segunda-feira, 16 de junho de 2014

Virtudes e Tradições de uma Família Saudável


DESTAQUE


Hoje nós estamos testemunhando de maneira indiferente eventos que ultrajaram os povos mais bárbaros da antiguidade pagã. Nas escolas, onde as crianças costumavam ser ensinadas a conhecer, amar e glorificar a Deus, agora são formadas - por ação ou omissão - pessoas sem religião e sem moral.

Por que essa indiferença? Ela vem do fato de que as ideias claras e princípios bem estabelecidos já não existem nas mentes das pessoas. Eles foram substituídos por ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar corações (Mons. Delassus).


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Rapahel de la Trinité


Ensina o axioma latino: ‘nemo sumus fit repente’ = nada de extremo (sumo) se faz repentinamente.

Essa mesma verdade, Napoleão a reproduziu nos seguintes termos: A educação de uma criança começa cem anos antes desta nascer.

Essa obra pedagógica se perpetua e aprimora de geração em geração, isto é, pela transmissão de um legado, que passa de família a família, de um grupo social a outro, assim como de povo a povo, de nação a nação. Como se denomina esse vínculo que faz progredir a humanidade? É a tradição. 

Que é a tradição?

É a soma do passado com um presente que lhe seja afim. 

'Para tudo aquilo que não se encontra definido pelas Sagradas Escrituras, o costume do povo de Deus e as instituições dos antigos devem ser tidos como lei'  — Comentário de Santo Tomás de Aquino sobre a passagem I Cor XI, 16, retomando essa frase de Santo Agostinho (Ep. 36, al. 86).


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Virtudes e Tradições de uma Família Saudável

Por Mons. Henri Delassus
Traduzido por Andrea Patrícia


 Um pai exorta seu filho à virtude


Esse contrarrevolucionário autor do século XIX denunciou repetidamente as premissas da globalização e o início de um governo mundial. Ele insistiu que era o espírito da família no lar, na sociedade e no Estado, que poderia fornecer a maior resistência à conspiração anticristã.

Neste trecho de seu trabalho sobre a família, Mons. Delassus explica a importância das tradições da família em preservar os bons costumes da Civilização Católica. (TIA)
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A solução para evitar a introdução de leis contrárias à instituição da família, juntamente com uma ação pública vital, é imbuir as próprias crianças com tradições familiares. Então, desde que estas boas tradições perdurem, estes atos legislativos sempre encontrarão uma resistência saudável.

A tarefa de reviver as tradições nas famílias pode e deve ser o trabalho de cada família em seu próprio meio social. Pode-se esperar pela abolição de leis revolucionárias através de um grande movimento de opinião pública. Mas o que cada um pode fazer é reviver o espírito de família ao seu redor. Fazendo isso, ele vai fazer o maior bem possível para a sua própria família e, ao mesmo tempo, preparar-se para a renovação da sociedade.

É necessário que haja tradições que sustentem as leis, de modo que esta última tem a força que o assentimento do coração lhes provê. Da mesma forma, a formação da família é necessária para sustentar e manter as tradições, bem como fazer as leis voltarem aos princípios que geraram os costumes. Pois, sem os costumes as boas leis não são nada, e contra os costumes as leis não podem fazer nada.


Transmitindo tradições familiares

Hoje nós estamos testemunhando de maneira indiferente eventos que ultrajaram os povos mais bárbaros da antiguidade pagã. Nas escolas, onde as crianças costumavam ser ensinadas a conhecer, amar e glorificar a Deus, agora são formadas - por ação ou omissão - pessoas sem religião e sem moral.

Por que essa indiferença? Ela vem do fato de que as ideias claras e princípios bem estabelecidos já não existem nas mentes das pessoas. Eles foram substituídos por ideias vagas e flutuantes, incapazes de inflamar corações.


O avô deve incutir respeito pelos bons costumes e pela virtude em seus filhos e netos.


E por que as ideias em nossos dias oscilam? Porque ideias e princípios matriciais não foram impressos nas almas das crianças por seus pais, que receberam essas ideias de seus avós, que por sua vez foram imbuídos com estas verdades por seus antepassados. Em resumo, porque as famílias de hoje não têm mais tradição.

Já houve uma vez uma ideia generalizada, uma ideia quase religiosa, associada com a expressão tradições familiares, entendida no seu melhor sentido, que designou um patrimônio de verdades e virtudes, em cujo seio se formaram caracteres que forjaram a longa vida e a grandeza de uma casa.

Hoje, essa expressão não significa nada para as gerações mais jovens. Elas surgem num dia para desaparecer no outro, sem ter recebido ou deixado para trás aquele conjunto de memórias e afetos, princípios e costumes, que em tempos idos foram passados ​​de pais para filhos e que deram às famílias que eram fiéis a eles a possibilidade de ascensão na sociedade. Cada família que tem tradições geralmente lhes deve a um de seus antepassados, no qual o sentimento do bem era mais forte do que no homem comum e teve a sabedoria e a vontade de incutir isso na sua família.

