de sociedades secretas e de uma filosofia mundana e sedutora, mas, falsa e corruptora: excita rebeliões, e suscita perseguições sanguinolentas. Deus, porém, desvanece os esforços do inferno e os faz servir para sua glória. Novas ordens religiosas, missionários incansáveis, pontífices grandes pela santidade, zelo e sabedoria, unidos todos em um só coração e em uma só alma, e fortalecidos pelo braço do Todo Poderoso, defendem heroicamente a verdade e levam a luz do Evangelho até os últimos limites da terra, conseguindo a Igreja novas conquistas e ainda mais gloriosas virtudes".

Lutero. - "Lutero foi o primeiro a levantar a bandeira da rebelião contra a fé católica, e foi o principal autor dos males que amarguraram a Igreja neste tempo. Com seu sistema perverso de submeter a palavra de Deus ao exame e juízo de cada um, causou mais dano à religião católica, do que todos os hereges da idade passada; de maneira que, se pode chamar este apóstata, o primeiro precursor do Anticristo. Nascido em Eisleben, Saxônia, e filho de um pobre mineiro, manifestou, desde sua mais tenra idade, um gênio muito atrevido. A morte de um condiscípulo, que caiu a seu lado fulminado por um raio, induziu-o a entrar na ordem de Santo Agostinho. Por algum tempo pareceu mergulhado em profundas meditações, e agitado por escrúpulos e temores; porém, descobriu finalmente o orgulho que se abrigava em seu coração; e, declarando-se contra a autoridade do Pontífice romano, saiu do claustro e já não houve meio de dominá-lo. Oprimir aos outros com calúnias e tiranias, ridicularizar e desprezar as coisas mais augustas e santas; soberba, desregramento, ambição, petulância, cinismo grosseiro e brutal, crápula, intemperança, desonestidade, eis os dotes característicos deste corifeu do protestantismo. No ano de 1869 levantaram-lhe na Alemanha uma estátua qual insigne benfeitor da humanidade!!!"

No ano 1517, começou a pregar contra as indulgências, portanto, contra o Papa e progredindo na impiedade, formulou uma doutrina que, quer se considere em si mesma, quer em suas conseqüências lógicas e práticas, contamina tudo o que é sagrado, destrói a liberdade do homem, faz a Deus autor do pecado, e reduz o homem ao estado dos brutos. Entre suas impiedades, é bastante lembrar que, conforme ele afirmava, o homem mais virtuoso, se não acredita firmemente achar-se entre os eleitos, é condenado; e que pelo contrário, o homem mais miserável, irá diretamente ao paraíso, se acredita unicamente que há de salvar-se pelos merecimentos de Jesus Cristo. Tão abominável doutrina foi condenada logo pelo Papa Leão X; todavia Lutero mandou atirar ao fogo publicamente a bula. As Universidades católicas e todos os doutores, clamaram contra aquela impiedade e heresia; mas Lutero zombou deles e persistiu em sua revolta. Ainda que ligado por votos solenes, casou-se com Catarina de Bore, religiosa de um mosteiro de Mísnia. Teve desgraçadamente muitos sectários, que, sob o nome de protestantes, tomaram armas e devastaram todas as regiões onde lhes foi dado penetrar. Levavam escrito em seus estandartes: Antes turcos que papistas.Ao pensar algumas vezes nos grandes males que causava a nova reforma exclamava: "Só tu serás douto? Todos os que te precederam enganaram-se? Tantos séculos têm ignorado o que tu sabes? Que te acontecerá se te enganas e arrastas contigo a tantos para a condenação?" Eram estes os gritos de sua consciência que, a seu pesar, protestava contra suas impiedades; contudo não bastavam para fazê-lo voltar ao bom caminho".

Até aqui São João Bosco. Quero terminar com uma pergunta: Será amigo apaixonado de Jesus um apóstata, um precursor do Anticristo, um tão apaixonado inimigo da Santa Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo?! Sabemos que São João Bosco converteu muitos protestantes.



Retirado de: Católicos Ribeirão


O albatroz








L' ALBATROS - Charles Baudelaire



Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.
A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!
Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,

Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.




*** * ***





O ALBATROZ - Guilherme de Almeida


Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado. 

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo, 
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.






O ALBATROZ - Onestaldo de Pennafort


Às vezes, em recreio, os homens da equipagem
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.

Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.

Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!

O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.


O ALBATROZ - Delfim Guimarães

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem 

Na caça do albatroz, ave enorme e voraz, 
Que segue pelo azul a embarcação em viagem, 
Num vôo triunfal, numa carreira audaz. 


Mas quando o albatroz se vê preso, estendido 

Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado! 
Que pena que ele faz, humilde e constrangido, 
As asas imperiais caídas para o lado! 


Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo! 

Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!... 
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo, 
Mutila um outro a pata ao voador inerme. 


O Poeta é semelhante a essa águia marinha 

Que desdenha da seta, e afronta os vendavais; 
Exilado na terra, entre a plebe escarninha, 
Não o deixam andar as asas colossais! 





O ALBATROZ - Jamil Almansur Haddad

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem

Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue — companheiro indolente de viagem —
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.


O ALBATROZ - Ivan Junqueira
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés, 
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.



Original e traduções extraídos das seguintes fontes:
•  Charles Baudelaire
   
 Les Fleurs du Mal
    Paris, 1861
•  Ivan Junqueira
 
    As Flores do Mal
   
 Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeriro, 1985
•  Guilherme de Almeida
 
    Flores das Flores do Mal
   
 Edições de Ouro, Rio de Janeriro, s/data
•  Jamil Almansur Haddad
 
    As Flores do Mal
   
 Círculo do Livro, São Paulo, s/data
•  Onestaldo de Pennafort
    Poesias
   
 Org. Simões, Rio de Janeiro, 1954
•  Delfim Guimarães
    Flores do Mal
   
 Guimarães & Cia., Lisboa, 1909
______________
* Jorge de Lima, "X", in
 Invenção de Orfeu (1952)



Fonte: Cidade

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...