Progresso Moral

"A verdade é um bem", diz Aristóteles. Uma família onde os homens virtuosos se sucedem é uma família de homens bons. Esta sucessão de virtudes ocorre quando a família volta a uma fonte boa e honesta, porque um bom princípio produz coisas semelhantes a si mesmo. Portanto, quando há um homem em uma família tão identificado com o bem que sua bondade se comunica a sua descendência por muitas gerações, a partir deste homem necessariamente deriva uma família virtuosa.

Qualquer homem que quer formar uma família virtuosa deve ser persuadido de que seu dever não se limita - como Rousseau pretende falsamente - a prover as necessidades físicas de seus filhos quando eles são jovens demais para proverem a si mesmos. Ele também deve dar-lhes uma formação intelectual, moral e religiosa.

Os animais têm forças e recursos para satisfazer as necessidades corporais de seus filhos, e isso é suficiente para eles. Mas a criança, um ser moral, tem muitas outras necessidades, e é por isso que Deus deu aos pais não apenas força, mas também a autoridade para educar a vontade de seus filhos e fazê-los entrar, permanecer e progredir no caminho do bem. Deus queria que a autoridade fosse permanente porque o progresso moral é o trabalho de uma vida inteira.

De acordo com os desígnios da Divina Providência, o progresso deve desenvolver e crescer com a idade, e, portanto, é necessário que a família humana não seja aniquilada em cada geração. Os laços familiares devem existir entre aqueles que já faleceram e aqueles que estão vivendo, tecendo juntos todos os descendentes de uma dinastia vigorosa.

(Henri Delassus, O espírito de família no lar, na sociedade e no Estado, Editora Civilização, Porto, 2000, p. 125-128.) 


Fonte: Rosa Mulher

DOM FELLAY COLOCA OS PINGOS NOS “IS” - ALGUNS TRECHOS DA CONFERÊNCIA*





TRECHOS DECISIVOS

Segundo me consta -- afirma Dom Fellay --, certo grupo de cardeais está preparando algo; um deles disse “se, durante o sínodo de outubro, eles aprovarem a comunhão aos divorciados, então haverá um cisma na Igreja”.

Não podemos fazer nada além de continuar, só isso. Então continuemos. Acho que esse não é o momento de dizer que ele não é mais papa ou não sei o que mais. 

Eis uma anedota que ouvi: há padres em Roma que rezam no cânon “pro pontifice nostro Benedicto et pro antistite nostro Francisco“, por nosso papa Bento e nosso bispo Francisco. Esse sempre diz que ele é o bispo de Roma, ele não quer ser o papa, mas o bispo de Roma. Bem, isso é uma anedota. Mas agora o que é verdade, é que há padres em Roma que rezam ao mesmo tempo pelos dois, por Bento e Francisco: eles estão de tal modo confusos, que eles não sabem mais quem é o verdadeiro papa. Não são pessoas do nosso meio, mas modernos. Eis a que ponto a perturbação chegou. Isso se torna insensato!

Quando nos apresentarmos diante do Bom Deus no fim de nossa vida, Ele não nos perguntará: “então, ele era papa ou não?“, mas “o que fizestes de teus dias? O que fizestes das graças que te dei?“. É isso que deveremos responder, e não querer se intrometer para resolver todos os problemas da humanidade. Estes que estão ao nosso alcance, sim, certamente, e isso é o suficiente. [SIC!]

O que quero insistir uma última vez é sobre todas as bobagens que circulam na internet, sobre um pretendido acordo entre a Fraternidade e Roma, superem tudo, ao passo que na realidade não há acordo. Não há. 


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DESTAQUE

Posso estar errado, espero que esteja errado, mas acho que é calculado: dá-se um golpe, logo depois um cardeal tenta desviar as questões, em seguida dá-se novamente um golpe e tenta-se novamente desviar as questões, e no fim mais ninguém sabe no que se deve crer ou não. Sobre essa questão da recusa da comunhão aos divorciados “recasados”, isso é de tal modo forte: um falso casamento assim é um estado de fornicação, um estado de pecado e é absolutamente impossível dar a comunhão a alguém em estado de pecado. Esse é o ensino da Igreja e nenhuma variação é possível. Não obstante, ele busca! Durante o último consistório em preparação ao sínodo deste outono, sobre essa questão, o papa pediu ao cardeal Kasper para fazer uma conferência que durou 2 horas, em seguida os demais cardeais falaram: em torno de ¾ dos cardeais foram contrários à tese apresentada pelo cardeal Kasper, que é (a favor) da abertura; esse disse uma frase que corresponde ao que dissemos de seus métodos: “é preciso fazer com esta questão exatamente o que fez o concílio”, e o que fez o concílio? Ele reafirmou a doutrina católica e, em seguida, abriu as portas, em outras palavras, ele negou o que ele acabara de afirmar. O cardeal Kasper não o diz assim, mas esta é a realidade. Ele diz “é isso o que precisamos fazer agora”.

É o papa que corta o ramo sobre o qual ele está sentado. [Sobre o Vaticano II]

Isso é inaudito, seria interessante fazer uma investigação histórica para ver se nunca na história dos homens – não falo da Igreja, mas dos homens – viu-se tal coisa. Durante 2 anos, vocês têm a instância legislativa – não ouso dizer uma constitucional, mas é quase isso – que preparou textos. Esses textos são os textos da lei sobre as quais se deve discutir e votar. Pois bem, todos eles vão ser jogados na lixeira, salvo um. 72 textos, 2 anos de trabalho, 2000 pessoas, na lixeira! Um único texto permanece: aquele sobre a liturgia. E todos os demais serão elaborados não pelas autoridades estabelecidas, mas pelas conferências episcopais, pelos pequenos grupos, por aqui, por acolá. E certamente depois vão oferecer isso por trás daquelas que se apresentam agora como as comissões oficiais.


Perdeu-se depois do concílio, e por causa de toda essa atmosfera, na ordem de 100.000 padres e de 200.000 a 300.000 irmãs. Isso provocou mais danos que todas as perseguições juntas! Isso é absurdo, absurdo! Danos tais que o próprio papa Paulo VI vai dizer “é um desastre“. Ele vai até dizer “isso é uma força estranha, é o diabo“. Ele vai dizê-lo, mas foi ele quem gerou tudo isso! Vejam, toca-se aí com o dedo em algo muito misterioso. Esses papas produzem a desgraça e em seguida se lamentam sobre essa desgraça. Foi Paulo VI quem criou a missa nova. Logo em seguida ele se queixa. E este é o estado da Igreja há 50 anos.

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*Conferência realizada por Dom Fellay em Fabrègues, no dia 11 de maio passado, sobre a situação da Igreja e da Fraternidade. A tradução é do blogue Dominus Est (Católicos de Ribeirão Preto).

domingo, 15 de junho de 2014

Santo Afonso Maria de Ligório - O Pecador Abandonado por Deus



DESTAQUE

Pergunta o profeta Jeremias: Quare via impiorum prosperatur? (5) — “Porque é próspero o caminho dos ímpios?” E responde: Congregas eos quasi gregem ad victimam — “Ajunta-os como rebanho para o matadouro”. Não há maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados. Fora melhor para o desgraçado que o Senhor o tivesse feito morrer em seguida ao primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos.


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Santo Afonso Maria de Ligório - O Pecador Abandonado por Deus






Curavimus Babylonem, et non est sanata; derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou; deixemo-la” (Jer. 51, 9).

Sumário. Não há maior castigo do que Deus fingir que não vê a iniquidade. Permite que os pecadores prosperem e amontoem pecados sobre pecados. É sinal de que Deus os reserva para entrega-los à sua justiça na vida eterna, onde terão tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos. Desgraçados dos pecadores que prosperam nesta vida. Tal misericórdia é mais terrível do qualquer castigo.


I. Deus espera o pecador, a fim de que se corrija. Quando vê, porém, que o tempo que lhe é dado para chorar os pecados, só serve para multiplica-los, esse mesmo tempo será chamado a depor contra ele (1): isso é, o tempo concedido e as misericórdias recebidas servirão para fazer castigar o pecador com mais rigor e para entrega-lo mais cedo ao abandono. Curavimus Babyloniam, et non est sanata; derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou; deixemo-la”. — E como é que Deus o abandona? Ou lhe envia a morte e o faz morrer no pecado, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente, com que o pecador se poderia salvar, mas não se salvará. O espírito obcecado, o coração endurecido, o mau hábito contraído, tornar-lhe-ão a salvação moralmente impossível, e assim ficará, senão absolutamente, ao menos moralmente abandonado.

Auferam sepem eius, et erit in direptionem (2) — “Arrancar-lhe-ei a sebe e ficará exposta a ser roubada”. Que castigo! Quando o dono de uma vinha arranca a sebe e deixa entrar nela todos os homens e animais, que significa isto? Significa que a abandona. Pois, é o que faz Deus quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor de Deus, dos remorsos da consciência e deixa-a nas trevas. Então entram na alma todos os monstros dos vícios. E o pecador, entregue a esta escuridão, desprezará tudo, graça de Deus, paraíso, exortações, censuras, e até escarnecerá da sua própria condenação. Impius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnet (3) — “O ímpio, depois de haver chegado ao profundo dos pecados, desprezará tudo”.

Numa palavra, Deus deixá-lo-á nesta vida sem castigo; mas esta condescendência será para ele o maior dos castigos: Misereamur impio, et non discet iustitiam (4) — “Compadeçamo-nos do ímpio, e ele não aprenderá a justiça”.

Ah! Senhor (assim Vos direi com São Bernardo), não quero semelhante misericórdia, porque é mais terrível do que qualquer castigo.

II. Desgraçados dos pecadores que prosperam nesta vida! É sinal de que Deus os reserva para entrega-los como vítimas à sua justiça na vida eterna.
Pergunta o profeta Jeremias: Quare via impiorum prosperatur? (5) — “Porque é próspero o caminho dos ímpios?” E responde: Congregas eos quasi gregem ad victimam — “Ajunta-os como rebanho para o matadouro”. Não há maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados. Fora melhor para o desgraçado que o Senhor o tivesse feito morrer em seguida ao primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos.

Meu Deus, no miserável estado em que me acho, reconheço que mereci ser privado da vossa graça e da vossa luz; mas vendo as luzes que agora me concedeis e ouvindo que me chamais à penitência, estou certo que não me abandonastes ainda. Já que não me haveis abandonado, Senhor, multiplicai as vossas misericórdias sobre a minha alma, aumentai a luz e aumentai em mim o desejo de Vos servir e amar. Transformai-me, ó Deus onipotente, e de traidor e rebelde, como tenho sido, fazei de mim um verdadeiro amante da vossa bondade, a fim de que chegue um dia ao céu a louvar eternamente as vossas misericórdias. Vós quereis perdoar-me e eu nada mais desejo senão o perdão e o vosso amor.

Arrependo-me, ó Bondade infinita, de Vos ter causado tantos desgostos. Amo-Vos, soberano Bem, porque mo ordenais; amo-Vos, porque sois digno de todo o amor. Suplico-Vos, meu Redentor, pelos méritos do vosso Sangue, que Vos façais amar por um pecador, que tanto tendes amado e que tantos anos sofrestes com paciência. Tudo espero da vossa misericórdia. Espero amar-vos sempre no futuro, até à morte e por toda a eternidade: Misericordias Domini in aeternum cantabo (6). Eternamente louvarei a vossa bondade, ó Jesus meu. Eternamente louvarei também a vossa misericórdia, ó Maria, que tantas graças me haveis alcançado; reconheço que as devo todas à vossa intercessão. Continuai a assistir-me, ó Senhora minha, e obtende-me a santa perseverança. (II 78.)

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1. Thren. 1, 15.
2. Is. 5, 5.
3. Prov. 18, 3.
4. Is. 26, 10.
5. Ier. 12, 1.
6. Ps. 88, 2.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder& Cia, 1921, p. 216-218.)

sábado, 14 de junho de 2014

A Rússia e o sionismo - notas


A análise dos conteúdos abaixo dá motivos para suspeitar de que a disposição de Putin face aos setores contra-hegemônicos da reação anti-liberal e anti-igualitária é a mesma do peão que tange a boiada para dentro do curral onde ela será embarcada para o abatedouro

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A Rússia e o sionismo - notas




Com certa frequência a reação ao sionismo acaba por desavisadamente tornar-se a oposição controlada ao sionismo. É o que possivelmente ocorrerá com todos os setores do mundo ocidental que estão depositando demasiada confiança na Rússia de Putin, colocando-se no perigo de uma dependência de meios em relação ao Kremlin que pode neutralizá-los tão logo os agentes eurasianos da Sinagoga decidam privá-los desses meios. A análise dos conteúdos abaixo dá motivos para suspeitar de que a disposição de Putin face aos setores contra-hegemônicos da reação anti-liberal e anti-igualitária é a mesma do peão que tange a boiada para dentro do curral onde ela será embarcada para o abatedouro:

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Há quem considere Putin um novo Hitler, ou melhor, como uma reedição daquilo pelo que costuma-se tomar como tendo sido Hitler: um rábido anti-semita, inimigo mortal do sionismo.

Bem, se Putin é a repaginação de Hitler, não é do personagem fabricado pela Sinagoga para consumo ad extra, mas do Führer benquisto pela Sinagoga: afável às demandas sionistas, obediente ao papel a ele designado na guerra propagandística pela ereção do Estado de Israel na Terra Santa, apoiado dentro e fora* da caserna pelo elemento hebreu.


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Por outro lado, há quem acuse Putin de ser um novo Stalin. Tal associação entre os dois governantes russos padece do mesmo vício, o da presunção de que Stalin é o alegado modelo de anti-semitismo supostamente reeditado por Putin. Como no caso da analogia entre Hitler e Putin, a correlação entre Stalin e Putin é verdadeira por razões opostas àquelas sustentadas pelos criptoliberais pró-sionistas da direita cristã, já que as disposições stalinistas face à Sinagoga foram muito mais benevolentes do que se supõe:

"Na União Soviética o anti-semitismo é punido com a máxima severidade da lei como um fenômeno profundamente hostil ao regime soviético. Sob a lei soviética, anti-semitas ativos são passíveis de pena de morte" - 
JV Stalin Works, Vol. 13, 1954

Às palavras resolutas em favor da Sinagoga, Stalin casou suas obras: em território soviético, criou a região autônoma judaica de Birobidzhan, apelidada de Sião Soviética, na qual uma das línguas oficiais era o iídiche; e no exterior, 
forneceu armas ao Estado de Israel na luta deste contra os exércitos árabes da região na década de 40.

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O zelo ancilar com que a direita anglóide da olavosfera cuida dos interesses da Sinagoga excede até mesmo o zelo da própria Sinagoga na tarefa: chegam ao ponto de defendê-la de quem ela não quer defendida, acusando Putin de trabalhar por um novo massacre judeu, ao passo que a filial européia da Bnei Knésset tece 
loas ao líder do Kremlin. Do exposto, depreende-se que na periferia da olavosfera reina a síndrome do corno manso ideológico.

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Comunhão Tradicionalista Carlista, tendo ampla experiência na resistência católica a potências invasoras e às ideologias subversivas (de direita e de esquerda) da quinta-coluna a soldo dessas potências, já deu seu veredicto sobre a Rússia de Putin, do qual convém destacar:
"[...]Sin embargo no debemos caer en un engaño que se repite, hoy como ayer, a expensas de los católicos. Ya en el siglo XIX el liberalismo, que perseguía por todas partes a la Iglesia Católica, fingía apoyar a los católicos cuando éstos eran oprimidos por regímenes no liberales (así por ejemplo, en el conflicto entre Bélgica y los Países Bajos, o entre Polonia y Rusia). Aun sin entregarse a naciones gobernadas por herejes o cismáticos, los católicos deberían haberse abstenido de sostener la causa de la Revolución liberal.

Mutatis mutandis, los católicos, sin tomar partido por el paneslavismo «ortodoxo» (pero sin olvidar algunas iniciativas muy apreciables de Vladimir Putin, tanto en política interior como en política exterior), no pueden apoyar revoluciones impulsadas por los Estados Unidos y por Israel, y por las finanzas internacionales en el nombre, siempre mal utilizado, de la libertad.[...]"


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* Proeminente líder judeu admite que sua gente andou a financiar Hitler"Revolting as it is, it would be an interesting study in psychology to analyze the motives, other than fear and cowardice, that have prompted Jewish bankers to lend money to Germany as they are now doing.  It is in part their money that is being used by the Hitler regime in its reckless, wicked campaign of propaganda to make the world anti-Semitic; with that money they have invaded Great Britain, the United States and other countries where they have established newspapers, subsidized agents and otherwise are spending untold millions in spreading their infamous creed."



sexta-feira, 13 de junho de 2014

O tapeceiro do passado

DESTAQUE

Esses grandes intelectuais dotaram a pesquisa histórica de um novo suporte lógico. Em vez de se debruçarem apenas sobre as batalhas, as coroações ou as tragédias, dedicaram igual interesse à vida cotidiana, ao que chamavam de non-événementiel (não factual): a metamorfose das mentalidades, a transformação dos hábitos, as lentas evoluções da maneira de amar, de alimentar-se, de morrer; as descobertas das paisagens, os jogos da paixão, as relações dos homens com o próprio corpo, as festas, as flexões das palavras e da linguagem.

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O tapeceiro do passado

Na História de Jacques Le Goff, os contornos dos tempos perdidos ganham sutileza, cor, verdade


Gilles Lapouge - O Estado de S. Paulo


Jacques Le Goff morreu em Paris aos 90 anos. Era o maior historiador francês e um dos últimos representantes da escola dos Annales, que desde os anos 1930 vem subvertendo na França e no mundo a leitura do passado dos homens. A primeira geração dos Annales foi a de Marc Bloch e Lucien Febvre; foi seguida por aquela do grande Fernand Braudel, que em1936 lecionou na recém-fundada Universidade de São Paulo; depois da guerra, sucedeu-lhe a terceira geração, com Georges Duby, Leroy-Ladurie e, principalmente, Jacques Le Goff.
Jacques Le Goff -- Viajante. Ele via a Idade Média feita de sombras, mas também de luz sublime

Esses grandes intelectuais dotaram a pesquisa histórica de um novo suporte lógico. Em vez de se debruçarem apenas sobre as batalhas, as coroações ou as tragédias, dedicaram igual interesse à vida cotidiana, ao que chamavam de non-événementiel (não factual): a metamorfose das mentalidades, a transformação dos hábitos, as lentas evoluções da maneira de amar, de alimentar-se, de morrer; as descobertas das paisagens, os jogos da paixão, as relações dos homens com o próprio corpo, as festas, as flexões das palavras e da linguagem.
Eles urdiram uma nova tapeçaria do passado. As imagens dos tempos perdidos ganharam em sutileza, verdade e cor. Além dos períodos convulsionados da história tradicional, estudaram os períodos pesados, lentos, quase viscosos que moldam o caráter das sociedades de maneira bem mais profunda que as guerras e o cerimonial da política.
Nessa ressurreição do passado, Jacques Le Goff ocupa uma posição eminente. Não apenas presta atenção a cores jamais percebidas como faz surgir do abismo da morte, do fundo do tempo, todo um continente, uma Idade Média desconhecida que a nossos olhos maravilhados se revela como os emergentes destroços de um navio magnífico, carcomido por moluscos e ferrugem e ainda resplandecente dos matizes das profundezas.
Ele busca e apreende essa Idade Média na consciência dos homens. Estuda seus sonhos e terrores, palavras e quimeras, corpos e alimentação. Ouve o gargalhar das bruxas, o sussurrar das monjas em oração no branco manto das igrejas e mosteiros que na Idade Média cobriam a cristandade.
A história de Le Goff nos seduz de outras maneiras. Seus escritos revelam o prazer, a fruição que ele experimenta ao devorar velhos manuscritos, antigos vestígios semiapagados, sacudindo a poeira que cobria, até sufocá-las, antigas representações que tínhamos daqueles tempos. "O pó se levanta ao poderoso vento do mar aberto", diz ele.
Em suas retortas de alquimista, Le Goff descobre paisagens jamais suspeitadas. A Idade Média não é mais a "noite negra" que separava, na história tradicional, o fim do Império Romano da Renascença. Uma nova Idade Média se descortina, feita de sombras, evidentemente, mas também de uma luz sublime. Essa Idade Média inédita é a verdadeira matriz de nossa modernidade.
"É na Idade Média’, afirma Le Goff, "que se constitui o elemento fundamental de nosso cristianismo. É nela que vemos a formação do Estado e da ideia de soberania. E também o surgimento da língua francesa, o desenvolvimento urbano e a fundação da cidade moderna. É sempre na Idade Média que vemos crescer as universidades, fenômeno novo e europeu. Porque a Europa também nasce na Idade Média".
Quais de seus livros podemos citar? O mais célebre é A Invenção do Purgatório, que se situa no século 12. Le Goff não só acompanha as etapas do surgimento como explica o motivo pelo qual, nessa época, os homens repudiam a terrível divisão entre bem-aventurados e amaldiçoados, inferno e paraíso, e acham mais compassivo acrescentar a um maniqueísmo atroz os estágios intermediários do purgatório para se ter em conta a infinita variedade do Mal e do Bem. [SIC! SIC! SIC!]
Jacques Le Goff tinha outra virtude. Homem da palavra, apresentava sua bela Idade Média no rádio. Seus programas fascinaram a França. Ele "representava" a história no rádio como a representava em seus cursos. Quando trabalhava numa grande biografia do rei São Luís, fascinou seus alunos descrevendo como o corpo (sagrado) do rei, que morreu de peste durante a oitava Cruzada, foi fervido pelos companheiros para que seus ossos pudessem ser levados de volta à França.
Era um apreciador dos bons vinhos e da boa cozinha, um brilhante interlocutor. Compartilhar um jantar com esse grande amante da vida era uma festa. Lembro-me de um deles. Ao ser servido um queijo de cabra na sobremesa, Le Goff começou a comparar a crosta do queijo, de cor cinzenta, bronze, azulada e ferrugem, recoberta de pequenas borbulhas, ao grão da pintura dos quadros de Giotto e Fra Angelico. Dali, divagou como num sonho e nos transportamos, como por um passe de mágica, da crosta do queijo de cabra para a cidadezinha de San Gimignano, depois para Florença e a dinastia dos Médicis, terminando com não sei que papa dos albores da Renascença. Tudo isso, todo esse teatro, estava como que escondido no humilde queijo de cabra. Le Goff terminou a representação dando uma dentada decisiva no queijo que, de repente, tornara-se algo sublime aos nossos olhos.

É emocionante e eloquente ver, neste momento em que o grande explorador e viajante do tempo já não está entre nós, o jornal Le Monde pedir ao grande escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, seu testemunho sobre esse que foi seu amigo. Como se o historiador rigoroso que foi Le Goff só pudesse ser celebrado por um dos maiores romancistas europeus. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


Fonte: ESP

Uma nova ordem mundial



DESTAQUE


Hedonismo e culto do momento presente – consequência da Revolução (Cultural) de Maio de 1968, Sorbonne:

‘Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, jovens de cabelos longos, libertários, para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu futuro globalizado não teria sido possível. Eis uma verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou MP3. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial, achariam provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras. Talvez pensassem que estas bugigangas que transbordam das vitrines nos distanciam dos verdadeiros valores. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas para que pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.

‘Estamos numa época de espiritualidade sem fé...

Não estamos mais dispostos a nos sacrificar em nome de grandes ideias alheias, de utopias...

Quem desejaria hoje, ao menos nos países de cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou revolução? Não muita gente. É uma grande notícia. [SIC!]...’



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Uma nova ordem mundial
Notícia de: 9/6/2012

O francês Luc Ferry fala, em entrevista ao ‘Estado’, sobre a revolução provocada com o estabelecimento de uma espiritualidade laica - a filosofia do amor, que domina seu pensamento


ANDREI NETTO - CORRESPONDENTE/PARIS


O filósofo francês Luc Ferry

Em 1979, quando o filósofo francês Jean-François Lyotard lançou A Condição Pós-Moderna, ensaio que abordava o declínio da ideia de emancipação e de outras metanarrativas nascidas com o Iluminismo, a crítica acadêmica internacional se fissurou. De um lado, seguiram os fiéis ao projeto moderno, calcado na construção de um futuro melhor e na ideia de um “dever ser”; de outro, os que abandonaram as ideologias, e adotaram a convicção de que o hedonismo e o presente são a melhor resposta às obsessões totalitárias.

Há 40 anos, essa segunda “tendência” acadêmica era marginalizada. Hoje, o curso da história lhes dá razão. E, em lugar de controvérsia, autores que advertem para os efeitos da ruptura das metanarrativas e dos valores tradicionais são premiados com o sucesso. Esse é o caso do filósofo francês Luc Ferry, autor de pelo menos dois best-sellers acadêmicos, Pensamento 68 – Ensaio Sobre o Antihumanismo Contemporâneo (1985) eA Nova Ordem Ecológica (1992), que lança no Brasil o ensaio A Revolução do Amor – Por uma Espiritualidade Laica (Objetiva) e O Anticonformista – Uma Autobiografia Intelectual (Difel).

Publicado em 2010 na França, A Revolução... teve acolhida calorosa de crítica e público. Esse sucesso talvez se explique pelo fato de que Ferry mergulha em um universo com o qual nos identificamos. Mesmo que se valha de autores como Rousseau, Kant, Nietzsche, Sartre, Husserl e Heidegger para construir sua argumentação, o livro é simples e não é difícil concordar com sua ideia básica: vivemos uma era de ruptura, e
não estamos mais dispostos a nos sacrificar em nome de grandes ideias alheias, de utopias, mas sim em nome de nossos pais, filhos ou amigos. Um humanismo secular; uma espiritualidade sem fé. “Existem dois tipos diferentes de espiritualidade. Um age por meio de Deus e é, certamente, o conjunto das religiões; o outro, sem Deus, é o grupo das grandes filosofias”, explica ele no livro. 


Anticonformista, que Ferry lançou em seu país no ano passado, resulta de uma série de conversas com Alexandra Laignel-Lavastine, doutora em filosofia e especialista na história da intelectualidade. Dos anos de formação aos embates entre direita e esquerda, passando por sua experiência como ministro da Educação da França (2002-2004), a obra sublinha que a espiritualidade laica “constitui a pedra angular que hoje subentende toda a minha filosofia”. Não por acaso, A Revolução do Amor conduz a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo pensador ao Sabático.

Sua tese é de que o amor, ou melhor, o casamento por amor, e não mais por interesses, está no centro da nova ordem social. Ela gera uma segunda globalização, que sucede à do Iluminismo. A Revolução..., embora otimista, não é uma obra ingênua. É forte, não só pela temática e análise da desconstrução dos valores tradicionais, mas também por uma constatação: a de que as revoluções em curso, pelo menos no Ocidente, prosseguem – e sem armas.

Sobre A Revolução do Amor, comecemos por sua ideia de base: algo de revolucionário teria acontecido há alguns séculos: a invenção do casamento por amor na Europa. Qual é a amplitude desta revolução?

É imensa! A “revolução do amor” é o nascimento da família moderna, ou seja, a passagem do casamento arranjado ao escolhido. Esta revolução exige uma nova filosofia. Mas também chacoalha nossa relação com a coletividade. É o que chamo de “segundo humanismo”. O primeiro foi o da lei e da razão. Era o do Iluminismo e dos direitos humanos, dos republicanos franceses e de Kant. O segundo humanismo é da fraternidade. Existe desde então uma única visão do mundo movida por este sopro de uma utopia possível. Porque o ideal que ela visa a realizar não é o das ideias revolucionárias. Não se trata mais de organizar os grandes massacres em nome de princípios mortíferos, mas de preparar o futuro para os que nós amamos, as gerações futuras.

Essa revolução produziu efeitos sobre a arte e a moral, mas há efeitos ainda em progresso, como a evolução da condição da mulher e dos homossexuais, por exemplo. Quais são os indícios desta revolução hoje?

Esta revolução do casamento de amor, escolhido e não imposto, começa na Europa e se estende a todo o mundo cultural ocidental. Isso quer dizer que no resto do mundo o casamento imposto continua a ser a regra. No Ocidente, temos vivido desde o século 20 a desconstrução dos valores tradicionais. Ela teve efeitos negativos, mas também formidavelmente positivos, em especial para os homossexuais e as mulheres. Observe que um país como a Suíça, o último cantão a conceder o direito de voto às mulheres o fez, pense bem, em 29 de abril de 1991! Isso quer dizer que, até então, as mulheres ainda eram vistas como crianças. Na França, foi um pouco mais cedo, mas, enfim, foi preciso esperar o fim da 2.ª Guerra para que as mulheres tivessem direito de voto. Quanto aos homossexuais, lembre-se o que a Organização Mundial da Saúde definia a homossexualidade como doença até 1990! Sim, nosso mundo ocidental mudou mais nos 50 anos da segunda metade do século 20 do que nos 500 anos anteriores!

Tratemos agora da destruição dos valores tradicionais. No seu entender, parte desse processo vem do fato de que as ideias não merecem mais sacrifício, só o humano. É isso o retorno da “sacralização”, do reencantamento do mundo?

Como a “consciência infeliz” da qual falava Hegel, nós temos sempre a tendência de nos dar conta na história do que se destrói e morre, quase nunca do que toma forma e vida. Logo, temos uma propensão ao pessimismo. Ao contrário do otimismo, sempre um pouco simplório, ele confere à primeira vista uma presunção de inteligência. Às vésperas do século 21, é verdade, a maior parte dos valores tradicionais, em especial a nação de direito e a revolução de esquerda, desmoronaram, ao menos na Europa. Logo, devemos constatar, pelo menos na Europa, que os motivos tradicionais do sacrifício coletivo foram liquidados. Quem desejaria hoje, ao menos nos países de cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou revolução? Não muita gente. É uma grande notícia. Quanto à estupidez mortífera do maoismo, com dezenas de milhões de mortos, quem, fora alguns intelectuais corroídos pelo desejo de se pretender interessantes, poderia não se felicitar da sua liquidação?

Isso não quer dizer que vivemos a era do desencantamento do mundo? Há mesmo lugar ainda, hoje, para alguma espiritualidade?

Não creio que vivamos uma era do desencantamento do mundo. Aí está até mesmo a ilusão arquetipal desta consciência infeliz que adora tanto não adorar. O que nós vivemos não é de forma alguma a liquidação do sagrado, o eclipse dos valores (da espiritualidade), mas sua encarnação em nova face, a da humanidade. Questione-se honestamente: por quem ou pelo que você estaria pronto a arriscar sua vida? Em outros termos, o que considera sagrado no sentido próprio, como digno de sacrifício? A resposta para a imensa maior parte seria: é o homem que é sagrado, o próximo, mas também o seu contrário, o seguinte. Em todo caso, não são as abstrações vazias da religião e da política tradicionais. Vivemos o nascimento de uma nova face do humanismo, que não é mais aquele de Voltaire e Kant, dos direitos do homem e da razão, desses iluminismos que portaram, é verdade, um vasto projeto de emancipação, mas que conduziram também ao imperialismo. Trata-se, ao contrário, de um humanismo pós-colonial e pós-metafísico, da transcendência do outro e do amor. Precisaremos, então, dessas novas categorias filosóficas (uma espiritualidade sem Deus) para refletir sobre suas armadilhas e perspectivas.

O senhor diz que a globalização tem um papel na desconstrução dos valores. Estamos na era do consumo de massa e da economia global, o que causa um impacto social e altera nossa maneira de ver o mundo, certo? 

Sim. O verdadeiro motor da desconstrução dos valores tradicionais foi o capitalismo moderno. Marx já dizia que o capitalismo era a revolução permanente. Por quê? Porque a competição leva à lógica da inovação permanente. Uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Mas há mais do que isso. Os que desconstruíram os valores tradicionais no século 20 eram com frequência de esquerda. A verdade do século é que esta grande desconstrução serviu aos interesses do capitalismo.

Fale mais sobre isso.

Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, jovens de cabelos longos, libertários, para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu futuro globalizado não teria sido possível. Eis uma verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou MP3. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial, achariam provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras. Talvez pensassem que estas bugigangas que transbordam das vitrines nos distanciam dos verdadeiros valores. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas para que pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.

Sua ideia de reencantamento é um paradoxo à de Max Weber, que falava no início do século 20 do desencantamento do mundo. Minha questão é: o reencantamento é só positivo, ou também tem sua “parte do diabo”?


Tem razão, há uma parte do diabo. Quando falo da revolução do casamento escolhido, não quero dizer que entramos no mundo ideal. Antes de mais nada, porque o reverso da medalha do amor, é o ódio. Não há rosas sem espinhos, nem amor sem ódio. Além disso, o amor dos seus, dos próximos, pode levar a um egoísmo louco. O amor que dá sentido a nossas vidas não é mais o amor pela nação, revolução. A questão que as gerações futuras vão definir, como os ecologistas já compreenderam, é: que mundo vamos deixar a nossos filhos? Essa nova questão política não diz respeito só à ecologia, mas à dívida pública, ao futuro da proteção social na época da globalização ou à regulação financeira.

Quando falamos em um mundo no qual o casamento de amor está no centro de uma revolução, como devemos ver as civilizações em que ele ainda é determinado por interesses?

Sem defender o eurocentrismo, é preciso reconhecer que nosso velho continente inventou algo único: a cultura da autonomia dos indivíduos, de sair dessa “menoridade” infantil – como dizia Kant sobre o Iluminismo – mantida por todas as civilizações religiosas, teocracias e regimes autoritários. Este movimento caminha em direção à autonomia, como aconteceu primeiro com a arte, desde o século 17, quando deixou de ser exclusivamente religiosa, depois se infiltrou em toda a civilização europeia, da filosofia, racionalista, à política, laica e democrática, passando pela ciência, hostil aos dogmatismos clericais, e pela vida privada, quando o casamento decidido pelo amor substitui o casamento racional imposto pelos pais. Este é o gênio da Europa que acabaria por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos, por se desfazer dos totalitarismos. Nada, nesta valorização da civilização europeia, implica menor racismo, menor tendência neocolonial. Outras civilizações são igualmente grandiosas, mas a europeia inventou a autonomia política, como a democracia, assim como a autonomia privada, como o casamento por amor e a família escolhida.

O senhor diz que o sagrado reencarna na cultura ocidental. Mas e as revoluções no mundo árabe, marcadas por princípios modernos, como a liberdade e a democracia? Devemos esperar uma nova onda de revoluções? A dinâmica do Ocidente é válida para todo o mundo?

Sim. As revoluções árabes, embora corram o risco de serem apropriadas pelo islamismo radical, são apesar de tudo uma novidade magnífica. Observe como o mundo evoluiu nos últimos 50 anos. Quando eu era criança, a Europa estava tomada por ditaduras. Franco ainda era vivo e a Grécia sofria o regime fascista dos coronéis! A Rússia e os países do leste viviam na pior tirania, e a América Latina estava povoada de ditaduras. Tudo mudou para melhor. O paradoxo é: vamos viver um declínio econômico e social na Europa, mas ao mesmo tempo uma vitória dos valores da democracia europeia. Estou certo que um “segundo humanismo” vai se seguir ao primeiro.

Fonte: ESP
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